PETRORROUBALHEIRAS

Petrobras: falta autocrítica

no enredo de Dilma

 Dilma-Coreia-do-Norte-480x319

Alguém precisa levar para Dilma Rousseff uma cópia do último depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa à Justiça Federal. Ocorreu em 8 de outubro, em Curitiba. Coisa pública. Nada a ver com a delação premiada feita em segredo. Presidiu a audiência o juiz Sérgio Moro. Antes de encerrar o interrogatório, ele perguntou a Paulo Roberto se desejava dizer algo.

E o interrogado: “Queria dizer só uma coisa, Excelência. Eu trabalhei na Petrobras 35 anos. Vinte e sete anos do meu trabalho foram trabalhos técnicos, gerenciais. E eu não tive nenhuma mácula nesses 27 anos.”

Paulo Roberto emendou: “Se houve erro —e houve, não é?— foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é dando que se recebe. Eles dizem muito isso. Então, esse envolvimento político que tem, que tinha, depois que eu saí não posso mais falar, mas que tinha em todas as diretorias da Petrobras, é uma mácula dentro da companhia…”

Nesta segunda-feira, já reeleita para um novo mandato de quatro anos, Dilma falou ao Jornal Nacional. Questionada sobre o escândalo da Petrobras, sucedâneo do mensalão, a presidente respondeu que espera justiça, “doa a querm doer”. Disse que fará “o possível para colocar às claras o que aconteceu.”

Dilma vociferou: “Não vou deixar pedra sobre pedra. Vou investigar. […] Eu vou fazer questão que a sociedade brasileira saiba de tudo. Eu não concordo que isso leva à crise. Acho que o que leva à crise no Brasil é as suposições, as ilações e as insinuações.”

Pois bem, para evitar suposições, ilações e insinuações sobre sua dificuldade de entender o sentimento de mudança que quase a arrancou do Planalto, Dilma deveria convocar os jornalistas para repassar-lhes três declarações:

1. ‘Lula errou ao entregar diretorias de estatais como a Petrobras a prepostos de partidos políticos’.

2. ‘Eu errei duas vezes: como presidente do Conselho de Administração da Petrobras, por silenciar ante a chegada da ilicitocracia à estatal. Como presidente da República, ao manter o doutor Paulo Roberto no comando da diretoria de Abastecimento da Petrobras entre janeiro de 2011 e abril de 2012′.

3. ‘No meu segundo mandato, diretores de empresas públicas serão escolhidos pelapresidenta da República, não por aliados políticos de baixa qualificação moral’.

Enquanto Dilma não pronunciar essas três frases, o lero-lero do “doa a quem doer” e a conversa mole do “não deixarei pedra sobre pedra” serão palavras ocas. O repórter acredita que a encrenca funciona como o futebol. Ou o vôlei. O sujeito pode ser supertalentoso, mas não marca gol, não faz o ponto sozinho.

Tem toda uma engrenagem por trás do lance: a agremiação, o preparador físico, o massagista, o técnico e, mais importante, o time em ação, armando toda a jogada que resultará no chute ou na cortada indefensáveis.

Na corrupção é igualzinho. O governo se autodefine como “de coalizão”, leva as diretorias da Petrobras ao balcão, esquece o recato, confunde a atividade pública com a privada… Enfim, arma toda a jogada. O corrupto apenas pratica a corrupção.*

(*) Blog do Josias de Souza

DOIS NEURÔNIOS EM CHOQUE

Confusa como sempre, Dilma diz

por que perdeu em São Paulo

000 - BANANA REPUBLIC

Ela ainda não se refez do susto que levou

Sabe por que Dilma Rousseff foi impiedosamente derrotada em São Paulo pelo dilatado placar de 64% dos votos contra 25,8%? Porque a imprensa não noticiou direito a crise da falta de água no Estado.

Abismado com tamanha asneira? Queixe-ser ao bispo.

A autora da asneira foi a presidente reeleita Dilma Rousseff durante em entrevista, ontem à noite, à TV Record.

Não, ela não corou quando disse isso. Nem pareceu acanhada. Enfrentou alguma dificuldade para se expressar, mas nada de excepcional. O de costume.

