COBRA ENGOLINDO COBRA

O semeador de ventos

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Aécio Neves passou boa parte do tempo, no início de sua campanha, montando acordos em todo o país. Discretamente, habilmente, rachou partidos alinhados a outros candidatos (exemplos: Pezão, PMDB do Rio, está oficialmente com Dilma, mas extraoficialmente tinha se aliado a ele; o PSB paulista de Márcio França estava, claro, com Eduardo, mas também com Aécio). Bastou uma semana de alta acelerada de Marina Silva nas pesquisas para que tudo mudasse: até os tucanos de bico mais comprido já estão assobiando, olhando para os lados e torcendo para quem ninguém os note. Aécio chegou àquela fase de inferno astral de campanha em que os inimigos são muito menos perigosos do que os amigos.

Alckmin, por exemplo, é franco favorito para o Governo paulista, é Aécio desde criancinha, mas transferir seus votos a ele, convenhamos, dá trabalho. Marconi Perillo é favoritíssimo em Goiás e alma gêmea de Aécio, mas como pode impedir que amigos que o apoiam para o Governo façam propaganda de Dilma para a Presidência? E Serra, à frente na luta para o Senado, não estaria sossegado demais quando se trata de transferir votos para o candidato à Presidência?

Ninguém fará a grosseria de lembrar que, nas três eleições presidenciais anteriores, Aécio assistiu com calma à derrota de seus aliados. Em 2010, fez campanha – não em Minas, onde tinha votos, mas viajando para regiões onde jamais tinham ouvido falar dele. Para o PSDB, o importante é derrotar o PT, mesmo que seja com Marina.

O semeador de ventos que colha sozinho suas tempestades.

Recordando

Em 2010, o PSDB sonhou com a chapa Serra e Aécio, unindo São Paulo e Minas. Aécio deu a entender a caciques tucanos que ficaria feliz com a vice. Quando a ideia vazou, seus aliados abriram fogo, acusando Serra de tentar salvar-se da derrota obrigando Aécio a candidatar-se.

A pancada doeu; e Serra, sem alternativa, escolheu o primeiro vice que conseguiu laçar, o fluminense Índio da Costa, desconhecido fora do Rio. Entre as qualidades que Serra porventura tenha, certamente não está a capacidade de perdoar. Engolir ofensas passadas por um objetivo comum, que o beneficie, vá lá; mas vingar-se é gostoso demais. *

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet.

NADA SERÁ COMO ANTES…

 

“As regras do jogo”

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A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil …

A morte de Eduardo Campos inaugurou uma nova realidade na campanha eleitoral. Mas é uma ilusão pensar que tudo mudou.

Há elementos que permanecem, como, por exemplo, a força eleitoral do governo federal, baseada na sensação de que os tempos de prosperidade e crescimento econômico não acabaram. Para muitas pessoas, a crise ainda não é um fato. Na verdade, ela é um conjunto de índices e perspectivas sombrias que somente os mais atentos conseguem captar.

Dilma Rousseff, por exemplo, deixou de negar a crise e espantar os urubus que rondam o seu discurso triunfal. Agora admite sua existência e ressalta: “Mantivemos empregos e salários”. Ela se dirige precisamente àqueles que ainda não sentiram a crise. Seu ministro do Trabalho disse que, em termos de emprego, o Brasil tinha chegado ao fundo do poço. Depois desmentiu: o buraco não seria tão fundo como a sua frase dera a entender.

Isso se parece com aquela piada do Millôr, a de um homem caindo de um décimo andar que, ao passar pelo oitavo, diz: “Até aqui, tudo bem”.

O cara da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, parece ter decidido pela delação premiada. Ele é o cara porque articulava tudo, tinha milhões de dólares na Suíça. Antes ele havia dito, na cadeia, que não poderia abrir a boca porque, caso falasse o que sabe, não haveria eleições no País. É uma força de expressão. As eleições brasileiras podem renascer, como após o desastre que matou Eduardo Campos. Não importa o que Paulo Roberto diga, elas vão ser realizadas no dia 5 de outubro.

A morte de Campos e a entrada de Marina Silva na disputa pela Presidência reafirmaram a tendência de segundo turno. Mas ela não é novidade. O PT, com Lula ou Dilma, sempre ganhou no segundo turno.

