O PAÍS FICOU MAIS POBRE

As ruas perderam seu porta-voz

Ricardo Boechat, o colunista famoso que se transformou na maior estrela do radiojornalismo, morreu num acidente tão incomum quanto a vitoriosa trajetória


Nascido em Buenos Aires, Ricardo Eugênio Boechat ficava especialmente eufórico com a vitória sobre a Argentina de uma seleção brasileira de qualquer esporte. Crescido em Niterói, parecia ter assimilado no berçário o sotaque de quem fora carioca em dezenas de vidas passadas. “Ele começou a falar perfeitamente com 1 ano e pouco”, conta sua mãe, Mercedes Carrascal. (E nunca mais parou, alguém poderia ter acrescentado.) Mal saído da adolescência, o menino que “gostava de conversar com todo mundo” aprendeu a condensar as frases longas e bem articuladas em notas exemplarmente concisas, como impunha a sua equipe de repórteres o colunista Ibrahim Sued, professor pouco letrado mas muito exigente. Boechat ainda tinha cabelos encaracolados quando, ao lado de Zózimo Barrozo do Amaral, transformou colunas de amenidades em leitura obrigatória para interessados em assuntos sérios. Já chegara à idade em que apresentadores são aposentados ao estrear no comando do Jornal da Band. Perdera os cabelos ao ser contratado pela BandNews. E fora incorporado ao clube dos idosos oficiais quando se tornou o mais famoso radialista do país.

O estilo do âncora temporão mudou a história do radiojornalismo. Em alguns segundos, trocava a expressão feroz que sublinhara o comentário colérico pelo sorriso irônico que precedia a pérola de humor inteligente. Numa manhã, interrompeu a catilinária inspirada na roubalheira do petrolão, ligou para a mãe, perguntou-lhe se havia recebido propina de alguma empreiteira e, ao ouvir a negativa, retomou a ofensiva: “As mães de vocês também não ficaram com o dinheiro”, disse ao microfone. “Então, quem roubou?” Fornecia o número do próprio celular aos interessados e escutava ouvintes com evidente atenção. Essa interação heterodoxa levou a audiência à estratosfera, aproximou-o do homem da rua e fez do apresentador um porta-voz dos sem-voz. Essa trajetória tão singular, percorrida em apenas 66 anos, teria um desfecho igualmente incomum. Neste 11 de fevereiro, ao voltar de Campinas para São Paulo ao lado do piloto Ronaldo Quattrucci, o jornalista Ricardo Boechat morreu em consequência de uma colisão entre um helicóptero e uma carreta — o primeiro acidente do gênero ocorrido no Brasil. Justamente ele, que passou a vida dentro de táxis.

Nos anos 80, Boechat resolveu seguir o exemplo do banqueiro José Luiz de Magalhães Lins e do lobista Jorge Serpa, que só andavam em táxis arrendados por tempo indeterminado. Ambos evitavam circular com veículos de luxo para esconder que eram muito ricos. Boechat fez a mesma op­ção por ser muito pobre, e perdulário demais: vivia emprestando o que não tinha. Além de faltar-lhe dinheiro, amava livrar-se do volante para contemplar o mundo ao redor. Gostava tanto que a curiosidade e o jeito dis­traí­do resolveram juntar-se para dar-­lhe uma lição. Ao esbarrar num congestionamento em Botafogo, sempre empunhando o celular, braço estendido janela afora, perguntou a um pivete se acontecera algum assalto. “Não”, respondeu o interpelado. “Mas vai acontecer agora”, emendou enquanto agarrava o celular do passageiro curio­so e saía em desabalada carreira.

O incidente não o afastou dos taxistas, que compunham a mais numerosa fatia de ouvintes do campeão de audiência. Mobilizados pela trágica notícia, centenas deles improvisaram um abraço ao prédio da Band em São Paulo onde fica o estúdio que abrigava o amigo morto. E o caixão com o corpo de Boechat foi enfeitado com placas e adereços de táxis que emocionaram Mercedes. “O caixão de luxo não era um caixão de Ricardo”, resumiu. “Adorei o caixão com o táxi em cima porque isso era Ricardo.” Ela acha que o filho “ficaria assombrado com a quantidade de gente que demonstrou carinho por ele”. Avesso a vaidades, Boechat ficaria muito mais perplexo se soubesse que seria manchete de todos os grandes jornais e ocuparia nas emissoras de rádio e TV espaços reservados à morte de artistas célebres. Ele não perderia a chance de ironizar as trapaças do destino. Tampouco perderia a chance de alvejar os amigos com seu humor desconcertante, de que fui testemunha ou vítima durante 35 anos de convívio.

