QUINTA-FEIRA, 30 DE ABRIL DE 2015

Retrato da destruição

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Dívida da Petrobras deve chegar a 400 bilhões 

O consultor Adriano Pires fez algumas contas tendo diante de si o balanço da Petrobras. Ei-las:

A estatal aumentou o seu endividamento de 60 bilhões de reais em 2009 para 350 bilhões de reais em 2014. Com os recentes empréstimos da China, de bancos ingleses, do BB, Caixa e Bradesco a dívida deve atingir este ano 400 bilhões de reais.

Desse total, cerca de 100 bilhões de reais foram gastos para segurar os preços da gasolina e do diesel e outros 50 bilhões de reais, como publicado no balanço de 2014, em corrupção e projetos inviáveis, os quais nunca vão gerar um único centavo para a empresa. Diz Pires:

– Esse é o retrato da destruição da Petrobras.

(*) Blog do  Lauro Jardim

PEGA NA MENTIRA

Ao fugir da TV no Dia do Trabalho, Dilma poupou o país de mais uma Noite da Mentira

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No Aqui entre Nós desta quarta-feira, os comentários de Joice Hasselmann e do colunista se concentraram na primeira notícia boa divulgada pelo Planalto nos últimos quatro meses. Neste ano, Dilma Rousseff vai poupar o país da discurseira do Primeiro de Maio, multiplicada por uma cadeia nacional de TV. Faz sentido.

A conversa no programa da TVEJA foi ilustrada por vídeos que exibem trechos dos palavrórios do primeiro mandato. Conjugados, comprovam que a presidente eleita pelo Partido dos Trabalhadores resolveu transformar o Dia do Trabalho na Noite da Mentira. Confiram os melhores/piores momentos:

2011“O emprego e o salário aumentam, a desigualdade diminui e o país continua avançando sem retrocesso. (…) Mesmo os brasileiros que mais precisam de apoio sentem que dias melhores estão chegando”.

2012“A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil escolheram o caminho do bom exemplo (…), provando que  é possível baixar os juros cobrados em empréstimos, cartões, cheque especial, inclusive no crédito consignado”.

2013: “Este governo vai continuar sua luta firme pela redução de impostos (…) mesmo que tenha de enfrentar interesses poderosos. Um governo que age assim e uma presidenta que pensa desta maneira não vão descuidar nunca do controle da inflação. Esta é uma luta constante, imutável, permanente”.

2014“O que pode envergonhar um país é não combater a corrupção, é varrer tudo para baixo do tapete. O Brasil já passou por isso no passado, e os brasileiros não aceitam mais a hipocrisia, a covardia ou a conivência. É com essa franqueza que quero falar da Petrobras. A Petrobras é a maior e a mais bem-sucedida empresa brasileira. É um dos mais importantes patrimônios do nosso povo. Por isso, a Petrobras jamais vai se confundir com atos de corrupção ou ação indevida de qualquer pessoa”.

A ideia de cair fora da TV mostra que a rainha de João Santana ainda não superou Maria I, a Louca. Se repetisse algo parecido nesta sexta-feira, o Brasil assustaria o mundo com o mais ruidoso panelaço desde o Dia da Criação.*

 

(*) Blog do Augusto Nunes

EU TAMBÉM ME ACUSO

Eu acuso: votei no PT, idolatrei Dirceu:  e ajudei Lula a combater um grampo em sua casa

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Paulo Francis era trotskista na juventude (trosco). Os escritores André Gide, John dos Passos, Arthur Koestler, George Orwell, abandonaram o marxismo e se aproximaram da chamada direita. Os melhores autores de marxismo que li na vida, Milovan Djilas (Iugoslávia) e Leszek Kolakowski (Polônia), se converteram nos maiores críticos do marxismo, nos anos 70.

Ferreira Gullar (que já foi comuna no naipe Ferreira Gullag) odeia o PT.

