ATÉ QUANDO, MEU DEUS?

O amigo oculto

Quando é que Eduardo Cunha vai chegar ao mar?

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Aqui, em Regência, na foz do Rio Doce, não consigo entender como não rompem certas barreiras em Brasília. Gastamos muito latim e nada resolvemos. Um ministro do supremo aconselhou Cunha a renunciar. O mesmo fez o ex-presidente Fernando Henrique. Preferia que se encontrassem oposição e Supremo, que um decidisse provocar o outro e tivesse resposta. O Supremo cassaria Cunha e, finalmente, ele seria arrastado para o mar.

Como presidente, Cunha barra a investigação. Além disso tem muitos adeptos na Câmara e um sólido núcleo de bandidos que acreditam ter sequestrado a instituição. Por muito menos, gente sem mandato foi presa e está em Curitiba. Bumlai, por exemplo, finalmente dançou. Ele conseguiu quase meio bilhão de empréstimos no BNDES. É amigo de Lula. Um dos empréstimos de R$ 12 milhões ele teria saldado com sêmen de boi. Porran, Bumlai. Não costumo escrever essa palavra. Mas depois de ouvi-la de uma travesti num vídeo de sucesso na rede, decidi adotá-la. Ao incluir o ene, creio, ela deu uma força exclamativa à palavra.

Sérgio Moro e alguns procuradores afirmam que não há nada contra Lula. Bumlai pode ter usado seu nome. Por que então a operação se chama Passe Livre e não Amigo Oculto? Ele conseguiria R$ 12 milhões para o PT sem que Lula soubesse? Felizmente, a hesitação que existe em torno de Eduardo Cunha caiu no caso Delcídio Amaral. Pasadena está atravessada na garganta de todos os brasileiros conscientes. Deu um prejuízo de US$ 700 milhões ao país.

Com a prisão de Delcídio, o braço político de Pasadena sofre o primeiro golpe. E mostrou o que se afirma em alguns artigos: a quadrilha não quer controlar apenas o governo, mas o Congresso e o Supremo. Mas as prisões do meio de semana levaram também o banqueiro André Esteves. Um importante banqueiro, que, ao lado de Marcelo Odebrecht, coloca uma importante questão sobre o capitalismo brasileiro. Esteves e Odebrecht são dois homens de sucesso, símbolos dos empresários que tocam o Brasil. Mas os fatos estão mostrando que a associação criminosa com o governo é um método comum a ambos. Naturalmente, não expressam a posição de todos os empresários. Assim como a maioria dos bandidos não sintetiza as aspirações políticas do país.

Bumlai, Esteves, Delcídio na cadeia ajudam a compreender a decadência da vida pública no Brasil, incluindo os empresários que se associam ao crime, sem hesitação, para impulsionar suas carreiras.

Chegamos a um momento decisivo. O caso Pasadena é muito emblemático. Não só porque é uma operação debochada que tratou os brasileiros como idiotas e quase conseguiu escapar sem nenhum julgamento. Pasadena é importante também porque é um daqueles momentos em que o elenco está reunido. Não preciso fazer ilações. Creio que a própria delação premiada de Nestor Cerveró vai demonstrar isto. Dilma está calada porque Pasadena explode no seu pé. Lula está calado porque a prisão de Bumlai explodiu no seu. A de Esteves cai, como a de Odebrecht, nos pés de um governo que sempre preferiu empresários ambiciosos e capazes de tudo para crescer.

É razoável aqui em Regência perguntar quando todos eles chegarão ao mar. Não desejo essa carga tóxica para o oceano. Pelo contrário, queria que não existisse. Encalhada no cotidiano, atraindo mais ratos, empesteando a vida do país, é muito mais perigosa para a saúde da democracia.

