E NA FAMÍLIA IMPERIAL…

Bolsonaro usa gasolina para apagar fogo de Maia

Submetido à crise provocada pelas caneladas virtuais de Carlos Bolsonaro em Rodrigo Maia, o presidente da República poderia fazer um telefonema para o presidente da Câmara. Poderia também mandar que seu ‘Pitbull’, como se refere ao filho, fizesse a ligação. Mas Jair Bolsonaro não quis fazer nem mandar fazer. Preferiu se fingir de desentendido.

“Queria saber o motivo pelo qual o Rodrigo Maia está saindo, estou aberto ao diálogo, qual o motivo?”, perguntou o presidente, desde o Chile. “Eu não dei motivo para ele sair.” Fazer um filho, como se sabe, é relativamente fácil. O comportamento de Bolsonaro revela que difícil mesmo é ser pai. Mais difícil ainda é ser presidente tendo que administrar um filho expansivo.

No último sábado, Rodrigo Maia convidou Jair Bolsonaro para um churrasco íntimo. Iriam à mesa, além do anfitrião e do inquilono do Planalto, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e do Supremo, Dias Toffoli. Bolsonaro levou a tiracolo 20 ministros. Horas depois, o capitão dedicou-se a malhar no Twitter a “velha política” e sua fome por cargos. Maia levou o pé atrás.

No último sábado, Rodrigo Maia convidou Jair Bolsonaro para um churrasco íntimo. Iriam à mesa, além do anfitrião e do inquilono do Planalto, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e do Supremo, Dias Toffoli. Bolsonaro levou a tiracolo 20 ministros. Horas depois, o capitão dedicou-se a malhar no Twitter a “velha política” e sua fome por cargos. Maia levou o pé atrás.

Nos dias seguintes, Carlos Bolsonaro pôs-se a alfinetar a articulação de Maia ao redor da proposta da Previdência. Na quinta-feira, Carlos tomou as dores de Sergio Moro na queda-de-braço que trava com o presidente da Câmara para colocar seu pacote anticrime e anticorrupção na pauta. “Por que o presidente da Câmara anda tão nervoso?”, fustigou o ‘Zero Dois’.

Rodrigo Maia retirou-se da articulação pró-reforma. Ao responder ao gesto com uma interrogação —”Qual o motivo?”—, Bolsonaro exagera na dissimulação e desrespeita a inteligência alheia. É como se tentasse apagar com gasolina o fogo que consome a paciência do presidente da Câmara. A tática faz sucesso nas redes. Mas não rende um mísero voto na Câmara.*

(*) Blog do Josias de Souza

GLEISE NÃO DECEPCIONA

Lula foi condenado, babaca!

É um primor de hipocrisia a nota assinada pela deputada Gleisi Hoffmann, presidente do PT, a propósito da prisão de Michel Temer. A hipocrisia escorre da primeira à última linha.Logo de saída, Gleisi revela seu verdadeiro objetivo: defender o amado líder, o ex-presidente Lula, encarcerado em Curitiba há mais de um ano. A nota diz:

“O Partido dos Trabalhadores espera que as prisões de Michel Temer e de Moreira Franco, entre outros, tenham sido decretadas com base em fatos consistentes, respeitando o processo legal, e não apenas por especulações e delações sem provas, como ocorreu no processo do ex-presidente Lula e em ações contra dirigentes do PT.”

Lula foi julgado, condenado duas vezes por um tribunal da segunda instância da justiça e só depois recolhido à prisão. Perdeu todos os recursos que impetrou para ser solto. Temer sequer foi julgado.

O parágrafo seguinte da nota de Gleisi é uma crítica dura a Temer que o primeiro parágrafo parecera defender.

“Temer assumiu a presidência em um golpe deplorável. Sua agenda no governo levou ao aumento da desigualdade e da miséria, no entanto, é somente dentro da lei que se poderá fazer a verdadeira Justiça e punir quem cometeu crimes contra a população.”

Se Gleisi desconfia que a lei foi desrespeitada com a prisão de Temer, por que não dá início a uma campanha pela libertação dele? Lula livre, Temer Livre!*

(*) Blog do Ricardo Noblat

O LAMBE BOTA

Só nos resta pedir perdão ao Barão

A vergonha que passamos nessa extemporânea viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos teria magoado profundamente o Barão.

