VERSO CONFUSO DO HINO NACIONAL

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Hilário Soneghet, no soneto “Saara”, do livro Quase toda a poesia (Vitória: Florecultura, 1999, p. 36) tem no segundo quarteto os dois versos iniciais seguintes: “O meu camelo, magro, vacilante,/ de peso esmaga a carga de marfim.”  Trata-se de uma inversão sintática chamada anástrofe, pouco comum na obra do poeta, que primava pela simplicidade e pela clareza. Em ordem direta, os versos querem dizer: “a carga de marfim de peso esmaga o meu camelo, magro, vacilante”. O adjunto adnominal  “de peso” equivale ao adjetivo  “pesada” (a carga de marfim pesada). Repare-se que, na anástrofe, o objeto direto (o meu camelo…) ficou no lugar do sujeito, e o sujeito (carga de marfim de peso) ficou no lugar do objeto.

A letra do Hino Nacional, do mau poeta e péssimo gramático Osório Duque Estrada, está cheia de palavras difíceis (lábaro, plácidas, fúlgidos, garrida, impávido colosso, penhor dessa igualdade, florão da América…), tem versos de empréstimo da “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias (“Nossos bosques têm mais vida; / nossa vida, mais amores”), num encaixe desajeitado, porque torna descontínuo o segundo verso (“em tem seio”), para manter o ritmo; tem um cacófato bravo (herói cobrado), uma ofensa ao país e ao povo, involuntária, embora, numa leitura denotativa que o “poeta” não percebeu ou ignorou (deitado eternamente em berço esplêndido); e tem inversões sintáticas terríveis que prejudicam a compreensão do hino (“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”, isto é, as margens plácidas do Ipiranga é que ouviram o brado retumbante de um povo heroico), e, além de tudo, é extremamente longa, com dois momentos semelhantes que levam à confusão, na hora do canto (“Brasil de um sonho intenso…” e “Brasil de amor eterno…”). Nesses momentos, as pessoas param de cantar, esperando que um mais afoito comece a estrofe problemática. Todos esses defeitos já bastariam como argumento legítimo para que a letra do Hino seja inteiramente substituída por outra mais fácil de entender e de cantar.

Mas o que pretendo nesta croniquinha é apontar, no Hino Nacional, uma inversão sintática, no verso “E o teu futuro espelha essa grandeza”, que confunde até mesmo professores de português e “tradutores” do Hino. Ora, como o futuro ainda não existe, não pode espelhar nada. Como nos versos acima citados de Hilário Soneghet, o sujeito e o objeto da sentença estão com suas posições trocadas. A grandeza é que espelha o futuro. Traduzindo: como o país é grande, essa grandeza espelhará o futuro, isto é, o futuro terá igual grandeza.

Na sua Introdução à lingüística teórica  (São Paulo: Nacional / Edusp, 1979), John Lyons, na nota 5 da página 101,comenta exemplos semelhantes em que o sujeito e o objeto estão invertidos em sua posição na sentença. Em Os Lusíadas, canto V, estrofe 24, Camões também utiliza uma anástrofe semelhante: “Enquanto o mar cortava a armada”. Na verdade, a armada é que cortava o mar.

Se queremos que o povo brasileiro aprenda a cantar corretamente o Hino Nacional, já é mais que tempo de propor  uma substituição dos versos infelizes de Osório Duque Estrada. Ou todos continuaremos a ignorar a letra e/ou a esperar que  alguém diga primeiro “Brasil de um sonho intenso” para que a arraia-miúda continue a cantar o Hino…

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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CHAMEM O LULLA

Estaleiro OSX, de Eike, tenta levantar R$ 400 milhões

000 - Eike Batista Mendigo

A empresa naval OSX, de Eike Batista, tenta levantar até R$ 400 milhões para escapar da recuperação judicial. O destino da companhia será decidido até o início da próxima semana.

A empresa vem sendo pressionada pelos fornecedores, que estão com pagamentos em atraso e já protocolaram protestos na Justiça.

A OSX quer evitar seguir o mesmo caminho da petroleira OGX, que pediu recuperação judicial ontem. A medida provocaria um constrangimento para o governo, porque significaria um calote de R$ 1 bilhão de empréstimos dados por Caixa e BNDES.