Cunha vai pedir todos os carimbos, atestados e reconhecimento de firmas necessários para sua cassação. Lula certamente dirá que Bumlai agia sem que ele soubesse, apesar do passe livre. Os atores continuarão representando seu papel. Mas o ritmo da peça mudou. Talvez Pasadena, pela sua extraordinária nitidez, pela possibilidade de internacionalização, pelo desespero dos seus agentes, possa ser o fator que nos arranque do marasmo, e finalmente, produza alguma coisa de novo em 2016. Sem grandes ilusões. O plano de liberar Cerveró caiu porque apareceu uma gravação. Ele tinha componentes importantes para o êxito da fuga, sobretudo a grana de um banqueiro e o poder de um líder do governo.

A Operação Lava-Jato é um grande momento do processo democrático no Brasil. As tentativas de neutralizá-la não mobilizam apenas bandidos de quinta categoria. Será necessária uma conspiração digna da importância. A tentativa de livrar os compradores de Pasadena está cheia de ferrugem, como as instalações da refinaria. Outras audaciosas virão e, dificilmente, polícia e justiça aguentarão sozinhas. É um tipo de batalha que vai depender da atenção de cada um. Pasadena não passará, mas não se trata apenas disso. É a viabilidade de um país decente que está em jogo.

Lula continuará dizendo que nada sabe. Cunha continuará exigindo todos os papéis, carimbos e reconhecimento de firma para que seja processado. Chega um dia em que os federais batem à porta. O problema é demorar muito, e os quadrilheiros assaltam o país e acabam nos tentando a ir buscar a justiça pelas próprias mãos. Felizmente resistimos a essa tentação. Tomara que tenha valido a pena.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

LEGADO DO ESTELIONATO ELEITORAL

Recessão, Lava-Jato e crise fiscal dobram falências de empreiteiras

De janeiro a outubro, 125 empresas do segmento tiveram a falência decretada pela Justiça

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SÃO PAULO e RIO – A crise econômica, o agravamento da situação fiscal do país e os desdobramentos da Operação Lava-Jato estão balançando o mercado de construção civil — sobretudo na área de infraestrutura — e já resultam em encolhimento do setor. De janeiro a outubro, 125 empresas do segmento tiveram a falência decretada pela Justiça. É mais que o dobro do volume registrado em igual período de 2014, de 60 casos, segundo dados do Instituto Nacional de Recuperação Empresarial (Inre). O alto óbito é consequência de um também robusto aumento no número de corporações que recorreram à recuperação judicial, numa tentativa de reestruturar o negócio e preservar as operações em meio à turbulência da economia. No total, 304 empresas de construção civil pediram proteção à Justiça, contra 165 nos primeiros dez meses do ano passado, um salto de 84%.

— A situação econômica crítica do país tem levado a muitos pedidos de recuperação judicial. A paralisação de grandes obras e a falta de financiamento no mercado financeiro fazem com que as grandes empreiteiras entrem com o pedido de recuperação — diz Carlos Henrique Abrão, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), que também é conselheiro e fundador do Inre. — Isso causa um efeito boliche. Sem pagar os fornecedores, geralmente empresas menores, estes entram em situação falimentar.

Preocupação para estrangeiros

O que se vê hoje, argumenta Abrão, é a falência de um maior número de empresas menores. E, segundo ele, “ainda não há luz no fim do túnel.”

A fatia de empresas do setor de construção pedindo proteção judicial ou em falência é bem superior à média da economia como um todo. De janeiro a outubro, o número de falências cresceu 17%. Em pedidos de recuperação judicial, o aumento foi de 40,6%, segundo a Boa Vista SCPC. A companhia de serviço de proteção ao crédito argumenta que a crise econômica e os custos elevados dificultam a geração de caixa, comprometendo a solvência das empresas. Sem perspectiva de mudança a curto prazo, a Boa Vista SCPC prevê que os indicadores de falências continuarão em alta, podendo apresentar este ano o maior crescimento da série, iniciada em 2005.