A novidade é que a oposição pode triunfar. Para isso é preciso que demonstre, com clareza, que a sua proposta é a que melhor protege salários e empregos. Ela precisa encontrar uma unidade entre sua proposta econômica e a disposição de combater o fisiologismo e reduzir a corrupção no Brasil a níveis administráveis.

Não acredito em longos programas de governo, embora esteja sempre disposto a discuti-los e a sintetizá-los, como fiz com o seminário de três dias realizado pelo PPS em Brasília. O ideal seria fixar em alguns pontos comuns. Isso é possível. Basta analisar o discurso dos candidatos de oposição para perceber que convergem em várias questões essenciais.

Eduardo Campos e Aécio Neves tinham uma relação cordial, trocavam ideias constantemente. Isso não impediu que procurassem singularizar-se na campanha eleitoral, marcando suas diferenças.

Essa troca de ideias é fundamental. É uma ilusão supor que se governa um país tão complexo como o Brasil sem criar uma base de sustentação técnica e política.

A maioria das pessoas quer mudança. Mas ainda não está muito claro que mudanças querem. Suponho, pela constância das denúncias, que se queira estancar a corrupção. E, naturalmente, a julgar pelas manifestações de junho de 2013, melhores serviços públicos.

Tão amplo desejo de mudança exige clareza de ideias, mas, sobretudo, humildade. Segundo as pesquisas, metade dos eleitores de Dilma também quer mudança. Isso significa que, potencialmente, eles podem abandonar a candidatura dela se as propostas de mudanças forem diretas. E se o bloco que disputar com o PT, no segundo turno, der claras indicações de que a governabilidade não estará ameaçada.

Todos esses palpites são de um simples eleitor. Não estou dentro das eleições, não conheço seus bastidores, não me informei sobre afetos e rancores que as movem neste instante.

Muitos analistas reclamam que o quadro está confuso. Lamentam que as decisões possam ser tomadas num clima emocional. Ao longo destes anos vimos o processo político degradar-se, o abismo se abrindo entre instituições e eleitores. Mesmo as eleições de 2010, marcadas por fortes votações em candidatos folclóricos, como Tiririca, já eram inquietantes. Depois disso vieram as manifestações de 2013, mostrando mais claramente como o povo estava insatisfeito com o governo, com a oposição e com todo o sistema político.

Observo apenas a contradição de alguns setores que não se importaram em degradar a política e afastá-la do povo, na crença de que a máquina de governo e a propaganda tudo resolvem. Agora clamam por racionalidade, frieza e um roteiro seguro para dirigir o País.

Não creio que Marina vá subir nos fios e fazer milagres, como aquela santa no filme de Pasolini. Mas terá a oportunidade de apresentar suas ideias, responder às questões mais delicadas, enfim, oferecer também uma base racional para ser aceita ou rejeitada.

Tanto para ela como para Aécio, creio, um dos temas centrais é como se relacionar nesse conjunto de candidatos que propõem mudança, querem construir algo diferente do que fizeram o PT e seus aliados nestes 12 anos. A proposta de uma nova política não é esotérica se analisamos o discurso dos candidatos de oposição. Eles condenam o fisiologismo, o toma-lá-dá-cá, o balcão de negócios em que se transformaram governo e Congresso Nacional.

Não se navega nessas águas turvas sem apoio dos políticos. Não é possível discriminá-los, afastando-os do governo. O que é desejável é que se escolham apenas os honestos e que tenham competência específica para o cargo que vão ocupar.

Diante do segundo turno, emerge a possibilidade real de conduzir o País por um caminho mais sólido na crise econômica, menos corrompido na política, mais próximo dos grandes centros tecnológicos nas relações exteriores, mais sério na gestão dos serviços públicos.

Há quem queira disputá-lo sozinho na oposição. Há quem prefira Dilma por achar o PT previsível. Mas assim mesmo teremos um ano de 2015 cheio de surpresas.