Há mais de três meses que a falta de água é notícia diária na imprensa paulista. E também fora dali. Certamente não foi disso que Dilma se queixou.

Ela queria que a imprensa culpasse o governo estadual pela crise com mais ênfase do que ela o fez. Assim, raciocina Dilma, o voto a favor dela poderia ter sido maior.

A tradução do pensamento de Dilma pode torná-lo mais compreensível, imagino. Nem por isso mais aceitável.

Dilma é da mesma escola de Lula – ambos gostariam que a imprensa se comportasse como um aliado deles. Uma vez, disse Lula (cito de memória):

– Não gosto de ver publicada notícia. Gosto de ver publicada publicidade.

Livre tradução: gosto de ser incensado. Criticado, não.

É muito simples: Dilma perdeu de lavagem a eleição em São Paulo porque os paulistas jamais gostaram do PT. É por isso que um petista nunca se elegeu governador.

O candidato de Lula ao governo foi contemplado com a votação humilhante de menos de 20%. No ABC paulista, onde o PT nasceu, o PSDB ganhou outra vez.

Em São Bernardo do Campo, cidade onde Lula mora, Dilma perdeu para Aécio.

Dilma ganhou outro mandato, mas parece perdida. Ainda não se refez do susto que levou ontem. Por mais que não queira, será refém de um Congresso conservador e fisiológico.

Podem me cobrar em um futuro próximo: o PT ainda se arrependerá de ter ganhado com ela. Se tivesse perdido, e por pouco, Lula já estaria em campanha para voltar em 2018.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

FOI A SOBERBA

Aposta no voto personificado e excesso

de confiança derrubaram Aécio em MG

aecio

Aécio Neves está um poço de mágoas com os eleitores mineiros. Perdeu para a presidente Dilma no Estado nos dois turnos.

Tucanos de alta plumagem reconhecem que, pela baixa diferença de votos no resultado nacional, se Aécio vencesse em Minas como apostavam nos prognósticos – uma vantagem de 3 milhões de votos – ele seria eleito presidente.

Dilma obteve 52,41% dos votos no Estado (5.979.422 votos), contra 47,59% de Aécio (5.428.821).

Ontem, tucanos estupefatos com o resultado no reduto eleitoral que Aécio governou por dois mandatos ainda tentavam entender o que houve e fizeram um discreto mea culpa sobre os motivos da derrota.

A turma elenca: excesso de confiança no voto personificado; PSDB não colocou a militância nas ruas; não investiu no Norte e Nordeste do Estado, bolsões ainda com baixo IDH e alvo do Bolsa-Família; e principalmente não tem o apoio dos prefeitos das principais cidades do interior: Uberlândia (56,4% para a petista, contra 43,5%) , Uberaba (57,6% x 42,4%) e Juiz de Fora (63,3% x 36,6%).

Uberlândia (356 mil votos válidos) é administrada pelo petista Gilmar Machado, ex-deputado federal que foi vice-líder do Governo durante a gestão Lula. Uberaba (166,9 mil votos) e Juiz de Fora (294 mil votos) estão nas mãos do PMDB, com prefeitos aliados de Dilma.

A presidente também deu uma lavada no tucano numa cidade da região metropolitana. Venceu em Betim por 56,21% a 43,79% – a cidade teve 208 mil votos válidos. Já Aécio venceu em Contagem (340 mil votos válidos) por 51,98% contra 48,02%. Na capital (1,45 milhão de votos), o resultado ficou bem a favor do tucano – 64,27% a 35,73%.

MÁQUINA MUNICIPAL

Pesou a favor de Dilma o uso da máquina municipal. Prefeitos do PT e PMDB no Estado investiram pesado com nas propagandas nas ruas com apoio do comitê nacional.

MILITÂNCIA OFICIAL

Outra militância a favor de Dilma: 30 dos atuais 53 deputados federais são governistas, entre eles campeões de votos petistas como Reginaldo Lopes e Gabriel Guimarães.

