ISTO NÃO EXISTE MAIS…

UM MARECHAL HONESTO E INGÊNUO

O general Henrique Lott foi dos mais honestos e competentes chefes militares do Brasil. Ingênuo, também. Votou em Juarez Távora para presidente da República, em 1955, mas insurgiu-se contra a negativa de posse do candidato vitorioso, Juscelino Kubitschek, quando um bando de generais e de civis golpistas tentaram impedir sua posse. Prendeu a metade deles, menos os que eram deputados, porque detinham imunidade parlamentar. Mas assegurou o cumprimento da Constituição. Quando da sucessão de JK, viu-se feito candidato e foi um desastre como tal, especialmente porque seu adversário era Jânio Quadros, rei dos malandros. Nacionalista, Lott enfrentou o adversário com a força de sua ingenuidade e por isso perdeu a eleição.

Certa feita, general já   promovido a marechal, desembarcou em Florianópolis, sendo recebido pelos cardeais do PSD, partido de JK, com Celso Ramos à frente. O cacique pessedista, ainda no aeroporto, apelou ao candidato para que omitisse seu programa de governo no que dizia respeito à educação. Porque Lott vinha pregando pelo país inteiro a estatização do ensino publico. Queria as escolas gratuitas e geridas pelo Estado, acabando com a exploração dos estabelecimentos privados empenhados no lucro. Celso Ramos pediu que não tocasse no tema, no comício daquela noite, porque em Santa Catarina a imensa maioria das escolas era particular, especialmente religiosas.

No palanque, o general falou da importância da nacionalização das atividades sociais, mas não abordou o ensino. Já terminava seu discurso e os dirigentes do PSD exultavam, pois nem uma palavra fora dita contra as escolas particulares. Agradecendo à multidão, aplaudidíssimo, Lott abraçou Celso Ramos e concluiu: “Para demonstrar que sou um candidato honesto e inflexível, que não se dobra às pressões do capital especulativo, termino respondendo a meu amigo e correligionário aqui presente. Recuso seu apelo de ignorar minha determinação relativa ao ensino público: se eleito, vou estatizar todos os colégios privados, dando ao povo condições de instruir-se sem privilégios nem explorações!”

Vieram as eleições e o marechal perdeu de alto a baixo em todo o estado. Os catarinenses discordaram dele.

Esse episódio se conta a propósito das eleições de outubro. Dilma, Aécio e Eduardo dispõem em seus programas de governo de farta argumentação favorável ao ensino público, mesmo decididos a coabitar com as escolas privadas. Perguntem o que defenderão em Santa Catarina…*

(*) Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa Online.

TETAS GORDAS…

Os salários que o Sesi paga aos apadrinhados do PT

As remunerações a indicados por Lula e pelo partido chegam a R$ 36 mil – e alguns deles nem precisam aparecer para trabalhar

BUUUU!!! A filial do Conselho do Sesi em São Bernardo, São Paulo. Os funcionários deveriam trabalhar lá, mas ninguém conseguia vê-los antes da visita dos caça-fantasmas  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

Um espectro ronda a casa 787 da Rua José Bonifácio, numa esquina do centro de São Bernardo do Campo, em São Paulo – o espectro do empreguismo. De longe, vê-se apenas uma casa amarela, simples e estreita como as demais da região. De perto, subitamente, tudo o que é sólido se desmancha no ar e – buuu! – sobram somente os fantasmas. Naquele endereço, na cidade paulista onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mora e fez sua carreira, funciona o “escritório de representação”, em São Paulo, do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria, o Sesi. A casa amarela mal-assombrada fica a 40 metros do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em que Lula se projetou como um dos maiores líderes políticos do Brasil. O sindicato mais famoso do país continua sob o comando de Lula e seus aliados. A casa amarela foi criada por esses aliados no governo de Lula. Quem a banca são as indústrias do país. Todo ano, elas são obrigadas a financiar as atividades do Sesi, cuja principal finalidade é qualificar os trabalhadores das indústrias. A casa amarela é um dos melhores lugares do Brasil para (não) trabalhar. O escritório é modesto, mas os salários são inimagináveis – e as jornadas de trabalho, imaginárias. Difícil é entrar. É preciso ser amigo de petistas poderosos.

