DESVENDANDO UM MISTÉRIO

Marcos Valério deve ser denunciado em nova fase da Lava-Jato

Empresa do publicitário, preso pelo Mensalão, teria intermediado empréstimo

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CURITIBA – Condenado a 37 anos de prisão no escândalo do mensalão, o publicitário Marcos Valério deve ser denunciado por lavagem de dinheiro na mais nova fase da Lava-Jato. Um depoimento prestado pelo publicitário à Procuradoria Geral da República (PGR) em 2012, numa tentativa de fazer delação premiada, foi utilizado pelos procuradores para embasar a operação desta sexta-feira. Segundo procuradores, porém, Valério não tem credibilidade total.

Investigadores da Lava-Jato dizem que o publicitário mentiu na tentativa de acordo com a PGR, já que não contou que teria utilizado sua empresa, a 2S Participações, para intermediar empréstimo de R$ 6 milhões ao empresário Ronan Maria Pinto, preso preventivamente nesta sexta-feira. E é justamente essa movimentação financeira que, se comprovada, poderá levar o MPF a denunciar o publicitário. As contas bancárias da 2S também foram utilizadas para operacionalizar pagamentos durante o escândalo do mensalão.

No seu depoimento, Valério contou à PGR que o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira, também preso preventivamente nesta sexta-feira, o havia procurado em 2004 pedindo ajuda porque o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros José Dirceu e Gilberto Carvalho estavam sendo chantageados por Ronan. Ainda segundo o publicitário, o empresário do ABC teria pedido R$ 6 milhões em uma reunião com Pereira e Valério para comprar um jornal e que o valor havia sido obtido por Bumlai junto ao Banco Schahim.

Valério não foi ouvido pela força-tarefa da Lava-Jato, segundo o MPF. Caso os procuradores queiram usar os fatos narrados por ele para denunciar alguém, terão que marcar um novo depoimento. Na avaliação de Diogo Castor e Paulo Galvão, outros depoimentos já confirmam as informações prestadas por Marcos Valério.

– Não sabemos ainda se iremos ouvi-lo de novo. O depoimento do Marcos Valério é público e ele nos ajuda a ter uma ideia das circunstâncias em que o empréstimo foi feito. Mas para uma eventual denúncia, não precisamos saber necessariamente qual foi a circunstância, desde que consigamos comprovar que a operação foi ilegal – disse o procurador Galvão.

Já Castor diz que os depoimentos do pecuarista José Carlos Bumlai, do ex-presidente do Banco Schain, Sandro Tordin, e do sócio do banco, Salim Schain, confirmam que parte do empréstimo de R$ 12 milhões contraído por Bumlai no banco foi utilizado para pagar Ronan em nome de uma dívida do PT.*

(*) TIAGO DANTAS, ENVIADO ESPECIAL – O GLOBO

O BICHO ESTÁ PEGANDO

Repasse a empresário pode ter relação com morte de Celso Daniel, diz Moro

Para juiz, chama atenção malabarismo para viabilizar dinheiro a empresário do ABC

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SÃO PAULO, CURITIBA — O juiz Sérgio Moro afirmou, no despacho em que decretou a prisão temporária de Ronan Maria Pinto, dono do jornal Diário do Grande ABC, que o esquema criminoso que levou o empresário a receber cerca de R$ 6 milhões, a mando do PT, pode ter alguma relação com o homicídio do prefeito de Santo André Celso Daniel, ocorrido em 2002. Segundo o juiz, o caminho do dinheiro mostrou que Ronan ficou com metade do empréstimo retirado do Banco Schahin pelo pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, quitado fraudulentamente com propina de contrato da Petrobras.

“Chama a atenção o malabarismo financeiro para viabilizar a transação, tendo o valor transferido do Banco Schahin para Ronan Maria Pinto passado por três intermediários (José Carlos Bumlai, Bertin Ltda e Remar Agenciamento)”, afirmou Moro no despacho.

