DURA LEX SEDE LEX, NO CABELO SÓ GUMEX

Nove anos depois

Renan Calheiros virou réu, notícia que não surpreende ninguém, considerando tanto o rico histórico do soba alagoano em investigações

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Renan Calheiros virou réu, acusado do crime de peculato no Supremo Tribunal Federal (STF). É notícia que não surpreende ninguém, considerando tanto o rico histórico do soba alagoano em investigações policiais como o fato de que o processo em questão tramita na Suprema Corte há inacreditáveis nove anos. Esta circunstância insólita, por sua vez, chama a atenção para outra aberração incrível que é a espantosa morosidade da Justiça brasileira, problema que, aliás, foi tratado, à margem do julgamento de quinta-feira passada, com zeloso espírito de corpo, por três ministros, entre eles a presidente da Corte, Cármen Lúcia.

Sobre Renan Calheiros, o que se pode dizer é que é o retrato perfeito e acabado da grave enfermidade ética e moral que coloca o Parlamento brasileiro na contramão de sua missão constitucional de representar os eleitores – e, no caso do Senado, as unidades da Federação – na discussão e aprovação de leis e na fiscalização do Poder Executivo. O presidente da Câmara Alta é hoje um dos exemplos mais óbvios do político que usa seu poder primordialmente em benefício próprio e de seus cupinchas. Foi o que ficou mais uma vez demonstrado esta semana com a tentativa frustrada de Calheiros de aprovar o regime de urgência para a tramitação do projeto anticorrupção que menos de 24 horas antes havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados.

O presidente do Senado, agora réu no STF, é indiciado em outros 11 processos que tramitam naquela Corte, a maior parte deles ligada à Operação Lava Jato. Mas muito antes de a polícia, o Ministério Público e a Magistratura federal se terem articulado, há pouco mais de dois anos e meio, para operar a ampla faxina no aparelho estatal dominado pela corrupção elevada à condição de método político pelo lulopetismo, Renan Calheiros já se exercitava alegremente na prática de iniciativas ética e moralmente questionáveis. Tanto que as mesmas investigações que resultaram, finalmente, em sua transformação em réu, obrigaram-no, em 2007, a renunciar à mesma presidência do Senado que hoje ocupa, como resultado de um acordo que lhe salvou o mandato.

Só mesmo uma grave doença moral poderia explicar que o Senado elegesse para presidir os seus trabalhos uma figura como Renan Calheiros, depois de tudo o que ocorreu em 2007.

A impunidade de maus homens públicos, que no mais das vezes nem chegam a ser levados à barra dos tribunais, tem forte aliado numa das maiores deficiências institucionais do País, a aparentemente insanável morosidade da Justiça. Essa morosidade, além de ser inestimável aliada de criminosos de colarinho branco, prejudica a população em geral que, ao contrário dos espertalhões bem situados, geralmente têm pressa em ver suas pendências judiciais dirimidas.

Renan Calheiros tornou-se réu sob a acusação de ter desviado recursos do Senado para ressarcir uma empreiteira que teria pagado a pensão de uma filha que tem fora do casamento. No julgamento, a questão da morosidade da Justiça acabou vindo à baila. O ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF, explicou que praticamente a totalidade da centena de processos que estão sob sua responsabilidade não se encontra em seu gabinete, mas nas mãos de policiais e procuradores envolvidos nas respectivas investigações de campo. O ministro estaria, assim, apenas esperando a conclusão das investigações para se manifestar sobre o prosseguimento ou não dos respectivos processos.