PATRUS & PIMENTEL

Aécio só venceu em Belo Horizonte e nas cidades do Sul. Em BH, puxaram votos para Dilma dois ícones do PT: Fernando Pimentel e Patrus Ananias, ex-prefeitos da capital.*

(*) Leandro Mazzini – UOL

SEGUNDA-FEIRA, 27 DE OUTUBRO DE 2014

logo do JOAUCA

 

PLURAL DOS NOMES PRÓPRIOS

 

Nome próprio de pessoa tem plural? As gramáticas que tratam do assunto recomendam que se pluralize normalmente o nome de pessoa, mesmo o de família. Rocha Lima, em sua Gramática Normativa, depois de anunciar a regra, cita, entre outros exemplos, o título do romance Os Maias, de Eça de Queirós, como prova de que nome de família também tem plural.

            Ocorre, no entanto, que a prática entre usuários conceituados da língua tem demonstrado que a regra não é tão simples assim. Se se pluralizam os nomes de batismo (isto é, os prenomes), os de família oferecem na fala certa resistência à pluralização, sobretudo os nomes estrangeiros. Gramaticalmente, parece que existe uma regra dupla: os nomes de família da mesma genealogia não iriam para o plural; as famílias homônimas, de raízes ou linhagens distintas, teriam seus nomes pluralizados. Assim, os Oliveira, sem flexão de plural, designariam todos os membros da mesma estirpe. Os Oliveiras, com flexão, por outro lado, designariam as famílias que tivessem o mesmo nome, mas não tivessem nenhum parentesco entre si.

            Um livro que é um imenso corpus para esse tipo de pesquisa é Como você sechama?Estudo sociopsicológico dos prenomes e cognomes brasileiros (Rio de Janeiro: Documentário, 1974), de autoria de R. Magalhães Júnior, não só por tratar exclusivamente de nomes de pessoas, pluralizados ou não, mas também por citar textualmente trechos de outros autores que abordaram o mesmo tema ou forneceram matéria de análise para o Autor, como Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, por exemplo.

            Assim, na p. 36, Magalhães Júnior fala nos Belém, nos Potengi; na p. 54, nos Cavalcanti, nos Wanderley, nos de Holanda; na p. 61, nos Amoretti, nos Barandier, nos Bardy, nos Chambelland; na p. 62, nos Gudin, nos Supplicy, nos Gouthier, nos Frontin; na p. 105, nos Jurema, nos Bocaiúva, nos Timbaúba; na p. 114, nos Portugal, nos Holanda; na p. 115-6, nos Potiguara; na p. 117, citando Oliveira Lima, nos Oiticica, nos Sucupira, nos Ge Acaiaba de Montezuma.

            Se a referência é a mais de uma família, ocorre a pluralização: os Cordeiros, os Cabritos, os Bezerras (p. 139); os Leões, os Falcões (p.140); os Aranhas (p. 149); os Paccas (p. 150). Uma nuance nessa regra: na p. 148, Magalhães Júnior fala nos Barata (sem s), ao referir-se à família; e nos Baratas (com s), ao referir-se a cada membro da família a projetar-se social ou profissionalmente. Às vezes, contudo, mas raramente, ocorre um singular entre plurais na mesma linha: os Bezerras e os Bezerril (p. 139); os Pombos, os Pombal (p. 147); ou o mesmo nome ora pluralizado, ora invariável: os Pintos, os Pinto (p. 144); os Camelo, os Camellos (p. 150). Mas é bem possível que se trate de cochilo ou Autor ou da revisão, já que, nos outros casos, existe coerência na pluralização.

            Os prenomes, contudo, são invariavelmente pluralizados: Paulos, Franciscos, Beneditos (p. 58), Estelas, Virgínias (p. 76, rodapé), Marcelos, Cláudias, Sofias, Vitórias, Elizabeths, Omares (p. 97), Simones, Cristianos (p.98). Até mesmo os prenomes duplos se pluralizam: Isabéis Cristinas (p. 97).

            Parece-me que é hora de os estudiosos examinarem com mais cuidado esse capítulo das nossas gramáticas. É possível que Magalhães Júnior, um bom usuário da língua, como Rachel de Queirós ou Oliveira Lima, tenha mostrado, intuitivamente, uma deriva de nossa língua, um sentido na sua evolução brasileira. Apesar de Eça de Queirós. (Aliás, em sua Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro: Lucerna, 1999, p. 125), Evanildo Bechara admite o uso do singular em nomes próprios determinados por artigo plural: “Os Correia de Sá”.)