É consenso entre especialistas, dirigentes de classe e empresários que a parada no setor de infraestrutura e os atrasos e cortes de pagamentos feitos pelo governo são a principal ameaça à saúde financeira das companhias de construção. Também a Lava-Jato, que compromete as maiores corporações do setor no país, tem forte impacto na diminuição do volume de investimentos, projetos e negócios na área.

— Com os grandes desse mercado fora de combate devido à Lava-Jato, o freio em investimento vem em cascata. Trava o processo de concessões e cria também um problema de compliance, afugentando investidores estrangeiros — conta uma fonte do setor. — Não existe um plano “B”. As empresas vão reduzindo custos e equipes para atravessar a crise. Com isso, muitas vão desaparecer.

Grandes empresas como OAS e Galvão Engenharia, investigadas pela Lava-Jato, entraram em recuperação judicial. Mas isso também ocorreu com outras que nada têm a ver com a operação da Polícia Federal.

A advogada Juliana Bumachar, especializada em recuperação de empresas, admite uma alta significativa nas consultas feitas ao escritório por companhias que avaliam pedir proteção à Justiça.

— O que se vê agora são empresas que, pelo comprometimento de caixa, já não são mais elegíveis a um processo de recuperação judicial — diz Juliana. — A recuperação pressupõe que a empresa possa manter sua atividade de forma a ter recursos para honrar gastos regulares e o cumprimento do plano de reestruturação. Do contrário, melhor liquidar ativos.

Impacto em credibilidade e crédito

A especialista avalia que mais empresas vão engrossar as estatísticas de pedidos de proteção judicial:

— Há empresas de diversas áreas tentando vender ativos para escapar ou fazer frente a uma recuperação judicial. Mas o mercado está difícil para quem compra ou vende ativos. A insegurança econômica e jurídica travou a atuação dos investidores nacionais e estrangeiros.

Para recorrer à recuperação, as empresas precisam ter condições de operar com um mínimo de saúde financeira, diz Luís Claudio Montoro, especialista em recuperação judicial do Insper:

— A recuperação judicial foca em proteger a atividade empresarial. Tal e qual um remédio, ela ataca a parte ruim, que é a crise, mas afeta também a parte boa. Há impacto em credibilidade, acesso a crédito e investimento, levando à queda em participação de mercado.

Para Montoro, 2016 será um ano de postura conservadora para os empresários, que devem avaliar inclusive a viabilidade da atividade foco de seus negócios:

— Tem empresas perdendo o prazo para buscar uma negociação saudável com seus fornecedores porque estão tentando sucessivas alternativas, sem resultado. O empresário deve estar atento.

José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), minimiza o efeito da Lava-Jato e diz que empresas de pequeno e médio porte atravessam problemas, principalmente, por falta de pagamento:

— Quem entrou em recuperação é porque deixou de ter receita. Não há como não receber e manter o fluxo de caixa tendo de arcar com pagamento de impostos, salários e outros compromissos, sem contar a alta do juro e o crédito mais restrito.

Efeito cascata no setor imobiliário

O Rio Grande do Sul é um dos estados que mais sofre com problemas de pagamentos no segmento de construção de estradas e pavimentação. Dentre as 80 empresas gaúchas que atuam na área de rodovias e infraestrutura, 15 entraram em recuperação judicial este ano, conta Ricardo Portella, presidente do Sindicato da Construção Pesada do Rio Grande Sul (Sicepot-RS):

— O governo do estado está numa situação falimentar, com dívidas ainda de 2014 a pagar. Os contratos com o governo federal, principalmente com o Dnit, estão com pagamentos atrasados em até 120 dias. Não há como operar com juro alto, insumos mais caros e sem caixa.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) soma hoje perto de R$ 2,5 bilhões em valores a pagar. Em nota, o órgão informou que parte desta soma será quitada em dezembro. E ressaltou que os pagamentos são efetuados de acordo com a disponibilidade de recursos oriundos do Tesouro Nacional.