É claro que a necessidade do aprofundamento de investigações pode resultar em demora na conclusão de processos criminais. Isso no âmbito de mais alta instância, que é o STF. Imagine-se a que passo andam investigações que não são presididas por integrantes da cúpula da Justiça. Mas, se o Supremo não consegue administrar com eficácia o gravíssimo problema da morosidade, tomando a iniciativa de propor e executar medidas para pelo menos minimizar o problema, quem é que terá condições de fazê-lo? Transferir responsabilidades não é o melhor caminho.*

(*) EDITORIAL DE O ESTADO DE SÃO PAULO

O PORQUÊ DELES AMAREM O MORO…

Moro dá mais 15 dias para PF concluir inquérito sobre Sérgio Cabral

Magistrado atendeu pedido da PF, que alegou ‘análise da grande quantidade de material apreendido’; ex-governador está preso desde 17 de novembro no Complexo de Bangu, no Rio

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O juiz federal Sérgio Moro atendeu pedido da Polícia Federal e deu mais 15 dias para conclusão do inquérito que investiga o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) na Operação Lava Jato. O magistrado alertou que não haverá nova prorrogação.
“Defiro o requerido e concedo prazo de mais 15 dias para conclusão do inquérito (até 16/12/16). Alerto que não haverá nova prorrogação e é desejável que não seja utilizado todo o prazo, dada a proximidade do recesso judicial”, decidiu o juiz Moro.
Ao pedir a Moro a prorrogação do inquérito, a Polícia Federal alegou ‘existência de diligências pendentes, dentre as quais análise da grande quantidade de material apreendido’. O Ministério Público Federal deu parecer favorável ao pedido da PF.
Moro considerou ‘razoável’ a solicitação.
“Foram cumpridos, ainda, por ordem do Juízo Titular, e a pedido da PF e do MPF, dezenas de mandados de busca e apreensão, na data de 17 de novembro de 2016, data da deflagração desta operação. Razoável, então, não ter havido tempo hábil para a análise de todo o material apreendido, conforme noticia a autoridade policial, sendo salutar a concessão do prazo adicional previsto em lei para a finalização da investigação”, afirmou o magistrado.
“Apesar das provas já referidas na decisão em questão, apontando, em cognição sumária, provas de materialidade de crimes e indícios de autoria em relação ao investigado, afigura-se salutar conceder mais tempo à Polícia Federal para melhor análise do material apreendido.”

Sérgio Cabral, preso na Operação Calicute – desdobramento da Lava Jato -, em 17 de novembro, é investigado em duas frentes: uma em Curitiba e outra no Rio. O peemedebista está custodiado no Complexo de Bangu, no Rio.
A força-tarefa da Lava Jato, no Paraná, apura pagamento de propina ao ex-governador peemedebista em decorrência do contrato celebrado entre a empreiteira Andrade Gutierrez e a Petrobrás, sobre as obras de terraplanagem no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).
No Rio, Sérgio Cabral é investigado pela Lava Jato por corrupção na contratação de diversas obras conduzidas no governo do peemedebista, entre elas, a reforma do Maracanã para receber a Copa do Mundo de futebol de 2014, o PAC Favelas e o Arco Metropolitano, financiadas ou custeadas com recursos federais.
Nesta sexta-feira, 2, a Polícia Federal indiciou Sérgio Cabral, sua mulher, a advogada Adriana Ancelmo, e outros 14 investigados no inquérito relativo à primeira fase da Operação Calicute. Os crimes vão de corrupção passiva e ativa e organização criminosa a lavagem de dinheiro.
A PF informou que serão instaurados outros inquéritos para aprofundamento de novas vertentes da investigação. Entre os crimes que poderão ser investigados mais adiante, segundo apurou o Estado, estão a concessão de incentivos fiscais pelo Estado do Rio a empresas privadas, como joalherias, sonegação fiscal e evasão de valores para o exterior.*
(*) Julia Affonso e Mateus Coutinho – Estadão

RECONHECIMENTO INTERNACIONAL

Lava Jato ganha principal prêmio anti-corrupção

Transparência Internacional elege a operação como a maior iniciativa contra corrupção no mundo, a frente de investigações como os Panama Papers

GENEBRA – A Força Tarefa da Operação Lava Jato e seus procuradores são escolhidos como a maior iniciativa contra a corrupção no mundo e recebem o prêmio do ano da entidade Transparência Internacional. O anúncio está sendo feito neste sábado (3) em um evento no Panamá, onde a organização destaca os “esforços persistentes da Lava Jato para acabar a corrupção endêmica no Brasil”.