Na manhã da última quarta-feira, ÉPOCA reuniu coragem para bater à porta da casa amarela. Estava em busca de Marlene Araújo Lula da Silva, uma das noras do ex-presidente Lula. No papel e na conta bancária, ela trabalha ali. A reportagem encontrou apenas dois sindicalistas, além da copeira Maria e da secretária Silvana. Dona Maria parece ser a mais produtiva do lugar. Faz um ótimo café. Talvez por medo, não fala sobre as aparições. Assim que ÉPOCA perguntou pela nora de Lula, a secretária Silvana tratou de alertá-la por telefone. Cerca de 45 minutos depois, Marlene finalmente estacionava seu Hyundai Tucson preto na garagem.

Casada com o quarto filho de Lula, Sandro Luís Lula da Silva, Marlene raramente aparece no serviço, apesar de ter um salário de R$ 13.500 mensais. Diz ser “formada em eventos”. Questionada sobre o que faz no Sesi, onde está empregada desde 2007, Marlene foi vaga. Disse trabalhar em programas do Sesi na capital paulista e na região do ABC. “Trabalho com relações institucionais. Fico muito tempo fora do escritório. Tenho uma jornada flexível. Quem me contratou foi o Jair Meneguelli”, afirmou. Meneguelli é o presidente do Sesi. Sindicalista e amigo de Lula, ocupa o cargo desde que o PT chegou ao Planalto, em 2003. “Mas por que está fazendo essas perguntas? Se você está me procurando, deve ser pela ligação que tenho de sobrenome”, disse.

Marlene é apenas um dos fantasmas vermelhos que, segundo descobriu a Controladoria-Geral da União, a CGU, habitam a casa amarela. No começo do ano, funcionários do Sesi procuraram a CGU para denunciar a existência de fantasmas nos quadros da entidade. Todos indicados por Lula e outros próceres do PT. Os auditores da CGU, como caça-fantasmas, foram a campo. Encontraram apenas ectoplasmas. Estiveram na casa amarela e jamais flagraram a nora de Lula trabalhando. Experimentaram ligar em horários alternados, na tentativa de achá-la na labuta. Nenhum vestígio. Por fim, decidiram perguntar ao Sesi que atividades Marlene exercera nos últimos tempos. A resposta foi evasiva. Agora, a CGU trabalha num relatório sobre a caça aos fantasmas.

A rotina tranquila permitiu que Marlene se lançasse ao mundo corporativo. Em 2009, ela se tornou sócia do marido e de um cunhado, Marcos Luís, numa empresa de tecnologia que se diz especializada na produção de software, a FlexBr. Até hoje a empresa não tem site. Antes escanteada num imóvel da família do advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, em São Bernardo do Campo, a FlexBr mudou-se para um  belo prédio no bairro dos Jardins, em São Paulo. ÉPOCA também esteve lá na semana passada. As atendentes do prédio disseram que a empresa não funciona mais lá há pelo menos um ano.  Nunca viram Marlene ali.

Por que o emprego de Marlene no Sesi nunca veio à tona? Um servidor do Sesi afirmou que se deve à dificuldade de associar o nome de solteira de Marlene ao sobrenome Lula da Silva. Na relação de funcionários do Sesi, o nome dela é Marlene de Araújo. Sobram fantasmas na família Lula. Em 2005, o jornal Folha de S.Paulo revelou que Sandro Luís, o marido de Marlene, tinha sido registrado como funcionário do PT paulista, com salário de R$ 1.500. Sandro nem sequer aparecia no partido.

APARIÇÕES Marlene (à esq.), nora de Lula, só apareceu no trabalho depois de ÉPOCA perguntar por ela. Márcia (à dir.), mulher do mensaleiro João Paulo Cunha, estava em casa (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

O assessor Rogério Aurélio Pimentel deveria ser colega de Marlene na casa amarela.  Até há pouco, estava lá apenas em espírito. Aurélio foi contratado no começo de 2011, para ser gerente de serviços sociais. Ganha R$ 10 mil por mês. O emprego no Sesi foi arranjado depois que a presidente Dilma Rousseff chegou ao Planalto e o dispensou. Aurélio, amigo de Lula, trabalhou no gabinete pessoal dele nos oito anos de mandato. No Planalto, dividia sala com Freud Godoy, ex-segurança de Lula. Godoy e Aurélio eram conhecidos no Planalto como “dupla dinâmica”. Freud se consagrou com o escândalo dos Aloprados, na campanha de Lula em 2006. Foi acusado de usar dinheiro sujo para comprar um dossiê fajuto com denúncias contra o tucano José Serra. ÉPOCA encontrou Aurélio na casa amarela. Ele disse não ter sido indicado por Lula. “Trabalho com Marlene assessorando projetos e também ajudo aqui no escritório”, disse. Não quis dar mais explicações. Desde as visitas dos caça-fantasmas da CGU, Aurélio passou a se apresentar no escritório do Sesi com mais regularidade.

