POR QUE ODEIO E COPIO

000- a coluna do Joauca - 500

Há algum tempo, uma notícia de jornal disse que o “Ministério intermedia acordo”, em lugar de “intermedeia acordo”. Os verbos em –iar têm no infinitivo a mesma pronúncia dos verbos em –ear. Daí a confusão.

Os nomes terminados em –io ou –ia formam verbos em –iar, com –i: auxilio-auxiliar, cópia-copiar, desvio-desviar, distância-distanciar, domicílio-domiciliar, elogio-elogiar, estria-estriar, fantasia-fantasiar, fio-fiar ou afiar, glória-gloriar, guia-guiar, indústria-industriar, repúdio-repudiar, injúria-injuriar, óbvio-obviar, plágio-plagiar, polícia-policiar, prêmio-premiar, sítio-sitiar, suplício-supliciar, vadio-vadiar, etc. Portanto a conjugação é em –io: eu fantasio, eu fio, eu guio, eu repudio, eu sitio, etc.

Os nomes que terminam pelo ditongo –ão, por consoante ou pelas vogais a, e, o, com exceção de breve, amplo e lume, têm os verbos respectivos em –ear: capitão-capitanear, verão-veranear, voz-vozear, flor-florear, mar-marear, senhor-assenhorear, faca-esfaquear, folha-folhear, granja-granjear, banquete-banquetear, bronze-bronzear, haste-hastear, nome-nomear, serpente-serpentear, macaco-macaquear, pleito-pleitear, salto-saltear, touro-tourear, etc. Portanto a conjugação é em –eio: veraneio, banqueteio, bronzeio, hasteio, nomeio, pleiteio, toureio, etc. As exceções (abreviar, ampliar, alumiar) talvez digam respeito à regra de formação (o sufixo verbal é apenas –ar, diferentemente de marear, ou de serpentear, por exemplo, em que o sufixo é –ear): eu abrevio (lat.: abbrevio),  eu amplio (lat. amplio), eu alumio (lat. *allumino).

As exceções à conjugação em –iar são os verbos do acrônimo “Mario”. Acrônimo é o nome que se dá à palavra formada pelas iniciais ou pelas primeiras sílabas de outras palavras diferentes, como Vasp (Viação Aérea São Paulo), radar (radio detecting and ranging), etc. Não se deve confundir acrônimo com sigla. O acrônimo é um substantivo novo, um neologismo da língua: só a primeira letra é maiúscula, se se trata de substantivo próprio, como Otan ou Nasa; mas todas são minúsculas se se trata de substantivo comum, como aids ou sonar (sound navigating and ranging). Se o acrônimo tiver até três letras, todas serão maiúsculas, como ONU, LER, ECA, etc. Na sigla, cada letra de palavra diferente é lida em separado, sem formar palavra nova: PMDB, PT, STF, CPMF, etc. Nomes como peemedebista ou petista são formas derivadas em que as letras da sigla original continuam sendo ditas uma a uma, embora se escrevam por extenso, com o sufixo nominal adequado. Na sigla todas as letras são maiúsculas. O acrônimo “Mario” é formado pelas iniciais dos verbos mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar, que, embora terminem em –iar, fazem o presente do indicativo e seus tempos derivados, como o subjuntivo presente e as duas segundas pessoas do imperativo, em –eio: eu medeio, eu anseio, eu remedeio, eu incendeio, eu odeio.

Certos verbos em –iar têm parônimos correspondentes em –ear (parônimos são palavras parecidas, com significados diferentes, como tráfego/tráfico, por exemplo), como arriar  (abaixar) e arrear (selar o cavalo); vadiar (andar à toa) e vadear (atravessar o rio a pé); enfiar (empurrar para dentro) e enfear (tornar feio),  afiar (amolar faca) e afear (tornar feio); estiar (parar de chover) e estear (pôr esteio, escorar). Assim, a letra do velho samba,  que diz “Não vadeia, Clementina,/ fui feita pra vadiar”, deveria ser “Não vadia, Clementina,/ fui feita pra vadiar”. No jogo de cartas, devo dizer “arrio o jogo sobre a mesa” e não “arreio”.  Embora essas raridades não sejam suficientes para inibir o bom desempenho do falante estudioso, é importante ter cautela para não dizer barbaridades como “arreio as cartas” ou “vadeio à toa sem emprego”…  Ou, pior ainda, dizer “eu pentio” ou “eu assobeio”, por “eu penteio” ou “eu assobio”…*

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

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