Façam o seu jogo.*

(*) Fernando Gabeira, Estadão

LEGADO DA COPA

O raquitismo da economia é o legado dos farsantes que se afogaram na marolinha

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“Forçada a enfrentar a crise, Dilma imita Lula e a procissão de bravatas recomeça”, resumiu o título do post publicado em março de 2012.  O texto tratou de mais um surto de soberba da doutora em nada que se imagina especialista em tudo: caprichando na  pose de quem concluiu aquele curso de doutorado na Unicamp que nem começou,  Dilma Rousseff resolveu dar conselhos a países europeus castigados pela crise de dimensões planetárias. Conseguiu apenas ampliar o acervo de cretinices acumulado desde 2008, quando Lula abriu o cortejo de falácias, fantasias, mentiras e falatórios sem pé nem cabeça produzidos pelos fundadores da Era da Mediocridade.

Nesta quinta-feira, o país (ainda) conduzido por farsantes soube que encalhou no atoleiro. Depois de encolher 0,2% no primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto diminuiu mais 0,6% de abril a junho. Confrontados com a esqualidez do pibinho, os tripulantes da nau dos insensatos trataram de caçar justificativas para o fiasco histórico. Dilma desconfiou que não bastaria dar outro pito no vilão de sempre — a crise internacional que seu padrinho jurou ter derrotado. E então incluiu entre os culpados pela “recessão técnica”a Copa dos 7 a 1.

“Por causa da Copa do Mundo, tivemos a maior quantidade de feriados na história do Brasil, nos últimos anos, nesse trimestre”, fantasiou a presidente que, convencida de que a vadiagem coletiva melhora o trânsito, decretou a maior quantidade da história do Brasila. A Copa das Copas começou a semana na relação das proezas federais que aceleraram o crescimento econômico. Terminou-a acusada pela presidente de ter acentuado o raquitismo do pibinho. Haja cinismo.

A explicação é tão veraz quanto o palavrório costurado por Lula em 27 de março de 2008, quando a crise nascida nos Estados Unidos já contaminara vários países. “Um dia acordei invocado e liguei para o Bush”, gabou-se o então presidente. “Eu disse: ‘Bush, meu filho, resolve o problema da crise, porque não vou deixar que ela atravesse o Atlântico’”. Como Lula só fala português, Bush decerto não entendeu o que ordenara o colega monoglota. E a crise navegou sem sobressaltos até desembarcar nas praias do Brasil.

O presidente invocado voltou ao tema só depois de seis meses ─ para comunicar que livrara o país do perigo. “Que crise? Pergunte ao Bush”, recomendou em 17 de setembro. “O Brasil vive um momento mágico”, emendou no dia 21. No dia 22, pareceu mais cauteloso: “Até agora, graças a Deus, a crise americana não atravessou o Atlântico”, ressalvou. Uma semana depois, a ficha enfim começou a cair. “O Brasil, se tiver que passar por um aperto, será muito pequeno”, disse em 29 de setembro.

A rendição pareceu iminente no dia 30: “A crise é tão séria e profunda que nem sabemos o tamanho. Talvez seja a maior na História mundial”. Em 4 de outubro, o otimista delirante voltou ao palco para erguer com poucas palavras o monumento à megalomania: “Lá nos Estados Unidos, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar”. No dia 8, conseguiu finalmente enxergar o tamanho do buraco.

A anemia dos índices registrados de lá para cá mostrou o que acontece a um país governado por quem se nega a ver as coisas como as coisas são, e enfrenta com bazófias e bravatas complicações econômicas de dimensões globais. Essa espécie de monstro é impiedosa com populistas falastrões. Mas o bando de reincidentes não tem cura: três anos depois, a estratégia inaugurada pelo Exterminador do Plural começou a ser reprisada em dilmês. Se Lula acordava invocado com George Bush, Dilma passou a perder a paciência com uma entidade que batizou de “tsunami monetário”.

Em março de 2012, numa discurseira de espantar napoleão de hospício, a presidente atribuiu a paternidade da criatura a “países desenvolvidos que não usam políticas fiscais de ampliação da capacidade de investimento para retomar e sair da crise que estão metidos e que usam, então, despejam, literalmente, despejam quatro trilhões e setecentos bilhões de dólares no mundo ao ampliar de forma muito… é importante que a gente perceba isso, muito adversa, perversa para o resto dos países, principalmente aqueles em crescimento”.