E o finado Leandro Konder, comunista de carteirinha, tinha no também finado e refinado escritor José Guilherme Merquior (herói do conservadorismo) a maior autoridade em marxismo do mundo.

Diz algo, não?

Segue a confissão: já fui petista. Segue a segunda confissão: ajudei a amigos de Lula a detectarem um grampo telefônico em sua casa no ABC, quando ele era candidato na campanha que o elegeu presidente.

A confissão brotou publicamente pela primeira vez num meu livro lançado pela então editor de Xico Sá e Pinky Wainer. Você pode ler a íntegra aqui, em pdf:

https://tupiwire.files.wordpress.com/2009/12/livro-tognolli_ok1.pdf

Agora em maio lanço dois livros. Sobre um posso falar: trata de espionagem. Nele estará relatada em  mais detalhes a história no grampo na casa do Lula.

O maior protagonista na história desses grampos, como você verá, é o policial federal Francisco Carlos Garisto, pai do sindicalismo na PF…

Bom: e por que eu votava no PT e ajudei o Lulinha paz e amor no lance dos grampos telefônicos?

O que me seduziu, acreditem, foi um lance do então deputado federal…Zé Dirceu!!!

Já contei aqui a história de um amigo, morto já pouco, responsável por Dirceu  ter sobrevivido a uma tocaia armada:

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/morre-policial-a-quem-a-cia-encomendou-a-morte-de-232100192.html

Mas agora segue o que fez, a mim, o Dirceu um cara sério. Nos 90 o Brasil era acossado pelo caso dos Anões do Orçamento. A saber: em 1993, a CPI dos Anões do Orçamento investigou 37 parlamentares por suposto envolvimento em esquemas de fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. O relatório final de Roberto Magalhães(PFL-PE), pediu a cassação de 18 deles:  mas apenas 6 perderam seus mandatos. Os envolvidos roubaram mais de R$ 100 milhões públicos, com esquemas de propina, para favorecer governadores, ministros, senadores e deputados.

Foi atribuído ao deputado João Alves a articulação do esquema, que dominava, acreditem, desde 1972 (quando passou a integrar a Comissão de Orçamento do Congresso, colaborando com o Executivo ao impedir que seus colegas parlamentares fizessem mudanças em projetos). Em troca, Alves acertava a inclusão e aprovação de emendas parlamentares entre os gastos oficiais, cujas verbas eram direcionadas para seus redutos eleitorais.

Todo o esquema comandado pelo baiano, João Alves, na época do PFL, foi por ele assim justificado:  ganhou tudo na loteria, 56 vezes só em 1993 ( o que, pelos rigores pétreos da probabilidade matemática, representaria um gasto de US$ 17 milhões em apostas…)

Pois bem: o deputado José Dirceu de então propôs um decreto legislativo que era chamado informalmente de “lei anti-impunidade”. Seu objetivo: encurtar ao máximo o tempo em que o parlamentar tinha direito à renúncia. Denunciado à Mesa, babau: já perdia o direito à renúncia para poder voltar nas eleições seguintes. Assim, por ideia do Dirceu, tão logo a representação contra um deputado ou senador, por quebra de decoro parlamentar, chegasse à Mesa da Câmara ou do Senado, automaticamente o parlamentar perdia o direito de renunciar ao mandato… hoje isso só acontece quando o processo é aberto no Conselho de Ética.

O decreto de José Dirceu vigorou entre março e junho de 1994. E era tão demencialmente stalinista que impunha a perda ao direito de renúncia não apenas a quem tinha representação instaurada na Mesa, mas também a quem já estava sendo investigado “por qualquer órgão do Poder Legislativo”.

Adorei isso: era, aos meus olhos, um stalinismo necessário para purgar o Brasil dos gatunos.

