QUEM É VIVO SEMPRE APARECE

Reapareceu ‘Silvinho’, um personagem do mensalão

“Silvinho” não era um petista qualquer. A primeira sede do partido, em Osasco, funcionou nos fundos da lanchonete Cebolinha, de sua família

00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000012_288-alt-mensalao1811052006

A defesa do comissário José Dirceu soltou uma informação de aparência banal: quem nomeou Renato Duque para uma diretoria da Petrobras não foi ele, mas Silvio Pereira, o “Silvinho”, secretário-geral do PT até 2005. No seu depoimento de sexta-feira Dirceu limitou-se a dizer que não indicou Duque, sem citar “Silvinho”.

“Silvinho” não era um petista qualquer. A primeira sede do partido, em Osasco, funcionou nos fundos da lanchonete Cebolinha, de sua família. Em 2003, ele coordenava a distribuição de cargos para o partido, com a ajuda de 130 cadernos e blocos. É plausível que o nome de Duque tenha passado por “Silvinho”.

Nessa época, o PT ajudava a manutenção de alguns de seus quadros do novo governo. Nada a ver com a máquina distributivista do mensalão, cuidava-se apenas do Executivo. Uma pessoa que viu um dos cadernos de “Silvinho” chamou-o de “gibi”.

Em 2005, quando a palavra “mensalão” entrou no léxico nacional, Silvio Pereira formou com José Dirceu e o tesoureiro Delúbio Soares a trindade do poder petista acusado de corrupção. Ele submergiu, mas meses depois a empresa de engenharia GDK, fornecedora da Petrobras, reconheceu ter dado a “Silvinho” um jipe Land Rover. (Ele devolveu o carro; quanto à GDK, conseguiu 19 novos contratos com a Petrobras e reapareceu dez anos depois na Lava-Jato.)

“Silvinho” deixou o partido e, em 2008, fez um acordo com a Procuradoria-Geral da República, aceitando cumprir 750 horas de serviços comunitários. José Dirceu e Delúbio não fizeram acordo, um tomou uma sentença de dez anos e o outro, de seis.

Paga a conta, “Silvinho” voltou para Osasco, fez um curso de gastronomia e voltou ao restaurante da família, o Tia Lela, localizado em frente à prefeitura.

Apesar de Silvinho ter dito que “há cem Marcos Valérios atrás do Marcos Valério”, as investigações do mensalão deram pouca importância à conexão Petrobras e sua rede de fornecedores. Veio a Lava-Jato e deu no que deu. É possível que o Ministério Público se interesse em ouvir de novo Marcos Valério. O sinal dado pela defesa de Dirceu sugere que talvez valha a pena conversar com Silvio Pereira.

Elio Gaspari é jornalista – O Globo

O TRIPLEX SUBIU NO TELHADO

Marisa Letícia, a fábula

000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000Sponholz

Protagonista de absurdos — dos canteiros em formato de estrela que mandou plantar nos jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto à requisição e obtenção de cidadania italiana para ela e a prole no segundo ano do primeiro mandato presidencial de seu marido –, Marisa Letícia Lula da Silva volta à cena. E em grande estilo. Seria dela a opção de compra do tríplex frente ao mar no Guarujá, alvo de investigações do Ministério Público de São Paulo e da Lava-Jato. O mesmo imóvel que já foi, era e nunca foi de Lula.

Idealizado pela Bancoop, cooperativa criada em 1996 pelos petistas ilustres Ricardo Berzoini, hoje ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, e João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, condenado a 15 anos e quatro meses pelo juiz Sérgio Moro, o tríplex apareceu na declaração do candidato Lula, em 2006, com um valor irrisório de R$ 47,6 mil. Referia-se a uma parcela do financiamento do Edifício Solaris, então na planta, em que outros petistas, incluindo Vaccari, tinham comprado apartamentos.

Até aí, o anormal era apenas o fato de a Bancoop lançar um empreendimento de alto luxo depois de já ter dado cano na praça, usurpando a poupança e os sonhos de mais de três mil cooperados. Algo que Lula, como sempre, alegará que não sabia.

A estapafúrdia história do tríplex não para aí.

Em 2010, a assessoria de Lula garantiu que o apartamento pertencia ao ex. Quatro anos depois, o jornal O Globo publicou reportagem sobre o Solaris apontando que o prédio tinha sido concluído enquanto os mutuários da Bancoop continuavam a chupar dedos. E que a unidade de Lula e sua mulher tinha recebido tratamento de alto luxo da OAS, empreiteira que assumiu o empreendimento: elevador interno, substituição de pisos e da piscina. Tudo supervisionado e aprovado por Marisa Letícia.