No mercado imobiliário, a situação não é diferente. Olivar Vitale, conselheiro jurídico do Sinduscon-SP, conta que o caixa das construtoras vem sofrendo com a alta dos juros no financiamento à produção, que já alcançam 12% ao ano, quase o dobro do praticado entre 2006 e 2013.

Em muitos casos, para evitar a retomada dos empreendimentos pelos bancos por falta de pagamento dos financiamentos, as construtoras pedem recuperação judicial, conta o presidente da Corporate Consulting, Luís Alberto Paiva. Isso, explica ele, afeta toda a cadeia:

— Os fornecedores menores pedem falência direto. Acredito que essa situação difícil deve durar por mais três anos.*

(*) O Globo

“NUNCA NA HISTÓRIA DESTE PAÍS”…

Pela 1ª vez, corrupção é vista como maior problema do país, diz Datafolha

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No ranking de problemas do país conforme a opinião dos brasileiros, a corrupção é, pela primeira vez, a campeã isolada.

Segundo pesquisa Datafolha realizada nos dias 25 e 26 em todo o país, 34% dos eleitores colocam a corrupção como o principal problema do Brasil na atualidade. Na sequência aparece saúde, com 16%; desemprego, com 10%, educação e violência, ambos os temas com 8%. Economia é assunto citado por 5%.

A pesquisa foi feita em meio à Operação Lava Jato, que começou apurando a atuação de doleiros em 2014, agigantou-se com a descoberta de um esquema de corrupção na Petrobras envolvendo funcionários da estatal, grandes empreiteiras e políticos, e depois estendeu-se para o setor elétrico.

Entre os investigados estão petistas de proa, como o ex-deputado José Dirceu e o ex-tesoureiro da sigla João Vaccari Neto (ambos presos); os presidentes da Câmara e do Senado, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Renan Calheiros (PMDB-AL); e diversos outros congressistas, como os senadores Edison Lobão (PMDB-MA), Fernando Collor (PTB-AL), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Romero Jucá (PMDB-RR).

A pesquisa foi feita logo após a prisão do pecuarista José Carlos Bumlai, conhecido pela amizade com o ex-presidente Lula. E simultaneamente à prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e do banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, ambos suspeitos de sabotar a Lava Jato oferecendo vantagens ao ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, que assinou acordo de delação premiada.

O Datafolha investiga a principal preocupação dos brasileiros desde 1996, ainda durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso na Presidência.

Durante todo o período tucano (até 2002), o tema líder no ranking de principais problemas foi o desemprego, com o recorde de 53% no fim de 1999. Em algumas rodadas, fome/miséria apareceu em segundo lugar na lista de preocupações, assunto citado por apenas 1% atualmente.

Desemprego continuou reinando no ranking até o fim do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006.

O segundo mandato de Lula começou com um substancial aumento da preocupação com violência/segurança, assunto líder em todas as pesquisas de 2007. De 2008 até junho deste ano foi o período dominado pela saúde.

Sob Lula e FHC, corrupção nunca foi apontado como o principal problema do país por mais de 9% do eleitorado.

O tema começou a ganhar força em junho de 2013, primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, mês de enormes protestos de rua pelo país com pautas variadas, da tarifa do transporte à violência policial. Naquele momento, a corrupção foi citada como maior problema por 11%, recorde na série histórica do Datafolha até então.

Nas três pesquisas anteriores de 2015, ficou sempre acima de 20%. O Datafolha ouviu 3.541 pessoas. A margem de erro é de dois pontos percentuais. *

(*) RICARDO MENDONÇA – EDITOR-ADJUNTO DE “PODER” – FOLHA DE SÃO PAULO

FIM DAS TRAPAÇAS

A deslegitimação de um sistema político

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Estava tudo planejado. Nestor Cerveró conseguiria um habeas corpus, atravessaria a fronteira com o Paraguai, tomaria um jatinho Falcon e desceria na Espanha. Deu errado porque Bernardo, o filho do ex-diretor da Petrobras, gravou a trama do senador Delcídio do Amaral e a narrativa de sua conversa com o banqueiro André Esteves. Depois do estouro, estava tudo combinado. Em votação secreta, o plenário do Senado mandaria a Justiça soltar Delcídio, ou talvez o transferisse para prisão domiciliar num apartamento funcional de Brasília. Deu errado porque a conta política ficou cara e sobretudo porque o ministro Luiz Fachin ordenou que a votação fosse aberta.