O dinheiro novo pode vir de três fontes: uma parceria com o grupo espanhol Dragados no estaleiro localizado no porto do Açu; um empréstimo de R$ 100 milhões dos bancos Santander e Votorantim; e R$ 200 milhões da venda de um equipamento, conforme antecipou a Folha.

Votorantim e Santander garantem, respectivamente, os empréstimos de BNDES e Caixa. Os quatros bancos negociam a renovação da linha de crédito por um ano e a injeção de dinheiro novo.

Segundo apurou a reportagem, a renovação do crédito ainda não foi concluída, porque o Santander gostaria que a Caixa reduzisse um pouco o tamanho da sua garantia.

O Santander também é o responsável por aproximar a OSX da espanhola Dragados.

A situação da OSX é menos desesperadora que a da petroleira OGX, porque tem ativos valiosos, que superam o montante da dívida.

Segundo fontes próximas à companhia, se os fornecedores aceitarem negociar, as dívidas da OSX ficariam em R$ 4 bilhões. Já suas plataformas de petróleo e outros equipamentos valem um pouco mais que isso.

O problema é que a OSX precisa de tempo para vender as plataformas e pagar as dívidas. Os fornecedores menores estão protocolando processos na Justiça.*

(*) RAQUEL LANDIM, DE SÃO PAULO. RENATA AGOSTINI, DE BRASÍLIA. – FOLHA DE SP

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DICAS PARA QUEM ESCREVE (IV)

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1. Fato real — Alguns gramáticos acham que é redundante a expressão “fato real”, na pressuposição de que todos os fatos são necessariamente reais. Leiamos o que dizem os melhores dicionários de língua, no Brasil. O Houaiss, no verbete “história”, acepção 11, define: “narração de eventos fictícios ou não”. No verbete “narrativa”, lemos: “exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou imagens”. No subverbete “conto de fadas”, do verbete “conto 1”, lê-se: “LIT. conto infantil que narra encantamentos e fatos maravilhosos com a intervenção de fadas (boas ou más)”. No verbete “romance”, na acepção 7, lê-se: “prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social, etc.”. Finalmente, no verbete “novela”,  na parte referente à etimologia do termo, lemos: “narração de um acontecimento real ou imaginário”.

O Aurélio, no verbete “novela”, diz: “narração, usualmente curta, ordenada e completa, de fatos humanos fictícios, mas, por via de regra, verossímeis”. E no verbete “romance”, do Aurélio, há a seguinte lição, na acepção 7: “fato ou episódio real, mas tão complicado que parece inacreditável”.

Em resumo: um fato, evento ou acontecimento pode ser real, fictício, maravilhoso, imaginário, verossímil e até inacreditável. Vale dizer: “fato real” não é pleonasmo.

2. Parece que os bancos estão de briga com a língua. O Banco do Brasil termina uma propaganda recente com a seguinte frase: “Um banco cada vez mais bom para todos”. Até mesmo um falante semianalfabeto diria “melhor” em lugar de “mais bom”. O Bradesco entra nessa briga, inovando na conjugação verbal. Numa de suas propagandas, a mulher chega ao caixa de uma loja, talvez uma confeitaria ou padaria, e diz: “Não me dá uma barra de chocolate”. Teria sido melhor dizer: “Não me dê uma barra de chocolate”.  Será que os donos do dinheiro também têm poder de mudar a língua?

