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Indefinição de equipe econômica mina credibilidade de Dilma

A definição do novo ministro da Fazenda é a primeira medida que a presidente Dilma Rousseff (PT), reeleita no domingo (26), precisa adotar nos próximos dias.

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A definição do novo ministro da Fazenda é a primeira medida que a presidente Dilma Rousseff (PT), reeleita no domingo (26), precisa adotar nos próximos dias. É o que garante o cientista político do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Carlos Melo.

Após derrotar o candidato Aécio Neves (PSDB) por um placar apertado, 51,64% contra 48,36% dos votos, Dilma não venceu o pessimismo do mercado financeiro, insatisfeito com a falta de clareza sobre a condução da economia brasileira.

“As expectativas são nebulosas. Ela está tranquila demais diante de um resultado apertado que obteve nas urnas”, avalia Melo.

Para o cientista político, há um desafio político pela frente: acabar com o discurso que dividiu a sociedade brasileira. Durante a campanha, Dilma estimulou o discurso dos ricos contra os pobres, dos rincões contra os centros urbanos.

No caminho da divisão, existem dois polos distintos. De um lado, a avaliação positiva das políticas sociais do governo. Do outro, a baixa qualidade dos serviços, como saúde, segurança, transporte público e educação.

O que representa a reeleição de Dilma Rousseff?

A margem pequena da vitória de Dilma significa uma divisão clara da sociedade. De um lado, a sociedade tem uma avaliação positiva das políticas sociais do governo. Do outro lado, uma parcela grande da sociedade avalia de forma negativa a qualidade dos serviços e a condução do processo político-econômico dos últimos anos.

Quais são os desafios da presidente para os próximos 4 anos?

O desafio é acabar com esse mal-estar causado por causa de uma sociedade dividida. Para tanto, ela precisa de respostas rápidas em dois campos. Na economia, o desempenho da atividade precisa melhorar. Sem desenvolvimento econômico, não tem distribuição, não tem inclusão social, não tem aumento de renda. No campo político, é necessário resgatar a ideia de uma política elevada, que não se dê só pela ocupação de cargos.

Quais as medidas que devem ser tomadas nos próximos 100 dias?

A primeira coisa que ela precisa definir é quem será o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. É preciso deixar claro o perfil da sua equipe. Existem várias expectativas da sociedade a respeito do governo dela. As expectativas são nebulosas. Ela está tranquila demais diante de um resultado apertado que obteve nas urnas.

O clima tenso que tomou conta da campanha presidencial se estenderá durante o novo mandato de Dilma?

Ela é a principal figura do país, ela tem o papel de desfazer o clima. Ela precisa fazer gestos, estabelecer as pontes de diálogo e reverter expectativas pessimistas. No presidencialismo, quem tem a iniciativa política é o presidente. Vai depender muito da Dilma.

Aécio Neves será um líder diferente da oposição porque teve uma votação maior?

O Aécio era dado como morto há 50 dias. Acabou saindo do processo como o mais bem votado candidato tucano nas últimas eleições. Tem chance de mostrar que tem força. Agora, terá competidores fortes: Geraldo Alckmin e o José Serra. É preciso saber se ele conseguirá manter a presidência do PSDB e conduzi-lo a uma mudança e manter o capital político da eleição. Ao mesmo tempo, Aécio deve explicação clara porque ele perdeu em Minas Gerais.

Como manter as políticas sociais com uma economia que dá sinais de desgaste?

Os programas sociais dependem de orçamento (recursos). Os recursos dependem de arrecadação. A arrecadação depende de desenvolvimento. Se não tem atividade econômica, diminui arrecadação e o cobertor fica curto. Acaba-se com o fluxo. É preciso retomar o desenvolvimento para garantir a continuidade de políticas sociais que são importantes.

A Dilma vai ter que adotar medidas impopulares, que tanto criticou, para levar a economia brasileira de volta aos trilhos?

Algum ajuste vai ter que fazer. Não há alternativa. Ninguém sabe em que grau e com que dinâmica. Temos problemas de tarifa de energia e gasolina. Ela aumentará. Mas em que proporção? Como vai fazer? Não sabemos. Dilma será obrigada a aumentar as tarifas, mas o ritmo é uma incógnita. Ela não esclareceu o que pretende fazer, nem quando começará.

O sistema de coalizão, com partidos tão diferentes ideologicamente, não é um dos motivos de tanta corrupção?

É o motivo. Precisamos de reforma e mudar a lógica. A lógica do presidencialismo de coalizão é mais do mesmo. Novamente, ela não deixa claro como irá fazer mudança. Ganhou a eleição sem esclarecer como mudará o sistema. É natural que agentes econômicos e políticos fiquem ansiosos com a situação. A bola está com ela, que está demorando a passar a bola. *

(*) Gabriel Garcia – O Globo

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