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

NÃO VAI SER FÁCIL…

Pressão na economia

Reeleita, Dilma tem o desafio de vencer descrédito de investidores para

ampliar investimento em meio a um cenário internacional ainda nebuloso

000000000000000000000000000000000000aroeira3

A presidente reeleita, Dilma Rousseff, não deu indicação explícita de como vai conduzir a economia. Por meio das críticas extremas que fez a seus adversários durante a campanha, pareceu indicar de modo implícito que não pretende fazer mudança alguma. Mas a pressão por novidades parte mesmo do entorno da presidente.

A pressão parte de Lula. De economistas próximos do petismo ou ex-integrantes de governos petistas. A presidente terá dificuldade de nomear uma equipe econômica com credibilidade e que aceite continuar o programa dilmiano nos mesmos termos de 2011-2014. O que resultará da resistência de Dilma e dessas pressões é mistério até para quem trabalhou na equipe econômica do primeiro mandato.

A presidente muito se queixou dos efeitos da crise mundial sobre a economia em seu governo. As melhorias previstas para os próximos anos não favorecerão o Brasil no estado em que está. Sem mudanças domésticas, haverá o risco de correção abrupta.

As mudanças de curto prazo, aquelas necessárias só para estabilizar a economia em crescimento de baixo a moderado, envolvem a contenção provisória da alta do consumo. O instrumento será alguma combinação de redução de gasto público, aumento de impostos e alta de juros.

O peso do “ajuste” pode ser distribuído de modo socialmente mais ou menos justo. Mas implica contenção do consumo, de salários. Não é preciso talhar gastos de programas sociais. Mas, por um tempo, eles terão de crescer mais devagar ou quase nada.

CRISE MUNDIAL

A economia global deve andar mais rápido nos próximos cinco anos. Ainda assim, há risco de a transição para dias melhores ser acidentada. E o crescimento estará longe do ritmo anterior à crise de 2008; o balanço dos motores da economia mundial será diferente, pois os grandes “emergentes” crescerão mais devagar, como a China.

O andar da carruagem global não determina o ritmo do Brasil, embora o influencie. A influência será tanto mais nociva quanto mais a economia permanecer “frágil”. Ainda que ventos não sejam muito contrários, sem mudança o país terá dificuldade de sair da quase-estagnação.

A fim de se fortalecer, o país terá de passar por uma transição, voluntária e organizada, ou turbulenta imposta pelo “mercado”. “Mercado” significa apenas os credores do governo e do país.

O crescimento menos rápido de “emergentes” tende a reduzir os preços de nossas exportações (de ferro, comida etc.). Caso o crescimento americano se firme e Europa e Japão não desandem, haverá mudança na política monetária internacional. Ou seja, haverá menos capital barato sobrando no mundo.

A baixa relativa do preço das mercadorias que vendemos e o crédito mais escasso tendem a evidenciar mais um sintoma de nossos problemas: excesso de consumo.

O Brasil consome mais que produz. Compra no exterior esses bens e serviços que faltam. Isto é, tem deficit em conta-corrente. Para financiá-lo, precisa de empréstimos e/ou investimentos do exterior, “em dólar”. Dentro de certos limites e se a economia cresce bem, o deficit é financiável de modo tranquilo.

Em meados de 2005, o Brasil tinha um raro superavit em conta-corrente, de 1,9% do PIB. Em setembro passado, o deficit chegou a 3,7% do PIB. Uma brutal inversão de 5,6% do PIB.

FRAGILIZAÇÃO

O país ainda financia com certa tranquilidade o deficit, que, em outros tempos, prenunciaria crise (seca de crédito, desvalorização da moeda, recessão, visita ao FMI). Não foi assim agora porque a economia tem estado mais arrumada: dívida pública ainda controlada, grandes reservas internacionais (dinheiro no caixa “em dólar”).