3. Sequer – Há uma tendência geral entre os bons usuários da língua a utilizar a partícula de exclusão ou o advérbio “sequer” com o sentido negativo, como na frase: “Ele sequer pagou o almoço, porque sequer tinha um real na carteira.”  Os dicionários de língua de Cândido de Figueiredo, Moraes Silva, Aurélio Buarque de H. Ferreira, Caldas Aulete, Antenor Nascentes e Antônio Houaiss; e os dicionários etimológicos de J. T. da Silva Bastos e A. G. Cunha ensinam que “sequer” significa “ao menos”, “pelo menos”, tendo, portanto, valor afirmativo. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, ensina:  “Usa-se com valor enfático em contexto negativo ou em orações condicionais, sendo parafraseável por “nem que seja/fosse”, “(nem) ao menos”. Não tem sequer um amigo. Não escreveu sequer a introdução do artigo. Não moveu sequer um dedo. Faria o trabalho, se me dessem sequer uma oportunidade. nem sequer, loc. adv., serve para formar a negação de uma frase e apresenta valor enfático sendo parafraseável por “nem ao menos”, “nem mesmo”. Nem sequer estava preocupado com isso. Embora o Houaiss reconheça que “sequer” é “usado modernamente quase sempre na negativa”, bons autores ainda o usam com o valor positivo de “ao menos”, “pelo menos”. Eis o que diz o Pe. Lemos Barbosa a respeito da língua tupi, no primeiro parágrafo do prefácio ao seu Curso de Tupi Antigo (Rio de Janeiro: São José, 1956, p. 9):  “Língua vulgar  prevalente nos primeiros tempos da Colônia, falada na catequese e nas bandeiras, instrumento das conquistas espirituais e territoriais da nossa história, o seu conhecimento, sequer superficial, faz parte da cultura nacional”. O uso de “sequer” negativo pode provocar ambigüidades, em confronto com o uso adequado, como em: “Há pacientes que sequer sabem o nome do médico”.

Que o leitor responda: segundo o texto, os pacientes sabem ou não o nome do médico?

Sigamos, pois, a orientação dos bons dicionários de língua…

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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MULHER ABANDONADA É FOGO…

Em 2009, depois de ameaçar ficar longe de Brasília se não festejasse o Dia da Independência no camarote presidencial, Rose viu o desfile ao lado de Lula. Quatro anos mais tarde, é bom que se cuide

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Em 6 de setembro de 2009, o Cerimonial do Palácio do Planalto foi alvejado por um inquietante pito eletrônico: “Não foi autorizada minha presença e de meu acompanhante no camarote do PR. Gostaria de saber de quem partiu a restrição. Ou vou no do PR, ou simplesmente não vou. Desculpe o jeito, mas estou muito ofendida”. Oficialmente, a mensagem fora remetida pela chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo. Mas o tom e o teor do recado lembraram aos destinatários que Rosemary Noronha era muito mais que isso.

Tanto era que a chefia do Cerimonial só precisou de alguns minutos para fazer chegar ao presidente Lula o que lhes parecia um grave assunto de Estado: se não ficasse ao lado do PR, iniciais do cargo ocupado pelo homem a quem se referia como “meu namorado” quando alguém precisava saber com quem estava falando, Rose não assistiria ao desfile do Sete de Setembro em Brasília. Imediatamente, Lula incumbiu o secretário Gilberto Carvalho de resolver o problema. Sem fazer barulho e, claro, sem provocar ruídos no doce convívio com a mulher ofendida.

Especialista na lida com material inflamável, a caixa-preta mais abarrotada do país deve ter achado aquela missão coisa para principiantes. Bastou-lhe anexar dois nomes à lista dos convidados para o camarote e remanejar posições na fila do gargarejo. Na manhã seguinte, lá estavam Lula e a segunda dama lado a lado, trocando sorrisos entre a passagem da ala dos cadetes e uma pirueta da esquadrilha da fumaça. Bem mais complicada foi a missão confiada a Gilberto Carvalho em dezembro passado, depois das explosivas descobertas da Operação Porto Seguro.

Para que o casal não ficasse ainda pior no retrato, o agora secretário-geral da Presidência foi encarregado de evitar que investigações internas confirmassem que, durante anos, Rose usou o posto de Primeiríssima Amiga para ganhar dinheiro como quadrilheira de quinta. Gilberto Carvalho entrou em ação assim que soube da sindicância aberta pela Casa Civil para investigar o caso da ex-secretária de sindicato que subiu na vida pela porta dos fundos.

Deu tudo errado, mostra a reportagem de VEJA. Primeiro, o ex-seminarista que hoje só celebra missas negras abriu um inquérito paralelo concebido para dar em nada. Falhou. Depois, armou sucessivas tramoias para bloquear o avanço da sindicância. A ministra Gleisi Hoffmann não gostou da intromissão abusiva. Além de interpelar o colega, queixou-se a Dilma Rousseff e foi instruída para seguir em frente. No fim de setembro, além de Rosemary Noronha, foram exonerados dois auxiliares diretos de Gilberto Carvalho.