De repente, com as investigações esquentando, o frente ao mar do casal (ou de Lula, conforme declaração anterior) virou um negócio exclusivo de Marisa Letícia. Do qual, no papel de The good wife, ela desistiu.

Sabe-se hoje que as idas da ex-primeira-dama ao Solaris causavam frisson. Flores eram colocadas nas áreas comuns, todos ficavam sabendo quando ela chegava. Sabe-se ainda que o presidente da OAS, Léo Pinheiro, condenado pela Lava-Jato a 15 anos de reclusão, esteve lá com ela em pelo menos uma das visitas.

E aqui vale a questão: o que faria o dono de uma das maiores empreiteiras do país acompanhar Marisa Letícia na vistoria de uma simples reforma de um apartamento se o imóvel não fosse do ex-primeiro-casal?

Mas há muitas outras perguntas sem respostas. Em um artigo didático, o jornalista Josias de Souza mostra a ausência absoluta de nexo nas explicações de Lula. Argumentos que não explicam, confundem.

Confundir. Talvez seja essa a ideia ou a única saída imaginada por Lula.

Sem conseguir dizer quanto pagou além dos R$ 47,6 mil declarados em 2006 ou apresentar recibos da desistência, com data e valores de reembolso exigidos, tudo que o Instituto Lula fala beira papo para engambelar otário. Nem mesmo a cota nominal para demonstrar que a opção de compra do apartamento foi mesmo de Marisa veio a público. São documentos simples, claros, objetivos. Mostrá-los livraria o Instituto Lula e o próprio ex de torturar os fatos.

Sem isso, resta a Lula, ao PT e aos militantes mais aguerridos atribuir tudo à perseguição histórica ao ex. Tudo – tríplex reformado pela OAS, sítio recauchutado pela Odebrecht, filho que recebe R$ 2,5 milhões por consultoria via Google, os “não sabia” do Mensalão, do escândalo da Petrobras e tantos outros – não passa de uma conspiração para “derreter Lula” e “destruir o PT”, como clama o presidente da sigla, Rui Falcão, no Facebook.

O conto do tríplex ainda vai longe. Mas de cara já se sabe: tem orelha de lobo, focinho de lobo, boca e dentes de lobo. Ninguém vai acreditar que é a vovozinha. *

(*) Mary Zaidan, no blog do Noblat

EVOÉ, MOMO!

A hora da onça beber Brahma

00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000ula-brahma

A panela de pressão está em fogo máximo: o promotor Cássio Conserino, do Ministério Público paulista, intimou o ex-presidente Lula, sua esposa Marisa Letícia e o ex-presidente da empreiteira OAS, Leo Pinheiro, para depor como investigados no caso do apartamento de Guarujá. Acabou a fase do disfarce, em que todo mundo sabia quem estava sendo investigado mas ninguém confirmava nada. Lula, sua esposa e Leo Pinheiro devem depor no dia 17, às 11 horas.

Não é este o único problema do Número 1, como era chamado por amigos empreiteiros. Atribui-se à Odebrecht e à OAS o patrocínio da reforma do sítio de Atibaia, o que pode configurar retribuição por favores recebidos do Governo Federal. O alto funcionário da Odebrecht que coordenou a construção do estádio do Corinthians, Frederico Barbosa, foi identificado por fornecedores e empregados como executor da reforma; e disse que colaborou mesmo, mas só para ajudar, sem cobrar nada, porque, afinal, estava de férias e tinha tempo sobrando. Pois é.

E o Ministério Público Federal vem alcançando pessoas próximas de Lula.

Junte-se tudo – e aquele personagem coberto de Teflon, em que nenhuma acusação grudava, passa a apresentar falhas no revestimento. O curioso é que, normalmente, investiga-se alguém que diz que é dono de algo e se suspeita de que não é. Aqui é o oposto: Lula diz que não é dono do apartamento na praia, nem do imóvel de Atibaia conhecido como Sítio do Lula, que sua família e amigos (entre eles o ex-governador Zeca do PT, do Mato Grosso do Sul) costumam frequentar. Frase de Zeca do PT: “Eu que ensinei o Lula a pescar. Ele é bom de pesca, mas no sitio dele os peixes são criados para que só ele consiga fisgá-los”.

É mas não é

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000AUTO_nicolielo

A esposa de Lula comandou as obras de reforma do apartamento na praia. O engenheiro Armando Dagre, da Talento Construtora, executou o trabalho, encomendado e pago pela OAS. Disse que nunca teve contato com Lula, mas sempre com a esposa Marisa Letícia.