A Operação Lava Jato, com seus desdobramentos, está chegando ao cenário descrito há 11 anos pelo juiz Sergio Moro num artigo sobre a “Operação Mãos Limpas” italiana. Ela deslegitimou um sistema político corrupto.

É isso que está acontecendo no Brasil. Na Itália, depois da “Mãos Limpas”, o partido Socialista e o da Democracia Cristã simplesmente desapareceram. Em Pindorama parece difícil que a coisa chegue a esse ponto, mas o Partido dos Trabalhadores associou sua imagem a roubalheiras. Já o PMDB está amarrado ao deputado Eduardo Cunha, com suas tenebrosas transações. O PSDB denuncia os malfeitos dos outros, mas os processos das maracutaias ocorridas sob suas asas estão parados há uma década.

A Lava Jato criou o primeiro embate do Estado brasileiro com a oligarquia política, financeira e econômica que controla o país. Essa oligarquia onipotente vive à custa de “acordões” e acreditava que gatos gordos não iam para a cadeia. Foram, mas Marcelo Odebrecht não iria. Foi, mas os políticos seriam poupados e a coisa nunca chegaria aos bancos. Numa mesma manhã foram encarcerados o líder do governo no Senado e o dono do oitavo maior banco do país. Desde o início da Lava Jato a oligarquia planeja, combina e quando dá tudo errado ela diz que a vaca vai para o brejo. Talvez isso aconteça porque ela gosta do brejo, onde poderá comer melhor.

Eduardo Cunha ainda acredita que terminará seu mandato. Sua agenda de fim do mundo desandou. A doutora Dilma Rousseff continua achando que não se deve confiar em “delator”. Lula diz que Delcídio fez uma “grande burrada”, mas não explica qual foi a “burrada”.

Nunca é demais repetir. O artigo do juiz Moro está na rede. Chama-se “Considerações sobre a Operação Mani Pulite”. Lendo-o, vê-se o que está acontecendo e o que poderá acontecer.*

(*) Elio Gaspari – Folha de São Paulo

JOÃO ALVES AGAIN?

 

José Carlos Bumlai diz ter ganhado R$ 2 milhões em sorteio

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Preso na semana passada por suspeita de envolvimento com corrupção na Petrobras, o empresário José Carlos Bumlai figura como ganhador de R$ 2 milhões em sorteio de um título de capitalização pela loteria federal.

A prisão na semana passada acendeu temor de novos estragos no Planalto e no PT em virtude da proximidade de Bumlai com o ex-presidente Lula e pela atuação do empresário em áreas sensíveis, como a Petrobras, o BNDES e o setor elétrico.

A “sorte” de Bumlai é uma das dezenas de operações consideradas atípicas que integram relatório com informações fornecidas pelos bancos ao órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda. O material está nos autos da Lava Jato.

O chamado “Pé Quente Bradesco”, que rendeu R$ 2 milhões, foi comprado por ele por R$ 1.000.

O número de Bumlai foi sorteado em dezembro de 2012 e a bolada, resgatada em 15 de janeiro de 2013. É o maior prêmio pago anualmente neste tipo de papel.

Títulos de capitalização sequer podem ser chamados de investimento porque não rendem juros.

Em aplicação similar à de Bumlai na mesma instituição, o comprador do título só consegue receber de volta o valor integral do que pagou se não tocar no dinheiro dentro de 24 meses. No período, só há correção monetária pela TR (Taxa Referencial).