Me lembro da seguinte cena: o deputado José Dirceu subindo no teto de uma das casas de um gatuno dos anões do orçamento, José Carlos Alves dos Santos. Ele era o responsável técnico da Comissão do Orçamento, e foi o delator do esquema, após suspeita de ordenar a morte da mulher.  Santos relatou à CPI que sua mulher sabia do esquema, mas tinha conhecimento apenas das comissões, que variavam entre 20% e 30%. Santos matou sua mulher Ana Elizabeth Lofrano a golpes de picareta na cabeça (como Ramon Mercader fez contra Trotsky, no México). Lembro de Dirceu subindo o forro de um cafofo de Alves,  para achar documentos para entregar a nós, jornalistas.

O impenitente (e polaroidemente demencial) Zé Dirceu era nosso herói. Tinha uma rede dos diabos para alimentar repórteres. Entregava-nos até cousas contra seu próprio PT, num lance a que chamava de “vazamento controlado”.

Uma vez ministro da Casa Civil, passou a condenar nos outros o que condenavam nele. Dirceu, nessa nova classe de pegada, apontava nos outros os seus próprios defeitos. Um seu amigo próximo me disse: “Olha, o Dirceu está pregando muito contra os defeitos alheios. Perdoa-se o pecador, mas jamais o pregador. Dirceu vai cair por isso”.

Dirceu caiu. E  ainda está caindo: e eu não lhe perdôo por isso, falou ?*

(*) Blog do Claudio Tognolli

SÓ QUE ELA NÃO SABIA DE NADA…

Dilma, corrupção e novo lema:

sempre foi assim

000 - aaaa tormento

Não é que Dilma Rousseff não veja a solução. O que ela não enxerga é que se tornou parte do problema. Ao discursar no 3º Festival da Juventude Rural, em Brasília, a presidente deseducou a plateia ao culpar o Brasil dos tempos coloniais pela corrupção que assola o seu governo. “Essa confusão entre o que é privado e o que é público vem lá de trás nesse país. Tem a mesma idade que a escravidão”, disse.

“A confusão entre o que é bem individual e o que é bem público decorre de uma coisa chamada patrimonialismo, que era típico da oligarquia rural brasileira, que achava que o Brasil como nação era só dela, porque uma parte da população era escrava e não tinha direito nenhum”, acrescentou Dilma.

O ponto mais importante das declarações de Dilma pode ser lido nas entrelinhas: sempre foi assim, eis o que a presidente declarou, com outras palavras. Num instante em que o país descobre que a Petrobras virou uma Chicago entregue a um cartel de Al Capones, Dilma se achega aos refletores para informar que a culpa é da família real portuguesa, que trouxe o patrimonialismo para o Brasil.

São mesmo fascinantes os meandros da historiografia nacional. No seu esforço para salvar pelo menos o verbete da enciclopédia, Dilma escreve uma página inusitada, na qual o mais importante é o não-declarado. A presidente se abstém de explicar que o patrimonialismo tem variados graus de profundidade. Os ladrões assaltam mais ou menos conforme a omissão —ou cumplicidade— daqueles que têm o poder de terceirizar a chave dos cofres.

Dilma esquece de dizer que a roubalheira costuma atingir proporções inimagináveis, como no Brasil dos dias que correm, quando os governantes permitem que o fenômeno se institucionalize. O assalto e o rateio dos butins passam a ser, então, planejados.

Ao difundir a tese segundo a qual sempre foi assim, Dilma desperdiça um tempo que poderia ser usado para responder a uma indagação mais atual e relevante: por que não foi diferente agora? Ah, todo governo faz isso, argumenta o neopetismo. Verdade. Mas a degradação chegou a níveis extremos. No caso da Petrobras, houve uma inovação.