Numa das vezes, Marisa Letícia visitou o apartamento que, segundo Lula, não é do casal, em companhia de um filho, Fábio Luiz, do então presidente da OAS, Leo Pinheiro, e de um engenheiro da empreiteira.

Não é mas é

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000lula-japones

O Instituto Lula diz que o ex-presidente tinha uma cota do prédio mas não exerceu a opção de compra – logo, o apartamento de Guarujá não é dele. Mas, conta Lenir de Almeida Marques, gente de casa, prima do ministro de Lula Luiz Gushiken, lulista desde o tempo de sindicato, “todos pegamos as chaves no dia 5 de junho, inclusive dona Marisa”.

Lula quis processar o repórter Germano de Oliveira, de “O Globo”, que deu a notícia, mas a queixa foi rejeitada pela Justiça.

Hora da arrumação

0000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000spon-lulobista

Seria interessante alguém dar um balanço na série de escândalos, para esclarecer quem é quem e o que de fato está acontecendo. Uma das coisas mais curiosas, por exemplo, se refere ao sítio de Atibaia. A reforma foi feita, afinal, pela OAS, pela Odebrecht ou por um consórcio informal das duas gigantes da empreita? Terá a OAS se limitado, no caso de Atibaia, à reforma da cozinha?

Outra dúvida: se o ex-presidente Lula não é dono do apartamento da praia, por que foi lá tantas vezes? Teria convocado motorista, seguranças, convidado a esposa, simplesmente para dar um passeio e assistir à obra do apê que deixara de comprar? Teria vontade apenas de se solidarizar com os cumpanhêro operários?

Mais uma: o lobista que prometeu aos procuradores que, em troca da redução da pena, diria que José Dirceu lhe sugerira que passasse um tempo fora do país, depois desmentiu tudo ao juiz Sérgio Moro, depois confirmou tudo, diz que mudou de posição porque seus netos foram ameaçados. Mas por que terá levado mais de 24 horas para relatar a ameaça a procuradores e juiz?*

(*) Coluna Carlos Brickmann – na Internet

PRA TUDO SE ACABAR NO CARNAVAL…

Flores do recesso

Apenas dois assuntos ocuparam noticiário econômico: recessão e impeachment

00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000paixao

Durante esses dias aleatórios de recesso parlamentar e judiciário, parecendo ensaios preparatórios para um ano que não começou, apenas dois assuntos ocuparam o noticiário, embora com diferentes disfarces.

O primeiro é a maior recessão da nossa história, que vai se mostrando em diferentes indicadores, causando uma perplexidade muito disseminada, e que vai se aprofundando e metendo cada vez mais medo nas pessoas. A julgar pelos números para o PIB, o biênio 2015-2016 vai ser pior que 1930-1931, período da famosa Grande Depressão, e não parece haver nenhuma dúvida que, se nada acontecer, vai piorar ainda mais em 2017 e 2018.

Nossos parlamentares certamente vão voltar do recesso de olhos arregalados.

A segunda notícia, outra que aparece por múltiplos portadores, é mais um desejo, ou uma previsão, que um fato, e sua origem é o Palácio: trata-se da avaliação, e não é mais que isso, segundo a qual o impeachment estaria afastado.

É claro que é apenas uma versão. O leitor sabe que o Petrolão alcançou o grotesco reconhecimento internacional de estar entre os piores escândalos de corrupção da história da humanidade. Como o beneficiário desse assalto perpetrado contra a Petrobras foi o partido que ganhou as eleições, talvez apenas a nossa Velhinha de Taubaté, se estivesse viva, acreditaria que essa dinheirama não entortou os resultados das urnas.

Mesmo ela, que segundo relata seu criador, faleceu (talvez um suicídio) em decorrência do noticiário do “mensalão”, a essa altura, provavelmente já teria mudado de opinião, pois, o seu FGTS estava todo investido em ações da Petrobras. Nem o confisco do Collor lhe deu tanto prejuízo.

Pois bem, a Presidente da República, que presidiu o conselho da Petrobras durante boa parte das atividades que compõem o mensalão e que produziu o maior desastre econômico dos últimos cem anos, quer ficar até o fim de seu mandato, que é tão legítimo quanto os recursos utilizados na sua campanha, incluídos os de “pedaladas”.

No balanço da Petrobras constam exatos R$ 6,194 bilhões de baixas contábeis decorrentes de propinas pagas no âmbito do Petrolão, entre 2004 e 2012, cuidadosamente calculadas a partir das revelações da Operação Lava-a-Jato. São valores calculados pela própria empresa, reconhecidos em balanços auditados e sujeitos ao escrutínio de reguladores daqui e do exterior. É o primeiro caso de corrupção auditada na história do Brasil.