Na sede do Sesi, em Brasília, os caçafantasmas entrevistaram funcionários (de verdade) e vasculharam os computadores dos fantasmas em busca de vestígios de que trabalhavam. Nada. Uma das que não entravam no próprio computador chama-se Márcia Regina Cunha. Ela é casada com o ex-deputado João Paulo Cunha, do PT de São Paulo, condenado no processo do mensalão. Foi Márcia quem buscou os R$ 50 mil, em dinheiro vivo, que João Paulo recebeu de Marcos Valério – ele dizia que ela fora ao banco pagar a conta de TV a cabo. No Sesi, Márcia está empregada como gerente de marketing desde 2003. Recebe R$ 22 mil por mês.

Sou gerente de marketing. Trabalho lá (em Brasília) e aqui em São Paulo”
MÁRCIA CUNHA, MULHER DO MENSALEIRO JOÃO PAULO CUNHA, EM SUA CASA

Na tarde da mesma quarta-feira em que procurou Marlene na casinha amarela, ÉPOCA flagrou Márcia a 1.000 quilômetros da sede do Sesi em Brasília, onde ela deveria estar. Márcia estava em sua casa, na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. A casa de Márcia e do ex-deputado João Paulo Cunha está em reforma. Márcia parecia acompanhar as obras. ÉPOCA quis saber por que ela não estava em Brasília. “Sou gerente de marketing. Trabalho lá (Brasília) e aqui em São Paulo. Tem uma unidade do Sesi aqui”, disse – e logo desapareceu.

Os caça-fantasmas tiveram dificuldade para encontrar também o advogado e jornalista Douglas Martins de Souza no Sesi em Brasília. Contratado para ser consultor jurídico, ganha R$ 36 mil. Filiado ao PT desde 2000, foi secretário adjunto da Secretaria de Igualdade Racial no início do governo Lula. Marlene disse que Douglas “fica entre Brasília e São Paulo”.

Além de atender a pedido de amigos, Meneguelli, o presidente do Sesi, também emprega os seus. Um deles é o petista Osvaldo Bargas. No período em que Meneguelli presidiu a Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, Bargas era seu número dois. No Sesi, recebe salário de R$ 33 mil. A sindicalista Sandra Cabral, amiga do ex-tesoureiro petista Delúbio Soares, também conseguiu emprego lá. Recebe R$ 36 mil por mês.

COMPANHEIROS Jair Meneguelli e o ex-presidente Lula. Nomeado por Lula, ele está há 11 anos no Sesi e ganha até R$ 60 mil mensais (Foto: Ricardo Benichio/divulgação)

Se alguém ganha bem no Sesi, é o próprio Meneguelli. Há meses em que ganha quase R$ 60 mil – somando ao salário uma “verba de representação”. Hoje, ocupa uma sala espaçosa num dos prédios mais luxuosos da capital federal. Meneguelli desfila num impecável Ford Fusion preto, modelo 2014, com motorista. Para não ficar a pé no ABC paulista, deu ordens para que um Toyota Corolla zerinho fosse transportado de Brasília a São Bernardo do Campo. Fica a sua disposição, com motorista. As despesas com esses e outros três bólidos do Sesi somam mais de R$ 150 mil por ano.

Meneguelli tem uma mania incorrigível de confundir o patrimônio do Sesi com o dele. Todos os finais de semana, recebia passagens pagas pelo Sesi para ir a sua casa em São Caetano do Sul, em São Paulo. Isso acabou quando uma auditoria do Tribunal de Contas da União, o TCU, vetou o procedimento. Outra auditoria da CGU também achou estranho que Meneguelli tenha criado uma representação do Sesi em São Bernardo do Campo – e não na capital paulista. Silvana Aguiar, secretária de Meneguelli em São Bernardo, disse que a casa amarela, antes de ser o escritório do Sesi, já abrigava o escritório político de seu patrão.

