ERROS DOS DICIONÁRIOS (2)

000- a coluna do Joauca - 500

No verbete adequar, o Dicionário Aurélio informa que se trata de um verbo defectivo,  conjugável apenas nas formas arrizotônicas, isto é, nas formas em que a acentuação tônica recai nas desinências e não na raiz. Assim, o dicionário conjuga o verbo adequar apenas com duas formas no presente do indicativo: nós adequamos, vós adequais. O Dicionário Houaiss, contrariando bons manuais de conjugação e boas gramáticas, conjuga o verbo adequar em todos os tempos e pessoas: eu adéquo, tu adéquas, etc. Domingos Paschoal Cegalla, em seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, s.v. adequar, adequar-se), ensina que, se adequar não fosse defectivo, sua conjugação deveria ser como a do verbo recuar, com a acentuação tônica no U. E conclui: “Não existem as formas adéqua, adéquam, com e tônico.”

O Aurélio registra o verbete afro como adjetivo, sem indicação de gênero, o que pressupõe tratar-se de adjetivo variável, ou como substantivo  apenas masculino. O Houaiss registra afro como adjetivo e substantivo apenas masculino, e exemplifica: moda afro, cabelo afro, comidas afro (apesar de registrar o plural afros, para designar antigo povo da África).  Essa é  a orientação espúria do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) que também registra afro como adjetivo e substantivo apenas masculino (portanto invariável). O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa registra afro tanto como adjetivo quanto como substantivo variável (afro, afra). O Dicionário de Domingos Paschoal Cegalla, acima mencionado, registra o verbete afro também como adjetivo e substantivo, flexionado, com os seguintes exemplos: carnaval afro, ritos afros, músicas afras.

A propósito do Volp, somos todos reféns de suas imprecisões ou inadequações, sobretudo no que diz respeito ao emprego do hífen, que é um verdadeiro samba do crioulo doido. Nos pares abaixo, de formação idêntica, apenas o primeiro leva hífen; e o segundo, não. Vejamos: pé-de-meia, pé de moleque; para-choque, paraquedas; perde-ganha, vaivém; cachorro-quente, elefante branco (coisa incômoda); infantojuvenil, maníaco-depressivo; ano-novo, ano velho; norma-padrão, desvio padrão; bom-senso, bom gosto; pronto-socorro, pronto atendimento; carne-seca, carne viva… Qual é a lógica? Todas as gramáticas e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, ensinam que azul-ferrete, como adjetivo, é invariável em gênero e número; como substantivo, só o primeiro elemento se flexiona: azuis-ferrete. Mas neste ponto o Volp inova ao admitir também o plural dos dois elementos, quando a palavra for empregada como substantivo: azuis-ferretes.

Siglas se leem sempre letra por letra e todas se escrevem com maiúsculas: PMDB, PTB, UFRJ, CPMF, etc. Acrônimos, ao contrário, se leem como verdadeiros substantivos da língua (neologismos): se o substantivo é próprio, apenas a primeira letra é maiúscula: Otan, Nasa, Vasp, Ufes, Bradesco, Petrobras, Volp, etc. Se o substantivo é comum, todas as letras são minúsculas: radar (radio detecting and ranging), sonar (sound navigating and ranging), laser (light amplification by stimulated emission of radiation), aids ou sida (síndrome da imunodeficiência adquirida), etc. Se o acrônimo tem três letras, todas se escrevem em versal, mesmo que não sejam nomes próprios: ONU, TAP (Transportes Aéreos Portugueses), ECA (Escola de Comunicação e Artes), LER (lesão por esforço repetido), etc.. Os dicionários definem adequadamente o que é sigla e o que é acrônimo, mas erram nos verbetes que representam acrônimos ou siglas. O Aurélio, embora registre aids, com minúsculas, registra SIDA e UFES; O Houaiss registra apenas sida, com minúsculas, mas, embora defina acrônimo e sigla adequadamente, no verbete sigla registra Petrobrás entre outros exemplos.

A expressão latina statu quo é parte da expressão maior in statu quo ante, que significa “no estado em que (estava) antes”. O correto é statu quo, sem o s final porque se trata do ablativo, como ensina Paulo Rónai no seu belo livro Não perca o seu latim (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, com exemplo de Carlos Drummond de Andrade).. Os dicionários, contudo, só registram a forma inadequada “status quo”. O nominativo, status, com s final, só se usa isoladamente e significa a posição ou a situação de um indivíduo num grupo. Não é de estranhar essa lição esdrúxula, já que o latim é frequentemente mal-empregado na linguagem jurídica. Na literatura jurídica, “a expressão de cujus” é utilizada como sinônimo de  “testador”.O Houaiss e o Aurélio dão-na como sinônimo de “falecido”. Trata-se de parte da frase “de cujus successione agitur”, isto é, “(aquele) de cuja sucessão se trata”. Ora, em latim, cujus é genitivo do pronome relativo qui. Nunca foi substantivo comum. Infelizmente, já é expressão consagrada pela tradição e faz parte da metalinguagem jurídica…

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

Siga o blog pelo Twitter.

 

11 Responses to “ERROS DOS DICIONÁRIOS (2)”

Leave a Reply