Para a entrega do prêmio, os procuradores brasileiros foram até o Panamá, com seus próprios recursos.

A entidade havia recebido 560 nomeações de iniciativas de combate à corrupção em todo o mundo, entre eles a investigação conduzida por 185 jornalistas de todo o mundo sobre os Panama Papers ou iniciativas na Turquia. Mas optaram por dar aos brasileiros num momento em que a tensão entre os poderes no Brasil aumenta e, para procuradores, o próprio esforço do grupo estaria ameaçado.

“A Operação Lava Jato começou como uma investigação local de lavagem de dinheiro e cresceu para se tornar a maior investigação até hoje sobre corrupção no Brasil”, apontou a entidade.

“Os procuradores estão na linha de frente das investigações desde abril de 2014. Lidando com um dos maiores escândalos de corrupção do mundo – o caso Petrobras – eles investigaram, processaram e obtiveram penas pesadas contra alguns dos mais poderosos membros da elite política e econômica do Brasil”, disse.

Segundo a Transparência Internacional, 240 denúncias já foram feitas, com 118 condenações totalizando 1,2 mil anos de sentenças de prisão. “Isso incluiu políticos de alto escalão e empresários antes considerados como intocáveis”, apontou.

Resistência. A entidade também destacou a iniciativa dos procuradores por reformar leis no Brasil, com as dez medidas contra a corrupção. Mas alertaram que, no final de novembro, a Câmara dos Deputados votou uma nova versão do pacote, esvaziando parte das propostas e permitindo que juízes e procuradores sejam processados.

“A nova versão corre o risco de afetar a independência de juízes e procuradores”, alertou a Transparência Internacional.

“Bilhões de dólares foram perdidos para a corrupção no Brasil e os brasileiros disseram basta à corrupção que está arrasando o país”,  disse Mercedes de Freitas, presidente do Comitê do prêmio Anti-corrupção da Transparência Internacional. “A Operação Lava Jato está garantindo que os corruptos, seja qual for seu poder, sejam levados à Justiça”, disse. *

(*) Jamil Chade – O Estado de S.Paulo

PRESIDENTE DA CASA MAL ASSOMBRADA

A pane seca de Renan
Avise à torre que o senhor não tem mais condições de pilotar nada, muito menos votação no meio da noite

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Se o combustível de um presidente do Senado for a credibilidade. Se a autonomia de um presidente do Senado depender de sua lisura. Se um presidente do Senado, na linha sucessória da Presidência da República, se tornar réu do Supremo Tribunal Federal por peculato (traduzindo: desvio de verba pública para uso pessoal)… A emergência estará configurada.

Renan Calheiros, avise à torre que o senhor não tem mais condições de pilotar nada, muito menos votação contrabandeada no meio da noite sujeita a trovoadas. Não finja ser pane elétrica, não culpe o Judiciário, diga logo que é pane seca e que lhe falta o combustível da credibilidade. Ninguém acredita quando o senhor elogia a Lava Jato e condena a corrupção.

Admita que calculou mal os riscos e que, de tanto desafiar as regras e a sensatez, de tanto se sentir protegido pela máquina do PMDB, acima das nuvens, de tanto agir no limite da paciência da sociedade, acabou vitimado pelo sentimento de onipotência, talvez herdado de seu padrinho José Sarney.

Faça como fez há nove anos, quando renunciou à presidência da mesma Casa para não ser cassado, ao ser acusado de pagar a pensão de sua filha extraconjugal com dinheiro de empreiteira. Voltou depois, com a bênção de todos, Sarney e Lula e seus companheiros. Sempre com aquele risinho. Renan responde a mais 11 processos no STF, oito deles da Lava Jato. Ou Renan é culpado ou é o político mais perseguido da história do Brasil.