O rateio das diretorias da estatal entre os partidos não seguiu a lógica convencional do patrimonialismo à brasileira. Adotou-se na Petrobras a mesma sistemática usada pelos traficantes de cocaína do Rio de Janeiro para dividir —na saliva ou nas armas—as zonas da cidade em que cada um tocará o seu negócio.*

(*) Blog do Josias de Souza

A “PRESIDENTA” ESTÁ CERTA

Dilma não fará pronunciamento no 1º de Maio porque não tem o que dizer, diz Renan

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Brasília – Em mais uma estocada contra a presidente Dilma Rousseff, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse nesta quinta-feira, 30, que a petista não vai fazer o pronunciamento na TV no Dia do Trabalho porque “não tem o que dizer”. Ele também aproveitou a data, comemorada nesta sexta-feira, 1º, para sugerir a criação de um “pacto em defesa do emprego”, que duraria até o País voltar a crescer.”Certamente a presidente não vai falar no dia 1º de Maio porque não tem o que dizer. Por isso eu estou propondo um pacto em defesa do emprego. Assim como nós temos meta de inflação, meta de superávit fiscal, nós precisamos ter meta de emprego”, disse o peemedebista.

Indagado sobre o fato de o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS), ter dito nesta quinta-feira que o Executivo já prepara um pacote para estimular a criação de emprego, Renan afirmou que o governo precisa trabalhar para reagir à crise e voltou a criticar Dilma. “O governo tem que sair da paralisia, da falta de iniciativa. Essa coisa da presidente não poder falar no dia 1º de Maio porque não tem o que dizer é uma coisa ridícula. Ridícula. Isso enfraquece muito o governo”, disse.

Renan começou a sua fala ironizando o fato de Dilma ter decidido, pela primeira vez desde que chegou à Presidência, não se pronunciar na TV por medo de um novo panelaço, como ocorreu em março durante a sua fala em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. “Nós fizemos a democracia no Brasil para deixar as panelas falarem, as panelas precisam se manifestar, vamos ouvir o que as panelas dizem”, afirmou.

Apesar das críticas, o presidente do Senado disse que vai conversar com Dilma sobre o pacto, para que os Poderes Executivo e Legislativo possam atuar juntos na defesa pelo emprego.

Entre as sugestões do peemedebista, estão a desoneração da folha de pagamento e a oferta de mais créditos, via bancos públicos, para empresas que criarem novas vagas de trabalho. Ele também vai propor que o governo priorize, em suas compras, empresas que não estejam fazendo cortes de pessoal.

Serra

Em mais um sinal do seu distanciamento com o Palácio do Planalto, Renan deve escolher o tucano José Serra (PSDB-SP) para coordenar o trabalho e reunir as propostas que podem ser encaminhas pelo Congresso.

Renan também criticou o ajuste fiscal proposto pela equipe econômica, o qual chamou de “ajuste trabalhista”. Ele voltou a defender que, se o governo precisa economizar, deveria dar o exemplo e “cortar na carne”, começando pela diminuição do número de ministérios.*

(*) UOL NOTÍCIAS

A GRANDE FAMIGLIA

Renan diz que PT aparelhou

o Estado e crítica Temer

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Brasília – O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), acusou nesta quinta-feira, 30, o PT de aparelhar o Estado e criticou a atuação do vice-presidente e correligionário Michel Temer à frente da coordenação política do governo.”O pior papel que o PMDB pode fazer é substituir o PT naquilo que o PT tem de pior, que é no aparelhamento do Estado. O PMDB não pode transformar a coordenação política, sua participação no governo, em uma articulação de RH (Recursos Humanos), para distribuir cargos e boquinhas”, afirmou Renan.Temer foi escalado pela presidente Dilma Rousseff para comandar a distribuição de cargos no segundo escalão para acalmar o PMDB. Nas últimas semanas, o vice tem trabalhado para distribuir entre os membros da base aliada cargos como a presidência de autarquias e a direção de departamentos vinculados a ministérios.Segundo Renan, Temer deveria trabalhar para melhorar a coalização que dá sustentação ao governo. “O papel é esse, não o retrocesso que essa distribuição de cargos significa”, disse.

