FUNÇÃO DAS GRAMÁTICAS

000- a coluna do Joauca - 500

Um professor de uma grande universidade brasileira, num artigo publicado numa revista especializada, defendeu que a sintaxe dos escritores merece o aval das gramáticas normativas. Disse ele que Drummond usou o verbo ter impessoalmente num poema (“No meio do caminho”) e nenhuma gramática abonou esse emprego, embora o exemplo seja antigo (O poema encontra-se no livro Alguma poesia, de 1930; tem, portanto, mais de 80 anos.). O autor se pergunta: se Rubem Fonseca usa ela em função de objeto direto, sem preposição, e todos aplaudem, por que num falante anônimo isso seria condenável?

Não passou pela ideia desse professor a distinção entre “desvio eufórico” e “desvio disfórico”. Numa atividade criativa da língua, os desvios da norma (os pretensos “erros”)  são propositados, e têm intenção estética. Já os desvios do falante anônimo são fruto da ignorância da norma culta ou não têm intenção lúdica.

Há também dois equívocos na pretensão desse professor de incorporar à gramática da língua os desvios de norma praticados por escritores ilustres. O primeiro diz respeito à intenção com que Drummond  usou o verbo ter impessoalmente, que era a de agredir a tradição normativa baseada no português lusitano, algo que era parte da bandeira de luta do movimento modernista de 22. Em outros momentos, Drummond usou os verbos ter e haver de acordo com a norma gramatical. Não me consta que haja, em toda a obra de Drummond, outro exemplo do emprego do verbo ter impessoal Como diz um axioma muito usado na linguagem jurídica, testis unus, testis nullus, isto é, “uma única testemunha, nenhuma testemunha”, ou, em termos proverbiais, “uma andorinha só não faz verão”.

O segundo equívoco diz respeito à própria criação literária: um escritor tem o direito e o dever de subverter as normas gramaticais, de reinventar a linguagem. Depoimentos nesse sentido de escritores como  Autran Dourado e Guimarães Rosa e até de gramáticos, como Celso Cunha,  reivindicam o direito que o escritor tem de escrever diferentemente dos outros. O estilo, ou melhor, a escritura  de um escritor é constituída dessas subversões sintáticas a que Coseriu chama de “feitos de fala”. Se os gramáticos tivessem de aceitar todos os feitos de fala dos escritores de língua portuguesa, haveria tantas gramáticas quantos fossem os escritores consultados. Por que se cita Machado de Assis como abono de uma regra de concordância ou de regência, e não se cita Guimarães Rosa? Porque, em primeiro lugar, menos por Machado de Assis ter sido  tímido na subversão da sintaxe, atentando preferencialmente para o jogo semântico e psicológico, do que por Guimarães Rosa ter abusado superlativa e genialmente do seu direito de recriar a linguagem. Em segundo lugar, porque há um erro metodológico nas gramáticas da maioria das línguas modernas conhecidas, que é o de citar exemplos de escritores como abono de regras gramaticais.

As gramáticas latinas se basearam nos exemplos de escritores, porque não havia outro meio de  sistematizar o conhecimento  da sintaxe do latim imperial a não ser com o recurso à análise dos escritores, como Ovídio, Virgílio, Cícero ou Júlio César, por exemplo. Numa língua viva, contudo, essa metodologia é desastrosa porque não leva em conta o objetivo maior da criação literária que é o de reinventar a linguagem. Bem fez o Dicionário Houaiss em não citar exemplos de escritores em seus verbetes. Aliás, a norma culta não foi sedimentada pela língua dos escritores, mas pela linguagem jurídica. As primeiras cartilhas de alfabetização, segundo depoimento dos nossos primeiros gramáticos e ortógrafos do século XVI, foram baseadas em textos legais. João de Barros e Fernão de Oliveira, nossos primeiros gramáticos, não citavam exemplos de escritores como abono de regras gramaticais. Autran Dourado confessou, no seu livro O meu mestre imaginário (Rio de Janeiro: Record, 1982) que decorou a gramática de João Ribeiro para desrespeitar as regras gramaticais com conhecimento de causa. Citemos duas pequenas passagens desse pequeno grande livro: “Quebrar as regras da sintaxe não é mais do que uma obrigação do escritor consciente do seu ofício” (p. 58). “E que tem um escritor a ver com a gramática, senão a obrigação de desrespeitá-la. Sei de cor e salteado a gramática de João Ribeiro, outro mestre da prosa. Mas sei-a para desrespeitá-la”(p. 60).

O papel das gramáticas normativas portanto, não é o de mostrar um escritor como modelo de boa norma, mas o de construir um padrão ideal de comportamento linguístico a que os falantes devem obedecer para uma compreensão supradialetal  da língua em sua modalidade culta, em seu registro formal

Pena que os gramáticos não conheçam linguística. Pena que os linguistas desprezem a gramática. Pena que nossos dicionários e gramáticas ainda sigam uma metodologia ultrapassada.

 

José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp, doutor em letras pela USP, autor da Gramática Superior da Língua Portuguesa (2.ed. Brasília: Thesaurus, 2011) e do Pequeno Manual de Pontuação em Português (2.ed. Brasília: Thesaurus, 2012)  e professor aposentado (por idade) da Universidade Federal do Espírito Santo.

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