O juiz lembra que a operação financeira foi feita com a intermediação da S2 Participações, empresa de Marcos Valério, já condenado como operador do mensalão. Segundo ele, além de confirmar o fato, o publicitário afirmou que o motivo do empréstimo seria que integrantes do PT estavam sendo vítimas de “extorsão” da parte de Ronan. “Citou expressamente como envolvidos Sílvio José Pereira, José Dirceu de Oliveira e Silva, Gilberto Carvalho, Luiz Inácio Lula da Silva e Breno Altmann” diz.

Moro afirma ainda que Bruno Daniel, irmão de Celso Daniel, afirmou ter ouvido de Gilberto Carvalho e Miriam Blechior que existia um esquema criminoso em Santo André, que envolvia repasses de valores de extorsão ao PT e que o destinatário dos valores seria José Dirceu. Na época, Bruno Daniel afirmou que não tinha conhecimento de Ronan no episódio nem da prática de extorsão do empresário contra o PT.

“É possível que este esquema criminoso tenha alguma relação com o homicídio, em janeiro de 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel”, escreveu Moro.

O empréstimo retirado em nome de José Carlos Bumlai no Banco Schahin, que teria sido feito a pedido do PT, foi de R$ 12 milhões. Metade do valor foi destinado a Ronan. O valor foi repassado a Bumlai, que repassou ao frigorífico Bertin. A empresa, por sua vez, repassou à Remar Agenciamento em oito parcelas pagas entre outubro e novembro de 2004, no total de R$ 6,028 milhões. A Remar se encarregou de fazer os repasses a Ronan, inclusive pagando fornecedores da Expresso Santo André, empresa de ônibus do empresário.

Ronan teria chantageado petistas, diz MPF

O assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002, voltou à tona com a nova fase da Operação Lava-Jato, deflagrada nesta sexta-feira. Embora a morte do prefeito não esteja dentro do objeto da investigação, segundo o Ministério Público Federal (MPF), os procuradores podem esbarrar no assunto ao apurar o motivo do empréstimo de R$ 6 milhões ao empresário Ronan Maria Pinto dois anos após o incidente.

Investigadores que trabalham no caso dizem que o Ronan deve ser investigado pelo crime de extorsão, já que, segundo o depoimento de Marcos Valério, ele teria chantageado políticos petistas. Para esses investigadores há duas hipóteses mais fortes para Ronan pedir um “cala-boca”: ele denunciaria fatos sobre a morte de Celso Daniel ou falaria sobre um esquema de corrupção montado na prefeitura – e pelo qual, inclusive, ele foi condenado ano passado.

Oficialmente, porém, o discurso é que nenhuma hipótese está descartada.

– Nossa investigação é centrada no crime federal de lavagem de dinheiro. Temos algumas hipóteses, mas ainda queremos descobrir por que o empresário Ronan pediu os R$ 6 milhões – disse o procurador Diogo Castor, que acrescentou: – Se surgirem evidências que liguem o caso à morte de Celso Daniel, haverá compartilhamento de provas

Em janeiro, os promotores do Ministério Público Estadual de São Paulo que investigam a morte do prefeito de Santo André manifestaram interesse em pedir o compartilhamento de provas com a Lava-Jato. Eles estavam interessados justamente no depoimento de Bumlai que cita o empréstimo a Ronan.

Os procuradores da Lava-Jato terão que trabalhar rápido para que os crimes investigados na 27ª fase da Lava-Jato não prescrevam. Como os crimes de lavagem teriam ocorrido em outubro de 2004, eles prescrevem se uma denúncia não for oferecida até outubro deste ano.*

(*) CLEIDE CARVALHO / TIAGO DANTAS

SALVE-SE QUEM PUDER

 Num mato sem cachorro

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Se Dilma já deu o Ministério da Saúde para o deputado Marcelo Castro enfrentar zika, chikungunya, dengue e H1N1 quando o PMDB ainda era oficialmente governo, o que ela não dá agora para tentar amarrar o PP, o PR, o PSD e outros ao pé claudicante de seu governo? É um festival de ministérios, estatais e cargos de segundo e terceiro escalão, não mais pelo natimorto ajuste fiscal, mas para tentar evitar o impeachment.