Lula vivia recomendando aos americanos que se mirassem no exemplo do Brasil. Dilma se promoveu a conselheira da Europa. “Eu acho que uma coisa importante é que os países desenvolvidos não só façam políticas expansionistas monetárias, mas façam políticas de expansão do investimento”, ensinou em 5 de março de 2012. Concluiu a lição no dia seguinte: “Somos uma economia soberana. Tomaremos todas as medidas para nos proteger”.

Quatro anos depois de reduzido por Lula a marolinha, o tsunami foi desafiado por Dilma a duelar com o Brasil Maravilha. “Nós estamos 100% preparados, 200% preparados, 300% preparados para enfrentar a crise”, avisou. Como o padrinho em 2008, a afilhada despejou outro balaio de medidas de estímulo ao consumo.Ficou mais fácil comprar automóveis, os congestionamentos de trânsito ficaram maiores nos dois anos seguintes. E o governo acabou obrigado a decretar durante a Copa os feriados que, segundo a presidente, acentuaram o raquitismo do pibinho.

Lula jurava que o país do carnaval foi o último a entrar na crise e o primeiro a sair. Dilma vinha repetindo de meia em meia hora que o resto do mundo inveja o colosso tropical. Conversa de 171, prova o infográfico no blog Impávido Colosso. Pouquíssimas nações fazem companhia ao Brasil no pântano do crescimento zero. A saúde da economia nativa não será restabelecida tão cedo. E pode piorar até o fim do ano.

Já na eleição de outubro, contudo, deverão ser extirpados os tumores lulopetistas, em expansão há quase 12 anos. Se continuassem sem controle por mais quatro, o Brasil democrático deixaria de existir.*

(*) Blog do Augusto Nunes

ERA UMA VEZ…

Principal cabo eleitoral de

Marina é o saco cheio

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O ‘Plano A’ era declarar guerra à elite branca do PSDB, fingir que a ruína econômica tem causas externas, pintar o país de rosa na propaganda eleitoral e conquistar mais quatro anos de Poder. O ‘Plano B’ era, era, era… Não havia um ‘Plano B’. O generalato do PT não tinha considerado a hipótese de o ‘Plano A’ dar errado. Ninguém podia imaginar que a morte de Eduardo Campos ressuscitaria a cafuza Marina Silva.

Agora, Dilma Rousseff e seus operadores buscam uma saída que os redima do fiasco. Neste sábado, num comício organizado pelo PMDB, Dilma adotou um ‘Plano B’ que seu vice, Michel Temer, improvisara em cima da perna. “Numa democracia, quem não governa com partidos está flertando com o autoritarismo”, disse a ex-favorita, ecoando um discurso que o vice fizera na véspera, em Porto Alegre. “Não existe um único lugar em que haja regime democrático e que não haja partido.”

Nessa formulação, Marina e sua promessa de governar com “as melhores pessoas” da República seria uma ameaça à normalidade democrática. “As pessoas não podem ser colocadas acima das instituições”, disse Temer, no pronunciamento que inspirou Dilma. “Quando isso aconteceu no mundo, nós fomos para o autoritarismo. Nós temos exemplos dramáticos no mundo, não quero nem mencioná-los!”

A nova estratégia evidencia o desnorteio do conglomerado governista. O que fez de Marina uma alternativa real de poder foi justamente a insuportável normalidade que permeia a democracia brasileira. Oito em cada dez eleitores desejam que o próximo presidente adote providências diferentes das atuais, informa o Datafolha. Ou, por outra: 79% do eleitorado acha que algo de anormal precisa suceder. Sob pena de passar por natural o que é absurdo.

Quem quiser compreender o que está acontecendo deve levar em conta o seguinte: os últimos presidentes brasileiros —FHC, Lula e Dilma— foram prisioneiros de um paradoxo: prometeram o avanço sem chutar o atraso. Pregaram o novo abraçados ao velho. Presidiram a ilicitocracia enrolados na bandeira da moralidade. E terminaram confundindo a plateia. Uma parte acha que são cínicos. A outra avalia que são cúmplices.

Hoje, os quase 80% que estão sedentos por mudança dividem-se em dois grupos. Os que duvidam de tudo enxergam os últimos presidentes como cínicos. Os que não duvidam de mais nada os vêem como cúmplices. As duas alas se juntam na percepção de que, à margem dos avanços econômicos e sociais, proliferou um sistema político-partidário caótico, um mal cada dia menos necessário.

