DICAS PARA QUEM ESCREVE (II)

000- a coluna do Joauca - 500

 

1. Uso do apóstrofo – Segundo o Formulário Ortográfico, reproduzido nas partes pré-textuais do Aurélio (p. XX-XXV) e no Volp, usa-se o apóstrofo em apenas três situações: a) para indicar supressão de uma letra ou letras num verso: c’roa, ‘star; b) para reproduzir pronúncias populares: ‘tava, ‘teve; c) para indicar a supressão da vogal em palavras compostas por hífen: pau-d’água (bêbado), copo-d’água (planta, lanche). E observa o Formulário Ortográfico: “Restringindo-se o emprego do apóstrofo a esses casos, cumpre não se use dele em nenhuma outra hipótese.” Assim: falta dágua, dele, doutro, daqui, vivalma, etc. Apesar disso, os dicionários registram “filho d’algo” (fidalgo), sem hífen e com apóstrofo.

2. Ganho-ganhado – Quando um verbo tem dois particípios (verbo abundante), o regular tem sempre função verbal; e o irregular, função adjetiva. Por exemplo: O vento tinha secado a roupa (função verbal). A roupa está seca (função adjetiva). Os particípios regulares se constroem com “ter” ou “haver”; os irregulares, basicamente, com “ser” ou “estar”. Se o particípio regular puder ser usado também como adjetivo e não apenas como verbo, então os dois particípios poderão ter sentido diferente: homem omisso (irresponsável) / homem omitido (esquecido); garota enxuta (de corpo bonito / garota enxugada (livre de umidade); carro seguro (que dá segurança ) / carro segurado (coberto por uma seguradora); trabalho correto (sem erro) / trabalho corrigido (que sofreu correções); amigo oculto (amigo X) / amigo ocultado (escondido); abstraído/abstrato; pervertido/perverso; torcido/torto; rompido/roto; corrompido/corrupto, etc.

Em contrapartida, há  três verbos que perderam seus particípios regulares há pelo menos 200 anos, restando apenas os irregulares: ganhar (ganho), pagar (pago) e gastar (gasto). Não existem mais as formas “ganhado”, “pagado” e “gastado”, apesar de aparecer na imprensa, vez por outra, a forma “ganhado”. Seu uso é um anacronismo, um arcaísmo. Numa consulta ao Aurélio, no verbete “ganhar”, item 30, ler-se-á: “a forma regular ‘ganhado’ quase não é usada hoje, a não ser em certos provérbios e  locuções, como, p. ex., vintém ganhado, vintém poupado, e viver do ganhado.” Basta conferir.

3. Ovo estalado/ovo estrelado – O Houaiss, no verbete “estalar”, registra, na acepção 6, o verbo “estalar” como sinônimo de “estrelar”, isto é, de fritar o ovo com a clara e a gema inteiriça. A primeira acepção de “estalar” é “partir, quebrar, espedaçar”, tanto no Houaiss quanto no Aurélio. Para os cozinheiros, ovo estrelado é o ovo frito inteiro, com clara e gema inteiras. E ovo estalado é o ovo frito aos pedaços, como o que se usa para fazer farofa ou recheio de frango. Portanto não existe erro nenhum em se dizer “ovo estalado”, ainda que se não queira fazer a distinção dos “chefs” de cozinha.

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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