Mas a economia se desarranjou aos poucos nos últimos cinco anos. Passou a crescer quase nada (quem não cresce não tem como pagar dívidas).

O país não cresce porque a produtividade não aumenta, porque há pouco investimento e porque o país agrega agora menos gente a sua força de trabalho. O investimento privado caiu; o governo gastou mais, mas não investiu mais em “obras”. O consumo cresceu ainda bem, embora em velocidade decrescente; a produção estagnou.

Em parte, o crescimento do consumo foi bancado por excesso de gasto do governo (mais dívida, via gasto direto ou redução de impostos) e por meio de crédito artificialmente barato dos grandes públicos. Tais excessos se evidenciam em deficit externo e inflação persistente.

O novo cenário mundial pode dificultar o financiamento do deficit externo. O Brasil enfrentará tal situação com menos instrumentos de reação: se não pode baixar juros (dada a inflação), o governo não tem como gastar mais. De resto, o governo sofre de descrédito por maquiar os números das contas públicas, fazer pouco-caso de reformas e intervir de modo contraproducente na economia.

Em caso de descrédito agudo, o “ajuste” será imposto pela indisposição dos credores de financiar tais desequilíbrios: a moeda vai se desvalorizar, a inflação será mais pressionada, o juro subirá, os salários reais cairão. A alternativa ao ajuste voluntário é permanecer na quase-estagnação (crescer até 2% ao ano), à espera de uma arrumação de casa imposta de fora, caótica e perigosa.*

(*)  VINICIUS TORRES FREIRE , COLUNISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO

A “ZELITE’ LULOPETISTA

Um mandato inédito

‘A doutora Dilma reelegeu-se num cenário de dificuldades econômicas e políticas igualmente inéditas’

000 - brasil , o mesmo

Os eleitores deram ao PT um mandato inédito na história nacional. Um mesmo partido ficará no poder nacional por 16 anos sucessivos. A doutora Dilma reelegeu-se num cenário de dificuldades econômicas e políticas igualmente inéditas. Lula recebeu de Fernando Henrique Cardoso um país onde se restabelecera o valor da moeda. Ela recebe dela mesma uma economia travada. Tendo percebido o tamanho da encrenca, em setembro anunciou a substituição do ministro Guido Mantega. Por quem, não disse. Para quê, muito menos. A dificuldade política será maior. As petrorroubalheiras devolveram o PT ao pesadelo do mensalão. Em 2005, o comissariado se blindou e, desde então, fabrica teorias mistificadoras, como a do caixa dois, ou propostas diversionistas como a da necessidade de uma reforma política. Pode-se precisar de todas as reformas do mundo, mas o que resolve mesmo é a remessa dos ladrões para a cadeia.

O Supremo Tribunal Federal deu esse passo, formando a bancada da Papuda. Foi a presença de Marcos Valério na prisão que levou o ‘‘amigo Paulinho’’ a preferir a colaboração à omertà mafiosa.

Dilma teve uma atitude dissonante em relação às condenações do mensalão. Protegeu-se sob o manto do respeito constitucional às decisões do Judiciário. No debate da TV Globo, quando Aécio Neves perguntou-lhe se achou ‘‘adequada’’ a pena imposta ao comissário José Dirceu, tergiversou. Poderia ter seguido na mesma linha: decisão da Justiça não deve ser discutida. Emitiu um péssimo sinal para quem sabe que as petrorroubalheiras tomarão conta da agenda política por muito tempo.

Será muito difícil, e sobretudo arriscado, tentar jogar o que vem por aí para baixo do tapete. Ou a doutora parte para a faxina, cortando na carne, ou seu governo vai se transformar num amestrador de pulgas, de crise em crise, de vazamento em vazamento, até desembocar nas inevitáveis condenações.

O comissariado acreditou na mágica e tolerou o contubérnio do PT com o PP paranaense do deputado José Janene. A proteção dada aos mensaleiros amparou o doutor e ele patrocinou a indicação do ‘‘amigo Paulinho’’ para uma diretoria da Petrobras. Ligando-se ao operador Alberto Youssef, herdeiro dos contatos de Janene depois que ele morreu, juntaram-se aos petropetistas e a grandes empresas. O resultado está aí.

