ETERNO RACISMO

Cartas de Nova York: Três coisas que ninguém vai ter tempo de te contar sobre a crise em Baltimore

São três expressões novas no vocabulário norte-americano desde 2013: “police brutality”, “no justice, no peace”, e “black lives matter”. Para entender os protestos em Baltimore, Nova York, Ferguson, ou qualquer cidade americana, é preciso ir atrás dessas palavras e se preparar para entender que a história da população negra no país continua não sendo fácil. Até o presidente Barack Obama reconheceu que apesar das notícias, protestos, palavras novas, hashtags e toques de recolher, o que acontece em Baltimore hoje não é algo inédito.

Obama disse em relação ao caso Freddie Gray: “isso não é novidade e nós não devemos fingir que é uma novidade…Se a sociedade quisesse resolver o problema, poderíamos. Só que isso exigiria que todos dissessem ‘Isso é importante’”. A fala do primeiro presidente negro do país mostra o por quê do slogan tão popular “vidas negras importam”.

A brutalidade policial não acontece somente com medidas da polícia como o “stop and frisk” de Nova York. Ela está nas estatísticas: afro-americanos são hoje 1 milhão entre a população carcerária do país (2.3 milhões). Pessoas negras são presas cerca de seis vezes mais do que as brancas nos Estados Unidos. A violência contra jovens negros fica evidente quando a polícia precisa controlar qualquer situação nas ruas. Manifestantes das ruas de Nova York nessa Quarta-feira estão levando reclamações sobre o racismo da polícia para as redes sociais enquanto eu escrevo essa carta. O preconceito é real e policiais não estão sendo punidos por serem violentos com negros e minorias nas ruas.

Então aqui vão algumas informações que mostram que, longe ou perto de Baltimore, há algo muito errado com a polícia e a vida da população afro-americana nos Estados Unidos:

1- Policiais brancos matam cerca de dois suspeitos negros por semana nos Estados Unidos. Após Michael Brown–um jovem negro de 18 anos–morrer baleado por um policial em Ferguson, Missouri no ano passado, o USA Today fez uma análise dos homicídios reportados pela polícia ao FBI por sete anos. A conclusão foi que 96 incidentes entre 400 assassinatos a cada ano têm essas caracteríticas.

2- A última vez que Baltimore viu protestos violentos e pilhagens como os da última segunda-feira, foi em 1968, logo após Dr. Martin Luther King Jr. ser assassinado. Naquela época, o desemprego em Baltimore era mais do que o dobro da média nacional. A cidade sofria com uma coisa chamada “white flight” (ou o “vôo branco”, que resume a população branca se mudando para fora da cidade) e a saída do setor manufatureiro. Neste caso, “no jobs” também contribuiu para “no peace”. E hoje a história não é muito diferente: Baltimore é 63 por cento negra e 23 por cento da população vive abaixo da linha da pobreza. A taxa de desemprego hoje na cidade é 8.4 por cento.

3- Até agora, não há certeza sobre como Freddie Gray morreu ou o que aconteceu. O jovem negro de 25 anos estava consciente no momento de sua prisão, mas após meia hora dentro de uma van da polícia, ele é levado ao hospital e morre dias depois por causa de uma fratura na espinha dorsal. Os policiais foram afastados com pagamento pelas autoridades e uma investigação está em andamento. Mas depois de 18 dias do episódio e 11 dias desde que Gray morreu, ainda não há evidências concretas sobre a causa da prisão, o que aconteceu dentro da van, nem resultados de uma autópsia. Como a expressão diz, sem justiça não há paz. O jornal Baltimore Sun reporta: entre 2011 e 2014, a cidade pagou U$ 5.7 milhões à vítimas de brutalidade policial.

Então, tenho que perguntar: Você também não estaria zangado?*

(*) Luiza Leme, jornalista, no blog do Noblat

 

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