A matemática aqui é muito simples: um terço desse valor teria ido para o PT (cerca de R$ 2 bilhões), conforme se conclui das demonstrações financeiras da Petrobras, e a campanha presidencial custou cerca de R$ 300 milhões.

Diante desses números todos, sobretudo os da economia, causou certo impacto a entrevista recentemente concedida por um de seus mais proeminentes conselheiros da Presidente, o ex-ministro Delfim Netto, segundo o qual “não tem mais impeachment” e “se ela não assumir seu protagonismo … vai ser uma tragédia.”

Não me parece que o conselheiro pudesse dizer nada muito diferente do combinado, ou seja que a Presidente dá conselhos a si mesma através de terceiros, uma curiosa situação que me traz à mente as que são estudadas com muita verve nessa inesperada joia intitulada “Piadas do Žižek: você já ouviu aquela sobre Hegel e a negação?”, o mais recente livro de Slavoj Žižek, uma estrela entre intelectuais marxistas, filósofo e teórico da psicanálise.

Neste seu livro ele trata de utilizar o “gênero” (piada) como estrutura ou padrão lógico, quem sabe como um bloco de equações que serve a múltiplas situações, sempre com intuito subversivo e arrasador.

A permanência de Dilma até o fim de 2018 evoca uma de suas histórias na qual um judeu, Rabinovitch, procura emigrar do desastre econômico e político que era a União Soviética e alega ter dois bons motivos. O primeiro, diz ele, é que o comunismo vai colapsar, seus crimes serão denunciados, e podem querer colocar a culpa nos judeus. Diante disso, o oficial da emigração reage com ardor:

— Mas isso não faz sentido nenhum, camarada, a União Soviética durará para sempre!

Em resposta, Rabinovitch murmura:

— Este é o segundo motivo.

Mais engraçado que a piada, bem antiga e conhecida em diversas versões, são as declinações filosóficas e variações de Žižek, que vamos omitir, mas oferecer uma nova que deriva de rumores vindos de Brasília segundo os quais um membro da atual equipe econômica, um desses que a profissão costuma colocar dentro da categoria do “pensamento mágico”, foi ao chefe da Casa Civil pedindo para deixar seu emprego, e por dois motivos. Conforme fontes, ele teria dito ao ministro:

— A Presidenta insiste em seguir roteiros neoliberais para lidar com a crise, deixando para trás os nossos ideais históricos, a crise é enorme, vai piorar muito e vão culpar a nós, os heterodoxos e nossa nova matriz.

O Ministro o interrompe:

— Não se preocupe, companheiro, a presidenta vai recuperar seu protagonismo, abandonar os desvios neoliberais, vai voltar às nossas ideias de sempre e cumprir seu mandato até o fim.

— Este é o segundo motivo. Responde, previsivelmente o economista.

Reparem que só um heterodoxo DOC (Denominação de Origem Controlada) poderia achar que a companheira presidente está seguindo alguma receita neoliberal. Mas o autoengano (ou a teimosia), como se sabe, é parte da tragédia da nova matriz, como da União Soviética.

Que tudo vai ficar como sempre foi na União Soviética, e na nova matriz, fica claro pelo fato de que Dilma Rousseff, a fim de recuperar seu “protagonismo” (e esse termo deve ter o mesmo destino de “presidenta”, tenha-se claro), resolveu fazer um pronunciamento para o chamado Conselhão. O leitor deve ter claro que não existe nenhuma inutilidade mais portentosa do que este conselho certa vez designado por Francisco de Oliveira como o “Camarão”, aludindo a seu caráter de câmara setorial de toda a economia.

Não vale lembrar o que foram as câmaras setoriais no passado para o leitor não perder o seu apetite, basta ter em conta que eram os ambientes de acordos onde os custos cabiam a quem não sentava na mesa. Uma fórmula fácil, enganosa e vigarista. As tentativas tupiniquins de “pacto social” tiveram esta mesma embocadura e nunca prosperaram.

O “Camarão” nasceu com esta filosofia, e ver Dilma buscar sua salvação anunciando medidas para um Camarão renovado parece uma piada do Žižek. Seria sumamente melhor para o país que ela esquecesse o seu protagonismo.