José Maria da Silva Paranhos Júnior, Barão do Rio Branco, foi um dos mais notáveis homens públicos brasileiros. A ele devemos nosso mapa, nossas fronteiras. A ele devemos o instituto da diplomacia de grande mérito, com o Ministério das Relações Exteriores que comandou durante 10 anos sendo objeto da admiração de vários países do mundo.

Diplomata, político, advogado, geógrafo e historiador, homem tímido, Rio Branco foi uma das maiores figuras da nossa História. Um erudito que tinha paixão por servir à Pátria. Como testemunho do quanto foi amado pelos brasileiros e sobretudo pelos fluminenses, basta lembrar que Rio Branco faleceu durante o Carnaval de 1912 e que as festas foram canceladas em homenagem à passagem de seu cortejo fúnebre. Não conheço outra homenagem mais ex-corde do que essa.

Pois é a esse homem que venho aqui pedir perdão. A vergonha que passamos nessa extemporânea viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos teria magoado profundamente o Barão. A imprensa americana, mais antenada que a nossa, comentou com muita propriedade quem é nosso presidente: “o capitão foi uma escolha triste para o Brasil”. Para o The New York Times, por exemplo, Bolsonaro “é um político de direita com pontos de vista repulsivos”. Referia-se, certamente, ao momento em que Bolsonaro disse que preferia que seu filho morresse a que fosse homosexual…

Pois foi esse homem que, numa visita sem motivo aparente, foi recebido no Salão Oval da Casa Branca por um Trump extremamente envaidecido com toda a sabujice do brasileiro por ele.

Que não foi pouca. Além de garantir que Trump será reeleito no ano que vem, Bolsonaro ainda se jactou do apoio que dá a grande parte das decisões do líder americano, ou seja, declarando-se engajado com a política da Casa Branca. Que política é essa? O muro na fronteira com o México, possíveis ações contra a ditadura venezuelana? Ele disse qual seria o limite desse engajamento? Não, não disse Mas nós, ensinados pelo saudoso Barão, bem sabemos que engajamento é muito mais forte que alinhamento.

Bolsonaro levou em sua entourage o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, que disse que o Brasil ocupava um posto na liderança mundial. De onde ele tirou isso, se nem na liderança regional estamos? Basta ver que para uma primeira visita presidencial escolhemos Washington e não uma capital latino-americana. E tem mais: nossa aproximação foi com Trump e não com os EUA.

Ernesto Araújo ouviu bem o que conversaram os dois presidentes no Salão Oval? Claro que não. Ele não participou, quem participou foi o filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, policial federal de carreira e que hoje ocupa o cargo de deputado federal por São Paulo. Foi ele quem ouviu a piadinha machista e sem graça de Bolsonaro, foi ele quem assistiu a louvação que seu pai fez ao americano. Foi ele também quem testemunhou a decisão bolsonarista de eximir americanos, canadenses, australianos e japoneses de visto para entrar no Brasil E foi ele também que ouviu Bolsonaro se referir ao país do norte como nossos Estados Unidos.

Por essa o Barão, que tanto prezava o amor ao Brasil, certamente não esperava… Durante toda sua vida Juca Paranhos se preocupou com a imagem do país lá fora. Para que: para um pouco mais de um século após sua morte, vir um chanceler de araque e admitir que se dissesse, em plena embaixada do Brasil em Washington, que Bolsonaro ama a Coca-Cola, a Disney e os jeans…

Nessa mesma embaixada, o escritor Olavo de Carvalho foi saudado como grande intelectual brasileiro. Pois é. A isso chegamos. Dizem que ele almeja ser nosso embaixador nos EUA. Sabem de uma coisa? Vou me alinhar à sua torcida. Acho que este governo merece ser representado pelo Olavo e creio também que Trump merece a honra.

Perdão, Barão. Mil perdões. Mas assim é, se lhe parece…*

(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa é professora e tradutora, no blog do Ricardo Noblat

ESTICANDO A CORDA…

Álcool na fogueira

Prisão de Temer era questão de tempo, mas acirra os ânimos no STF e no Congresso


Não há surpresa na prisão do ex-presidente Michel Temer, alvo de dez inquéritos e agora sem foro privilegiado, mas há uma preocupação: foi também um lance na guerra do Ministério Público e da Justiça contra o Supremo e o Congresso? Álcool na fogueira?

