DICAS PARA QUEM ESCREVE (III)

000- a coluna do Joauca - 500

1. Mais bem/mais mal. – Os advérbios “bem” e “mal” formam com o particípio dos verbos um todo semântico indissociável. Por isso,  todas as palavras formadas com “mal” ou “bem” e um particípio se escrevem como compostas ou derivadas, em que “mal” e “bem” funcionam como primeiros elementos de composição ou como prefixos: mal-afortunado, mal-educado, mal-arrumado, mal-assombrado, malcriado, malconservado, malfadado, malformado, malferido, malfeito, malquerido, mal-intencionado, malsinado, malsucedido, malvisto, etc.; bem-ordenado, bem-sucedido, bem-vindo, bem-intencionado, bem-dotado, bem-visto, bem-querido, etc.

Ora, presumir que se possa dizer “melhor educado” ou “pior pago” significa admitir a quebra dessa unidade semântica e a possibilidade de se dizer “melhor vindo” ou “pior criado”, em lugar de “mais bem-vindo” ou “mais malcriado”.

Se algum escritor de renome usou “melhor” ou “pior” antes de particípio, quebrando essa unidade semântica, isso não é motivo para transformar em norma o que não é mais que feito de fala: ao escritor compete quebrar e não seguir as normas gramaticais do dialeto culto. É ilegítima, embora generalizada, a citação de escritores para abono de regras gramaticais: primeiro, porque não foi a linguagem dos escritores que sedimentou a norma culta portuguesa, mas a linguagem jurídica; e, segundo, porque o objetivo de um escritor é renovar a linguagem, ser original, ser diferente dos outros.

Portanto, apesar dos exemplos encontrados nas gramáticas e nos dicionários de língua e tirados de bons escritores, não se deve dizer “melhor” nem “pior” antes de particípio. O adequado é dizer “mais bem” e “mais mal” antes de particípio, ainda que o ouvido pouco treinado em norma culta estranhe essa prolação, quase sempre inusitada.

A propósito, nunca se deve dizer “mais bom”, mas “melhor”. Uma propaganda recente do Banco do Brasil anuncia, no final: “Banco do Brasil – cada vez mais bom para todos”. Acho que nem mesmo um analfabeto diria “mais bom”…

2. A nível de/em nível de – As gramáticas condenam indevidamente a locução prepositiva “a nível de”, porque se trata de um galicismo (ex.: “Il est à mon niveau”, isto é, “ele é do meu nível” ou “ele está no meu nível”), e ensinam que se deve dizer apenas “em nível de”. Ora, se formos condenar galicismos, temos de evitar dizer “abajur”, “avalanche”, “flamboaiã” (forma portuguesa de “flamboyant”, já dicionarizada) e muitas outras palavras. E teremos de condenar também, segundo Cláudio Brandão, em sua Sintaxe Portuguesa (Belo Horizonte: ed. do Autor, 1963, p. 559-60), certas expressões de uso corrente que também são galicismos, como “galinha ao molho pardo” (em vernáculo deveria ser “galinha em molho pardo”), ou “trabalho a fazer” (o ideal seria “trabalho para fazer”) ou “equação a duas incógnitas” (o mais recomendável seria “equação com duas incógnitas” ou “de duas incógnitas”), ou “solução à base de sal” (em vernáculo diríamos “em base de sal” ou “com base em sal”). Portanto “em nível de” é construção preferível, por ser mais portuguesa, mas isso não significa que a expressão “a nível de” esteja errada. Em outras palavras: diga “em nível de”, mas evite condenar quem disser “a nível de”, que também é forma aceitável.

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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