O rabo preso gigantesco de Brasília explica a cumplicidade, no Senado, de figuras como Fernando Collor e Lindbergh Farias. Eles estavam entre os 14 senadores que apoiaram Renan na pressa de votar o projeto da Câmara, que desfigurou as dez medidas anticorrupção de iniciativa popular. Renan nem queria votação nominal, só voto simbólico. Sua manobra foi desmascarada a tempo. A maioria no Senado percebeu que o plano de voo de Renan era irresponsável. Renan descobriu que não tinha autonomia.

Na Câmara, o rabo preso aliou Pedro Paulo a Jandira Feghali e Indio da Costa contra o pacote original anticorrupção. O PT de Lula e Dilma e o PRB de Crivella também se aliaram contra o pacote anticorrupção e a favor de enquadrar o Judiciário. Jair Bolsonaro e Jean Wyllys – que sempre viveram aos cuspes e berros – se uniram a favor das medidas anticorrupção mas foram derrotados.

Há um claro conluio político, liderado por investigados na Lava Jato, para melar investigações de propina, caixa dois e corrupção. Sob o pretexto de coibir abusos de autoridade – que devem mesmo ser refreados para evitar o “espetáculo” e o desrespeito a direitos dos delatados –, o Congresso ameaça uma operação que mudou o Brasil para sempre.

Antes do juiz Sergio Moro e a equipe de Curitiba, sabíamos dos desvios de dinheiro público, mas não se imaginava o grau, ou o valor. Não se imaginava a amplitude das quadrilhas no Poder. Os métodos, os laranjas, os superfaturamentos, as joias da Coroa e a total impunidade de quem dilapidava obras de infraestrutura e serviços essenciais. Além dos roubos, terão de ser atacados com urgência os privilégios, as mordomias, os supersalários na casta política. Mas já é um começo de moralização do serviço público.

Renan, em evento da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afirmou que o sistema político brasileiro está “falido e fedido”. Não percebe que estão colando nele a pecha de cinismo? Sua eloquência contra o presidencialismo não comoveu. O presidente da OAB, Claudio Lamachia, defendeu o afastamento imediato de Renan. Não como admissão de culpa, mas para não comprometer os trabalhos do Senado, enquanto for réu no STF.

Por que esse açodamento do Congresso, em dezembro, perto do Natal e de mais um recesso de verão? Dá para entender o “timing”. Vem aí a mãe de todas as delações. A maior empreiteira do país, a Odebrecht, envolvendo 75 executivos e ex-dirigentes, deve citar 200 políticos. Pai e filho, Emilio e Marcelo Odebrecht assinaram a delação premiada, prometeram pagar multa de R$ 6,8 bilhões e pediram desculpas por “práticas impróprias”. É com esperança, não com ceticismo, que leio o comunicado histórico da Odebrecht.
“Não importa se cedemos a pressões externas. (…) Fomos coniventes com tais práticas. (…) Foi um grande erro, uma violação dos nossos próprios princípios, uma agressão a valores consagrados de honestidade e ética.” E por aí vai. Leiam. As dez medidas de compromisso com o futuro da Odebrecht são exemplares. No topo da lista: “Combater e não tolerar a corrupção em quaisquer de suas formas, inclusive extorsão e suborno”.

