XEROX DE LIVROS

000- a coluna do Joauca - 500

Já se cogitou há algum tempo de um projeto de lei que permita a cópia xerográfica não apenas de capítulos de livro, mas também do livro inteiro, desde que seja para uso pessoal, sem intenções comerciais.  O preço do livro é alto demais no Brasil, e, sobretudo no caso de obras coletivas, é preferível  ter apenas o capítulo desejado e não o livro inteiro. A cópia é muito mais barata.

Reconheço que um estudante terá sua vida facilitada se lhe for permitido copiar o livro inteiro, já que a cópia, por mais páginas que tenha, é sempre mais barata. Mas o autor do livro copiado pode ser seriamente prejudicado.

Em 1982, Celso Pedro Luft publicou pela L& PM, de Porto Alegre, o livro O Gigolô das Palavras, título de uma crônica de Luís Fernando Veríssimo, equivocadamente analisada pelo gramático que achava estar publicando lições com embasamento linguístico. No dia 25-8-85, publiquei no Suplemento Literário do Minas Gerais uma crítica a esse livro  mostrando que muitas das observações do autor eram inadequadas, por se respaldarem em obras superadas, como a de Charles Hockett, A course in modern linguistics, publicada pela Macmillan de Nova Iorque em 1958. Uma das afirmações de Luft (que não levou em conta o fato de ter-se apoiado num livro escrito trinta anos antes) era a de que uma criança de três anos já é um adulto linguístico e sabe, portanto, fazer análise sintática (o que ele queria dizer é que a criança já constrói frases sintaticamente organizadas).  Ora, em 1974, quase uma década antes do lançamento do livro de Luft, já havia saído pela Eldorado, do Rio de Janeiro, organizado pelas professoras Maria Stella Fonseca e Moema F. Neves, o livro Sociolinguística, em cujas páginas 49-85 se encontra um estudo primoroso de William Labov intitulado “Estágios na aquisição do inglês Standard”, que mostra que é apenas a partir dos cinco anos que a criança, ao entrar na escola e ao pôr-se em contato com outras crianças, vizinhos e colegas,  aprende o dialeto do grupo e se distancia do dialeto familiar. Pode-se dizer, portanto, que uma criança de três anos apenas domina a gramática básica, em seu contato com a família.

Luft não gostou da minha crítica e partiu para uma resposta agressiva, publicada no Suplemento Literário, no dia 2 de novembro de 1985. A polêmica prosseguiu até o dia 27 de setembro de 1986, com meu artigo intitulado “Dissonância cognitiva”, em que mostro, citando Humberto de Campos, Rubem Braga  e Manuel Bandeira, entre outros cronistas, que, ao contrário do que afirmava Luft, a combinação de pronomes, a mesóclise e o emprego de tu e vós ainda se encontram em escritores brasileiros contemporâneos e não devem ser retirados das gramáticas de língua portuguesa.

No final de 1986, José Hildebrando Dacanal, que trabalhava na Editora Mercado Aberto e costumava ler o Suplemento Literário, pediu-me que reunisse todos os meus artigos da polêmica e organizasse um livro sobre o ensino da língua. Assim, em 1988, saiu, pela Mercado Aberto, o  meu livrinho Por uma política do ensino da língua, em que não cito Luft, porque, como justifiquei com o Dacanal, meu livro era uma proposta e não uma resposta.

Em 1988, ainda, a professora Edith Pimentel Pinto, pediu aos seus alunos de pós-graduação da Universidade de São Paulo, que analisassem os três livros que tratavam do mesmo assunto: o de Celso Luft, acima citado; o de Evanildo Bechara, intitulado Ensino da Gramática: Opressão? Liberdade? (São Paulo:Ática, 1985), também contradizendo Luft, embora indiretamente; e o meu. Os alunos compraram os livros de Luft e Bechara, mas acharam mais barato tirar cópia do meu, que era o mais fininho dos três… Resultado: fiquei sem receber os direitos autorais dos 30 exemplares que os alunos da Dra. Edith deixaram de comprar…

É por isso que sou contra a permissão de se fazerem cópias xerográficas de livros inteiros… Apesar de tudo, restou-me o consolo de saber que meu livro foi lido, analisado e eleito o segundo melhor dos três. O de Luft ficou em terceiro lugar.*

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

Siga o blog pelo Twitter.

Compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedInEmail this to someone