Imagine-se como Dilma delegou para Leonardo Picciani um dos cargos mais sensíveis da República. “Querido, quem você tem aí para a Saúde?”. Ele, rastreando a bancada do PMDB: “Olha, presidenta, tem lá um tal de Mauro de Castro, ou Marcelo, não sei direito. Parece que tem diploma de médico”. E ela: “Feito!”.

O Aedes aegypti adorou, mas nem por isso Dilma garantiu o apoio do PMDB do Rio, que votou alegremente pelo rompimento com o governo. E quem anunciou a traição foi o pai do Piccianinho, Jorge Picciani. Agora, o constrangimento: Marcelo de Castro não serviu nem para matar mosquito nem para assegurar o PMDB do Rio, mas se agarra ao cargo como jabuticaba no pé, até que surja alguém de mais serventia.

Parece ficção, mas tem muito de realidade e vai se repetir dezenas de vezes no Planalto, transformado ora em feira, ora em bunker, ou num hotel não muito longe dali, onde funciona o feirão de cargos do ex-presidente Lula. O fato é que o PP, o PR e os partidos menores, mas tão gulosos, estão em alta em Brasília. Aliás, o voto é que está em viés em alta.

Quanto mais o dólar cai, sob a perspectiva de impeachment, mais o preço dos deputados e senadores do “centrão” e do “centrinho” dispara. É a lei do mercado: a oferta de votos contra o afastamento de Dilma está menor do que a demanda do Planalto. Logo, o negócio está o olho da cara. Ou é falta de vergonha na cara?

O risco é Dilma conseguir barrar o impeachment, mas arrastar um governo de xepa, com centenas de oportunistas, um ministro qualquer na Saúde para evitar mortes por dengue e microcefalia por zika, outro no Esporte passando ao largo da Olimpíada, um terceiro no Turismo quando milhões de estrangeiros desembarcarem para o maior evento esportivo da face da Terra. E com um bilhão de telespectadores no mundo mirando os jogos e o Brasil.

A prioridade de Dilma não é governar, é manter o governo a qualquer custo. O foco não é restaurar a economia aos cacos, corrigir as contas públicas, combater as doenças, cuidar de saúde, educação, turismo… Toda a energia está voltada para um único fim: salvar o mandato, com o bordão do “golpe”.

Apesar de todas essas evidências, claras como um dia de verão, há ainda muitas nuvens pairando sobre a sociedade brasileira e o Congresso, responsável constitucional para decidir se Dilma sai e Michel Temer entra, ou se tudo fica como está. O PMDB não ajuda muito a dirimir as dúvidas. Não bastasse um Eduardo Cunha réu no Supremo e um Renan Calheiros enfrentando sete inquéritos, há o fantasma da divisão interna que assombra o maior partido do país desde sempre.

Após o rompimento por aclamação (o voto a voto iria materializar a dissidência), veio o vexame e a humilhação, com Renan respaldando e os ministros do partido implorando para manter suas boquinhas. Kátia Abreu à parte – está na Agricultura menos pelo PMDB e mais por Dilma e pela representatividade no setor –, os outros cinco tremem até Dilma decidir: uni duni tê, quem fica é… você!

