NA TERRA DOS CORONÉIS

Surto de diarreia já matou 48 pessoas em Alagoas

_acir0305a - RENAN CALHEIROS

Água, distribuída em carros-pipa, é suspeita de provocar doença; em 27 cidades, caso é tratado como epidemia

ARAPIRACA (AL) — Há uma semana, Camila, de 3 anos, está com diarreia. As dores e o sangue fizeram a mãe procurar o Hospital Regional de Arapiraca, a 125 km de Maceió. — Doía demais. Aí a gente procurou (o médico), ela recebeu o remédio e vai melhorar — disse a dona de casa Luzinira Maria da Conceição, mãe de Camila. A preocupação tem motivos: a diarreia já matou, em Alagoas, 48 pessoas desde 15 de maio; a última morte foi anteontem. Em 27 cidades alagoanas, é tratada como epidemia pela Secretaria estadual de Saúde. Outros 40 municípios estão em alerta. Segundo o Ministério Público, a maioria dos casos acontece em cidades no entorno de Arapiraca. O pico da doença foi entre 15 de maio e o final do mês de junho. No Hospital Regional, metade dos atendimentos diários era por causa da doença: — Agora, está tranquilo porque as pessoas recebem orientação. As pessoas chegavam aqui agoniadas com os sintomas e pelo que viam na TV. Tinham medo — disse o médico Ulisses Pereira. Promotores do interior de Alagoas se reuniram anteontem em Arapiraca para discutir como auxiliar na apuração das causas do surto. Os promotores vão agir em conjunto com os secretários municipais de Saúde. — Não existe ainda uma causa da diarreia. Acreditamos em alguns fatores, como a água distribuída em caminhões-pipa. Essa água é distribuída sem análise — explicou Micheline Tenório, promotora do Núcleo da Saúde do MP. Para ela, a seca pode ajudar a explicar o grande número de mortes. Segundo o governo federal, esta é a pior seca no sertão nordestino nos últimos 50 anos. O calor forte evapora ainda mais rápido a água em açudes e barreiros, onde o líquido é misturado na lama. As cisternas também podem ser foco de disseminação da diarreia. E a falta de água é constante não só no sertão. Arapiraca é uma cidade do agreste. Na sede do MP, onde acontecia a reunião, as torneiras estavam secas. Em Alagoas, as autoridades descartam um surto de cólera, doença erradicada no Brasil desde a década de 90: — Nossa preocupação é orientar. Alguns casos da diarreia estão entre crianças de 1 a 10 anos de idade ou pessoas mais velhas. Acreditamos que ações mais pragmáticas trarão mais conforto para a população — disse o procurador de Justiça Geraldo Majella.

(*) ODILON RIOS, ESPECIAL PARA O GLOBO

 

A PROPÓSITO

Mexendo no problema errado

__acir0720b - Dilna - atolada na merda

Não é questão de nacionalidade: um dos maiores médicos do Brasil foi um ucraniano, Noel Nutels, que levou a saúde pública às áreas indígenas da Amazônia. A questão é outra: é que o Governo criou uma enorme polêmica por achar que Saúde é Medicina. E não é: Medicina é a última etapa na luta pela Saúde.

A Saúde começa pela engenharia – saneamento básico. A água potável e os esgotos reduzem o número de doentes (e derrubam a mortalidade infantil). Educação é o segundo passo: quem lava as mãos e cuida da higiene básica, mantém o mosquito da dengue à distância, assegura a limpeza dos animais domésticos e cuida de seu lixo tem mais condições de evitar doenças. Condições de vida são importantes: roupas e calçados minimamente adequados, alimentação suficiente, moradia saudável fazem milagres. Se uma pessoa educada, com acesso a saneamento básico, alimentação e moradia, devidamente vacinada, mesmo assim fica doente, então cabe à Medicina cumprir seu nobre e insubstituível papel de cura.

Em resumo, não adianta trazer grandes especialistas mundiais sem que a população tenha condições adequadas de vida. Tem? Não, não tem. E não falemos de periferias: Guarulhos, na Grande São Paulo, segunda maior cidade do Estado, 13ª do país, com 1,2 milhão de habitantes, onde está o maior aeroporto internacional do país, não trata nem metade dos esgotos que lança no rio Tietê.

A propósito: sem seringas, termômetro, um medidor de pressão, um medidor de glicemia, alguns remédios, que é que se espera de um médico? Milagres? *

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet.

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