VERSO CONFUSO DO HINO NACIONAL

000- a coluna do Joauca - 500

Hilário Soneghet, no soneto “Saara”, do livro Quase toda a poesia (Vitória: Florecultura, 1999, p. 36) tem no segundo quarteto os dois versos iniciais seguintes: “O meu camelo, magro, vacilante,/ de peso esmaga a carga de marfim.”  Trata-se de uma inversão sintática chamada anástrofe, pouco comum na obra do poeta, que primava pela simplicidade e pela clareza. Em ordem direta, os versos querem dizer: “a carga de marfim de peso esmaga o meu camelo, magro, vacilante”. O adjunto adnominal  “de peso” equivale ao adjetivo  “pesada” (a carga de marfim pesada). Repare-se que, na anástrofe, o objeto direto (o meu camelo…) ficou no lugar do sujeito, e o sujeito (carga de marfim de peso) ficou no lugar do objeto.

A letra do Hino Nacional, do mau poeta e péssimo gramático Osório Duque Estrada, está cheia de palavras difíceis (lábaro, plácidas, fúlgidos, garrida, impávido colosso, penhor dessa igualdade, florão da América…), tem versos de empréstimo da “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias (“Nossos bosques têm mais vida; / nossa vida, mais amores”), num encaixe desajeitado, porque torna descontínuo o segundo verso (“em tem seio”), para manter o ritmo; tem um cacófato bravo (herói cobrado), uma ofensa ao país e ao povo, involuntária, embora, numa leitura denotativa que o “poeta” não percebeu ou ignorou (deitado eternamente em berço esplêndido); e tem inversões sintáticas terríveis que prejudicam a compreensão do hino (“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”, isto é, as margens plácidas do Ipiranga é que ouviram o brado retumbante de um povo heroico), e, além de tudo, é extremamente longa, com dois momentos semelhantes que levam à confusão, na hora do canto (“Brasil de um sonho intenso…” e “Brasil de amor eterno…”). Nesses momentos, as pessoas param de cantar, esperando que um mais afoito comece a estrofe problemática. Todos esses defeitos já bastariam como argumento legítimo para que a letra do Hino seja inteiramente substituída por outra mais fácil de entender e de cantar.

Mas o que pretendo nesta croniquinha é apontar, no Hino Nacional, uma inversão sintática, no verso “E o teu futuro espelha essa grandeza”, que confunde até mesmo professores de português e “tradutores” do Hino. Ora, como o futuro ainda não existe, não pode espelhar nada. Como nos versos acima citados de Hilário Soneghet, o sujeito e o objeto da sentença estão com suas posições trocadas. A grandeza é que espelha o futuro. Traduzindo: como o país é grande, essa grandeza espelhará o futuro, isto é, o futuro terá igual grandeza.

Na sua Introdução à lingüística teórica  (São Paulo: Nacional / Edusp, 1979), John Lyons, na nota 5 da página 101,comenta exemplos semelhantes em que o sujeito e o objeto estão invertidos em sua posição na sentença. Em Os Lusíadas, canto V, estrofe 24, Camões também utiliza uma anástrofe semelhante: “Enquanto o mar cortava a armada”. Na verdade, a armada é que cortava o mar.

Se queremos que o povo brasileiro aprenda a cantar corretamente o Hino Nacional, já é mais que tempo de propor  uma substituição dos versos infelizes de Osório Duque Estrada. Ou todos continuaremos a ignorar a letra e/ou a esperar que  alguém diga primeiro “Brasil de um sonho intenso” para que a arraia-miúda continue a cantar o Hino…

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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