Em 2002, depois do debate da TV Globo, Lula foi para um restaurante do Rio e comemorou seu desempenho tomando de uma garrafa de vinho Romanée Conti que custava R$ 9.600. A conta ficou para Duda Mendonça, o marqueteiro da ocasião. Quem achou a cena esquisita pareceu um elitista que não queria dar a um ex-metalúrgico emergente o direito de tomar vinho caro. Duda confessou que fazia suas mágicas com o ervanário do mensalão. Passaram-se 12 anos e os repórteres Cleo Guimarães e Marco Grillo mostraram que, na semana passada, Lula esteve no município de São Gonçalo, onde disse que ‘‘a elite brasileira não queria que pobre estudasse’’.

Seguiu da Baixada Fluminense para a Avenida Atlântica e hospedou-se no Copacabana Palace, subindo para a suíte 601, de 300 metros quadrados, com direito a mordomo. Outros sete apartamentos do hotel estavam reservados para sua comitiva.

(*) Elio Gaspari – O Globo

E A HERANÇA MALDITA?

  • DE FRENTE PARA O ESPELHO

000 - eleitor hiena

Fechada a contabilidade das urnas, a presidente reeleita tem pela frente um desafio que ao País parecia vencido desde o advento do Plano Real, que restabeleceu a estabilidade econômica e cuja consolidação sugeriu o fim de um ciclo de experimentalismos no setor, ressuscitados por Dilma Rousseff.

A presidente tem o mandato renovado sob a contestação de metade do País e receberá de si própria uma herança maldita, que não poderá terceirizar, como até aqui tem feito os governos do PT.

De volta à cadeira presidencial, após o hiato da campanha, precisará dizer ao País o que fará para restabelecer os índices positivos da economia que recebeu – algo que se recusou a fazer por toda a campanha.  O País que deixou para si mesma cresce abaixo de 1%, tem a inflação fora da tolerância da meta, padece da ausência de investimentos, conduz uma política externa errática e perde credibilidade internacional.

Lidará ainda com uma crise institucional anunciada desde a judicialização do caso Petrobrás, de que é parte, uma sombra que deverá se manter sobre seu governo, no mínimo, por metade de seu mandato – sem que se saiba seu alcance sobre os governos do PT, apenas que os atinge.

Vai ter, portanto, mais dificuldades com menor apoio popular e mantendo a dependência do PT, a cujo líder, Lula, deve mais uma vez votos decisivos na reta final – tanto em Pernambuco, que não deu a Aécio Neves a mesma votação de Marina Silva e, mais tarde, ao governador Paulo Câmara, mas prestigiou o outro filho da terra, o ex-presidente Lula.

Também em São Paulo, Aécio não chegou aos 70% como se estimara segundo o resultado do primeiro turno, e viu, em contrapartida, Dilma ir aos 37%, quando se previa que, no máximo, chegasse aos 30%.

Mas o que derrubou o cálculo de Aécio Neves, desde o início da campanha, foi Minas Gerais, que não contribuiu para a conta geral do Sudeste feita pelo candidato do PSDB.

O Nordeste confirmou as previsões a favor de Dilma, que seriam insuficientes caso Aécio tivesse também confirmado as expectativas em relação ao Sudeste.

Essa constatação leva a outra: mesmo lhe faltando Minas, segundo maior colégio eleitoral, o candidato do PSDB perdeu no plano nacional por um margem que nas pesquisas se define por “empate técnico”.

A diferença eleitoral entre PT e PSDB maior nas últimas disputas, portanto, praticamente acabou tendo cada um, hoje, metade das preferências do País.

Pode-se concluir, portanto, que apesar do resultado, o sentimento antipetista no País aumentou , estabelecendo-se como um índice técnico a balizar eleições. Se considerada ainda a votação de cabresto do Bolsa Família, que deu ao PT a vantagem de largar com 34,6% da votação total obtida por Dilma – ou 15 milhões de votos no primeiro turno –, tem-se aí uma conta mais apertada ainda em desfavor da presidente reeleita.