Quando leremos desculpas e compromissos de nossos políticos? Se o Brasil está em pane seca, com milhões de pessoas devolvidas à pobreza, é por ganância e incompetência de seus governantes.*

(*) RUTH DE AQUINO – ÉPOCA

AJOELHOU, ODEBRECHT? ENTÃO…

Corra que a Odebrecht vem aí

Oficializada, a maior delação da Lava Jato vai contar a história recente do submundo institucional do Brasil. Não é à toa que alguns políticos estão morrendo de medo

Primeiro foi a negação. Investigada pela Operação Lava Jato, a Odebrecht jurava inocência, rejeitava provas incontestáveis e atacava. Estava segura, pois havia décadas a prática de pagar propina a políticos e manter silêncio funcionara bem. Não havia polícia, procurador, juiz ou ministro capaz de quebrar isso. A empreiteira tinha um segredo muito bem oculto. Demorou, mas os investigadores descobriram o Setor de Operações Estruturadas, dedicado ao gerenciamento de propina, com códigos, valores e datas de pagamentos. Conseguiram a colaboração de uma secretária, que explicou como as coisas funcionavam. A Lava Jato fez a Odebrecht ajoelhar.

Na quinta-feira, dia 1º, o inimaginável aconteceu. Emílio Odebrecht, o patriarca, foi à sede da Procuradoria-Geral da República, em Brasília, onde assinou um acordo de colaboração com as investigações. Seu filho Marcelo, preso há um ano e meio, o mais duro contendor dos procuradores, também assinou. Autorizados por eles, outros 77 executivos foram à PGR assinar os seus. Contar a verdade sobre tudo o que fizeram de errado é o preço para reduzir penas e manter o grupo Odebrecht vivo. O que for dito, no entanto, escurecerá o futuro de centenas de políticos.

Nem mesmo os investigadores conseguem dimensionar o real potencial de destruição da delação a vir. Somados, depoimentos e provas obtidas a partir do setor da propina resultarão em centenas de histórias com provas documentais – os “anexos” –, capazes de contar uma parte obscura da história recente do Brasil. São relatos da subversão dos sistemas políticos e institucional pela propina, distribuída de forma multipartidária e sem limites ideológicos. No esquema da Petrobras, o dinheiro sujo da Odebrecht, surrupiado dos cofres públicos, alimentou PT, PMDB e PP, os sócios autorizados pelos governos Lula e Dilma. Fora desse esquema federal havia mais. Políticos de PSDB, DEM e muitos outros partidos também aparecerão como destinatários de dinheiro sujo da Odebrecht em troca de obras ou de outros negócios. Receberam em forma de propina ou de contribuições legais e ilegais para suas campanhas. Contas fora do país serão reveladas. Entregas de dinheiro vivo serão relatadas. A Odebrecht mostrará um mercado de compra de emendas, projetos e leis, com valores tabelados. Políticos que até agora não foram atingidos já procuram advogados.

Desde o início da negociação, Brasília vive um clima de medo geral e apartidário, que vai se transformando em pânico. Não é à toa que, na semana passada, a Câmara desfigurou um pacote de medidas contra a corrupção e o Senado tentou apressar a matéria, em busca de proteção. Vários políticos querem saber se são citados na delação da Odebrecht. Os investigadores têm uma resposta pronta: “É mais fácil você perguntar sobre quem não está”. Ao longo dos nove meses de negociação da Odebrecht com a força-tarefa da Lava Jato, alguns ainda mantinham a esperança de o monolítico pacto de silêncio manter-se inquebrável. Afinal, executivos de outras empreiteiras pouparam alguns nomes em suas delações. Mas os investigadores sabiam disso e adotaram com a Odebrecht um nível inédito de exigências. A delação de Alexandrino Alencar, executivo mais próximo do ex-presidente Lula, quase ficou de fora. Foi só no último momento, após a insistência de investigadores, que ele aceitou falar de um filho do ex-presidente. Lula passará por uma tempestade conforme a caixa-preta da Odebrecht for se abrindo.