Por meio de sua assessoria, Meneguelli afirmou que Marlene, Márcia, Aurélio, Sandra e Douglas cumprem suas jornadas de trabalho normalmente, que os cargos são de livre provimento e que os carros usados por ele são compatíveis com “padrão executivo, adotado pela instituição desde antes da atual gestão, e a despeito de quem seja gestor”. Afirmou não enxergar conflito de interesses na contratação do amigo Bargas. Lula não quis comentar. *

(*) MURILO RAMOS – ÉPOCA

CASCATEIROS JURAMENTADOS

O MAL DE PROMETER TUDO A TODOS

Jânio Quadros já havia renunciado, depois foi cassado, em seguida confinado, anos mais tarde, anistiado. Candidatou-se a governador de São Paulo, perdeu outra vez. Parecia furada a profecia de Sana Khan, que prenunciara a ida do jovem recém-formado em Direito à Câmara de Vereadores, à Assembleia Legislativa, à prefeitura de São Paulo, ao governo do estado e à presidência da República. Chorando, o vidente previu a renúncia mas anunciou que décadas depois Jânio retornaria ao poder nos ombros da multidão.

Ninguém dava mais um centavo pela carreira política do histriônico personagem, quando, surpreendentemente, ele se elege prefeito de São Paulo. O vidente só errara o alvo, imaginando de novo a presidência da República, quando o voo era mais curto, apesar da imagem que antecipava, de centenas de milhares de pessoas elegendo o ex-presidente.

Antes de empossar-se na prefeitura, Jânio deu entrevista a uma rede de televisão. Lembrei sua campanha presidencial, onde prometera tudo a todos: reformas sociais profundas para o trabalhador. Terra para o camponês. Política externa alinhada ao Terceiro Mundo. Participação dos empregados no lucro das empresas. Ensino gratuito em todos os níveis para a juventude. E mais:

Para os empresários, estabilidade econômica, juros baixos, crédito fácil e contenção salarial dos trabalhadores. Ajuda do governo a investidores nacionais e estrangeiros. Segurança e ordem para a classe média. Novos direitos para os parlamentares. Garantia da propriedade da terra para os fazendeiros. Hierarquia e disciplina para os militares. Submissão aos postulados da Igreja para as massas empobrecidas.

Em suma, quando candidato presidencial, Jânio contemplou com promessas todos os grupos, categorias e classes, obtendo formidável apoio nacional. Cada um ouvia apenas o que queria ouvir, ignorando as propostas que batiam de frente com suas concepções.

Empossado no palácio do Planalto, imaginou poder atender a todas as promessas, por sinal conflitantes. Viu inverter-se a equação. Passou a receber críticas e hostilidade dos que discordavam de suas ações em favor de interesses opostos. Todo mundo ficou insatisfeito. O resultado foi sua tentativa de tornar-se ditador, única forma de exercer a autoridade contestada. Felizmente, quebrou a cara. Deixamos de viver a ditadura anos antes que ela chegasse por outras mãos. O Congresso tomou conhecimento da renúncia, ato unilateral de quem a pratica. As multidões não foram buscá-lo no fim de semana para exercer o poder excepcional, como antes fizeram os egípcios com Gamal Abdel Nasser e os cubanos com Fidel Castro.

Mesmo assim, Jânio continuou fixado na profecia de Sana Khan. Depois de sofrer anos de ostracismo, até de exílio, ganhou como consolação a prefeitura de São Paulo, de onde saiu para o esquecimento, uma vez completado seu mandato. Não deram certo aqueles vaticínios do estranho leitor do futuro.

Por que se recordam acontecimentos hoje tão distantes no tempo? Porque na remota entrevista de prefeito eleito, depois de indagar dele se não repetiria o erro anterior, espantei-me quando Jânio se levantou, olhou-me nos olhos e sentenciou: “o senhor acaba de explicar minha renúncia à presidência da República, mas não repetirei o erro anterior!” Ele jamais havia explicado o gesto inusitado.

Há outro motivo para essas reminiscências. Porque hoje os três principais concorrentes à presidência da República, Dilma, Aécio e Eduardo, estão prometendo tudo a todos. Correm o risco de acabar prefeitos…*

(*) Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa Online

LEGADO DA COPA

Produção industrial recua pelo quarto mês seguido e cai 1,4% em junho

A parada forçada pela Copa do Mundo, os estoques em alta e a desconfiança do empresário levaram a indústria a acentuar sua crise em junho.

No mês, a produção industrial recuou 1,4%, a quarta queda seguida no ano, segundo dados livres de afeitos sazonais. Os dados foram divulgados pelo IBGE na manhã desta sexta-feira (1º).

O resultado veio um pouco melhor do que as previsões do mercado, que esperava queda entre 2% e 3%.

