POBRE RIO DE JANEIRO

Cabral está na cadeia e Garotinho no hospital, mas Crivella vai entrar em ação

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“Deveria ser murada como Jerusalém”.

(Marcelo Crivella, prefeito eleito do Rio, ao revelar a ideia que teve para evitar a entrada de armas e drogas na cidade que governará a partir de janeiro de 2017, reafirmando que, no Brasil, o que está péssimo sempre pode piorar)*

 
(*) Blog do Augusto Nunes

MAIS DOS MESMOS

O déficit de verdade de Temer

Ele disse que encarar a verdade é difícil, delicado, complicado e desagradável, e o pior é que tem razão

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Michel Temer foi à reunião do Conselhão e disse que o governo de Dilma Rousseff vivia com um “déficit de verdade”, com “tentativas de disfarçar a realidade”. Estava num cenáculo onde 96 notáveis enfeitavam um evento inútil. Pela sua composição e pelas normas do seu funcionamento, esse conselho seria mais produtivo se fosse incorporado à escola de samba Mangueira, desfilando logo depois das baianas (70 figurantes). Elevaria a taxa de celebridades do desfile e daria mais notoriedade aos passistas. Estava vazia a cadeira do ministro Geddel Vieira Lima.

Temer fez um discurso pedestre informando que “a comunicação é fundamental”. No melhor estilo do cerimonial de Brasília, citou nominalmente 26 ilustres autoridades nacionais presentes. Uma delas, o ministro Henrique Meirelles, estava ao seu lado, amenizando um desconforto cervical com exercícios fisioterápicos.

Seria mais uma cerimônia típica de Brasília se Temer não tivesse jogado um pote de pimenta na própria laranjada, mencionando o “déficit de verdade” do governo da doutora Dilma Rousseff, em cuja chapa se elegeu duas vezes. Bater em Dilma é amassar carta que já saiu do baralho, mas quando o presidente diz que “encarar a verdade é difícil, é delicado, é complicado, é desagradável”, deveria olhar para seu governo e para a ausência do ministro de sua Secretaria de Governo.

Na verdade de Geddel está a afortunada transação de um apartamento no 23º andar de um empreendimento panorâmico que só tem autorização para subir até o 13º piso. Se ele e Temer acham que já se explicaram, o ministro poderia elaborar a resposta que deu para explicar seu apego aos R$ 20.354 que recebe como parlamentar aposentado, desde o seu 51º aniversário.

Somados aos R$ 33.763 que fatura como ministro, estoura o teto constitucional. Ele acha que nada há de ilegal nisso. Contudo, o procurador aposentado Michel Temer e o ministro Eliseu Padilha reduziram seus contracheques para respeitar o teto. Como diz Temer, encarar a verdade é difícil. Ou ele e Padilha jogaram dinheiro pela janela, ou a verdade de Geddel é outra.

Dilma Rousseff sempre teve uma relação agreste com a verdade. Hoje, quem tem esse déficit é ele. Seu ex-ministro do Planejamento e atual líder no Senado foi grampeado por um correligionário articulando uma forma de estancar “a sangria” da Lava-Jato. O ministro do Turismo foi-se embora depois de ter sido apanhado pela Procuradoria-Geral da República.

Desde que o doutor entrou no Planalto, só um funcionário do governo foi demitido por má conduta expressa. Foi o garçom Catalão. Acusaram-no de tuitar informações sigilosas para Lula. Afirmação falsa porque o celular de Catalão não tinha aplicativo para tuitar.

É possível que Temer acredite nos milagres da comunicação. Afinal ela é “fundamental”. Essa fé leva governantes a acreditarem que versões inverossímeis, eventos coreografados como o encontro do Conselhão, com a ausência estratégica de Geddel, possam fabricar uma realidade própria. Às vezes isso funciona. Sérgio Cabral foi um governador indiscutivelmente festejado. Foi até reeleito com dois terços dos votos. Deu no que deu.*

(*) Elio Gaspari – O Globo

É INACREDITÁVEL…

De Geddel e vaso-ostentação

Manutenção do ministro no cargo funciona como um aviso para os que ficam: quando ele ‘ponderar’, é melhor concordar

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Houve tempo em que se chamava de “mal de coluna” o tormento do espaço em branco que os colunistas têm de preencher regularmente. Hoje é o contrário. Neste quase final de ano, houve hiperinflação de temas e personagens, o que dificulta a escolha. Só no quesito escândalo, como decidir entre Cabral, Garotinho, Geddel, Renan, entre outros?

Pra começar, fico com o poderoso secretário de Governo e velho amigo de Temer, por ter causado a renúncia e a denúncia do colega da Cultura. Antes, ele já afrontara os bons costumes e o teto constitucional ao dizer que não abriria mão de um centavo nos R$ 51.288,25 que recebe por mês graças ao acúmulo de salário e aposentadoria. Depois, sempre zeloso de seus interesses, Geddel Vieira resolveu agir contra a decisão do Iphan de embargar a construção do prédio em que comprara um apartamento. Ele fez então o que chamou de “ponderação” e que Marcelo Calero classificou de “pressão” — tanta que preferiu deixar o ministério.