A assinatura da delação, ocorrida na semana passada, é apenas um ato burocrático, embora simbólico. Há muito trabalho pela frente. Os procuradores vão ouvir cada um dos delatores e escrutinar cada prova. Depois, cada delação deverá ser analisada pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. Teori poderá homologar ou pedir alterações. Só depois começará a investigação. A Lava Jato revisará todos os passos do setor de propinas e tentará corroborar com outras provas as acusações. Enquanto isso, a Odebrecht sai da negação e entra na fase da admissão. Em comunicado divulgado na sexta-feira, dia 2, a empreiteira se desculpa e promete mudar suas condutas. “A Odebrecht reconhece que participou de práticas impróprias em sua atividade empresarial. Não importa se cedemos a pressões externas. Tampouco se há vícios que precisam ser combatidos ou corrigidos no relacionamento entre empresas privadas e o setor público”, diz o texto. A Odebrecht pagará quase R$ 7 bilhões de multa pelos próximos 20 anos. Parte do dinheiro será encaminhada aos Estados Unidos e à Suíça, onde a empresa cometeu atos de corrupção. Marcelo Odebrecht ficará preso até o final do ano que vem. A Odebrecht não poderá mais apagar seu passado ou desvirtuar fatos. Sobre os políticos, quanto mais a Justiça demorar, mais tempo eles conviverão com o fantasma do pânico.*

(*) FILIPE COUTINHO – ÉPOCA

DESVAIRADO SONHO DE PODER

Propina do PT bancou campanha de aliado em El Salvador, diz Odebrecht

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Ex-primeira dama de El Salvador e militante do PT desde os anos 80, Vanda Pignato intermediou, segundo a Odebrecht, o pagamento de R$ 5,3 milhões de caixa dois feito pela empreiteira à campanha de Mauricio Funes, na época seu marido e candidato à Presidência da República do país centro-americano.

O relato faz parte do acordo de delação premiada de executivos da empresa assinado nesta semana por 77 executivos do grupo empresarial baiano.

O dinheiro, segundo delatores, foi pago em 2008 pela Odebrecht ao marqueteiro João Santana, que comandou a comunicação da campanha que elegeu Funes em março do ano seguinte.

O montante foi descontado do caixa do PT junto à empreiteira no qual eram feitos pagamentos de valores ilícitos, segundo disseram os delatores às autoridades.

De acordo com eles, o abatimento teve a autorização do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ligado a Funes e Vanda Pignato.

Um ex-sócio do marqueteiro afirmou à Folha que Santana confidenciou que fez o trabalho a pedido do PT.

Aos procuradores, a Odebrecht relatou que foi Vanda quem acertou os R$ 5,3 milhões com a alta cúpula do PT, devido à sua proximidade com a legenda.

Brasileira, a ex-primeira-dama é hoje secretária de inclusão social do governo de El Salvador, pasta que tem status de ministério.

Separada de Funes desde o ano passado, Vanda começou a militar no PT nos anos 1980, chegando a representar o partido na América Central, quando já morava naquele país. Ela se desfiliou da sigla em 2010.

O episódio esclarece um item da planilha “POSICAO ITALIANO310712MO.xls” encontrada pela Polícia Federal nos arquivos do ex-funcionário da Odebrecht Fernando Migliaccio.

No documento apreendido pela PF, com discriminação de repasses a “Feira”, codinome de Santana na empreiteira, aparece: “Evento El Salvador via Feira 5.300”.

Investigadores da Lava Jato concluíram que a planilha tratava de valores ilícitos pagos pelo Setor de Operações Estruturadas, a área de pagamento de propinas da Odebrecht, negociados com o ex-ministro Antonio Palocci, apelidado de “Italiano”.

Segundo a investigação, Palocci era o principal administrador do caixa do PT junto à empreiteira.

APOIO

O ex-presidente Lula foi um dos principais apoiadores de Funes durante a campanha presidencial do salvadorenho.

O petista tinha interesse na eleição de aliados de esquerda na América Latina e, por isso, indicou Santana –seu marqueteiro de confiança e que comandou campanhas sua e de sua sucessora, Dilma Rousseff– a Funes.

O mote da vitória presidencial do salvadorenho foi, inclusive, o mesmo usado pelo brasileiro em 2002: “A esperança venceu o medo”.