(*) Gustavo Franco – O Globo

NO BANANÃO SEMPRE É CARNAVAL

Nem tudo acaba na quarta-feira

Acontece entre nós uma certa carnavalização da política

00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000os xilva

O carnaval é o tempo da alegria, em que as pessoas se irmanam no riso. Segundo o teórico russo Mikhail Bakhtin, a alegria popular é uma contrapartida à seriedade e chatice dos ritos oficiais. Acontece entre nós uma certa carnavalização da política. Algo diferente de se fazerem milhares de máscaras do japonês da Federal e sair cantando: vem pra cá, você ganhou uma viagem ao Paraná. Isso é a política no carnaval. Os discursos de Dilma e Lula são o carnaval na política. Ela conseguiu emplacar dois sucessos em 2015: “Saudação à mandioca” e “Armazenando o vento”.

Na primeira, Dilma pré-colombiana se entusiasmou com nossas origens indígenas. Na segunda, apenas mencionou um processo real mas que ainda não está consolidado: armazenar o vento nas rochas, como um ar comprimido. O sucesso da “Saudação à mandioca” é o entusiasmo de Dilma que se derrama para o milho. No “Armazenando o vento”, o refrão “daqui pra lá, de lá pra cá” transmite ação, é bastante expressivo para descrever o vento.

Deixando sua fase mais popular, Dilma ficou zangada com as previsões do FMI. “Estou estarrecida”, confessou. Como se nunca tivesse lido uma previsão que falasse do buraco em que caímos, até 2018, no mínimo. Mas estava reservada ao criador da criatura o papel de vocalista do bloco. Lula disse aos seus blogueiros de estimação que não existe no Brasil alma viva mais honesta do que ele. Com todas as reservas sobre a existência da alma, e dúvidas sobre se a de Lula está realmente viva ou é apenas um fantasma fugindo da polícia, esta frase abriu o carnaval de 2016.

Lula disse isso num momento em que está acossado por várias investigações, medida provisória vendida, compra de caças, triplex, sítio, enfim tudo o que aparece nas notícias e mais alguma coisa escondida nos inquéritos ou no fundo da garganta de um potencial delator premiado. Ao se proclamar a mais honesta alma viva do Brasil, Lula optou por um passe de mágica que deve ter maravilhado seus intérpretes oficiais, os blogueiros que levam grana do governo. É como se o protagonista, completamente cercado pela polícia, ficasse invisível, ou voasse como um herói de história em quadrinho: shazam.

Ele decidiu ocupar um lugar no Olimpo. O interessante é que, ao contrário dos deuses que tudo sabem, Lula nunca sabe de nada. É uma figura mitológica que derrota o amante traído na disputa por ser o último a saber. Bakhtin tem uma outra visão da etimologia do carnaval. Ao contrário dos que dizem que é a festa da carne, amparando-se na palavra latina, Bahktin mostra que a raiz germânica indica para a expressão: procissão dos deuses mortos.

O fato de os dirigentes serem carnavalescos não intencionais não teria o poder de atenuar seus erros com um pouco de humor? Sei que muitos vão escrever: onde está a indignação diante de tudo que roubaram? Não há espaço para rir deles. Concordo com a indignação com a roubalheira porque ela representa sofrimento, e no caso da saúde, morte precoce para o povo brasileiro. O fato é que eles estão aí. Sérios ou engraçados, assaltariam o país de qualquer maneira. Um pouco de humor não atrapalha. Como dizia Vinicius de Moraes, a gente trabalha o ano inteiro, por um momento de sonho, para fazer a fantasia de rei, ou de pirata ou da jardineira.

O sonho de carnaval, na canção de Vinicius, acaba na quarta-feira. Mas nesse ponto concordo com Bakhtin: o carnaval é mais longo. Aí está o nó. O Brasil oficial vive o sonho de uma potência emergente, incessante redistribuição de renda, orgulha-se de sair no bloco bolivariano e rejeita quem insiste que já é Quarta-feira de Cinzas. No entanto, é um país decadente, que puxa para baixo a própria economia global, e está infestado de mosquitos do Aedes aegypti real ao tsé-tsé simbólico. Aqueles blocos que saem depois do carnaval são animados, ganham alguns minutos na TV, mas sabem que são efêmeros.

Os blocos oficiais parecem não saber. Não adianta gritar que o carnaval acabou. Eles não ouvem. Se ouvirem, daqui a alguns meses, vão responder como Dilma ao documento do FMI: “estou estarrecida”. Estamos estarrecidos há muito tempo. E não apenas com a situação econômica, mas com a gravidade da crise, com a perda de oportunidades nacionais, com o estado da imagem do Brasil no mundo, enfim essa longa lista de choros.