Aos olhos de muita gente, o PT virou um projeto político que saiu pelo ladrão. O PMDB e seus congêneres tornaram-se organizações partidárias com fins lucrativos, todas elas financiadas pelo déficit público. E o PSDB é a mesma esculhambação, só que com doutorado na USP. Se a economia vai bem, o acúmulo de fraudes é tolerado. Se a inflação aperta, a roubalheiras salta às retinas.

Num Brasil remoto, a análise política exigia meia dúzia de raciocínios transcendentes. Era necessário decidir se o pragmatismo do PSDB seria melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas do socialismo, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção… Hoje, a coisa é bem mais simples.

Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, o templo da política abriga uma congregação de homens de bens. Vigora no Executivo, no Legistivo e, por vezes, até no Judiciário a lógica do negócio. Tudo se subordina a ela, inclusive os escrúpulos. A integridade dos ovos não vale mais nada. Importa apenas o proveito do omelete.

Já nem é preciso varrer as cascas para debaixo do tapete. A generalização da desfaçatez, hoje espraiada da Esplanada à Petrobras, tornou a anomalia normal. Tudo parecia tranquilo nessa democracia anestesiada até que as ruas decidiram roncar em junho de 2013. Ao despencar do olimpo das pesquisas, Dilma virou uma espécie de porta-voz do asfalto.

O que os manifestantes querem é o mesmo que o governo deseja, disse ela na época. “O meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. Está empenhado e comprometido com a transformação social”, declarou, antes de acrescentar que passeata é uma coisa normal, que ela mesma já participou de muitas.

Por muito pouco Dilma não jogou uma mochila nas costas e foi à Avenida Paulista cobrar a melhoria dos serviços públicos, ao lado de herois da resistência como Sarney e Renan. “Essa mensagem direta das ruas contempla o valor intrínseco da democracia”, ela festejou. “Essa mensagem é de repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público.”

Candidata de um partido cuja cúpula se encontra na cadeia, Dilma soou esquisito. Não se deu conta de que o excesso de cadáveres políticos dera origem a um defunto mais, digamos, ilustre: o próprio PT. Morreu também o pobre. De suicídio. E, suprema desgraça, não foi para o céu. A ex-petista Marina Silva é o purgatório do ex-PT. Ela se tornou uma espécie de repositório do ‘voto saco cheio’.

É nesse estágio que o país se encontra agora. De saco cheio das alianças espúrias e da tolerância presidencial para com os maus hábitos. De saco cheio da teia de chantagens e exigências feitas em nome da pseudo-governabilidade. De saco cheio do mês que dura sempre mais do que o salário. De saco cheio de tudo isso que está aí.

Ao dizerem que ninguém governa sem os partidos, Dilma e Temer tentam aproximar Marina Silva da figura de Fernando Collor, a “nova política” que terminou em impeachment. O problema é que, tomada pela biografia, ela está mais para Lula, em sua versão 2002, do que para caçadora de marajás. Com uma diferença: foi digerida pelo mercado sem precisar assinar nenhuma carta aos brasileiros.

Para se manter no topo das pesquisas até outubro, Marina talvez não precise fazer nada além de desviar dos laranjas do jato de Eduardo Campos e cuidar das suas boas maneiras. Prevalecendo a bordo do PSB e de sua coligação diminuta, chegaria ao Planalto sem dever nada a ninguém, exceto aos donos dos votos. Diz-se que pode terminar em desastre. Mas o eleitor, de saco cheio, parece cada dia mais disposto a assumir o risco de, no mínimo, cometer um erro diferente.*

(*) Blog do Josias de Souza

BAIXARIAS VIRÃO…

A aposta

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A campanha de Aécio Neves acredita que fatos novos podem recolocar o tucano no jogo. A delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e a história dos aviões que serviam a Eduardo Campos podem levar a nova reviravolta. A crença é que teriam potencial para desestabilizar a presidente Dilma e Marina Silva. A palavra de ordem é resistir, porque a eleição não será amanhã, nem a campanha, um mar de rosas.*

(*) Ilimar Franco, O Globo

 

MUDANÇA DE VENTO

Transmarina e a “zelite”

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Marina considera a “luta de classes” velha e ruim. Sua ideia de elite é outra. É quem inspira e lidera

“O problema do Brasil não é sua elite, mas a falta de elite. Não tenho preconceito contra a condição econômica e social de quem quer que seja. Quero combater essa visão de apartar o Brasil, de combater a elite. Essa visão tacanha de combater as pessoas com rótulo. Precisamos fazer o debate envolvendo ideias, empresários, trabalhadores, juventudes, empreendedores sociais. Com pessoas de bem de todos os setores, honestas e competentes.”

