DICAS PARA QUEM ESCREVE (IV)

000- a coluna do Joauca - 500

1. Fato real — Alguns gramáticos acham que é redundante a expressão “fato real”, na pressuposição de que todos os fatos são necessariamente reais. Leiamos o que dizem os melhores dicionários de língua, no Brasil. O Houaiss, no verbete “história”, acepção 11, define: “narração de eventos fictícios ou não”. No verbete “narrativa”, lemos: “exposição de um acontecimento ou de uma série de acontecimentos mais ou menos encadeados, reais ou imaginários, por meio de palavras ou imagens”. No subverbete “conto de fadas”, do verbete “conto 1”, lê-se: “LIT. conto infantil que narra encantamentos e fatos maravilhosos com a intervenção de fadas (boas ou más)”. No verbete “romance”, na acepção 7, lê-se: “prosa, mais ou menos longa, na qual se narram fatos imaginários, às vezes inspirados em histórias reais, cujo centro de interesse pode estar no relato de aventuras, no estudo de costumes ou tipos psicológicos, na crítica social, etc.”. Finalmente, no verbete “novela”,  na parte referente à etimologia do termo, lemos: “narração de um acontecimento real ou imaginário”.

O Aurélio, no verbete “novela”, diz: “narração, usualmente curta, ordenada e completa, de fatos humanos fictícios, mas, por via de regra, verossímeis”. E no verbete “romance”, do Aurélio, há a seguinte lição, na acepção 7: “fato ou episódio real, mas tão complicado que parece inacreditável”.

Em resumo: um fato, evento ou acontecimento pode ser real, fictício, maravilhoso, imaginário, verossímil e até inacreditável. Vale dizer: “fato real” não é pleonasmo.

2. Parece que os bancos estão de briga com a língua. O Banco do Brasil termina uma propaganda recente com a seguinte frase: “Um banco cada vez mais bom para todos”. Até mesmo um falante semianalfabeto diria “melhor” em lugar de “mais bom”. O Bradesco entra nessa briga, inovando na conjugação verbal. Numa de suas propagandas, a mulher chega ao caixa de uma loja, talvez uma confeitaria ou padaria, e diz: “Não me dá uma barra de chocolate”. Teria sido melhor dizer: “Não me dê uma barra de chocolate”.  Será que os donos do dinheiro também têm poder de mudar a língua?

3. Sequer – Há uma tendência geral entre os bons usuários da língua a utilizar a partícula de exclusão ou o advérbio “sequer” com o sentido negativo, como na frase: “Ele sequer pagou o almoço, porque sequer tinha um real na carteira.”  Os dicionários de língua de Cândido de Figueiredo, Moraes Silva, Aurélio Buarque de H. Ferreira, Caldas Aulete, Antenor Nascentes e Antônio Houaiss; e os dicionários etimológicos de J. T. da Silva Bastos e A. G. Cunha ensinam que “sequer” significa “ao menos”, “pelo menos”, tendo, portanto, valor afirmativo. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, ensina:  “Usa-se com valor enfático em contexto negativo ou em orações condicionais, sendo parafraseável por “nem que seja/fosse”, “(nem) ao menos”. Não tem sequer um amigo. Não escreveu sequer a introdução do artigo. Não moveu sequer um dedo. Faria o trabalho, se me dessem sequer uma oportunidade. nem sequer, loc. adv., serve para formar a negação de uma frase e apresenta valor enfático sendo parafraseável por “nem ao menos”, “nem mesmo”. Nem sequer estava preocupado com isso. Embora o Houaiss reconheça que “sequer” é “usado modernamente quase sempre na negativa”, bons autores ainda o usam com o valor positivo de “ao menos”, “pelo menos”. Eis o que diz o Pe. Lemos Barbosa a respeito da língua tupi, no primeiro parágrafo do prefácio ao seu Curso de Tupi Antigo (Rio de Janeiro: São José, 1956, p. 9):  “Língua vulgar  prevalente nos primeiros tempos da Colônia, falada na catequese e nas bandeiras, instrumento das conquistas espirituais e territoriais da nossa história, o seu conhecimento, sequer superficial, faz parte da cultura nacional”. O uso de “sequer” negativo pode provocar ambigüidades, em confronto com o uso adequado, como em: “Há pacientes que sequer sabem o nome do médico”.

Que o leitor responda: segundo o texto, os pacientes sabem ou não o nome do médico?

Sigamos, pois, a orientação dos bons dicionários de língua…

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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