No fim de 2001, voltei ao Rio para dirigir o Jornal do Brasil junto com Boechat. Ele sabia que eu já havia morado três vezes por lá, conhecia a cidade muito bem. Mas avisou que eu desconhecia a vista mais bonita do Rio. No dia seguinte, levou-me de carro para Niterói, estacionou perto das areias de Icaraí e ordenou: “Veja como é o Rio visto daqui”. Foi a única vez que fui a uma praia para olhar outras. Pouco depois, Boechat passou-me o número de um celular que eu só deveria acionar se precisasse dele em situações de emergência. Precisei usá-lo já na tarde seguinte. Ninguém atendeu na primeira das catorze chamadas que faria ao longo da madrugada. Na quarta tentativa frustrada, acusei-o de irresponsável. Na quinta, o irresponsável virou “cafajeste”. Na sexta, botei a mãe no meio. Na sétima, fiz gravíssimas acusações a toda a família. O último recado deixaria ruborizado qualquer campeão de bate-boca em cortiço. Boechat só deu as caras na manhã seguinte. Perguntei-lhe se ouvira os recados, ele garantiu que não recebera nenhum. Pediu-me que mostrasse o número e camuflou a molecagem com a candura do olhar azul: “Você errou algum algarismo. Esse aí é o celular do Nelson Tanure”. Não poderia ter errado: o número fora anotado por ele. Tanure, dono do JB, nunca tocou no assunto. Boechat limitou-se a cumprimentar-me pela façanha: ele não conhecia mais ninguém que passou a madrugada insultando o patrão sem ser demitido. O Brasil perdeu um grande jornalista.*

(*) Blog do Augusto Nunes

PT ESTÁ CARENTE DE QUADROS

Restaram apenas postes ao PT

O candidato a vice-presidente da República, Fernando Haddad (esq) e a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, visitam o ex-presidente Lula na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR) – 03/09/2018 (Heuler Andrey/AFP)

Lula insiste em que a deputada Gleisi Hoffmann, ré na Lava Jato, prossiga na presidência do PT. Diz que ela é a cara do partido e tem sido peça fundamental para animar a militância.

Não é propriamente uma escolha; é o que restou da legenda, organizada no final da década dos 70 por um punhado de intelectuais da USP, PUC e Unicamp, em parceria com o clero esquerdista católico da Teologia da Libertação, em plena vigência do sonho socialista.

No poder, o sonho virou pesadelo, e aqueles intelectuais, pouco a pouco, foram saindo do partido – gente como Hélio Bicudo, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Hélio Pelegrino, Antônio Cândido, Mário Pedrosa, entre muitos outros.

Não queriam se envolver na lambança que, anos depois, a Lava Jato exporia ao país e ao mundo – e levaria Lula à cadeia.*

(*)Ruy Fabiano, no blog do Ricardo Noblat

TRANQUILIDADE NO OLIMPO

Corregedor do CNJ volta atrás e libera pagamento de penduricalhos a juízes

Atendendo pedido da Associação dos Magistrados Brasileiros, o ministro Humberto Martins, corregedor nacional de Justiça, suspendeu uma recomendação assinada por ele mesmo que havia orientado tribunais de todo o país a não pagar penduricalhos como auxílio-transporte e auxílio-alimentação.

Diz o Estadão:

“Na prática, a decisão do corregedor afasta empecilhos para o pagamento desses penduricalhos até o plenário do CNJ analisar definitivamente o caso e uniformizar procedimentos que devem ser adotados por tribunais de todo o País. Não há previsão de quando isso vai ocorrer”.

UM GRANDE MINISTRO

Celso de Mello e a função do Supremo


Celso é relator de uma das ações que pedem a criminalização da homofobia. A maioria dos países desenvolvidos tem leis para combater os crimes de ódio contra homossexuais. O novo governo pressiona o Judiciário e o Congresso para manter o Brasil fora do clube.

Na quarta-feira, o presidente disparou dois tuítes sobre o julgamento. Ele elogiou a sustentação do advogado-geral da União, que falou em “estabilidade” e “pacificação social” ao discursar contra as ações. Os ministros entenderam o recado: se a Corte contrariar o Planalto, voltará à mira das falanges governistas.

As posições de Jair Bolsonaro sobre o tema são conhecidas. “Sou homofóbico, sim, com muito orgulho”, informou, num vídeo gravado em 2013. Em outra entrevista, ele disse preferir que um filho “morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”.

Esse tipo de declaração já foi tido como um suicídio político. Hoje em dia, rende votos e curtidas nas redes sociais. A intolerância virou ativo para candidatos que surfaram a onda conservadora em 2018. Agora a turma também quer enquadrar o Supremo. Alguns ministros já indicaram que aceitaram a tutela.

Ontem o decano deixou claro que não está neste grupo. Ele transformou seu voto em libelo contra o avanço do obscurantismo. Lembrou que a Constituição protege os direitos das minorias, atacadas por porta-vozes de “doutrinas fundamentalistas”.
Celso disse saber que será “mantido no índex dos cultores da intolerância, cujas mentes sombrias que rejeitam o pensamento crítico”. Mesmo assim, defendeu que é preciso afirmar a “função contramajoritária” do Supremo — ou seja, sua independência em relação às patrulhas ideológicas e ao tribunal do Facebook.