O carnaval demarca o tempo da alegria, um prazer com tempo para acabar, a finitude como a qualidade do próprio prazer. O bloco do governo não soube brincar. Confundiu festa e trabalho, realidade e fantasia, partido e país, dinheiro público e patrimônio. É um dos blocos que o carnaval popular rejeita. De um modo geral, são os que saem fantasiadas da cadeia, na Quarta-feira de Cinzas.

Mesmo na política carnavalizada, no entanto, nem tudo acaba na quarta-feira. Um japonês sem máscara vai bater o ponto na Federal de Curitiba, os processos correm, as línguas desatam, daqui a pouco, quem sabe, é domingo de Aleluia.

(*) Fernando Gabeira – o Globo

ENTÃO, TÁ BEM PARADO…

Futuro dependerá de Dilma, avalia petista

Desgastado pelo cerco do Ministério Público, Lula considera que só um sucesso da atual gestão poderá minimizar danos causados à sua imagem

000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000UTO_luscar

Um aspecto curioso chamou a atenção de pessoas que conversaram com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última semana. Embora tenha entrado na mira da Operação Lava Jato e do Ministério Público Estadual por causa de um apartamento tríplex no Guarujá, Lula só falava de economia, principalmente das expectativas quanto à reunião da presidente Dilma Rousseff com o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, realizada na quinta-feira.

A alguns destes interlocutores Lula explicou o motivo da fixação com a economia. Ciente dos danos que as suspeitas de envolvimento com empresas investigadas na Lava Jato têm causado à sua imagem, o petista só vê chance de recuperar a reputação em curto ou médio prazo se Dilma corrigir o rumo da economia e chegar ao fim de seu mandato com índices razoáveis de aprovação. Nas palavras de um aliado, “Lula agora está nas mãos da Dilma”.

O entorno de Lula avalia que tanto o ex-presidente quanto o PT estão de mãos atadas diante da ofensiva da Lava Jato e do MP paulista contra o petista. A decisão de abrir mão do tríplex no Guarujá seguiu orientações jurídicas e, no entender de assessores do ex-presidente, é absolutamente legal.

O PT, por sua vez, não pode fazer mais do que manifestar publicamente solidariedade ao ex-presidente diante do que considera como “agressões”, mas não tem poder real para interferir no processo. Na reunião da Executiva do partido na última terça-feira, em Brasília, um grupo de dirigentes defendeu uma resolução política que trouxesse uma defesa explícita de Lula, mas o próprio ex-presidente abriu mão. O desagravo deve ficar para o aniversário do PT, nos dias 26 e 27 de fevereiro, no Rio de Janeiro.

Aliados ofereceram a Lula uma série de alternativas de defesa que passavam de alguma forma pelo Palácio do Planalto. Lula recusou. Segundo pessoas próximas, ele sabe que Dilma vê na Lava Jato a possibilidade de deixar uma marca positiva de seu governo e não está disposto a cruzar esta fronteira.

Embora tentem passar uma impressão de segurança jurídica em relação ao apartamento do Guarujá, auxiliares do ex-presidente começaram a dar sinais de dúvida na última semana. Aqueles que até a semana passada classificavam as acusações contra Lula de tentativas de criminalizá-lo politicamente hoje usam a expressão “criminalização jurídica”.

Aliados de Lula empenhados em reverter a situação esbarram em outra barreira: tanto o apartamento do Guarujá quanto o sítio usado pelo petista em Atibaia, cuja reforma teria sido paga pela Odebrecht, são assuntos estritamente pessoais, que nada têm a ver com questões partidárias ou governamentais como foi, por exemplo, o mensalão. Isso aumenta a dificuldade para abordar os temas.

Zelotes. Esse ponto fica ainda mais complicado quando se trata das investigações da Operação Zelotes contra Luís Cláudio, filho caçula do petista, cuja empresa, a LFT Marketing Esportivo, recebeu R$ 2,5 milhões da Marcondes & Mautoni, empresa investigada por fazer lobby pela suposta compra de uma medida provisória no governo Lula.

O ex-presidente evita o assunto até com auxiliares mais próximos e poucos ousam questioná-lo sobre o tema. No PT, prevalece a versão de que Lula não sabia do contrato e entregou o filho à própria sorte.

Recentemente, um aliado próximo de Lula esteve com Mauro Marcondes, dono da Marcondes & Mautoni, para levantar informações. O empresário garantiu que jamais conversou com o ex-presidente sobre a contratação da empresa de Luís Cláudio.

Mesmo assim, a legião de políticos que gravita em torno de Lula se sente “no escuro” e imobilizada enquanto vê o cerco se fechar em torno do principal símbolo do PT.