Se Dilma está nas mãos dos mais fisiológicos entre os fisiológicos, Temer foi solapado por Renan, o que só aumenta a dramaticidade da novela: se não une nem mesmo o PMDB, como o vice pode acenar com um “pacto nacional” em torno da transição e do enfrentamento da crise? A cachorrada se dá bem, mas o País está num mato sem cachorro.*

(*) Eliane Cantanhede – Estadão

0 BRASIL ESTÁ QUEBRADO

Produção industrial cai 11,8% nos primeiros dois meses do ano, diz IBGE

Em fevereiro, a produção caiu 2,5% ante janeiro, o pior resultado para o mês de toda a série histórica, iniciada em 2002

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RIO – A produção industrial acumula queda de 11,8% no primeiro bimestre deste ano, divulgou nesta sexta-feira, 1, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 12 meses, o recuo é de 9,0%.

Na comparação de fevereiro ante janeiro, a produção caiu 2,5%, na série com ajuste sazonal, o pior resultado mensal para o indicador desde dezembro de 2013, quando caiu 2,8%. O resultado também foi o pior registrado para um mês de fevereiro de toda a série histórica, iniciada em 2002, e foi decorrente de resultados negativos em 13 das 24 atividades pesquisadas.

O resultado veio dentro das expectativas dos analistas ouvidos pelo AE Projeções, serviço da Agência Estado, que esperavam recuo entre 0,12% e 3,20%, com mediana negativa de 2,42%.

Em relação a fevereiro de 2015, a produção caiu 9,8%. Nesta comparação, sem ajuste, as estimativas variavam de retração de 7,80% a 11,90%, com mediana negativa de 10,50%.

O índice de Média Móvel Trimestral da indústria recuou 1,0% em fevereiro ante janeiro, marcando a 16ª taxa negativa consecutiva para a média móvel trimestral da indústria. No mês anterior, a média móvel também tinha sido de -1,0%, segundo os dados da Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF).

“É como se fosse uma trajetória descendente desde outubro de 2014”, notou André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE.

Setores. Em fevereiro, a principal influência negativa foi registrada pelo ramo de veículos automotores, reboques e carrocerias. O recuo de 9,7% na produção em fevereiro ante janeiro eliminou o avanço de 7,2% acumulado de novembro de 2015 a janeiro de 2016.

“O principal impacto negativo é de veículos automotores, que vinha de três meses de resultados positivos em sequência. Só com a entrada do mês de fevereiro, esse saldo positivo na margem acabou sendo eliminado”, ressaltou Macedo.

Outras reduções importantes foram registradas por máquinas e equipamentos (-6,7%), produtos alimentícios (-1,7%), equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-8,2%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-3,5%), metalurgia (-1,5%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-2,6%), produtos de borracha e de material plástico (-1,6%) e outros equipamentos de transporte (-3,3%).

Na direção oposta, tiveram desempenho positivo relevante os setores de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (1,4%), perfumaria, sabões, produtos de limpeza e de higiene pessoal (1,3%) e indústrias extrativas (0,6%).

“Mesmo esses setores que mostraram impacto positivo, o crescimento é suplantado por quedas anteriores. O que quero chamar a atenção é que ou o crescimento é sobre uma base baixa de comparação ou não suplanta as quedas anteriores”, explicou Macedo. A produção da indústria de bens de capital, por exemplo, subiu 0,3% em fevereiro ante janeiro, mas na comparação com fevereiro de 2015, o indicador mostra um tombo de 25,8%. No acumulado de 2016, houve queda de 30,8% na produção de bens de capital. Em 12 meses, o resultado é de recuo de 27,1%.

Revisões. O IBGE também revisou o dado da produção industrial do mês de dezembro ante novembro de 2015 de -0,5% para -0,8%. A produção de bens de capital também foi revisada, mas em janeiro ante dezembro, de 1,3% para 2,1%. A produção de bens intermediários no período saiu de 0,8% para 0,9%.

A produção de bens de consumo duráveis foi revista de -2,4% para -3,3% em janeiro ante dezembro. A produção de bens de consumo semi e não duráveis saiu de 0,3% para 0,4% no mesmo período analisado.*

(*) DANIELA AMORIM – O ESTADO DE S.PAULO