Envolvidos na trama, perderam o emprego o secretário de Controle Interno, Jerri Coelho, e seu subordinado Torbi Rech, coordenador-geral de Correição. Atropelados por Gleisi, não foram socorridos pelo chefe que articulou a conspiração. Caprichando na pose de quem nunca soube de nada, Gilberto Carvalho tentou assumir a paternidade da ideia de demitir os comparsas que “inexplicavelmente adotaram todas as medidas sem consultar qualquer um dos seus superiores”.

Neste domingo, em entrevista ao jornal espanhol El Pais, Lula jurou que nada tem a ver com as patifarias do partido que fundou e sempre comandou. “Por que queríamos chegar ao governo? Não para fazer o que os outros fazem, mas para atuar de maneira diferente”, fingiu indignar-se o chefão do bando que juntou os incapazes capazes de tudo — como Gilberto Carvalho. Haja cinismo.

Gente assim não tem afetos reais. Rose Noronha que se cuide.*

(*) Blog do Augusto Nunes.

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VALE TUDO

Como a oposição parece achar que não se bate em mulher nem com palavras, Dilma inaugura até casas sem água e sem luz

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Confrontados com a notícia de que Dilma Rousseff anda enxergando um cachorro oculto atrás de cada criança brasileira, os craques do duelo retórico que desapareceram da paisagem política teriam demolido a usina de maluquices com meia dúzia de frases de grosso calibre. Um Carlos Lacerda, por exemplo, provavelmente sugeriria que a chefe de governo dedicasse ao exame dos incontáveis problemas reais o tempo que desperdiça em visões mediúnicas. Um Jânio Quadros talvez perguntasse se os cães também são distribuídos de acordo com as classes sociais ou se a presidente já viu um galgo afegão seguindo um pequeno favelado (ou vira-latas escoltando a filharada da elite golpista).

Para sorte de Dilma, a Era da Mediocridade transformou numa espécie em extinção a tribo dos bons de briga, ágeis no raciocínio e rápidos no gatilho ─ o antagonista mal acabara de disparar uma bala bêbada e lá vinha o revide imediato, certeiro, letal. Em vez de Lacerda, Jânio e tantos outros que nunca negavam fogo, que jamais deixavam de apanhar a luva atirada pelo desafiante, o neurônio solitário lida com adversários exemplarmente gentis, que insistem em valsar com quem só dança quadrilha. Previsivelmente, os candidatos à Presidência não abriram a boca sobre a história do cachorro oculto.

Poupada de merecidíssimas lambadas, é natural que Dilma tenha desembarcado em Itajubá, dois dias depois da discurseira alucinada em Porto Alegre, tão à vontade quanto Rosemary Noronha num voo noturno do Aerolula. Caprichando na pose da supergerente que chegou de trem-bala para passear de barco nas águas já transpostas do Rio São Francisco, a candidata à reeleição inaugurou uma fábrica que não construiu, jurou em comícios disfarçados de entrevistas que não está em campanha e, antes de seguir viagem, decidiu dar conselhos aos interessados em tomar-lhe o emprego.

“Acredito que, para as pessoas que querem concorrer ao cargo, elas têm de se preparar, estudar muito, ver quais são os problemas do Brasil”, ensinou. Um Leonel Brizola teria retrucado que, se os demais pretendentes precisam estudar para melhorar a cabeça, a cabeça de Dilma é que precisa ser estudada antes que fique ainda pior. É coisa para uma junta de especialistas. É um caso clínico e tanto (e, como a ciência não para de avançar, pode até ter cura). Os líderes da oposição oficial, sempre cavalheirescos, limitaram-se a murmurar algumas ressalvas e esquecer a provocação grosseira.