Pesquisas internas do partido deixam clara a erosão provocada pelas denúncias na imagem de Lula. Mas também mostram que frases infelizes do ex-presidente como “não tem uma viva alma mais honesta do que eu” e, principalmente, o mau desempenho do governo Dilma Rousseff têm efeito igual ou pior do que as denúncias.

Apesar da avalanche de acusações, o entorno de Lula mantém a confiança de que, ao cabo das investigações, o petista sairá limpo. Com isso, parte da erosão seria estancada.

O mesmo otimismo não se repete quanto ao governo. Lula e boa parte do PT admitem em conversas reservadas que Dilma não “aprendeu a governar” e ainda age como ministra.

Por isso a fixação do ex-presidente com a reunião do Conselhão de quinta-feira. Para Lula, seria a chance de Dilma para dar uma guinada na política econômica e aproveitar o arrefecimento do pedido de impeachment para tirar o governo do atoleiro e chegar a 2018 em condições de permitir a Lula possibilidades de voltar ao Palácio do Planalto. Em conversa recente, o petista teria dito a Dilma que ela “precisa ser a presidente, e não a ministra”. *

(*) RICARDO GALHARDO – O ESTADO DE S. PAULO

DEPOIS DE MUITAS ESPERTEZAS, A CASA CAIU

A estrela desce

000000000000000000000000000000000000000000000000000000000o probo, o impoluto, o imaculado...

A estrela do PT mandada desenhar nos jardins do Palácio da Alvorada, em 2004, e depois transportada para a Granja do Torto – duas residências da Presidência da República – já indicava a tendência do casal Luiz Inácio e Marisa Letícia da Silva de tomar por privado o patrimônio público.

As investigações do Ministério Público de São Paulo que servirão como subsídios à Operação Lava Jato relevam mais que isso: um possível favorecimento ilícito por parte de duas empreiteiras, OAS e Odebrecht, na aquisição e reforma de um apartamento no Guarujá e na execução de melhorias de um sítio em Atibaia, respectivamente litoral e interior de São Paulo.

Qualquer semelhança com a reforma dos jardins da Casa da Dinda – residência particular do então presidente e hoje senador igualmente investigado, Fernando Collor – com dinheiro obtido a partir de arrecadação de propinas pelo chamado esquema PC Farias, não é mera coincidência.

Ambos os fatos desenham um elo entre os dois ex-presidentes: a falta de cerimônia no uso do poder para o financiamento do gosto por hábitos de luxo. Prática cultivada desde sempre por Collor, oriundo de família rica de Alagoas, e adquirida ao longo da trajetória política de Lula, filho da pobreza reinante no agreste pernambucano.

A jardinagem e a compra de um Fiat Elba, pagos pelo tesoureiro da campanha e eminência parda do governo, Paulo César Farias, derrubaram Fernando Collor de Mello, castigo (como se vê agora) insuficiente para o aprendizado da lição. De rivais, transformaram-se em compadres da irresponsabilidade e da transgressão.

A compra e reforma do triplex no condomínio Solaris, se não muito bem explicadas ao Ministério Público têm potencial para desalojar Lula do panteão dos invencíveis onde foi posto pelo eleitorado, e ainda fazê-lo perder a vaga no altar das santidades em que ele mesmo se colocou ao se declarar “a alma viva mais honesta do País”.

Com a convocação do MP paulista para depoimento em meados de fevereiro junto com a mulher Marisa e o empreiteiro Léo Pinheiro, Lula transita da condição de testemunha e/ou informante para a posição de investigado. Em miúdos: antes o que se pedia ao ex-presidente eram informações a respeito de fatos que poderiam ou não ser do conhecimento dele; agora, o que o MP apura é a participação do ex-presidente no suposto uso da comercialização dos apartamentos em esquema de lavagem de dinheiro.

A consequência é que se não convencer os procuradores, provavelmente sairá do depoimento denunciado e, com isso, irremediável e gravemente ferido do ponto de vista político. Não será fácil a tarefa de demonstrar sua inocência. Primeiro, porque já foram apresentadas diversas e contraditórias versões a respeito da propriedade.

Em 2006, ele declarou o imóvel no Imposto de Renda; em 2010, confirmou a propriedade imaginando se defender de uma infração tributária; em 2014, confirmou a versão para duas semanas depois adaptá-la, dizendo que Marisa Letícia tinha uma cota do empreendimento, mas que não havia feito opção de compra da unidade. Seis meses depois, sua assessoria passaria a negar a existência de posse.