O PT fez do Bolsa Família um programa assistencial do partido, embora seja irrigado com recursos públicos. Mas é usado para ameaçar seus beneficiários em caso de derrota dos candidatos do governo. Se já fosse programa de Estado, o PT teria perdido a eleição.

Aécio Neves fez o que seus antecessores como candidatos não conseguiram: esteve a pontos da vitória. Sai credenciado, pelo resultado, a comandar a oposição, o que se já tivesse feito há mais tempo, poderia tê-lo levado ao Planalto.*

(*) João Bosco Rabello – Estadão

PAÍS DOS PAQUIDERMES

Vitória mostra que população aprova

política econômica, diz Mantega

000 - economia brasileira

O ministro da Fazenda Guido Mantega disse nesta segunda-feira (27) pós-eleições que o resultado do pleito mostra que a população aprova a política econômica do governo.

Mantega disse que estava rouco por causa da torcida de ontem. “Estou feliz com o resultado das eleições, isso mostra que a população está aprovando a política econômica que estamos fazendo”, falou.

No entanto, o ministro afirma que ainda há grandes desafios para que a economia entre em um novo ciclo de crescimento.

“Temos grandes desafios pela frente, para podermos adentrar num novo ciclo de expansão da economia brasileira e mundial. Estamos trabalhando com cenários adversos, porque a economia mundial não melhorou como deveria”, afirmou, voltando a citar a crise internacional como um dos entraves para o crescimento da economia brasileira.

Para Mantega, que não permanece na cadeira no segundo mandato da presente Dilma, as prioridades daqui para frente da equipe econômica são: um bom resultado fiscal, controle da inflação, mais empregos e um mercado interno em expansão.

QUESTÃO FISCAL

A atuação fiscal do governo é um dos alvos mais frequentes de críticas, por estar longe da meta e pelo uso frequente de expedientes contábeis pouco transparentes.

Segundo Mantega, o resultado fiscal em 2015 será “mais forte”. Em 2014, “vamos nos empenhar para fazer a melhor meta fiscal possível”, afirmou.

“Nós vamos continuar nos esforçando para aumentar a transparência da execução fiscal. Aliás, isso tem avançado bastante. Portanto, esse é o rumo que está estabelecido”, prosseguiu.

A meta fiscal para o ano, colocada pelo próprio governo, é de um superavit primário de R$ 99 bilhões, ou seja, 1,9% do PIB. Essa poupança é usada para pagamento dos juros da dívida pública.

COMPROMISSOS

“Queria confirmar os compromissos do governo brasileiro, compromissos com os fundamentos da economia. (…) É prioritário na nossa economia fortalecer os fundamentos fiscais. Manter um bom resultado fiscal, para que a dívida pública continue sob controle. Permanece a prioridade de manter a inflação sob controle para os próximos quatro anos. Compromisso de continuar gerando emprego, e manter o mercado interno em expansão”, afirmou.

O ministro disse ainda que é preciso manter estímulos ao investimento, fortalecer a indústria brasileira e estimular o mercado de capitais. Mas não deu detalhes de que medidas virão.

“Hoje, dia seguinte da eleição, não é momento de anunciar medidas. As medidas têm sido tomadas ao longo do tempo. Novas medidas devem ser tomadas, porém elas ainda não estão finalizadas.”

Mantega seguiu o tom da presidente Dilma, de que é preciso diálogo e mobilização de todos para um novo ciclo de crescimento.

“Nós temos muitas coisas para fazer até o fim do ano. Uma série de estímulos já foi dada e outros estão em curso, poderão vir. Não cabe hoje mencionar esses estímulos. Temos dois meses pela frente para terminar o ano para que possamos fortalecer os fundamentos e criar condições para que todos se mobilizem no sentido de crescimento maior da economia e novo ciclo de expansão.”

Mais cedo nesta segunda-feira (27), o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Paulo Caffarelli, afirmou que haverá “várias” medidas de estímulo à indústria.

O secretário não deu detalhes de que ações podem ser anunciadas e entrou apressado no prédio do ministério. “Podemos esperar que a economia vai ficar cada vez melhor”, disse.