A falta de contragolpes vigorosos ajuda a entender o crescente atrevimento da governante à caça do segundo mandato. Nesta terça-feira, Dilma apareceu em Vitória da Conquista, na Bahia, para entregar aos eleitores 1.740 casas populares. O lote incluiu mais de mil moradias sem água e sem luz. Até agora, os adversários não pareceram indignados com outro monumento ao cinismo. Devem achar que não se deve bater em mulher nem com palavras. Podem acabar apanhando do vasto exército de eleitores que desistiu de acompanhar generais que não combatem.*

(*) Blog do Augusto Nunes

 

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DICAS PARA QUEM ESCREVE (III)

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1. Mais bem/mais mal. – Os advérbios “bem” e “mal” formam com o particípio dos verbos um todo semântico indissociável. Por isso,  todas as palavras formadas com “mal” ou “bem” e um particípio se escrevem como compostas ou derivadas, em que “mal” e “bem” funcionam como primeiros elementos de composição ou como prefixos: mal-afortunado, mal-educado, mal-arrumado, mal-assombrado, malcriado, malconservado, malfadado, malformado, malferido, malfeito, malquerido, mal-intencionado, malsinado, malsucedido, malvisto, etc.; bem-ordenado, bem-sucedido, bem-vindo, bem-intencionado, bem-dotado, bem-visto, bem-querido, etc.

Ora, presumir que se possa dizer “melhor educado” ou “pior pago” significa admitir a quebra dessa unidade semântica e a possibilidade de se dizer “melhor vindo” ou “pior criado”, em lugar de “mais bem-vindo” ou “mais malcriado”.

Se algum escritor de renome usou “melhor” ou “pior” antes de particípio, quebrando essa unidade semântica, isso não é motivo para transformar em norma o que não é mais que feito de fala: ao escritor compete quebrar e não seguir as normas gramaticais do dialeto culto. É ilegítima, embora generalizada, a citação de escritores para abono de regras gramaticais: primeiro, porque não foi a linguagem dos escritores que sedimentou a norma culta portuguesa, mas a linguagem jurídica; e, segundo, porque o objetivo de um escritor é renovar a linguagem, ser original, ser diferente dos outros.

Portanto, apesar dos exemplos encontrados nas gramáticas e nos dicionários de língua e tirados de bons escritores, não se deve dizer “melhor” nem “pior” antes de particípio. O adequado é dizer “mais bem” e “mais mal” antes de particípio, ainda que o ouvido pouco treinado em norma culta estranhe essa prolação, quase sempre inusitada.

A propósito, nunca se deve dizer “mais bom”, mas “melhor”. Uma propaganda recente do Banco do Brasil anuncia, no final: “Banco do Brasil – cada vez mais bom para todos”. Acho que nem mesmo um analfabeto diria “mais bom”…

2. A nível de/em nível de – As gramáticas condenam indevidamente a locução prepositiva “a nível de”, porque se trata de um galicismo (ex.: “Il est à mon niveau”, isto é, “ele é do meu nível” ou “ele está no meu nível”), e ensinam que se deve dizer apenas “em nível de”. Ora, se formos condenar galicismos, temos de evitar dizer “abajur”, “avalanche”, “flamboaiã” (forma portuguesa de “flamboyant”, já dicionarizada) e muitas outras palavras. E teremos de condenar também, segundo Cláudio Brandão, em sua Sintaxe Portuguesa (Belo Horizonte: ed. do Autor, 1963, p. 559-60), certas expressões de uso corrente que também são galicismos, como “galinha ao molho pardo” (em vernáculo deveria ser “galinha em molho pardo”), ou “trabalho a fazer” (o ideal seria “trabalho para fazer”) ou “equação a duas incógnitas” (o mais recomendável seria “equação com duas incógnitas” ou “de duas incógnitas”), ou “solução à base de sal” (em vernáculo diríamos “em base de sal” ou “com base em sal”). Portanto “em nível de” é construção preferível, por ser mais portuguesa, mas isso não significa que a expressão “a nível de” esteja errada. Em outras palavras: diga “em nível de”, mas evite condenar quem disser “a nível de”, que também é forma aceitável.