Em segundo lugar, o ex-presidente terá de desmontar de maneira definitiva os depoimentos de testemunhas que confirmam a presença dele e de Marisa, esta com maior frequência, no condomínio para acompanhar as obras de reforma e decoração do imóvel. Se o apartamento não pertencia a eles, o que faziam lá?

A princípio, cuidavam do patrimônio do casal. A menos que zelador e moradores, cujas versões confirmam as presenças, sejam insidiosos conspiradores cooptados pela nossa diligente e sempre alerta oposição. *

(*)  Dora Kramer – Estadão

OS MAIS HONESTOS DO MUNDO

LULA E DIRCEU VIVEM SOB O REGIME DE AMIGOCRACIA

 00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000-3-roque-lula-zc3a9-dirceu-e-vaccari-representando-o-probo-partido

O Ministério Público e a Polícia Federal ficam aí falando mal de Lula e Dirceu, mas na verdade eles só merecem admiração. Numa espécie de autodelação, os dois confessaram ter cometido o crime da amizade. Tornaram-se amigos seriais. Está certo, dá dinheiro. Dá muito dinheiro. Dá dinheiro demais. E essa é uma das misérias desse tipo de delito. Porque o brasileiro é invejoso. Não suporta a prosperidade alheia. Sobretudo quando ela é exorbitante.

Em depoimento ao juiz Moro, Dirceu admitiu que a reforma de sua residência, estimada em R$ 1,8 milhão, foi mesmo bancada pelo lobista Milton Pascowitch, um dos delatores do escândalo da Petrobras. Pascowitch foi tão generoso em troca de quê? “Da relação de amizade que ele tinha com Dirceu”, disse Roberto Podval, advogado de Dirceu, ecoando declarações feitas por seu cliente ao juiz.

O doutor Podval acrescentou um palpite pessoal: “Se você perguntar para mim em troca de quê [Pascowitch pagou a milionária reforma], eu vou te falar: em troca de vender a amizade de Zé Dirceu.” Nessa versão, Dirceu é vítima. Sofreu uma exploração indevida da amizade que nutria pelo lobista. Pobre homem rico!

Dirceu também admitiu ao juiz ter utilizado o jatinho de outro amigo-lobista, Julio Camargo. Fez isso uma, duas, três, quatro, cinco… 113 vezes. Coisa normal, disse o advogado, “prática de uma vida inteira”. Como assim? “Ele voou, os aviões foram cedidos.” Heimmm?!? O doutor recitou as palavras do seu cliente: Ele “disse que na ‘minha vida inteira os aviões sempre foram cedidos, por ele [Julio Camargo], por outros’.”

A Procuradoria e a PF estimam que, no total, Dirceu recebeu R$ 11,9 milhões dos seus amigos da Lava Jato. Imagine-se a quantidade de vezes que seu imaculado nome foi indevidamente explorado para cavar negócios na Petrobras!

Simultaneamente, a assessoria de Lula divulgou nota oficial para confirmar que, noves fora o triplex do Guarujá, de cuja titularidade abdicou, o ex-presidente dispõe de um aprazível sítio para as horas de descanso, em Atibaia. A propriedade é de “amigos da família.” Foi reformada pela companheira Odebrecht. Mas sobre isso a nota silencia.

Os amigos proprietários do sítio se chamam Jonas Suassuna e Fernando Bittar. Ambos são sócios do primeiro-filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha. Um indício de que o crime da amizade é hereditário. Quem sai aos seus não endireita.

Diz a nota: “Embora pertença à esfera pessoal e privada, este é um fato tornado público pela imprensa já há bastante tempo. A tentativa de associá-lo a supostos atos ilícitos tem o objetivo mal disfarçado de macular a imagem do ex-presidente.” Quer dizer: a exemplo de Dirceu, Lula é vítima de suas amizades.

A imprensa deveria se ocupar de outra denúncia: brasileiros endinheirados estão adotando como amigos, clandestinamente, personalidades do PT e adjacências, recobrindo-as de mimos. Dão preferência aos cardeais petistas, que passam a viver numa espécie de Pasárgada particular, sob o regime da amigocracia. A discriminação é evidente: por que excluir o resto dos brasileiros? O preconceito é intolerável.

Dilma deveria pensar no lançamento de um programa novo: ‘Meu amigo, Minha Vida’. Afinal, todos têm direito a desfrutar de um jatinho no hangar, um triplex na praia e um sítio a 50 quilômetros da metrópole. Ou locupletam-se todos ou o povo vai acabar cansando de se fingir de bobo pelo bem do Brasil petista.*

(*)  Blog do Josias de Souza