DICAS PARA QUEM ESCREVE (1)

000- a coluna do Joauca - 500

Há certas regrinhas que muitos usuários da língua desrespeitam quando escrevem, por vício de oralidade. Vejamos algumas delas.

1. Em face de/em frente de – As locuções prepositivas formadas com um substantivo têm sempre duas preposições: uma antes e outra depois do substantivo. Ex.: fim / a  fim de; atenção / em atenção a; função / em função de; respeito/ a respeito de /com respeito a; causa / por causa de; procura / à procura de, etc. Ora, como “frente” e “face” são substantivos, as locuções prepositivas correspondentes têm de ser formadas com duas preposições: à frente de/em frente a/em face de. Vale dizer: “frente a” e “face a” não existem, nem constam dos bons dicionários de língua.

As únicas locuções prepositivas com núcleo substantivo e apenas uma preposição no fim são, que eu saiba, “graças a” e “mercê de”, que são sinônimas. Esta última, com sentido de “ao capricho de”, tem também duas preposições ladeando o núcleo substantivo: “por mercê de”. A explicação para essas exceções, parece-me, prende-se à mudança de sentido ao longo do tempo. A expressão “graças a” é exceção talvez por causa da alteração semântica do latim “gratia”, agrado, para “favor” e “reconhecimento” (“dar graças a Deus”), que se manteve no sinônimo “mercê”: “mercê de Deus” (“pela mercê de Deus”). Assim “graças a” vem de “graças a Deus”, uma parte da expressão “dar graças a Deus”. As formas “graça” e “mercê” (esta, em sua tradução francesa, “merci”, denota agradecimento) estão na origem das formas respeitosas de tratamento de 2ª pessoa: vossa mercê (port.), vuestra merced (esp.), Lei (=ela, italiano), Sie (= elas, alemão). Em alemão,  a fórmula “vossa mercê” era traduzida no plural: Eure (por Euer) Gnaden, isto é, “vossas graças”.

2. Dentre – entre – de entre. “Dentre” é contração das preposições “de” e “entre”, e significa “do meio de”. Em outras palavras, se não há “de”, não há “dentre”. “Entre” significa “no meio de”, “em meio a”. Ex.: “Bendita sois vós entre (não “dentre”) as mulheres.” MAS: “Dentre nós sairá o candidato ao cargo” (sair de). “De entre” se escreve em duas palavras, quando se quer manter a percepção diferenciada das unidades de um conjunto: “Ela tirou essa idéia de entre os vários livros e professores que consultou.”

3. Afro-afra – Certos adjetivos pátrios podem ser abreviados, como luso (lusitano), afro (africano), nipo (nipônico), franco (francês), etc. Outros têm equivalentes reduzidos bastante diferentes, como galo (francês), ebúrneo (costa-marfinense), sino (chinês), etc.

Em linguística, dizemos que uma “forma” é presa quando não tem existência isolada. “Forma” é o nome que se dá a um fonema ou a um conjunto de fonemas dotados de significação. Assim, o S final de “pratos” é uma forma que significa “mais de um”, característica do plural. E é uma forma presa, porque só pode aparecer anexada a um nome (substantivo ou adjetivo).  A palavra “prato” é também uma forma, já que tem significação própria. Mas é uma forma livre, porque é capaz de, sozinha, constituir uma frase, como na resposta à pergunta: “O que você comprou? Prato ou panela?” Resposta:  “Prato”.

Adjetivos pátrios, como nipo- ou sino-, aparecem nos dicionários com um hífen aposto à vogal final, para indicar que são formas presas, que só existem na composição de formas livres, como sino-brasileiro ou nipo-americano. Assim, não podemos dizer “música sina” nem “canção nipa”. Mas “luso” e “afro”, contudo, são formas livres, isto é, são adjetivos que têm pronúncia independente de qualquer outra forma, como em “música lusa”, “dança afra”, embora possam aparecer como formas presas na composição de outras formas, como em “luso-brasileiro” ou em “afrodescendente”. O Volp e os dicionários Houaiss e Aurélio registram “afro” indevidamente como forma apenas presa, contrariando bons gramáticos, como Domingos Paschoal Cegalla (Dicionário de dificuldades da língua portuguesa) e o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa.

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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