O ministro se aposentará no fim de 2020, ao completar 75 anos. Fará falta à Corte e ao país.*

(*) BERNARDO MELLO FRANCO – O GLOBO

ONDE O MALACO IRÁ MOFAR?

Lula fica em Curitiba até Supremo decidir sobre execução de pena após 2º grau

Mudança de local para o cumprimento da sentença do petista volta a ser aventada após condenação no caso do sítio de Atibaia

Alvo de pressões políticas, a decisão sobre a transferência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da cela especial montada na sede da Polícia Federal em Curitiba só sai após decisão do Supremo Tribunal Federal, marcada para abril, sobre a execução da pena após condenação em segunda instância.

Apesar disso, autoridades envolvidas no caso já especulam sobre os possíveis destinos do ex-presidente. Uma das possibilidades é a federalização de uma área em um presídio estadual. Outra possibilidade é a remoção de Lula para uma sala de Estado-Maior em uma unidade militar, em São Paulo, próximo de seu domicílio, ou em Curitiba, no quartel do Exército, localizado no bairro Pinheirinho, área central da cidade.

A transferência de Lula voltou ao debate político nos últimos dias, após a segunda condenação do ex-presidente na Operação Lava Jato, no caso do sítio de Atibaia (SP). Políticos da bancada anti-PT e aliados do governo Jair Bolsonaro (PSL) cobraram a remoção do petista, após a juíza Gabriela Hardt decretar mais 12 anos e 10 meses de prisão à sua pena que era de 12 anos e 1 mês.

Nos dias que precederam a condenação circulou uma mensagem nos grupos de WhatsApp do PT dizendo que já havia uma cela reservada para o ex-presidente na Complexo Médico-Penal de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba.

Isso fez acender a luz de alerta no partido. Em Pinhais, Lula seria submetido a um regime de preso comum, conviveria com outros detentos e não teria direito a visitas privadas, algo que não está previsto nas hipóteses estudadas até aqui.

Vários fatores, além do julgamento no STF, influirão nessa decisão, segundo apurou o Estado. A confirmação ou não da nova sentença pela segunda instância da Lava Jato, a identificação de um local com condições de segurança e estrutura para o regime especial a que o petista tem direito e a vontade do próprio condenado devem ser consideradas.

Aliados de Lula se recusam a comentar a possibilidade de transferência. “A única hipótese que avaliamos é a de Lula sair de Curitiba e voltar para casa, livre”, disse o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

O ex-presidente já disse a mais de um visitante que não gostaria de sair da PF em Curitiba. Sua defesa se manifestou em 2018 sobre o assunto: ele não quer sair de sua cela especial na PF. Mas, se tiver de ser removido, que seja para uma sala de Estado-Maior em unidade das Forças Armadas em São Paulo, perto de sua residência.*

(*) Ricardo Galhardo e Ricardo Brandt – Estadão

E NO COVIL DOS BOLSONAROS

Bebianno

Independentemente de manter ou não Gustavo Bebianno à frente da Secretaria Geral da Presidência, o estrago político pela crise com o ministro é gigante. Com a demissão sendo decidida num processo que mistura humilhações públicas nas redes sociais, vazamento de conversas privativas do presidente com seus auxiliares, interferência de um dos filhos de Jair Bolsonaro e suspeita de retaliações posteriores é difícil apostar que o governo não sai enfraquecido.

Aos olhos dos investidores, otimistas com o processo de reformas e adoção de medidas econômicas liberais, cresce a desconfiança sobre a confiabilidade do governo. Em relação ao Congresso, a crise abre a porteira para que parlamentares pouco republicanos se assanhem para abusar do tradicional toma lá, dá cá na hora de discutir seu apoio à reforma da Previdência e outras matérias de interesse do Planalto.*

(*) M.M. – Coluna do Estadão

VINGANÇA É UM PRATO QUE SE SERVE FRIO

O mundo vai desabar

Gustavo Bebianno, em sua mensagem no Instagram, insinuou que Jair Bolsonaro foi desleal com ele.

E avisou:

“O desleal, coitado, viverá sempre esperando o mundo desabar na sua cabeça.”

 

A PROPÓSITO

O naufrágio da ‘saída honrosa’ para Bebianno

Como o relacionamento entre Jair Bolsonaro e Gustavo Bebianno tinha se deteriorado, aliados do presidente tentaram construir algum tipo de “saída honrosa” para o ministro ir para casa sem sair atirando contra governo e presidente. Mas a operação naufragou.

Segundo informa o repórter Igor Gadelha, da Crusoé, teriam sido oferecidas para Bebianno comandar uma diretoria de Itaipu (daquelas com salário parrudo) ou uma embaixada. O ministro teria recusado a oferta.

 

POSTE QUEIMADO

Lula negou presidência do PT a Haddad

A Época relata que Fernando Haddad, no fim de 2018, pediu abertamente a Lula para presidir o PT.

Lula negou e disse que queria Gleisi Hoffmann por ter perfil mais combativo.

“Na conversa, após ter o pedido da presidência recusado, Haddad perguntou se poderia presidir a Fundação Perseu Abramo. Lula também disse que não”.