Na comparação com junho de 2013, indústria registrou recuo de 6,9%, no pior resultado nessa relação desde 2009, quando a produção foi duramente afetada pela crise econômica mundial.

Considerando todos os meses, essa é a pior queda na comparação anual desde setembro de 2009.

Na comparação com o mês imediatamente anterior, o setor já vinha de três quedas, nos meses de março, abril, maio, de, respectivamente, 0,7%, 0,5% e 0,8%, segundo dados revisados.

Assim, o índice acumulado neste ano já soma uma queda de 2,6%, e em 12 meses, de 0,6%.

O setor também é afetado por juros maiores, crédito restrito, inflação elevada e especialmente empresários com menos disposição de investir nesse ano.

O mercado de trabalho também tem mostrado sinais de arrefecimento, sem a entrada de mais mão de obra no mercado, tirando da população a disposição para consumir.

Editoria de Arte/Folhapress

DURÁVEIS

Fortemente sensível à taxa de juros e ao crédito, o setor da indústria que produz bens duráveis (como automóveis e eletrodomésticos) levou um forte tombo e recuou 24,9% em sua produção frente ao mês anterior.

Na comparação com junho do ano passado, a queda é de 34,3%.

Segmento mais sensível ao humor do empresário para investir, o setor de bens de capital –que inclui caminhões, por exemplo– caiu 9,7%, na comparação com maio e 21,1% na comparação com junho de 2013.

A compra de máquinas e equipamentos é reflexo direto da confiança do empresário com o futuro da economia, e a queda nesse quesito mostra a desconfiança do grupo.

Dos 24 ramos acompanhados pelo IBGE, a indústria perdeu produção em 18.

Em quatro meses, a produção de bens duráveis perdeu um terço de seu volume –a queda acumulada desde março foi de 33,3%.

Nessa mesma comparação, o setor de bens de capital encolheu 17,8%.

A queda na indústria de bens de consumo duráveis foi a pior da série histórica, que é desde 2002.

COMPARE O DESEMPENHO (em %)

GRUPO JUN.14/MAI/141 JUN.14/JUN.13 NO ANO EM 12 MESES
Bens de Capital -9,7 -21,1 -8,3 1,2
Bens Intermediários -0,1 -2,9 -2,2 -1,2
Bens de Consumo -7,9 -10,7 -1,9 -0,3
Duráveis -24,9 -34,3 -8,6 -3,7
Semiduráveis e não Duráveis -1,3 -3 0,3 0,8
INDÚSTRIA GERAL -1,4 -6,9 -2,6 -0,6

1 Série com ajuste sazonal Fonte: IBGE

DIAS PARADOS

Os segmentos que sofreram mais em junho com dias parados e com questões macroeconômicas foram os de equipamentos de informática e produtos eletrônicos (recuo de 29,6%) e automobilístico (queda de 12,1%), mesmo com a manutenção do IPI menor, que vai vigorar até dezembro.

Os números ruins da indústria de veículos neste ano levaram o setor a programar férias coletivas.

Outras contribuições negativas para o indicador industrial vieram dos ramos de confecção, do segmento de bens de consumo, com queda de 10%, e de máquinas e equipamentos, que produziu 9,4% menos do que maio. A Indústria de produtos de borracha e material plástico, classificada dentre os bens intermediários, caiu 5,6%.

Considerando os seis primeiros meses do ano, o encolhimento da produção de 2,6% foi influenciado, também, pela indústria automobilística, com queda de 16,9%, e da indústria de produtos de metal e metalurgia, com recuos de 10,1% e 5%, respectivamente.

TÁ TUDO DOMINADO

“O aço que nos tempera”

000 - a preocupação

…são fatores, entre outros, que determinaram o desgaste do PT. Alguns afirmam que corrupção sempre existiu, mas agora aumentou a transparência. Parcialmente correto. No entanto, muitos casos só emergiram, como o mensalão e esse escândalo carioca, de uma forma clássica: a disputa pelo butim…

O relatório sobre a queda do viaduto em Belo Horizonte apontou a causa: a viga de sustentação tinha só 1/10 do aço necessário para conter o peso da estrutura. Stalin chamava-se o homem de aço. Romances populares editados pelos partidos comunistas da época celebravam os bolcheviques de aço, entre eles um aviador que perdeu as pernas e continuou combatendo. No universo ocidental, mais crítico, o aço é integrado ao corpo humano na figura de um herói infantil, o Super-homem. Não tenho nada contra a fusão do corpo com o metal. O titânio tem ajudado muita gente a se mover normalmente: é uma boa presença. Felizmente, não trabalhamos com essa mitologia de corpos de aço. Mas pelo menos o aço de nossas construções deveria ser o suficiente para mantê-las de pé.