O presidente manteve Geddel no cargo, mesmo depois que a Comissão de Ética da Presidência abriu processo contra ele, o que funciona como um aviso para os que ficam: quando Geddel “ponderar”, é melhor concordar.

Como não há espaço para comentar as outras más notícias, escolhi a que não é a mais importante, mas a mais pitoresca, revelada pela coluna de Lauro Jardim: o vaso sanitário eletrônico ou privada-ostentação da ex-primeira dama do Estado do Rio Adriana Ancelmo.

O leitor (ou leitora) não sei, mas eu nunca experimentei uma igual, e olha que já frequentei alguns dos vasos sanitários mais chiques daqui e de outros países — e os piores também. Já tive que me submeter ao “boi”, o incômodo e anti-higiênico buraco no chão que Sérgio Cabral está sendo obrigado a usar agora, coitado.

Embora sem testar o produto, o repórter Marco Grillo leu, perguntou muito a respeito e nos deu detalhes numa espécie de manual de uso para possíveis interessados. A privada tem assento com temperatura regulada para os dias de frio, tem jato de água com pressão variável para a higiene e para a massagem (!), e controle remoto para acionar o mecanismo. E tudo pela bagatela de 500 dólares ou menos de R$ 2 mil, à venda nas boas casas do ramo ou pela internet.

Como gosto de ver o lado bom das coisas, fiquei me perguntando se atrás desse supérfluo sonho de consumo não haveria uma bem intencionada ação de preservação ambiental.

Quem sabe a compra dessa parafernália eletrônica não terá sido para dispensar papel higiênico que, como se sabe, ajuda a devastar nossas florestas?*

(*)  Zuenir Ventura – O Globo

BANDIDOS UNIDOS JAMAIS SERÃO PUNIDOS

De ladeiras e pudins

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Lá vem o Geddel, descendo a ladeira – do “La Vue”. Cabe a Michel Temer decidir se acompanhará seu ministro ladeira abaixo ou se vai dar um empurrão para a descida ser mais rápida. Não é fácil, porém, para o presidente abandonar quem gerencia a articulação política (quando não está empenhado em aprovar projetos imobiliários no Iphan). O dilema de Temer deve-se menos ao futuro do que ao passado. Sua ligação com Vieira Lima sobrevive há duas décadas, passou por quatro presidentes da República.

Na era FHC, em meados dos anos 90 do século passado, ambos faziam parte da Turma do Pudim. Reunidos semanalmente em torno de um prato de comida, Temer, Geddel, Renan Calheiros, Eliseu Padilha e Jader Barbalho decidiam o que o PMDB queria do governo tucano. Quem transmitia os recados era Henrique Eduardo Alves.

Muito mudou na aparência da política brasileira desde então, mas a Turma do Pudim continua onde sempre esteve: mandando e demandando. Eles mudam de cargo, circulam do Legislativo para o Executivo, mas raramente largam o poder. No governo FHC, a disposição das cadeiras era outra, mas quem as ocupava não.

Como Renan hoje, Temer, à época, presidia uma das Casas do Congresso (a Câmara). O hoje presidente do Senado é quem estava no Executivo, comandando o Ministério da Justiça. Padilha era ministro então e é ministro agora, só mudou de prédio: do Ministério dos Transportes para o Palácio do Planalto. Geddel, que era líder do PMDB, agora é ministro. Barbalho era e é senador (além de ser pai do ex-ministro dos Portos de Dilma). Alves era deputado, foi um breve ministro e caiu.

Eles dividem o pudim desde 1995. Prestam favores ao governo -qualquer governo – e depois cobram a fatura na forma de cargos. Foi assim que Temer emplacou o presidente das Docas de Santos (Codesp), Marcelo Azeredo, no governo FHC, e que Geddel viu seu pai, Afrísio, assumir posição semelhante nas Docas da Bahia.

Na primeira configuração da turma, Temer era líder do PMDB na Câmara, e Geddel, seu vice. No mandato seguinte, Geddel coordenou a campanha de Temer a presidente da Câmara, que contou com o apoio informal de FHC. Não foi à toa. Meses depois naquele 1997, ambos ajudaram a viabilizar a aprovação da emenda constitucional que garantiu o direito à reeleição a FHC (o autor da emenda foi o hoje ministro da Educação, Mendonça Filho).

Não é, portanto, trivial a decisão que Temer tem à sua frente. Ele e Geddel dividiram mais do que sobremesas. Foram do couvert ao digestivo, passando por incontáveis pratos principais.