Essa resposta desconcertante de Marina Silva no debate  da Band entre os candidatos à Presidência mostra que Dilma Rousseff e Aécio Neves terão de dar um duro danado para dinamitar – ou “desconstruir” – a rival.

O Brasil do PT tem reforçado o maniqueísmo entre pobres e ricos, ou “proletariado” e “burguesia”, expressões caras da esquerda caviar-champanhe. Como se os pobres fossem todos bons, puros, generosos e vítimas – e os ricos fossem todos safados, cruéis, desnaturados e bandidos. Em nosso país, quem ganha mais de seis salários mínimos é rico.

Nos últimos tempos, sobrou fel até para a classe média. Vimos com espanto o vídeo com o discurso histérico da filósofa da USP Marilena Chauí no ano passado. Era uma festa do PT para lançar o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. “Odeio a classe média”, afirmou Chauí, sob aplausos, risos e “u-hus” da plateia. “A classe média é o atraso de vida. A classe média é a estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante. Petulante, arrogante, terrorista.” Presente no palco, Lula ria e aplaudia a companheira radical petista, embora dificilmente concordasse. “A classe média é uma abominação política porque é fascista. É uma abominação ética porque é violenta”, afirmou Chauí, fundadora do PT e adepta da luta de classes.

É uma luta que Marina considera antiquada e ruim para o país. Sua ideia de elite é outra: quem se sobressai no que faz, quem inspira e lidera. Neca Setubal, socióloga, educadora, autora de mais de dez livros, defensora do desenvolvimento sustentável e herdeira do banco Itaú, é o braço direito de Marina. Com seu discurso de união e um plano de governo de 244 páginas, costurado com Eduardo Campos, Marina ameaça tornar-se presidente do Brasil, segundo as pesquisas de intenção de voto.

Ela não passa de uma amadora, diz Aécio Neves. Marina responde: “Melhor ser amador do sonho que profissional das escolhas erradas”. Ela faz uma campanha da mentira, afirma Dilma. “Mentira”, responde Marina, “é dizer que os adversários não estão comprometidos com políticas sociais”.

Marina virou o sujeito da mudança. Colhe em sua rede indecisos, revoltados, idealistas, anarquistas e também aecistas e dilmistas. Isso não é elogio, só a constatação de um fato provado em pesquisas. Os “marineiros” são um caldeirão de eleitores de diversas ideologias, ou avessos a pregações ideológicas. Quando Marina diz que “a polarização PT-PSDB já deu o que tinha que dar”, ou que “o Brasil não precisa de um gerente, mas de um presidente com visão estratégica”, isso bate forte em milhões de brasileiros de todas as idades.

Marina não tem resposta para uma enormidade de questões – entre elas, como a “nova política” poderá ser diferente da “velha política”, se concessões e alianças são essenciais para aprovar reformas, governar o país e transformar em realidade seus sonhos. Marina tem convicções pessoais que precisará reavaliar ou abandonar se quiser mesmo colocar o país nos trilhos do futuro, abraçar as novas famílias e os estudos de células-tronco.

Mas seu discurso de grandes linhas, abstrato e utópico, empolga e atrai. Os adversários a ajudam. De um lado, temos o desfile chato, emburrado e claudicante de percentagens e estatísticas infladas. Do outro, um rosário sorridente de êxitos discutíveis em Minas Gerais.

Nos Estados Unidos, Barack Obama ganhou uma eleição no discurso, na oratória, no simbolismo – não no preparo ou na experiência administrativa. Guardadas as proporções, Marina busca o mesmo.