O título de capitalização mais popular do país é a Tele Sena, que faz sorteios pela TV. Bancos costumam dizer que estes papéis são um meio de estimular a poupança com o atrativo do sorteio.

Ao lado de jogadores inveterados, segundo especialistas em investimentos ouvidos pela Folha, o perfil mais comum de quem compra este tipo de aplicação é gente que precisa de dinheiro emprestado. É comum que gerentes vejam no momento da liberação de um financiamento, por exemplo, a oportunidade para vender a seus clientes títulos de capitalização, um dos produtos mais lucrativos para os bancos.

No caso do prêmio do amigo de Lula, os R$ 2 milhões foram pagos em uma agência de Guajará-Mirim (RO). O patrimônio e os negócios dele e de sua família concentram-se em MS e SP.

Além do prêmio do título de capitalização, o relatório mostra que o empresário sacou R$ 5 milhões em dinheiro vivo. Entre janeiro de 2010 e outubro de 2013, o empresário foi 37 vezes a agências do Banco do Brasil e da Caixa e saiu carregando pacotes com valores entre R$ 100 mil e R$ 265 mil.

OUTRO LADO

O advogado Arnaldo Malheiros disse que não poderia comentar por desconhecer detalhes do prêmio recebido por Bumlai.

Emissor do “Pé Quente”, a Bradesco Seguros disse que “de acordo com suas regras internas de ‘compliance’, não fornece nem comenta informações relativas a seus clientes”. *

(*) GRACILIANO ROCHA – ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

VIGARICE MAMBEMBE

Aliados avaliam que filho de Lula cometeu erro primário

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Interlocutores do ex-presidente Lula voltaram a ficar apreensivos com o desdobramento da investigação da Operação Zelotes que identificou que Luís Claudio Lula da Silva, filho caçula do ex-presidente, reproduziu conteúdo da internet em consultoria na qual recebeu pelo menos R$ 2,5 milhões. A informação foi revelada pela repórter Camila Bomfim, da TV Globo.

A expectativa de aliados de Lula era que Luís Cláudio sairia do foco depois das explicações dadas e após ter apresentado toda a documentação referente à sua consultoria.

Há o reconhecimento entre petistas de que foi um erro primário o filho de Lula ter apresentado documentos apontados pela PF como sendo sem profundidade técnica para justificar um serviço que motivou um custo elevado para os padrões de consultoria do setor.

“Isso deixou a situação do filho de Lula mais complicada. O problema é que nesse caso não se pode culpar ninguém. Foi ele mesmo quem apresentou a documentação que agora está sendo analisada e questionada pela Polícia Federal”, observou ao Blog um parlamentar próximo ao ex-presidente.

Interlocutores de Lula avaliam que a revelação vai complicar ainda mais a situação de Luís Cláudio na Operação Zelotes.*

(*)  Blog do Gerson Camarotti – G1.

NO FUNDO DO POÇO

Lava Jato exibe lado de

dentro do nosso abismo

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Que semana! Entre a terça e a quarta, foram em cana o amigo de Lula, José Carlos Bumlai, e o líder de Dilma, Delcídio Amaral. Na sexta, descobriu-se que a Andrade Gutierrez, segunda maior empreiteira do país, entregou os pontos. Pagará multa de R$ 1 bilhão e confessará crimes que vão muito além da Petrobras. O país virou uma espécie de trem fantasma rumo ao precipício.

Para muitos, o mensalão foi a beira do abismo. O petrolão é a vivência do abismo. Com sua vocação para a busca das verdades mais profundas, sem limites, a força-tarefa da Lava Jato apresenta ao Brasil o lado de dentro do abismo. A caminho das profundezas, o brasileiro percebe que, vista desde o buraco, a crise é mais nítida. O grotesco ganha uma fabulosa visibilidade.

No abismo, o hipócrita tem cara de hipócrita, a incompetente tem jeitão de incompetente. E o séquito de canalhas tem a aparência de um cortejo de canalhas. Olhando de baixo, percebe-se com mais clareza a teia.