Apesar das críticas, Renan mantinha um aliado à frente do Ministério do Turismo até o último dia 15, quando perdeu o cargo para o PMDB da Câmara. Com Temer à frente da articulação política, o peemedebista também conseguiu emplacar nomes no segundo escalão, como o de Jorge Luiz Macedo Bastos na diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Questionado se ele iria pedir para os seus apadrinhados políticos deixarem os cargos, Renan desconversou. “O que não quero é participar do Executivo. Não vou indicar cargo no Executivo. Esse papel hoje é incompatível com o Senado independente. Prefiro manter a coerência do Senado independente não participando de forma nenhuma de indicação de cargos no Executivo”, afirmou.*

(*) Estadão Conteúdo

MOMENTO CRUCIAL

Não à redução da maioridade penal

Estudo do Unicef envolvendo 54 países constatou que 78% deles fixam a idade penal
em 18 anos ou mais, como a França, a Espanha, a Suíça, a Noruega e o Uruguai

Maioridade penal  (Foto: Arquivo Google)

De acordo com pesquisa Datafolha (abril de 2015), 87% da população brasileira são favoráveis à redução da maioridade penal; 11% são contra; 1% é indiferente; e 1% não sabe. Quais são os argumentos centrais que me convencem a integrar o minoritário universo dos 11% contrários à redução da maioridade penal?

Um primeiro argumento — de natureza fática — é que os atos criminosos cometidos por adolescentes representam 4% do total dos crimes, sendo eles responsáveis por menos de 1% dos homicídios praticados no Brasil.

Um segundo argumento aponta para o colapso do sistema carcerário brasileiro, portador da quarta maior população carcerária do mundo (574 mil, conforme dados de junho de 2013), perdendo apenas para EUA, Rússia e China. De 1992 a 2013, o Brasil elevou a taxa de encarceramento (número de presos por grupo de cem mil pessoas) em 317,9%, sendo que 43,8% dos presos são provisórios.

Se a pena deve ter um caráter retributivo e ressocializador, o sistema carcerário brasileiro não satisfaz qualquer destas finalidades. O índice de reincidência, em torno de 80%, atesta o absoluto fracasso de qualquer dimensão ressocializadora do modelo carcerário brasileiro — por vezes, sob o controle do crime organizado, de quem o Estado se torna refém.

Um terceiro argumento atém-se “às experiências de outros países”. Estudo do Unicef envolvendo 54 países constatou que 78% deles fixam a idade penal em 18 anos ou mais, como a França, a Espanha, a Suíça, a Noruega e o Uruguai.

Nos EUA, o debate sobre a redução da maioridade penal acirrou-se nos anos 90 (como resposta à alta criminalidade), mas, desde 2005, 30 estados aprovaram normas que conferem um tratamento especial aos adolescentes em conflito com a lei — diverso do tratamento conferido aos adultos.

Isso porque adolescentes tratados como adultos têm uma probabilidade maior (de 35%) de retornarem ao mundo do crime. Além disso, adolescentes, por estarem em peculiar condição de desenvolvimento, teriam maior potencialidade de reabilitação (“Children in adult jails”, “The Economist”, edição de 28 de março de 2015).

Um quarto argumento — de natureza jurídica — é que a Constituição federal consagra a absoluta prioridade da criança e do adolescente, bem como o dever do Estado, da família e da sociedade em assegurar-lhes direitos básicos, colocando-os a salvo de toda forma de violência, crueldade e opressão.

Neste contexto, surge o direito à proteção especial dos adolescentes, incluindo a maioridade penal aos 18 anos, bem como os princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa de liberdade.

Por sua vez, o Estatuto da Criança e do Adolescente dedica um longo capítulo às medidas socioeducativas a serem aplicadas quando da prática de ato infracional. A redução da maioridade penal perverte a racionalidade e principiologia constitucional, na medida em que abole o tratamento constitucional especial conferido aos adolescentes, inspirada na ótica exclusivamente repressiva, que esvazia de sentido a ótica da responsabilidade, fundada nas medidas socioeducativas.