Nas redes sociais, a ascensão de Marina provocou uma campanha de ódio e ironias. Ela foi chamada de “segunda via do PSDB” – porque defendeu a estabilidade iniciada por Fernando Henrique Cardoso e porque os tucanos votariam nela, jamais em Dilma, num confronto direto. Chamaram Marina de “segunda via do PT” – porque defendeu a política de inclusão social de Lula. Traíra, oportunista e coisas piores. Fizeram uma montagem de seu rosto com o corpo nu da mulata Globeleza. Disseram que ela tem “cara de macaco”. Um show de racismo e de pânico.

Os arautos à esquerda e à direita a chamam de “novo Collor” ou de “Jânio de saias”. A Transmarina, ao acolher a “zelite” do bem, veio para confundir. E incendiar uma eleição antes morna, entediante e previsível.*

(*) RUTH DE AQUINO – ÉPOCA

BYE BYE, AÉCIO!

Vice de Aécio diz que Marina diz ‘asneiras’ e usa ‘identidade postiça’

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O PSDB vai ao ataque Vice na chapa de Aécio Neves, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) abre a artilharia contra Marina Silva. Ele acusa a rival de usar uma “identidade postiça” para ganhar votos. “Ela improvisou uma personalidade palatável para esconder a imagem de sectarismo que sempre a caracterizou.” O tucano ironiza o discurso da “nova política”. “Marina demoniza Sarney, Renan e Collor. Os três apoiaram o governo Lula, do qual ela foi ministra. Eles prestavam e agora não prestam?”, questiona.

Trator O vice de Aécio ironiza os esforços da adversária para se aproximar do agronegócio. “É mais uma conversão de última hora. Marina comandou uma luta sem quartel contra o Código Florestal. A proposta dela inviabilizaria metade das terras agricultáveis do país.”

Arado Aloysio acusa a rival de dizer “bobagens” sobre os transgênicos. “O que ela defende é uma asneira. Ela quer que em algumas áreas se possa plantar, e em outras, não. Então alguns brasileiros podem comer sementes que fazem mal à saúde, segundo a visão dela, e outros não?”

Ideias O tucano levanta dúvidas sobre a pregação de Marina contra a polarização entre PT e PSDB. “Ela integrou por 20 anos um partido sectário e rancoroso, que manteve uma guerra sem trégua com o PSDB”, acusa.

Hare Rama O senador ainda ironiza as novas companhias da presidenciável no PSB. “O Heráclito Fortes não é nenhum fanático pela propriedade coletiva dos meios de produção. Ele está tão próximo do socialismo quanto eu do hare krishna”.

Vem comigo Aloysio falou à coluna na sexta à noite, antes de o Datafolha mostrar que Marina abriu 19 pontos de vantagem para Aécio. Sobre bandeiras tucanas que apareceram no programa da ex-senadora, disse: “Acho ótimo. É sinal de que ela pode nos apoiar no segundo turno”.

Até em casa É grande a preocupação no comitê de Aécio com o risco de uma dupla derrota em Minas Gerais. O candidato dava como certo que venceria as eleições para presidente e governador no Estado. Agora a ordem é fazer tudo para salvar Pimenta da Veiga (PSDB), que está atrás de Fernando Pimentel (PT).

Despolarizou Aécio viu Marina disparar como a candidata da oposição. Há 10 dias, o tucano tinha 34% dos votos de quem classifica o governo Dilma Rousseff (PT) como ruim ou péssimo, contra 33% da ex-senadora. Agora Marina abriu 21 pontos de vantagem: 48% a 27%.

Já foi Antes da divulgação da pesquisa, o maior medo dos aliados de Aécio era exatamente que Marina roubasse os votos antipetistas já no primeiro turno. “Não podemos deixá-la ocupar esse espaço”, dizia um tucano.

É ela Os eleitores que querem mudanças no próximo governo também migraram para Marina. Nesse grupo, a ex-senadora tem 39% das intenções de voto contra 24% de Dilma e 18% de Aécio.*

(*) Bernardo Mello de Franco, Coluna Painel, Folha de São Paulo

POR QUE ODEIO E COPIO

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Há algum tempo, uma notícia de jornal disse que o “Ministério intermedia acordo”, em lugar de “intermedeia acordo”. Os verbos em –iar têm no infinitivo a mesma pronúncia dos verbos em –ear. Daí a confusão.