CONFLITO ELEITORAL

Mantega convocou jornalistas para um pronunciamento pós-eleições. Começou sua fala afirmando que período eleitoral é época de “conflito e confronto”.

“Terminada a eleição, isso passa. Você tem o fim da paixão e a volta da racionalidade.”

Sobre a queda das ações nesta segunda e a disparada do dólar, Mantega afirmou ser natural esse movimento.

“Claro que eleição provoca alguma volatilidade nos mercados, mas essa volatilidade também se deve a fatores externos. Todas as bolsas estão caindo, vocês não vão dizer que é só por causa das eleições no Brasil. Não temos essa força toda.”

Às 12h52 desta segunda, as ações da Petrobras desabavam perto de 12% no primeiro dia de negócios após a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT). O desempenho dos papéis da estatal comanda o pessimismo na Bolsa brasileira, que tinha baixa de 4,48% no Ibovespa, o principal termômetro dos negócios.

O índice marcava 49.614 pontos e voltava a operar abaixo de 50 mil pontos. Era a menor pontuação desde 27 de março.

Naquele horário, o dólar à vista (referência do mercado financeiro) era negociado a R$ 2,5211, com alta de 2%. É a maior cotação desde 4 de dezembro de 2008, quando a moeda americana fechou em R$ 2,536.

Ele mencionou a queda na cotação das commodities como influência maior para o comportamento das bolsas no mundo, mas que com o fim das eleições, esse cenário volátil “tende a amainar”.

“A própria discussão econômica fica mais exacerbada nas eleições, com opiniões apaixonadas, distorções sobre os rumos da economia. Os pessimistas mais pessimistas, os otimistas mais otimistas. Terminada a eleição, esse cenário tende a acalmar.”

NOMES

Questionado sobre possíveis nomes para sucedê-lo na missão, ele disse que não cabe a ele citar nomes, mas políticas e orientações do que é prioridade agora.

“Essa pergunta não tem que ser feita a mim, tem de ser feita à presidenta.” *

(*) SOFIA FERNANDES – FOLHA DE SÃO PAULO

DEPOIS DE 12 ANOS…

A face do segundo mandato

0000000000000000000000000000000000000000000000amarildo

BRASÍLIA – Foi aos 45 minutos do segundo tempo. Uma vitória suada e sofrida, depois de um domingo em que os petistas chegaram a temer uma derrota de Dilma Rousseff para o tucano Aécio Neves.

Resultado da reeleição apertada, na qual foi a petista com a menor taxa de apoio desde 2002, a presidente pregou no discurso de vitória “união, diálogo e mudanças”, num aceno de paz depois de uma campanha petista marcada pela agressividade.

Presentes em seu pronunciamento, as promessas de união e diálogo foram duas virtudes bem escassas em seu primeiro mandato –reclamadas e reivindicadas por aliados, sindicalistas e empresários.

Mudanças foram um desejo marcante do eleitorado nesta eleição, o que levou quase metade do país a desaprovar a gestão dilmista. A petista terá de atender este anseio da população brasileira, que também vem de boa parte de seus eleitores.

A dúvida é como a reeleita Dilma cumprirá tais promessas. A seu estilo, já que pode se sentir dona da vitória. Ou mais dependente de Lula, que entrou de corpo e alma na reta final.

De olho na manutenção do projeto de poder do PT, o ex-presidente deseja influenciar mais na segunda administração de sua criatura. Afinal, pode ser o candidato à sua sucessão.

Só que a presidente estará mais livre para tocar seu projeto de governo. Ela, que no primeiro mandato não deu muito ouvidos a Lula, porque mudaria agora? Talvez queira deixar exatamente sua marca.

O problema é que a segunda fase dilmista está a exigir ajustes na economia, ao contrário do que aconteceu com seu padrinho político. Lula montou um primeiro mandato ao estilo do mercado, mas fez uma segunda administração à sua cara.

Já Dilma imprimiu sua marca na primeira fase de governo. Deu no que deu. Inflação alta e crescimento fraco. Agora, começa o segundo mandato tendo de fazer ajustes para evitar pôr em risco suas conquistas, como desemprego baixo. A conferir. *

(*) Valdo Cruz, Folha de São Paulo