Com isso, a perspectiva sociojurídica de exclusão (repressiva e punitiva, de isolamento) vem aniquilar a perspectiva de inclusão (protetiva e socioeducativa, de reinserção social). A Constituição proíbe qualquer proposta de emenda tendente a reduzir e limitar o alcance dos direitos e garantias constitucionalmente previstos, entre eles o direito à inimputabilidade penal dos menores de 18 anos.

Além de violar cláusula pétrea constitucional, a proposta afronta parâmetros protetivos internacionais, que o Estado brasileiro se comprometeu a cumprir, como a Convenção sobre os Direitos da Criança — que, de igual modo, prevê a excepcionalidade e a brevidade das medidas privativas de liberdade aplicáveis a adolescentes, bem como a exigência de tratamento pautado pela reintegração e desempenho construtivo na sociedade, quando da prática de ato infracional.

Reduzir a idade penal para confinar adolescentes na prisão com adultos não apenas viola parâmetros constitucionais e internacionais, como, ainda, carece de qualquer fundamento fático a contribuir na luta contra a impunidade.

O simplismo e o imediatismo da medida são incapazes de responder aos complexos desafios da realidade brasileira — a ostentar uma das maiores taxas de homicídio de jovens do mundo, só perdendo para Nigéria em termos absolutos. Romper com a cultura da banalização da morte requer, sobretudo, que se rompa com a cultura da banalização da vida.*

(*) Flávia Piovesan é professora de Direito da PUC-SP e procuradora do Estado de São Paulo – O GLOBO

 

ETERNO RACISMO

Cartas de Nova York: Três coisas que ninguém vai ter tempo de te contar sobre a crise em Baltimore

São três expressões novas no vocabulário norte-americano desde 2013: “police brutality”, “no justice, no peace”, e “black lives matter”. Para entender os protestos em Baltimore, Nova York, Ferguson, ou qualquer cidade americana, é preciso ir atrás dessas palavras e se preparar para entender que a história da população negra no país continua não sendo fácil. Até o presidente Barack Obama reconheceu que apesar das notícias, protestos, palavras novas, hashtags e toques de recolher, o que acontece em Baltimore hoje não é algo inédito.

Obama disse em relação ao caso Freddie Gray: “isso não é novidade e nós não devemos fingir que é uma novidade…Se a sociedade quisesse resolver o problema, poderíamos. Só que isso exigiria que todos dissessem ‘Isso é importante’”. A fala do primeiro presidente negro do país mostra o por quê do slogan tão popular “vidas negras importam”.

A brutalidade policial não acontece somente com medidas da polícia como o “stop and frisk” de Nova York. Ela está nas estatísticas: afro-americanos são hoje 1 milhão entre a população carcerária do país (2.3 milhões). Pessoas negras são presas cerca de seis vezes mais do que as brancas nos Estados Unidos. A violência contra jovens negros fica evidente quando a polícia precisa controlar qualquer situação nas ruas. Manifestantes das ruas de Nova York nessa Quarta-feira estão levando reclamações sobre o racismo da polícia para as redes sociais enquanto eu escrevo essa carta. O preconceito é real e policiais não estão sendo punidos por serem violentos com negros e minorias nas ruas.

Então aqui vão algumas informações que mostram que, longe ou perto de Baltimore, há algo muito errado com a polícia e a vida da população afro-americana nos Estados Unidos:

1- Policiais brancos matam cerca de dois suspeitos negros por semana nos Estados Unidos. Após Michael Brown–um jovem negro de 18 anos–morrer baleado por um policial em Ferguson, Missouri no ano passado, o USA Today fez uma análise dos homicídios reportados pela polícia ao FBI por sete anos. A conclusão foi que 96 incidentes entre 400 assassinatos a cada ano têm essas caracteríticas.

2- A última vez que Baltimore viu protestos violentos e pilhagens como os da última segunda-feira, foi em 1968, logo após Dr. Martin Luther King Jr. ser assassinado. Naquela época, o desemprego em Baltimore era mais do que o dobro da média nacional. A cidade sofria com uma coisa chamada “white flight” (ou o “vôo branco”, que resume a população branca se mudando para fora da cidade) e a saída do setor manufatureiro. Neste caso, “no jobs” também contribuiu para “no peace”. E hoje a história não é muito diferente: Baltimore é 63 por cento negra e 23 por cento da população vive abaixo da linha da pobreza. A taxa de desemprego hoje na cidade é 8.4 por cento.

