ESCOLHER PALAVRAS

000- a coluna do Joauca - 500

Há um ruído na comunicação que pode provocar constrangimentos: o uso de uma palavra no lugar de outra, sobretudo quando se trata de parônimos, isto é, de palavras que se parecem na forma ou no som, mas diferem (e muito) no sentido, como, por exemplo, tráfico e tráfego, velhote e velhaco, docente e discente, vultoso e vultuoso, entre outros.

Entre os problemas da má seleção lexical, isto é, da má seleção de palavras, está o uso hoje generalizado, mesmo entre professores de português e linguistas de boa reputação, do nome gênero para designar sexo. É comum falar-se em gênero masculino quando se quer designar o sexo masculino. Acredito que esse vício de linguagem se deva à tradução literal do inglês gender, que pode significar tanto gênero quanto sexo. Ora, gênero é uma distinção gramatical, e sexo é uma distinção semântica. Um nome pode pertencer ao gênero masculino e designar alguém do sexo feminino, como mulherão, por exemplo, que, apesar de masculino, designa uma mulher extremamente feminina.  Também pode ocorrer que um nome  feminino designe alguém do sexo masculino, como sentinela, criança, vítima, testemunha, por exemplo. Não há razão para essa confusão entre gênero e sexo, nem há nenhum argumento que possa defender o uso de um pelo outro. Se esse erro se generalizar, cedo ouviremos falar de “relações genéricas” em lugar de “relações sexuais” e  de “sexo lírico e dramático” em lugar de “gênero lírico e dramático”. Um transexual viraria um transgenérico? Um remédio genérico nas farmácias viraria remédio sexual?

Inventou-se recentemente a palavra pedólatra (não dicionarizada) que, por sua formação, deveria designar aquele que adora crianças, como  um sinônimo não estigmatizado de pedófilo. Ocorre, no entanto, que a formação dessa palavra desrespeitou a sua origem etimológica e provocou confusão, porque seu uso se generalizou com o sentido de “aquele que adora pés” (podófilo ou podólatra). A confusão é tanta que um escritor chamado Miguel Dias ganhou o primeiro lugar num dos concursos “Talentos da Maturidade”, do Banco Real e teve seu conto “O pé de Júlia” publicado no livro Todas as estações, prefaciado por Deonísio da Silva, e publicado pela Editora Fundação Peirópolis, de São Paulo, em 2002. Diz ele, nas páginas 38-39: “Que não se confunda o pedólatra com o pedófilo. Condenável é a pedofilia (…). Menos grave é um indivíduo que adora pés (…).” O autor quis dar uma lição de semântica sem entender do riscado…

Outro erro de seleção lexical é o neologismo chocólatra, que é usado para designar aquele que adora chocolate, mas, pela sua má-formação, designa o adorador do choco, nome que em Portugal designa um molusco da família do polvo, conhecido no Brasil como siba. O adorador de chocolate deveria chamar-se chocolatólatra e não chocólatra.

Há também o adjetivo julinas, formado por analogia com juninas e usado para designar as festas de julho. Ocorre que as festas realizadas em julho são festas julianas. O nome julinas simplesmente não existe.

Um vereador (já falecido) queixou-se do salário dizendo que era um salário “pingue”. Por uma questão de sinestesia, achou que, por causa da tônica em i, pingue significaria “magro”, ou “diminuto”. Na verdade, pingue significa exatamente “gordo, abundante”. Se o salário era pingue, o vereador deveria dar-se por satisfeito..

Numa crônica intitulada  “Uma volta ao Caparaó”, publicada em A Gazeta, no dia 09-12-08, o cronista Francisco Aurélio Ribeiro escreveu: “…a bela, limpa e simpática cidade serrana do Caparaó se engalana, numa noite imemorável de cultura e arte.” – Eis aí outro erro de seleção lexical. O adjetivo imemorável é sinônimo de “imemorial”. Significa: “de que não há ou não pode haver memória, por causa de sua extraordinária antiguidade”. O adjetivo memorável é que significa “digno de permanecer na memória”, o que certamente terá querido dizer o cronista…

A língua, às vezes, prega armadilhas a quem escreve ou diz uma palavra sem saber exatamente o que ela significa…

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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