Há décadas ouve-se falar das ligações pouco heterodoxas de Temer com o Porto de Santos, mas a prisão do ex-presidente não foi determinada por isso, nem por desvios de mais de R$ 10 milhões da Odebrecht para o MDB, nem mesmo pela conversa de Temer com Joesley Batista no Palácio do Jaburu.

A prisão foi determinada pelo juiz Marcelo Bretas, do Rio, e por uma quarta frente contra Temer: a roubalheira na Eletronuclear e nas obras de Angra 3. E veio no rastro da decisão do Supremo – por um voto de diferença – de jogar para a Justiça Eleitoral os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro conectados com caixa 2 de campanha. Segundo o MP, foi “o fim da Lava Jato”.

A dúvida no STF e entre políticos é se a prisão de Temer é um contra-ataque, uma demonstração de força da Lava Jato. E isso provoca uma aliança tácita e por baixo dos panos entre ministros “garantistas” e líderes importantes do Congresso, que acusam excesso de poder do MP e correspondente “demonização da política”.

No centro da guerra e da polêmica está uma pergunta bastante objetiva: há ou não justificativa para a prisão temporária (por tempo indeterminado), particularmente por se tratar de um ex-presidente da República?

Na versão de juristas e políticos que acusam procuradores e policiais federais de atropelarem leis e regras em nome do combate à corrupção, a prisão de Temer é injustificada, porque ele é réu primário, tem endereço certo, não ameaça a ordem pública. Logo, poderia ter sido simplesmente chamado a prestar esclarecimentos, sem prisão.

Na entrevista coletiva, porém, os procuradores classificaram Temer como “chefe da organização criminosa” e elencaram três motivos para a prisão temporária: 1) os desvios ocorrem há 40 anos e podem chegar R$ 1,8 bilhão; 2) é preciso “reparar os danos”, impedindo que o resultado da propina evapore; 3) a quadrilha estava destruindo todos os papéis dos escritórios e até coletando dados dos investigadores.

Esse embate sobre a legalidade da prisão pode incendiar de vez não apenas as relações entre Supremo e MP como incendiar de vez a irritação popular contra a mais alta Corte do País. Basta que a defesa de Temer apresente pedido de habeas corpus e um dos ministros mande soltar o ex-presidente. Já imaginou? A tentativa de Bretas e dos procuradores é tirar Gilmar Mendes e empurrar a relatoria do eventual HC para Luís Roberto Barroso ou Edson Fachin, ambos pró-Lava Jato.

No Congresso, o efeito é imprevisível, mas não é absurdo dizer que há uma confluência de fatores adversários à votação da reforma da Previdência. Assim como a delação de Joesley Batista abortou a aprovação no governo Temer, agora há a percepção de que o MP, ao prender o ex-presidente, atacou o MDB e cutucou o mundo político. E mais: a proposta dos militares e a queda brusca de Bolsonaro no Ibope, com apenas três meses.

O PT odeia Temer, mas sua prisão pode promover uma aliança entre parte da esquerda e parte da direita, contra o MP e atropelando a pauta do governo. Em vez de priorizar o pacote do ministro Sérgio Moro contra a corrupção e o crime organizado, o Congresso poderá ressuscitar justamente o oposto: a proposta contra o abuso de autoridade.

Por mais que haja um bilhão e 800 milhões de razões para a prisão de Michel Temer, que era só questão de tempo, “há muito mais mistério entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”.*

(*) Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

ATÉ TU, DAMARES?

Bolsonaro diz que não toma decisões sozinho: ‘Ouço qualquer ministro. Até a Damares’

Presidente defendeu o trabalho de Damares que, de acordo com ele, ‘podem achar que é uma ministra com importância não muito grande’; declaração tem recebido críticas nas redes


O presidente Jair Bolsonaro afirmou na transmissão ao vivo da última quinta, 21, que não toma decisões de governo sozinho e que sempre procura ouvir seus ministros de cada área. Ele destacou que ouve “até a Damares (Alves)” e defendeu o trabalho da titular da pasta de Mulher, Família e Direitos Humanos que, de acordo com ele, “podem achar que é uma ministra com importância não muito grande”.

A sequência de declarações tem sido alvo de críticas nas redes sociais. Usuários questionam o grau de importância que o presidente atribui a Damares, uma das duas únicas mulheres em seu Ministério. A outra é Tereza Cristina, da Agricultura.