Após a vitória de Funes, o então presidente brasileiro enviou o Gilberto Carvalho, seu principal assessor, para passar cinco dias em El Salvador e contribuir no processo de transição do novo governo do país.

Em seu discurso de posse, em junho de 2009, Funes citou Lula como “exemplo a ser seguido” e disse que implementaria em El Salvador diversos programas sociais baseados em bandeiras da administração do PT, como o Bolsa Família.

Durante a campanha, Funes viajou diversas vezes ao Brasil, retornando após a conquista da Presidência.

Após a vitória, encontrou-se com Lula e apontou o brasileiro como sua principal referência política.

Recentemente, Funes, que foi presidente até 2014, recebeu asilo político na Nicarágua, após alegar sofrer perseguição política.

Ele é investigado em El Salvador por desvio de dinheiro público e enriquecimento ilícito durante seu período à frente do Executivo do país.

OUTRO LADO

Por e-mail, a ex-primeira-dama Vanda Pignato, negou que tenha atuado na arrecadação de dinheiro para a campanha de Mauricio Funes, em 2008.

Disse também que nunca conversou com o ex-presidente Lula sobre doações para Funes e que desconhece ajuda do petista na arrecadação.

Sobre o ex-presidente e herdeiro da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, ela afirmou tê-lo conhecido junto a outros empresários brasileiros em evento da Fiesp em 2010.

Ela disse que em 2011 visitou projeto da Fundação Odebrecht na Bahia. “Fui recebida pelo fundador Norberto Odebrecht. Visitei os projetos ‘Casa Família Rural, ‘Aliança Cooperativa da Mandioca’ e ‘Instituto de Direito e Cidadania'”. Segundo Vanda, o último encontro com Odebrecht foi numa visita dele a El Salvador.

Procurada pela reportagem, a assessoria do Instituto Lula respondeu que não comenta “especulação de delação”. “Nas últimas semanas foram ouvidas 19 testemunhas arroladas pelo Ministério Público Federal, incluindo os maiores delatores da Lava Jato, e nenhuma delas confirmou qualquer acusação contra Lula,”, disse, por e-mail.

O PT não quis se manifestar. A Odebrecht disse que não se pronuncia sobre negociação com a Justiça e que reforça seu compromisso com atuação “íntegra e transparente”. *

(*) BELA MEGALE
 – ETÍCIA CASADO – DE BRASÍLIA – FOLHA DE SP

É UMA VERGONHA…

Cumpre ao Congresso fazer o que o povo quer
O que fez a Câmara na madrugada ultrajante foi aprovar um pacote a favor dos corruptos

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Claro que os deputados federais poderiam mudar (para melhor) algumas das 10 medidas anticorrupção propostas pelo Ministério Público. Claro que poderiam suprimir uma ou outra. Claro que poderiam remover imperfeições que destoam do conjunto de ideias subscrito por 2,4 milhões de brasileiros. Mas não foi isso o que fez a Câmara na ultrajante madrugada desta quarta-feira.
Apavorados com a aproximação da Lava Jato, os prontuários com imunidade parlamentar fizeram foi outra coisa: desfiguraram cinicamente o projeto original, para transformá-lo num pacote a favor dos corruptos e hostil aos defensores da lei. Renan Calheiros (enfim enquadrado pelo Supremo Tribunal Federal) recita que o Congresso precisa deliberar sem sofrer pressões. O país que presta discorda.
A Constituição avisa que todo o poder emana do povo. Cumpre ao Parlamento fazer o que o povo quer.*

(*) Blog do Augusto Nunes

O BICHO TÁ PEGANDO

Temer perde seu principal trunfo:

o sangue frio 

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As coisas não andam bem para Michel Temer. Em seis meses de gestão, viu meia dúzia de ministros saírem pela porta de incêndio. A Lava Jato rosna para o governo e seus aliados. Baluarte do Planalto no Congresso, Renan Calheiros foi ao banco dos réus. Henrique Meirelles faz tudo para que a economia reaja. Mas tudo não quer nada com o ministro da Fazenda.