Para onde foram os 90% do aço? É uma pergunta pertinente, pois só assim entenderíamos melhor o desabamento, para além do laudo técnico. Ausência do aço necessário, camuflada em misturas de areia e cimento, é um elemento simbólico no País. Foi essa mistura malemolente que derrubou os prédios do Sérgio Naya. No Rio, um deputado confessa em gravação que recebe R$ 15 mil/mês, entre outros ganhos, só com o lanche que é servido por ONGs conveniadas com a prefeitura. Se os lanches pudessem ser decompostos como elementos de uma viga, diríamos que milhares de pães, rios de café com leite, igarapés de laranjada desembocaram na barriga do deputado.

Uma notícia diz que Lula se surpreendeu com o desgaste do governo, esperando algo assim só para 2018. Os governos desgastam-se, naturalmente, numa democracia. Nela precisam gerir recursos limitados para atender a gigantescas necessidades. E vencem as eleições prometendo mais do que podem. Esse é um dos dínamos da alternância. Mas cada governo se desgasta de maneira singular. A tolerância e a cumplicidade com a corrupção são fatores, entre outros, que determinaram o desgaste do PT. Alguns afirmam que corrupção sempre existiu, mas agora aumentou a transparência. Parcialmente correto. No entanto, muitos casos só emergiram, como o mensalão e esse escândalo carioca, de uma forma clássica: a disputa pelo butim.

O desgaste do PT começou como uma pedra na água. O primeiro círculo de descontentes nasceu com os navegantes próximos que abandonaram o barco. Impulsionados pelos ventos econômicos, novos amplos círculos desenham-se na água. O processo não se resume à política interna e à economia. O PT quer realizar uma política externa dele, e não do País. Isso é possível em Cuba ou na China. Não para um partido que chega ao poder pelo voto, num contexto democrático. Os dirigentes chineses e cubanos fundem o país com o partido porque liquidaram a oposição organizada.

Esse tema não tem grande impacto eleitoral, mas sempre me preocupou. A nota que o governo brasileiro publicou sobre a guerra na Faixa de Gaza exprime a posição do partido e de milhões de pessoas diante da morte de civis e crianças. No entanto, uma nota nacional sempre é mais equilibrada, mencionando também a violência do Hamas.

O porta-voz israelense chamou o Brasil de anão diplomático. Um líder trabalhista chamou o Brasil de gigante do futebol. Não somos nem uma coisa nem outra. É um equívoco chamar o Brasil de anão diplomático, pois retira a importância do fato histórico da criação de Israel. Neste caso da guerra em Gaza, a violência da resposta de Israel acabou atenuando a posição do governo brasileiro. Mas, sem dúvida, houve uma inflexão: ingenuamente, Lula achou que poderia influenciar um processo de paz. Chegou a viajar para isso.

…”A política externa tem pouco impacto eleitoral, mas soma-se aos equívocos que, no conjunto, jogam o PT numa aventura romanesca: navegar sem novas ideias num oceano de desejos de mudança. São Paulo é uma referência: o governo perde para qualquer um dos opositores, sinal de que, para a maioria dos entrevistados, o PT já era. Em termos eleitorais, isso é equacionado em números: perdemos aqui, ganhamos em outros Estados, não ameaça a vitória nacional. Mas perder na região mais desenvolvida do País dá o que pensar, sobretudo para quem se diz na vanguarda do progresso, combatendo elites brancas e outros moinhos de vento”….

Ao lançar a nota, o governo praticamente abre mão de dialogar com um dos atores. O Brasil não tem o poder de resolver uma crise que desafia a humanidade, como a do Oriente Médio. Mas tem sido eficaz na pacificação de conflitos nos países de sua região. Está na busca efetiva da paz o grande fundamento de nossa política externa. Mas o PT move-se em zigue-zagues.

A política externa tem pouco impacto eleitoral, mas soma-se aos equívocos que, no conjunto, jogam o PT numa aventura romanesca: navegar sem novas ideias num oceano de desejos de mudança. São Paulo é uma referência: o governo perde para qualquer um dos opositores, sinal de que, para a maioria dos entrevistados, o PT já era. Em termos eleitorais, isso é equacionado em números: perdemos aqui, ganhamos em outros Estados, não ameaça a vitória nacional. Mas perder na região mais desenvolvida do País dá o que pensar, sobretudo para quem se diz na vanguarda do progresso, combatendo elites brancas e outros moinhos de vento.