“Qualquer decisão minha, eu ouço qualquer ministro da área. Não tomo sozinho, até porque eu posso errar. Tem que ter responsabilidade, é obvio. Até a Damares, por exemplo, que podem achar que é uma ministra com importância não muito grande, mas tem importância”, disse Bolsonaro, direto de Santiago, no Chile. A transmissão tem áudio com qualidade precária.

“A Damares é uma ministra que trata da questão da família, direitos humanos, eu converso muito com ela. Está fazendo um trabalho excepcional no seu ministério. Com o Wagner Rosário (Transparência), a mesma coisa. (Também) com o ministro da Infraestrutura, com o ministro da Defesa. Nosso trabalho é esse. Conversar e chegar à conclusão do que pode ser feito. Tudo que esse governo poderá fazer será feito.” *

(*) Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

O TEMPORA! O MORES!

A língua estrangulada

Um absurdo de siglas nos obriga a piruetas

mentais para saber qual é o quê


Sempre acreditei que um texto, para ser “bem escrito”, deveria ser conciso, claro e verdadeiro. O problema é quando a concisão compromete a clareza. As siglas, por exemplo. Nada mais conciso do que elas. Mas serão claras? Só se você souber previamente o que significam. Um absurdo de siglas circula hoje alegremente pela língua —nem sempre identificadas entre parênteses—, o que nos obriga a piruetas mentais para saber qual é o quê. Como é impossível saber todas, a sigla é a língua estrangulada.

Duvida? Tente decifrar algumas das seguintes:

PF, CEF, CEP, CPF, CBF, STF, ICMS, ISS, INSS, SMS, SSP, BNDES, GPS, CTPS, FGTS, R$, RSRSRS.
AABB, BB, BC, BBC, BMW, BR, BRT, VLT, IOF, IML, Ipea, Inpi, IPTU, IPVA, TRE, TRU, TRF, TSE, TCE, TCU, TSE, TST, SUS, Sesc, Sesi, Senac.

Fiesp, Fierj, Iuperj, Faperj, Fapesp, Procon, Conab, Contran, Cetran, Detran, Secom, Sudam, Sudene, Enem, Ibama, Funai, Finep, Anatel, Ancine, Anac, Aids, Inca, Incra, Anvisa, Fepasa, Dataprev.

CCJ, CNPq, CNPJ, SBPC, CNI, CVM, PDF, DDD, DDI, CD, DVD, PGR, PGU, CGU, ANPR.

TOC, MEC, PEC, CUT, COB, COI, PIB, PIS, Pasep, Opep, DOU, DOC, Darf, UPP, UPA, USP, DPU, MPU, MMA, MME, MinC.

PM, IBM, TPM, TCM, STJ, STM, MP, MPF, APP, PPP, APTO, ECT, INL, ESG, EBC, FAB, Samu, Cade, SPC, HTTP, WWW.

NBA, NBB, BBB, MPB, CCBB, CNBB, CBN, CNH, FNM, CPI, IPM, Bope, Ibope.

RG, IBGE, JB, BH, FGV, UFC, Uerj, UFRJ, GIG, CHG, SDU, IGU, FHC, HIV, PhD, LGBT.

CIA, FBI, Unesco, OAB, ABI, OEA, Otan, OCDE, OMC, OMS, ONG, ONU, BID, FAO, Fifa, Faap e Coaf.
DEM, MDB, PDT, PCB, PC do B, PCO, PEN, PHS, PMB, PMN, PP, PPL, PPS, PR, PRB, Pros, PRTB, PSB, PSC, PSD, PSDB, PSDC, PSL, PSOL, PSTU, PT, PT do B, PTC, PTS, PV, SD.

Etc.*

 
(*) Ruy Castro – Folha de São Paulo

NOVOS TEMPOS

Endereço fixo, 78 anos e à disposição da Justiça: Temer jamais achou que seria preso
Ex-presidente havia marcado encontro com publicitário amigo e repetiria rotina de despachos internos. Foi surpreendido pela movimentação atípica na porta da sua residência, em São Paulo

O ex-presidente Michel Temer se preparava para sair de sua casa, em São Paulo, na manhã desta quinta-feira (21), quando notou uma aglomeração agora incomum de jornalistas em sua porta. Ele havia marcado um encontro em seu escritório com o publicitário Elsinho Mouco, amigo e aliado há anos. Repetiria nesta manhã a rotina de despachos internos, que havia adotado desde que deixou o Palácio do Planalto, em 1º de janeiro.
Estranhando a movimentação, telefonou não para o advogado, mas para um assessor de sua confiança. O auxiliar já estava ciente dos rumores de que o emebista era alvo de um mandado de prisão. Não tinha detalhes. Havia sido acionado pouco antes por diferentes órgãos de imprensa.