Os nomes terminados em –io ou –ia formam verbos em –iar, com –i: auxilio-auxiliar, cópia-copiar, desvio-desviar, distância-distanciar, domicílio-domiciliar, elogio-elogiar, estria-estriar, fantasia-fantasiar, fio-fiar ou afiar, glória-gloriar, guia-guiar, indústria-industriar, repúdio-repudiar, injúria-injuriar, óbvio-obviar, plágio-plagiar, polícia-policiar, prêmio-premiar, sítio-sitiar, suplício-supliciar, vadio-vadiar, etc. Portanto a conjugação é em –io: eu fantasio, eu fio, eu guio, eu repudio, eu sitio, etc.

Os nomes que terminam pelo ditongo –ão, por consoante ou pelas vogais a, e, o, com exceção de breve, amplo e lume, têm os verbos respectivos em –ear: capitão-capitanear, verão-veranear, voz-vozear, flor-florear, mar-marear, senhor-assenhorear, faca-esfaquear, folha-folhear, granja-granjear, banquete-banquetear, bronze-bronzear, haste-hastear, nome-nomear, serpente-serpentear, macaco-macaquear, pleito-pleitear, salto-saltear, touro-tourear, etc. Portanto a conjugação é em –eio: veraneio, banqueteio, bronzeio, hasteio, nomeio, pleiteio, toureio, etc. As exceções (abreviar, ampliar, alumiar) talvez digam respeito à regra de formação (o sufixo verbal é apenas –ar, diferentemente de marear, ou de serpentear, por exemplo, em que o sufixo é –ear): eu abrevio (lat.: abbrevio),  eu amplio (lat. amplio), eu alumio (lat. *allumino).

As exceções à conjugação em –iar são os verbos do acrônimo “Mario”. Acrônimo é o nome que se dá à palavra formada pelas iniciais ou pelas primeiras sílabas de outras palavras diferentes, como Vasp (Viação Aérea São Paulo), radar (radio detecting and ranging), etc. Não se deve confundir acrônimo com sigla. O acrônimo é um substantivo novo, um neologismo da língua: só a primeira letra é maiúscula, se se trata de substantivo próprio, como Otan ou Nasa; mas todas são minúsculas se se trata de substantivo comum, como aids ou sonar (sound navigating and ranging). Se o acrônimo tiver até três letras, todas serão maiúsculas, como ONU, LER, ECA, etc. Na sigla, cada letra de palavra diferente é lida em separado, sem formar palavra nova: PMDB, PT, STF, CPMF, etc. Nomes como peemedebista ou petista são formas derivadas em que as letras da sigla original continuam sendo ditas uma a uma, embora se escrevam por extenso, com o sufixo nominal adequado. Na sigla todas as letras são maiúsculas. O acrônimo “Mario” é formado pelas iniciais dos verbos mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar, que, embora terminem em –iar, fazem o presente do indicativo e seus tempos derivados, como o subjuntivo presente e as duas segundas pessoas do imperativo, em –eio: eu medeio, eu anseio, eu remedeio, eu incendeio, eu odeio.

Certos verbos em –iar têm parônimos correspondentes em –ear (parônimos são palavras parecidas, com significados diferentes, como tráfego/tráfico, por exemplo), como arriar  (abaixar) e arrear (selar o cavalo); vadiar (andar à toa) e vadear (atravessar o rio a pé); enfiar (empurrar para dentro) e enfear (tornar feio),  afiar (amolar faca) e afear (tornar feio); estiar (parar de chover) e estear (pôr esteio, escorar). Assim, a letra do velho samba,  que diz “Não vadeia, Clementina,/ fui feita pra vadiar”, deveria ser “Não vadia, Clementina,/ fui feita pra vadiar”. No jogo de cartas, devo dizer “arrio o jogo sobre a mesa” e não “arreio”.  Embora essas raridades não sejam suficientes para inibir o bom desempenho do falante estudioso, é importante ter cautela para não dizer barbaridades como “arreio as cartas” ou “vadeio à toa sem emprego”…  Ou, pior ainda, dizer “eu pentio” ou “eu assobeio”, por “eu penteio” ou “eu assobio”…*

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)