Diante de um cenário assim, tão adverso, restava a Temer seu único e mais valioso patrimônio político: o sangue frio. Em três décadas de vida pública, o personagem construíra uma fama de serenidade. Súbito, Temer perdeu o equilíbrio. Deu-se nesta sexta-feira. Após participar de videoconferência sobre o combate ao mosquito Aedes aegypti, Temer dirigiu-se à imprensa.

Na fase de perguntas, foi inquirido sobre o pacote de medidas anticorrupção que seus aliados viraram do avesso na Câmara. Um repórter quis saber a opinião do presidente sobre a encrenca e se ele participara da articulação que tentou votar o pacote desfigurado, a toque de caixa, no Senado. Abespinhado, o entrevistado ralhou: “Estou falando de zika, por favor!” E deu por encerrada a entrevista.

Shiiiiiiii… Se Temer continuar agindo assim, logo, logo estará chamando jornalista de “meu querido”. E Dilma Rousseff o acusará de plágio.*

(*) Blog do Josias de Souza

POR ENQUANTO É SÓ TOMATES

Homem atinge com tomate deputado que propôs punição para juízes

Um manifestante atingiu com um tomate o líder do PDT, Weverton Rocha (MA), nesta quarta-feira (30), no aeroporto de Brasília.

A agressão, registrada em vídeo, foi em protesto à emenda que Rocha apresentou na madrugada de quarta para incluir nas medidas anticorrupção punição para juízes e integrantes do Ministério Público que cometerem abuso de autoridade.
“Você sabe que a Lava Jato vai todos o procuradores renunciarem (sic) devido à sua emenda?”, questionou o manifestante que se identificou como Ricardo Roque, ao abordar o deputado no embarque o aeroporto.

O homem espreme um tomate que trazia na mão no ombro esquerdo do deputado.

“Você está me impedindo. Você está me agredindo. O certo era eu lhe entregar aqui, seu moleque”, reagiu Weverton Rocha. “Se você está protegendo promotor e juiz bandido no Brasil, é problema seu”, afirmou.

“Sergio Moro representa todo este aeroporto aqui. Você fez uma lei contra o cara”, gritou o manifestante, enquanto Weverton entrava na área de embarque, já na presença de um segurança do aeroporto.

O deputado comentou a agressão nas suas redes sociais, por onde também diz estar recebendo ameaças não só a ele, mas também à família.

“Cheguei a ser abordado no aeroporto por um militante de algum movimento obscuro que me agrediu, enquanto eu tentava calmamente lhe explicar o espírito da proposta do PDT. Lamentável enquanto amostra de comportamento humano e perigoso enquanto amostra de comportamento político que flerta com o fascismo”, afirmou.*

(*) DANIEL CARVALHO – DE BRASÍLIA – FOLHA DE SP

PILANTRA JURAMENTADA

Dilma não pediu vantagens, mas sabia tudo do petrolão,

segundo delação de Odebrecht

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Acordo de leniência assinado ontem, delações na mesa, vai aqui quase direto da fonte: Marcelo Odebrecht, em sua delação premiada, livrou Dilma de crime mais grave ao declarar que a ex-presidente nunca pediu recursos para ela mesma.
Entretanto, ele foi claro ao afirmar que ela tinha, sim, conhecimento de todo o esquema da Petrobrás.

Dilma & Odebrecht 2

Assim, na avaliação de jurista conhecido, Dilma teria cometido prevaricação – e por isso poderia ser punida mesmo agora, como cidadã comum.
Como presidente, poderia estar submetida ao art. 85 da Constituição – que, em seu inciso V, considera crime de responsabilidade “a improbidade na administração”.
Que, na prática, é uma das definições da prevaricação.*

 
(*)  Sonia Racy – Estadão