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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BANANA REPUBLIC

 O pecador que se nomeou Juiz dos Juízes escapou por pouco de enfrentar a primavera pendurado em embargos infringentes

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Na festa promovida pela OAB para celebrar o 25º aniversário da Constituição de 1988, que o PT se recusou a assinar no dia da promulgação, o ex-presidente Lula confirmou que, se descobrissem que o governo simpatizava com o calendário gregoriano, os ferozes oposicionistas do século passado proporiam a adoção do calendário chinês. “O PT foi o único partido que, no dia da instalação da Constituinte, entregou um projeto de Constituição”, lembrou o palanque ambulante. “Só tínhamos 16 deputados, mas éramos desaforados como se fôssemos 500″. (Desaforado, como ensina o glossário da novílingua lulopetista, é o adjetivo que se deve aplicar a companheiros carentes de juízo e neurônios, que não resistem à tentação da molecagem irresponsável quando deliberam sobre assuntos relevantes).

“Se a Constituição que a gente apresentou fosse aprovada”, admitiu com o sorriso jocoso de quem retransmite uma previsão de Guido Mantega, “certamente seria ingovernável, porque éramos muito duros na queda”. No glossário da novilíngua, duro na queda é a expressão que designa quem confunde teimosia com coerência, é incapaz de refletir sobre ideias divergentes, rejeita o convívio dos contrários, sonha com o partido único e persegue o poder perpétuo. Há dez anos no controle do governo federal, os devotos continuam tão “duros na queda” quanto nos velhos tempos. O mestre mudou para pior.

Nesta terça-feira, por exemplo, aproveitou o sarau na OAB para proclamar-se Patrono do Judiciário e Controlador-Geral do Supremo Tribunal Federal. Caprichando na pose de Juiz dos Juízes, informou ter descoberto que os ministros devem usar a toga por menos tempo. “Se tudo no país pode ser renovado, por que um juiz tem que ficar a vida inteira?”, comparou. “Eu acho que tem que ter mandato em tudo quanto é lugar, porque senão as pessoas ficam 35, 40 anos”. Ele garante que a nova fórmula “teria outra vantagem: a alternância”. Mas ainda não decidiu se a idade limite para a aposentadoria “vai ser 75 anos ou vai ficar como está”.

O fundador do Brasil Maravilha reiterou que, se pudesse voltar no tempo, corrigiria um dos raríssimos erros que cometeu. “Eu teria mais critério para nomear ministros do Supremo”, penitenciou-se com sotaque de pecador no confessionário. Mais critério, no caso, quer dizer mais desfaçatez, ou nenhuma vergonha. Lula nunca levou em conta os dois pré-requisitos constitucionais que antigamente orientavam o preenchimento de vagas no STF: eram indicados pelo chefe do Executivo e sabatinados pelo Senado apenas juristas dotados de notório saber e reputação ilibada.

Lula sempre indicou (e os senadores engoliram sem engasgos) doutores que lhe pareceram prontos para pagar a toga com a absolvição de bandidos companheiros e cumprir disciplinadamente as determinações do presidente que lhes garantiu o empregão. Com o julgamento do mensalão, descobriu que existem juízes independentes e sem medo. A decepção e o ressentimento induziram o estadista de galinheiro a parir a aberração com que sempre sonharam os bahcaréis de porta de cadeia: a Teoria do Mais Critério.

Dos ministros nomeados por Lula, permanecem no STF Joaquim Barbosa, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli. Os dois primeiros não chegariam lá se o chefe do Executivo tivesse seguido a teoria que inventou. O nome de Lewandowski foi soprado por Marisa Letícia, que vivia ouvindo da vizinha elogios superlativos ao filho desembargador. A indicação acabou dando certo, mas o primeiro dos selecionados com mais critério foi Dias Toffoli. Duas vezes reprovado no exame para o ingresso na magistratura, ex-advogado do PT, ex-assessor de José Dirceu na Casa Civil, ex-chefe da Advocacia-Geral da União, tinha tudo para brilhar como ministro da defesa dos quadrilheiros do mensalão. Bingo.

Lula deveria ser mais amável com juízes que qualifica de “ingratos”, caso do já aposentado Ayres Britto e, sobretudo, de Joaquim Barbosa. Se fossem menos clementes, ambos teriam argumentos de sobra para defender a instalação do ex-presidente no banco dos réus. Os ministros fingiram acreditar que Lula nunca soube de nada que ocorria nas salas ao lado, acima e logo abaixo do gabinete presidencial. Também fingiram nunca ter ouvido o que disse José Dirceu mais de uma vez: “Nunca fiz nada sem a autorização do presidente Lula”.