A Bolsa Família é uma zona de conforto porque envolve milhões de pessoas e foi reconhecida internacionalmente. Supor que represente um escudo contra todos os erros e tropeços é um equívoco. Alguns críticos do programa dizem que com a bolsa as pessoas não querem trabalhar. Discordo, minha tese é que, com a bolsa, o governo não quis mais trabalhar, no sentido de interpretar o Brasil, buscar alternativas, ligar-se aos setores mais dinâmicos e desenvolvidos tanto dentro como fora do País. A Bolsa Família deu para o gasto. E agora que o preço político dos erros vai ficando mais alto?

Por mais que os pragmáticos riam, o viaduto que caiu, além de matar duas pessoas, indicou, para mim, o ponto central do momento: nosso sistema político, já frágil, foi perdendo o aço com a mistura de areia e cimento que a longa dominação do PT injetou.

O perito de Minas ficou surpreso porque a viga não se partiu antes. Se traduzimos o aço por credibilidade, também ficamos surpresos como o edifício político se mantém no Brasil. É um problema que transcende as eleições deste ano. Mas elas são a única oportunidade para todos poderem olhar para o abismo que se abriu entre o universo político e o Brasil real.

O ano que nos espera, sobretudo no setor da energia, não é dos mais animadores. O pequeno apagão que vivi na manhã de domingo me lembrou da aspereza do caminho. Tocar o País em tempos de crescimento internacional e distribuição de renda é mais fácil. Quem vencer as eleições encontrará uma pedreira.*

(*) Fernando Gabeira, no Estadão.

ACORDA, BRASIL!

A roda quadrada

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A roda já tinha sido inventada e girava razoavelmente bem.

Na verdade, eram três rodas: inflação na meta, câmbio flutuante e superávit primário de 3,1% do PIB.

Tudo que estava prometido na Carta ao Povo Brasileiro para garantir aos eleitores que o programa do PT iria dormir na gaveta enquanto a política anterior continuaria sendo aplicada, e assim espantar os fantasmas e tornar possível a vitória de Lula, o dr. Palocci aplicou direitinho.

Nunca antes na história deste país um governo reformista reformou tanto a sua retórica para, no fim, mudar para que tudo permanecesse igual, como pregava Tancredo, o sobrinho do príncipe de Salinas, o Leopardo.

A roda continuou girando até que se abrissem as portas da generosidade máxima dos “reformadores”, que foram eleitos para expandir as suas benesses para todos. O dr. Palocci foi escanteado por mil razões, e com ele foi jogada no lixo a roda que girava, o tripé que parava em pé, e o governo, travestido de Estado resolveu meter a sua mão na roda.

A cócega do salvacionismo estatal falou mais alto e o governo resolveu meter a mão na economia, talvez na ilusão de fazer a roda girar mais rápido – ou à imagem e semelhança de suas utopias.

Subitamente foi inventada a quadratura do círculo e a roda parou de girar. Os mecanismos naturais da economia foram substituídos: a mão invisível do mercado foi substituída pela mão pesada do intervencionismo, e o governo resolveu trocar o seu papel regulador pelo papel de benfeitor da humanidade; começou a determinar os lucros e os riscos dos outros, a determinar os preços, a segurar as tarifas para não aumentar a inflação, e o trem descarrilou.

O país começou a crescer aos trancos e barrancos, menos que os seus vizinhos latino-americanos. A inflação começou a descontrolar-se, a feira ficou mais cara, os empresários perderam o “apetite animal” e diminuíram sua gana de investir, o governo voluntarista começou a maquiar as suas contas.

Maquiar as contas públicas é mais fácil do que maquiar e esconder o apetite intervencionista, que faz parte do mais recôndito desejo da alma deste governo. O governo, além de tentar dirigir a mão da economia, tenta agora dirigir também a mão das reações ao seu ímpeto dirigista.

Na véspera de uma eleição que vai decidir se a sua roda quadrada tem suficiente sustentação para continuar a engasgar ou não, o governo intervém também na principal função técnica dos bancos, que é o seu compromisso contratual de orientar seus clientes para preservar seu patrimônio.

Intimida as instituições acusando-as de fazer jogo político-eleitoral simplesmente por cumprir a sua função de relatar fatos, associando-os uns aos outros, até dar-lhes sentido.