Àquela altura, o assessor tentava falar com o advogado do ex-presidente, Eduardo Carnelós, quando foi surpreendido com uma ligação do próprio Temer.

“Estou saindo de casa, mas tem um monte de jornalistas aqui na porta. O que está acontecendo?”, indagou. Ao ser informado de que havia expectativa de sua prisão, tratou o assunto como “uma brutalidade”. A ligação foi interrompida e Temer não voltou mais ao telefone.

Desde que deixou o poder, o ex-presidente se cercou de cautelas para evitar ações mais incisivas da Justiça. Diante das notícias de que, sem foro, poderia reivindicar uma embaixada ou deixar o Brasil, ele evitou viagens para fora e manteve-se recluso, em casa, com a família.

Recentemente, voltou a ser procurado por políticos, que descreviam com certa surpresa a tranquilidade que ele externava. Despiu-se rapidamente do poder, diziam. Estava leve. A ex-ministros e aliados o ex-presidente afirmava não acreditar em um mandado de prisão. Estava no Brasil, tinha endereço certo, 78 anos, e sempre formalizou disposição em colaborar com a Justiça.

Espetacularização
Os mais próximos tinham suas dúvidas. Avaliavam que Temer era uma espécie de “troféu” a ser conquistado pela narrativa de combate à corrupção.

Seu braço direito, Moreira Franco, ex-governador do Rio e ex-ministro, evitava o assunto. Ele, que sempre foi um crítico do que chamava de ações espetaculosas da Lava Jato, foi preso ao desembarcar no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.
A interceptação da polícia ao carro de Moreira Franco foi filmada – assim como parte do trajeto feito por Temer sob escolta dos policiais – e agora percorre as redes sociais, jornais e TV. A forma como Temer e Moreira foram presos foi amplamente criticada por integrantes do Congresso – até da oposição. A exposição foi considerada indevida e excessiva.

Recentemente, Moreira Franco, diante do triunfo de Jair Bolsonaro e da ascensão de novos personagens à política, decretou o fim da Nova República. “A Nova República acabou. Temos agora uma ordem de outra natureza. E o MDB, pilar da última era, sofreu as consequências”, disse.

Poucos políticos representam, como Temer, a chamada velha política, deputado de muitos mandatos, ex-presidente da Câmara, mandatário longevo do MDB, teve um mandato conturbado na Presidência.

Além das críticas por parte da esquerda por ter dado sinal verde para o impeachment de Dilma Rousseff (PT), foi grampeado em conversa controversa com Joesley Batista. Pelo conteúdo, tornou-se alvo de denúncia de corrupção pela Procuradoria-Geral da República, foi salvo pelo Parlamento, não uma, mas duas vezes.

As suspeitas sobre Temer e seu grupo político são de diferentes ordens, e os processos, muitos. Especialistas dizem que seu mandado de prisão preventiva pode ser facilmente questionado, mas que dificilmente ele escaparia de uma condenação neste caso no mérito.

No início deste ano, Temer disse a um ex-auxiliar que estava tranquilo. Não esperava a prisão, mas uma longa batalha judicial. Como se vê, a ordem dos fatores alterou o resultado.”*

(*) Redação – Gazeta do Povo

UM VELHO VELHACO

“Procuradoria liga grupo de Temer a desvios de até R$ 1,8 bilhão

Para MP, tentativa de depositar R$ 20 milhões em 2018 indica que esquema de propina da organização liderada pelo ex-presidente estava ativo

“Estranho seria se Temer não tivesse sido preso”, disse o procurador Eduardo El-Hage a jornalistas, na tarde desta quinta-feira (21), na Superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Enquanto a equipe do Ministério Público Federal listava argumentos que, segundo eles, justificam as prisões preventivas, o ex-presidente Michel Temer (MDB) era levado para o prédio da PF, onde permanecerá detido.
A tese do MPF é simples, embora a execução dos supostos crimes tenha sido complexa: o órgão sustenta que Temer liderou uma organização criminosa que durante 40 anos recebeu vantagens indevidas por meio de contratos envolvendo órgãos públicos e empresas estatais.