Se os julgadores optassem por um tratamento menos compassivo, este começo de primavera encontraria o Juiz dos Juízes pendurado em meia dúzia de embargos infringentes. E Dirceu teria muito mais chances de repassar a patente de chefe de quadrilha.*

(*) Blog do Augusto Nunes.

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DE SINÔNIMOS E ANTÔNIMOS

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A sinonímia é a propriedade que têm dois ou mais termos, expressões ou palavras reais e instrumentos  gramaticais de se empregarem um pelo outro sem prejuízo do sentido.  Por essa definição entende-se que existem dois tipos de sinonímia: a das palavras reais e a dos instrumentos gramaticais.

A sinonímia gramatical é a que se verifica com prefixos, sufixos, raízes e conjunções, como, por exemplo, in- e des- (que significam negação: inabitado/desabitado), -eiro e –ário (que significam estado, profissão:  costureiro/funcionário), digit(i) e datilo, que significam dedo (digitação/datiloscopia), pois e porque que relacionam causa e efeito  (choveu, pois a rua está molhada/porque a rua está molhada).

As gramáticas, contudo, estudam a sinonímia  lexical, isto é, a de termos ou palavras reais, como erguer/levantar, chato/enfadonho, causa/motivo.

O problema maior da sinonímia está em acreditar que o emprego de um termo por outro se processa nos dois sentidos. Em muitos casos, é possível substituir um termo pelo seu equivalente sinonímico sem alteração semântica, como nos pares seguintes: notar/observar, despido/nu, prerrogativa/privilégio. Mas a sinonímia nem sempre é simétrica, recíproca ou bitransitiva (bitransitivo aqui entendido como “o que transita em duas vias”). O sentido do texto é que vai permitir a substituição de um termo por outro sem alteração semântica. A sinonímia deve ser estudada como contextual. Assim, podemos dizer que, na frase seguinte, “mãe” é sinônimo de “causa”: “A ociosidade é a mãe de todos os vícios.” Mas não podemos dizer que a invasão da Polônia foi a mãe da II Guerra Mundial.  É importante que se leve em conta a metáfora. Em “ um monstro de ser humano”, monstro é sinônimo de horror; em “um monstro de inteligência”, monstro é sinônimo de colosso! No primeiro caso, é uma ofensa (ser humano cruel); no segundo, um elogio (pessoa inteligentíssima).

Pássaro é uma das treze ordens de aves. Podemos dizer que o gavião e o pavão são aves, mas não podemos dizer que são pássaros, porque o gavião é rapineiro, e o pavão é galináceo. Ave, portanto, é um termo de significação mais abrangente que inclui desde as corredoras (como a ema e o avestruz) aos palmípedes (como patos e gansos). Quando uma palavra tem um sentido genérico, de menor especificidade,  que abrange e inclui o significado de várias outras, dizemos que essa palavra é um hiperônimo. Flor, por exemplo, é um hiperônimo que inclui rosa, violeta, jasmim, margarida, etc. Por sua vez, rosa é hipônimo de flor. Veículo é um hiperônimo que inclui carro, bicicleta, moto, ônibus, etc.  Por sua vez, velocípede é um hipônimo em relação a veículo. Por causa do conceito de hiperônimo/hipônimo, fica sem sentido definir pronome como substituto de nome, já que o hiperônimo substitui nome sem ser pronome: O automóvel capotou na curva. A perícia verificou que o veículo estava com os pneus carecas. A palavra veículo substitui automóvel e não é pronome. E há pronomes que não substituem nome algum, como  o inglês “it”, o alemão “es “ e o francês  “il”  na frase equivalente a “chove”: it rains, es regnet, il pleut.

