ASSUNTOS PARA MEDITAÇÃO

000- a coluna do Joauca - 500

1. Um étimo para meditarmos — Alguns dicionários etimológicos de boa aceitação atribuem ao nome “canguru” o sentido primitivo de “Não te entendo” , como o de José Pedro Machado (Dicionário etimológico da  língua portuguesa. 2.ed. Lisboa, Confluência,1967) que, no verbete próprio, transcreve a história que Shipley inseriu em seu Dictionary of Word Origins: o capitão Cook, quando pisou o solo australiano em 1770, em Queensland, ao ver um canguru, perguntou a um nativo que bicho era aquele. O nativo teria dito “canguru”, que significaria “Não te entendo”, em sua língua, mas o capitão achou que a resposta do nativo era o nome do animal.

T.F.Hoad (The concise Oxford Dictionary of english etymology. Oxford: Clarendon Press, 1986, s.v. kangaroo) não se compromete:  diz, embora citando o nome do capitão James Cook,  que a origem numa língua nativa australiana do nome canguru é defendida por alguns autores e negada por outros,

Corominas, que não conta essa história do capitão James Cook, no seu  Diccionario crítico etimológico de la lengua castellana (Madrid: Gredos, 1976, s.v. Canguro) informa que “canguru” significa “quadrúpede em geral”.

Millôr Fernandes, em sua coluna do Jornal do Brasil de 30 de janeiro de 1992, primeiro caderno, p. 11, contradiz essa história (em sua versão, “canguru” teria o significado de “eu não sei”, na língua dos nativos). Transcrevo: “…o maior lexicógrafo moderno da língua inglesa, Eric Partridge (Origins. Routledge, London, 9730 pgs.), nem toma conhecimento dessa versão. Eric, pesquisador lexicográfico genial (suas pesquisas são de tirar o fôlego de quem lê), diz apenas: ‘Kangaroo; palavra composta do verbo aborígene australiano Kanga, saltar ou pular, com o sufixo rro (possivelmente vindo de uma palavra completa, perdida) significando ‘quadrúpede ou animal’.”

Se a história do capitão Cook fosse verdadeira, caberia pelo menos uma pergunta: Se ninguém sabe nem mesmo que língua nativa australiana é essa, já que ninguém lhe dá nome, como saber que “canguru” significa “Eu não sei” ou “Não te entendo”?

2 -Uma frase para meditarmos: “No mundo tudo é como é, e acontece como acontece. Nele não há valor; e, se houvesse, o valor não teria valor.” Não sei o que essa frase significa, mas deve ser bem profunda, porque é de autoria do filósofo Wittgenstein.

3.Um fato para meditarmos – A espada de El Cid se chamava Colada; a de Roland (Orlando), Durindana (isto é, “a inflexível”); a do rei Arthur, Excalibur  (“libertada da pedra”). Mas fantástica é a espada Tizona (“sangradeira”), do rei Bucaro que ninguém sabe de que reino era nem que tenha existido.

4. Um mito para meditarmos — Os três reis magos que foram adorar Jesus recém-nascido não eram reis, mas sacerdotes persas, e talvez sejam apenas uma bela metáfora para os três continentes ou para as três raças humanas: Gaspar (a Ásia, a raça amarela), Melquior (a Europa, a raça branca) e Baltazar (a África, a raça negra).

5. Uma palavra para meditarmos – Gustavo Barroso, em Através dos folk-lores (São Paulo: Melhoramentos, 1927), usa uma palavra inexistente nos dicionários de língua: epostracismo (p. 80 e ss.), para designar a “tainha”, isto é, a brincadeira que consiste em jogar uma pedrinha à água pra fazê-la ricochetear na superfície o maior número de vezes possível. Curiosamente, Gustavo Barroso informa, nesse livro, na p. 8, que as histórias das Mil e uma noites vieram da Índia. Será?

6. Um pensamento para meditarmos – Perdão não é uma perda grande, mas, como recomendava Heinrich Heine, “deve-se perdoar aos inimigos – mas só depois de enforcados.”

7. Versos para meditarmos – Augusto dos Anjos escreveu: “Morte, ponto final da última cena,/ Forma difusa da matéria imbele…”  (poema “As cismas do destino”). Não sei bem o que ele quis dizer com isso, mas é bonito…

8. Uma definição para meditarmos: “Saudade quase se explica / nesta trova que te dou: / Saudade é a falta que fica / daquilo que não ficou… (Luiz Otávio)

9. Um haicai para meditarmos: Eis um poeta da gema: / O vento que agita as ramas / Segreda um longo poema. (JAC)

 

(José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

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