Os analistas dos bancos não entendem “porra nenhuma” do Brasil, e quem acha que entende faz com que eles calem a boca.

Onde foi que já vimos esse filme? *

(*) Sandro Vaia, jornalista, no blog do Noblat

BATENDO NA MADEIRA…

Pessimismo inadmissível

000 - cachorro louco

Convencida de que “há no Brasil um jogo de pessimismo inadmissível”, a presidente Dilma, coadjuvada pela cúpula do PT, parece tentada a reverter o jogo na marra.

O ensejo para desencadear uma operação de intimidação dos “pessimistas” foi o texto, enviado a clientes, em que o Banco Santander repisa a constatação, amplamente discutida na mídia, de que o mercado financeiro tem reagido positivamente à queda de popularidade da presidente.

As primeiras reações couberam ao presidente do PT, Rui Falcão, que informou que o comitê da campanha estava avaliando se era o caso de entrar com medida judicial contra o banco, já que o que havia ocorrido era “proibido, porque você não pode fazer manifestações que, por qualquer razão, interfiram na decisão do voto”.

Com base nesse argumento, Falcão permitiu-se fazer admoestações: “Espero que daqui para a frente nem o Santander, nem nenhuma outra instituição incorra nesse tipo de atividade.” (“O Estado de S. Paulo”, 26 de julho).

A investida de Falcão foi logo reforçada pelo Planalto. Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, em 29 de julho, Dilma partiu para cima: “É inadmissível para qualquer país, principalmente um país que é a sétima economia do mundo, aceitar qualquer nível de interferência de qualquer integrante do sistema financeiro, de forma institucional, na atividade eleitoral e política.”

E acrescentou que não queria antecipar o que faria, mas que teria “uma atitude bastante clara em relação ao banco”.

São reações que revelam visão espantosamente autoritária do que deve ser o processo eleitoral numa sociedade democrática.

Na encruzilhada política em que o país se encontra, é natural que, entre muitas outras considerações, cada eleitor leve em conta como poderá ser afetado pela evolução da economia nos próximos quatro anos.

Para que possa tentar vislumbrar essa evolução, é bom que o eleitor seja exposto a amplo leque de visões prospectivas dos desdobramentos econômicos de diferentes desfechos do processo eleitoral.

Parte desse esforço prospectivo é desenvolvido em instituições acadêmicas e institutos de pesquisa. Mas, goste ou não o governo, grande parte desse esforço é também desenvolvido em departamentos de pesquisa de instituições financeiras, grandes empresas, firmas de consultoria, sindicatos de trabalhadores e órgãos de representação patronal.

Com base na repercussão desse leque variado de visões prospectivas na mídia e nas redes sociais, eleitores formam expectativas sobre a evolução da economia e, em alguma medida, conseguem relativizar o discurso econômico dos candidatos a presidente.

O que Dilma Rousseff e a cúpula do PT estão tentando fazer é interditar parte desse confronto de visões prospectivas. Querem ditar quais segmentos da sociedade civil podem participar desse debate e quais não podem.

O que lhes falta é uma Lei (Rui) Falcão que imponha um regime em que a CUT possa brandir à vontade o mantra de que a vitória da oposição é receita certa para arrocho salarial, mas instituições financeiras não possam nem mesmo afirmar que a vitória de Dilma seria deletéria para acionistas da Petrobras e de empresas do setor elétrico.

Melhor faria o Planalto se, refeito do surto de autoritarismo, tentasse entender o que vem alimentando a onda de pessimismo de que se queixa. Logo perceberia que o problema básico é o discurso escapista do governo.

Ainda não se tem a menor ideia do que Dilma faria em 2015 para enfrentar o grave quadro de estagflação que o país enfrenta. Para continuar fechada em copas sobre a definição da sua equipe econômica, a presidente vem alegando que, por ser supersticiosa, prefere não antecipar nomes antes de ser reeleita.

Mas esse suposto sigilo esconde um segredo de polichinelo. Quem quer que tenha acompanhado de perto a política econômica nos últimos anos bem sabe que, se reeleita, a presidente não abrirá mão de continuar a controlar pessoalmente a formulação e a condução da política econômica.

É dessa percepção de que nada vai mudar que advém boa parte da onda de pessimismo que tanto incomoda o governo.

(*) Rogério Furquim Werneck, economista e professor da PUC-Rio, no blog do Noblat.