O hiperônimo, grosso modo, equivale à ideia de extensão, em lógica; e o hipônimo, à ideia de compreensão. Animal, por exemplo, significa:  “ser que vive”, “que sente” e “que se move”, ideia que se estende a todo ser que vive, que sente e que se move, desde a pulga ou a minhoca  ao elefante ou à baleia. Homem tem maior compreensão que animal, porque inclui “racional” em seu significado, mas tem menor extensão porque limita a ideia de animal a um único tipo de ser que vive, que sente e que se move.  Assim, homem é hipônimo em relação a animal, porque tem uma extensão menor.  O hiperônimo,  assim como a extensão,  inclui um universo maior em seu significado. Assim, assento oferece uma  ideia ampla (extensão) de objetos que inclui cadeira, poltrona, banco, sofá, etc. Sofá, por sua vez, oferece uma ideia restrita (compreensão) de assento.  Quanto maior a extensão, menor a compreensão, isto é, quanto mais genérico for um termo, menos preciso ele é.

O oposto a sinônimo é antônimo, que também é normalmente contextual. Recorde-se que nem sempre um antônimo tradicional se pode opor ao seu par: seco se opõe a molhado, mas vinho seco não se opõe a vinho molhado, que é expressão inexistente. Da mesma forma, dias úteis não se opõe a dias inúteis, vinho verde não se opõe a vinho madurocrime organizado não se opõe a crime desorganizado, arraia-miúda não se opõe a arraia-graúda, que não existe, assim como alta-roda (alta sociedade) não se opõe a baixa-roda, que também não existe.

Curiosamente, há antônimos consagrados indevidamente, como verdade/mentira. Verdade é um problema lógico; mentira é um problema moral. Só pode mentir quem conhece a verdade, mas prefere sonegá-la. Já erro (problema lógico ou paralógico) é que seria o verdadeiro antônimo de verdade, já que a pessoa que erra desconhece a verdade. Um erro dito por alguém pode levar o ouvinte a crer que esse alguém minta, já que o erro é a não coincidência da expressão com o objeto, exatamente como a mentira, que também é a não coincidência da expressão com o objeto. A diferença é que, no erro, a expressão coincide com o pensamento de quem se expressa, enquanto que, na mentira, o pensamento contraria a expressão do falante. Como não podemos saber o que está pensando a pessoa que fala, dizemos, para não agredir, que ela faltou à verdade. Faltar à verdade é sinônimo tanto de errar quanto de mentir, porque em ambos os casos a verdade faleceu. Mas a expressão faltar à verdade não ofende e traduz adequadamente a descrença ou a ideia de quem ouve.

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

 

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Diretor da ANS se demite após omitir dados em currículo

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O diretor da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) Elano Figueiredo pediu exoneração do cargo nesta quinta-feira (3) após a Comissão de Ética Pública da Presidência da República recomendar sua destituição. O processo foi aberto com base em reportagem do jornal o Estado de S.Paulo que revelou, no dia 3 de agosto, um dia depois de ele tomar posse, que ele omitiu do currículo público a informação sobre ter trabalhado para a operadora de saúde Hapvida.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) lançou na última segunda-feira (12) o Guia Prático sobre Planos de Saúde para esclarecer dúvidas dos beneficiários ou de quem deseja contratar uma operadora pela primeira vez. O guia será distribuído em eventos organizados por Procons e pela agência em todo o país Leia mais Reprodução

O currículo foi encaminhado pela Presidência da República ao Senado no processo de sabatina e é uma das referências dos senadores para avaliação do nome. A revelação do jornal provocou uma série de manifestações de órgãos de defesa do consumidor que pediram a saída de Elano. É a primeira vez que um diretor da ANS deixa o cargo sob questionamentos éticos.

O jornal também revelou que Elano assinou dezenas de ações em defesa da Hapvida, quando trabalhou para a empresa com carteira assinada, contra a ANS. Ele havia justificado que não incluiu o trabalho para a operadora porque apenas advogou para a empresa, mas o jornal revelou que ele foi diretor, com carteira assinada.

Em nota divulgada nesta quinta-feira, 3, Elano afirma que a decisão da Comissão de Ética foi “equivocada” e que não apontou conflito de interesse, mesmo assim pediu sua destituição. A comissão ainda não divulgou oficialmente sua determinação. O pedido de análise do caso pela comissão foi determinado pela presidente Dilma Rousseff logo após a revelação do fato pelo jornal O Estado de S. Paulo.*

(*) Estadão

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