3- Até agora, não há certeza sobre como Freddie Gray morreu ou o que aconteceu. O jovem negro de 25 anos estava consciente no momento de sua prisão, mas após meia hora dentro de uma van da polícia, ele é levado ao hospital e morre dias depois por causa de uma fratura na espinha dorsal. Os policiais foram afastados com pagamento pelas autoridades e uma investigação está em andamento. Mas depois de 18 dias do episódio e 11 dias desde que Gray morreu, ainda não há evidências concretas sobre a causa da prisão, o que aconteceu dentro da van, nem resultados de uma autópsia. Como a expressão diz, sem justiça não há paz. O jornal Baltimore Sun reporta: entre 2011 e 2014, a cidade pagou U$ 5.7 milhões à vítimas de brutalidade policial.

Então, tenho que perguntar: Você também não estaria zangado?*

(*) Luiza Leme, jornalista, no blog do Noblat

 

SELVAGERIA

O que ensina a pancadaria promovida pela polícia de Beto Richa

Conflito entre a PM e professores, Paraná (Foto: Gazeta do Povo)

Conflito entre a PM e professores, Paraná (Foto: Gazeta do Povo)

Os policiais militares destacados, ontem, para garantir o funcionamento da Assembleia Legislativa do Paraná agiram em legítima defesa de suas vidas, disse o governador Beto Richa (PSDB).

E quem agiu em defesa da vida de quase 20 mil manifestantes, a maioria deles professores, que protestavam contra um projeto do governo que mudou as regras da previdência social dos servidores públicos?

É tarefa ou não da polícia garantir a liberdade de expressão dos cidadãos e reagir com moderação quando provocada por uma minoria? Sim, porque a se acreditar no próprio Richa, foi uma minoria que provocou a polícia.

Richa falou da ação de black blocs. Culpou-os pela violência que atingiu, pelo menos, 213 pessoas, segundo a prefeitura de Curitiba. Mas na hora do vamos ver, comentou que a polícia prendeu sete black blocs.

Não se referiu a mais do que sete. Se havia mais por que a polícia só prendeu sete? Ela foi capaz de ferir 213 pessoas, oito delas gravemente, mas só prendeu sete vândalos. Ora, que polícia é essa?

Usou cachorros para que mordessem manifestantes; balas de borracha, já descartadas por outros governos estaduais; e bombas de gás lacrimogêneo atiradas, inclusive, de helicóptero.

Por que repressão tão descabida? Tão desproporcional? Para conter a sanha de sete black blocs? De jovens desarmados e de gente idosa? De pessoas que até se locomoviam em cadeiras de roda?

Ao manifestar sua solidariedade aos policiais autores de violência tão estúpida, Richa se revelou um líder político, no mínimo, estúpido. Durante entrevista de 14 minutos, tentou justificar o injustificável.

Só conseguiu ser repetitivo. Confuso. Contraditório. Muito aquém das exigências do cargo que ocupa. Admitiu, por exemplo, que a violência produziu “cenas chocantes, indefensáveis”. Para encaixar de imediato:

– A PM reagiu para preservar sua integridade.

Claramente na defensiva, afirmou tolamente que pôs em risco sua popularidade para defender a ordem pública, “obrigação de qualquer governante”. E daí?

A essa altura, quem, além dele, está interessado no risco que sua popularidade correu? Ou ainda corre?

O que houve em Curitiba reforça a suspeita de que governadores do PSDB parecem ter uma especial dificuldade para lidar com manifestações de rua.

Foi assim também em São Paulo quando da inauguração da jornada de junho de 2013.*

(*)  Blog do Ricardo Noblat