Delcídio tentou silenciar Nestor Cerveró, que coordenou a compra de Pasadena, que foi avalizada por Dilma, que era a bambambã do governo Lula, que é amigão de José Carlos Bumlai, que é pai de Fernando Barros Bumlai, que é marido de Neca Chaves Bumlai, que é filha de Pedro Chaves dos Santos, que é suplente de Delcídio, que monitorava os humores de Bumlai a pedido de Lula, que não sabia de nada.

Um país inteiro tem que cair para salvar a pantomima. Só a derrota nacional salva o grupo hegemônico.*

(*) Blog do Josias de Souza

O POVO CAINDO NA REAL…

47% do eleitorado não votaria em Lula em 2018, aponta Datafolha

Do ponto de viste eleitoral, o maior beneficiado com a combinação de crise política e econômica não parece ser o PSDB, principal opositor da presidente Dilma Rousseff, mas a hoje reclusa Marina Silva (Rede), ex-senadora que ficou em terceiro na disputa pela Presidência em 2014.

É o que mostra a pesquisa Datafolha nos dias 25 e 26 com 3.541 entrevistas e margem de erro de dois pontos.

Na simulação que coloca o senador Aécio Neves como candidato do PSDB, Marina avançou três pontos (de 18% para 21%) e agora aparece tecnicamente empatada com o ex-presidente Lula (22%) na segunda posição. O tucano lidera com 31%, mas tinha 35% na pesquisa anterior.

Quando o candidato do PSDB é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Marina lidera isolada com 28%, seis pontos a mais que Lula (que caiu quatro desde junho) e dez a mais que o tucano (que oscilou dois para baixo).

Um dado que chama a atenção no levantamento é a taxa de rejeição do ex-presidente Lula. Quase metade dos eleitores (47%) dizem que não votariam nele de jeito nenhum. É uma taxa inferior apenas a atribuída a Ulysses Guimarães (1916-1992) em pesquisas feitas em 1989, quando disputou a Presidência pelo PMDB. Em agosto daquele ano, Ulysses amargou 52% de rejeição, recorde até hoje.

Aécio é rejeitado por 24% atualmente; o vice Michel Temer (PMDB), por 22%. Alckmin e Marina, por 17%.

O Datafolha mostra ainda que a imagem de Lula como ex-presidente perde força com velocidade. Em 2010, ele era visto como o melhor presidente que o Brasil já teve por 71%. Caiu para 56% no fim de 2014; 50% em abril; 39% agora. Apesar disso, segue líder. (RM) *

(*) RICARDO MENDONÇA
EDITOR-ADJUNTO DE “PODER” – FOLHA DE SÃO PAULO

PT = PARTIDO DE TRAMBIQUEIROS

O PT contaminado

A única bancada que fechou questão pelo voto secreto foi a do PT, para esconder a posição sobre Delcídio

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Foi o maior rompimento de barragem de lama na Nova República. As palavras turvas que jorraram da boca do líder do governo Dilma no Senado inundaram o Congresso e o país, mas, especialmente, o PT e suas bases, soterrando esperanças e convicções. O partido está mais dividido que nunca. Quantos anos serão necessários para recuperar a bacia das almas desse acidente ou crime? Onde a lama vai parar? Boias de contenção me parecem em vão.

Os bons petistas, idealistas, não sabem mais em quem acreditar. Eles se contorcem para ficar à margem, para não ser atingidos e contaminados pelos rejeitos tóxicos da bandidagem institucionalizada. O protagonista desse último filme B pertence à “cúpula da turma do Lula”. Lula foi cabo eleitoral de Delcídio do “Amoral”, ops, Amaral. Lula saiu em carro aberto em Mato Grosso do Sul, pediu o voto dos companheiros para o governador, suou a camisa.