Segundo os procuradores, foi prometido, pago ou desviado para a organização mais de R$ 1,8 bilhão. O caminho de boa parte deste dinheiro, no entanto, ainda não foi identificado pelos investigadores.

A operação deflagrada nesta quinta teve como foco um contrato firmado entre a Eletronuclear e as empresas Argeplan (do amigo de Temer, o coronel João Baptista Lima Filho), AF Consult e Engevix. A delação de José Antunes Sobrinho, executivo da Engevix, foi um ponto de partida para a investigação.

De acordo com o Ministério Público, as empresas contratadas não tinham qualificação para executar o projeto de engenharia da usina nuclear de Angra 3. Por isso, subcontratam a Engevix, em troca do pagamento de cerca de R$ 1 milhão em propina em benefício do ex-presidente.

Os procuradores afirmam que Othon Silva, ex-presidente da Eletronuclear, foi colocado no cargo por Temer, com o objetivo de gerar propina por meio da estatal.

Segundo as investigações, as vantagens indevidas foram pagas por meio de transferências da empresa Alumi Publicidades para a PDA Projeto e Direção Arquitetônica, controlada pelo coronel Lima. Para isso, foram simulados contratos de prestação de serviços.

Moreira Franco, à época ministro da Secretaria de Aviação Civil, teria ajudado a viabilizar o pagamento da propina, pensando em formatos para cobrir atividades ilícitas. A Alumi, que fez o repasse para a empresa do coronel Lima, estava envolvida em um projeto no aeroporto de Brasília.

Os investigadores dizem ter encontrado um dos destinos da propina oriunda do contrato de Angra 3: uma reforma na casa de Maristela Temer, filha do ex-presidente. Segundo o Ministério Público, além de administrar as obras, o coronel Lima empregou na reforma vantagens indevidas recebidas pelo grupo criminoso, em um ato de lavagem de dinheiro.
Foi identificado o uso do e-mail da Argeplan, empresa de Lima, na transmissão de recibos de pagamentos de materiais e serviços, além da atuação de funcionários da empresa na reforma. Relatório policial indica que contratados da obra disseram que receberam a maior parte do pagamento em dinheiro vivo, em valores que podem ultrapassar R$ 1,5 milhão.

O Ministério Público sustenta que as vantagens indevidas resultantes deste contrato representam apenas um braço da organização criminosa que atua há décadas sob o comando de Temer.

Esse grupo, segundo o órgão, continua em operação, recebendo, movimentando e ocultando valores ilícitos, inclusive no exterior. A organização teria acertado propinas que ainda não foram pagas, o que também teria motivado as prisões.

Para o MPF, uma tentativa de depósito de R$ 20 milhões em espécie na conta da Argeplan, em outubro de 2018, indica que o grupo ainda está ativo. O setor de compliance do banco rejeitou o dinheiro.

O procurador José Augusto Vagos afirmou a jornalistas que três razões justificam as prisões desta quinta – a garantia da ordem pública, a garantia da aplicação da lei penal e a conveniência da instrução criminal. Ele argumentou que os alvos da operação forjaram documentos e destruíram provas para dificultar as investigações. Segundo Vagos, tudo produzido na Argeplan era destruído em seguida.

Além disso, de acordo com o procurador, agentes da Polícia Federal estavam sendo monitorados pelos envolvidos. Segundo ele, foram apreendidos papéis com dados pessoais dos investigadores.

Vagos também sustenta que funcionários da Argeplan combinaram a mesma versão para justificar as atividades ilícitas. Ele ressaltou que o mesmo grupo criminoso já havia tentado obstruir a Justiça no esquema que envolveu a empresa J&F e que teve como símbolo a famosa frase de Temer: “Tem que manter isso, viu”. “Se foram capazes de fazer aquilo naquele momento, obviamente continuam capazes até hoje”, afirmou.

Por fim, o Ministério Público argumenta que as prisões também se justificam pela necessidade de descobrir onde estão os valores ocultados e ressarcir os cofres públicos. O órgão deve apresentar duas denúncias envolvendo o caso na próxima semana.”*

(*) Redação – Gazeta do Povo