Mais um traidor, ex-presidente? Ou, como o senhor disse, “um idiota” que fez “uma trapalhada”, uma “coisa de imbecil”? Será que, como os já condenados – o ideólogo Zé Dirceu e o tesoureiro João Vaccari Neto –, Delcídio figurará como guerreiro do PT na história revisitada do partido? Ou será sumariamente expulso, como querem os camaradas linha-dura? A expulsão de Delcídio impedirá que a lama tinja de laranja o lago do Palácio do Planalto?

Um guerreiro, quase um terrorista suicida, que não hesitou em tentar calar a todo custo, pelo suborno e pelo tráfico de influência, um delator preso. Com o nobre objetivo de livrar sua cara, a cara do partido e a cara da presidente na compra da refinaria de Pasadena nos Estados Unidos em 2006, Delcídio planejou fugas mirabolantes do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró pelo Paraguai com destino à Espanha. Delcídio se gabou de pressionar juízes do STF. Delcídio prometeu melar a Lava Jato, anular sentenças.

Ah, mas, segundo o PT, Delcídio “agia por conta própria” e não “a mando do partido”, embora fosse o principal articulador de Dilma na mais alta casa de nosso Parlamento. Delcídio não merece compaixão nem solidariedade – ou merece? Nem o PT se decide.

Na sessão no Senado, a maioria dos senadores do PT quis a volta do obscurantismo e apoiou o voto secreto para que eleitores não soubessem sua posição sobre a prisão de Delcídio. A única bancada que fechou questão a favor do voto secreto foi a do PT. E, mesmo assim, não conseguiu a fidelidade de todos os seus.

Também entre os poucos que votaram a favor de soltar Delcídio, o PT foi maioria: nove dos 13. Tudo acompanhado ao vivo pelas redes sociais e pela TV Senado. Era um velório, no qual foi enfim desafiada a expressão dúbia “imunidade parlamentar” – usada no Brasil para garantir impunidade para crimes comuns, e não para proteger o direito constitucional do legislador.
Ganhou a compostura. Ganharam as instituições. Mas, para os senadores, foi “um dia trágico”. De nervos expostos, de vísceras reviradas. E de clara divisão no PT e no PMDB. O presidente do Senado, Renan Calheiros, o grande aliado de Dilma e representante do vice Michel Temer, perdeu em tudo o que votou. Falou indignado contra “o Poder (Judiciário) que prendeu um senador em exercício de mandato sem culpa formada”. O Supremo respondeu, pela emocionada ministra Cármen Lúcia: “Criminosos não passarão sobre juízes”.

No fim, restou a Renan submeter-se ao plenário e atacar o PT por negar qualquer solidariedade a Delcídio. “A nota do PT sobre esse episódio, além de intempestiva, é oportunista e covarde”, disse Renan. Para onde foi o código de ética entre mafiosos? O senador Delcídio está preso. Por crime inafiançável, flagrante e permanente. Não era um dos “nossos”?

Para variar, Dilma não sabe o que faz. Uma hora, a presidente se rende à ala de Rui Falcão e apoia a nota. Outra hora, Dilma se rende a assessores que recomendam cautela. Não vamos abandonar nem isolar nosso querido Delcídio. E se ele também se torna delator premiado? Que “solidariedade” ele mostrará ao PT se for jogado às traças? Nenhuma.

Calou fundo no coração de muitos petistas o que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, ex-ministro da Educação, disse na véspera do rompimento da barragem de Delcídio. Uma fala cândida e premonitória.

“Quando você tem um sonho de transformar a sociedade em favor da igualdade e você se desvia para se apropriar de recursos ou para beneficiar quem quer que seja, você está cometendo dois crimes: o primeiro é colocar a mão em recurso público, o segundo, você está matando um projeto político (…) Não tenho nada contra quem quer ganhar dinheiro, mas não venha para a política (…Se vier,) garanta que você não vai matar o sonho das outras pessoas.” O sonho de Haddad virou pesadelo. O prefeito de São Paulo não está sozinho. Tem uma multidão com ele.*

(*) Ruth de Aquino – Época