Maior sinal da dificuldade do presidente é sua demora para agir. Nada fez mesmo depois de informado pelo então ministro da Cultura, Marcelo Calero, sobre as pressões de Geddel para que o Iphan (a ele subordinado) desembargasse as obras do Condomínio La Vue, um espigão de 30 andares na ladeira do Porto da Barra, em Salvador, onde Geddel comprara apartamento “em andar alto”.

Mesmo depois de o embrulho vir a público e de a versão preferida pelo Planalto (de que Calero havia caído por causa do projeto que regula a vaquejada) não ter emplacado, Temer não tomou nenhuma atitude em relação a seu ministro palaciano. Se, como diz Calero, Geddel de fato assediou o colega para agir em favor de seus interesses particulares, não há o que pensar. Se não é verdade, caberia então agir judicialmente contra Calero.

A inação não é uma opção por muito mais tempo. Mas a atitude que Temer vier a tomar não terá repercussões apenas sobre Geddel. Ela servirá de precedente para toda a Turma do Pudim.

Se o presidente entregar a cabeça do parceiro de confraria, os outros confrades saberão que, amanhã, dependendo das circunstâncias, pode ser a deles. Assim como o Iphan melou o pudim de Geddel, Renan, com seus 12 inquéritos no STF, tem o poder de embargar os principais projetos de Temer no Senado.*

(*)  José Roberto Toledo – Estadão

GEDDEL, “O INCORRUPTÍVEL”

E só Temer não viu

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Mesmo no fim de semana, os assessores mais próximos do presidente garantiam que Geddel não fez nada demais. A semana que começou com Michel Temer passando a mão na cabeça de Romero Jucá e demonstrando, de um lado, condescendência com acusações de corrupção contra aliados e, de outro, paúra da capacidade de mobilização de Lula e do PT, só poderia terminar com um episódio como o que contrapôs o ministro Geddel Vieira Lima e o agora ex Marcelo Calero.

Parafraseando Chico Buarque, o tempo passou na janela, e só Temer e seus principais aliados no Planalto e no Congresso não viram. No Brasil pós-Lava Jato, vai-se mostrando impossível conviver com tráfico de influência explícito como o praticado por Geddel, tentativas de moldar as leis às conveniências dos investigados, como as praticadas na Câmara e no Senado, e manobras para o tapetão, como a tentada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para buscar uma reeleição que não lhe é facultada.

O desassombro com que Calero deu uma entrevista para contar em detalhes algo que pré-Lava Jato ficaria restrito aos bastidores, mostra que grampos, delações e prisões de poderosos tiveram, sim, um efeito educativo sobre a política brasileira, e que há quem se importe em preservar honra e currículo de máculas que outros das antigas gerações tratam com desdém.

Temer parece alheio ao trem da história: mesmo no fim de semana, os assessores mais próximos do presidente garantiam que Geddel não fez nada demais, e fica onde está. Mais: o fato de a pressão não ter surtido resultado seria ponto a favor do governo. Vida que segue. A conferir.*

(*)  Vera Magalhães – Estadão

E NO PAÍS DA PIADA PRONTA

Páreo duro

Lula aproveita a agenda sem compromissos para medir o tempo que ocupa no telejornal

Só para você ter ideia, de março a agosto o principal canal de televisão aqui do Brasil, no seu principal jornal, teve 14 horas de matéria negativa contra mim. Em cinco meses”.*

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(*) Lula, em entrevista ao cineasta Oliver Stone, sem revelar se a quantidade de horas que apareceu no Jornal Nacional já supera o tempo que consumiu costurando negociatas encomendadas por empreiteiros amigos)

(*) Blog do Augusto Nunes

LEGADO DA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL

Como governo Cabral inflou reforma do Maracanã em 165%

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O ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral foi preso nesta quinta-feira acusado de levar propinas de empreiteiras em projetos do Estado, entre eles as reformas do Maracanã. Durante suas duas gestões, o político influiu decisivamente para aumentar os custos das obras do estádio. Após ida e vindas, a arena custou pelo menos 165% a mais do que o prometido na remodelagem para a Copa-2014, beneficiando as construtoras.

Primeiro, quando Cabral assumiu, o Maracanã já estava em obras para o Pan-2007. Essa reforma foi iniciada na gestão da sua antecessora Rosinha Garotinho. Acabou no governo Cabral com um custo final de R$ 272,3 milhões para todo o complexo, segundo o TCE (Tribunal de Contas do Estado). A denúncia do Ministério Público Federal diz que o ex-governador já recebeu mesada da Andrade Gutierrez por essa obra.

Findo o Pan, o Brasil era candidato único a sediar a Copa-2014 no mesmo ano, em 2007. A Fifa anunciou o país como vencedor e Cabral divulgou sua intenção de realizar uma PPP (Parceria Público-Privada) para economizar nas obras e fazer uma concessão do estádio. Em outubro de 2009, ele desistiu e anunciou que faria as obras com recursos do Estado.

O projeto inicial previa uma reforma com custo de R$ 430 milhões. Para isso, não seria necessário realizar a reforma radical que se levou a cabo: as arquibancadas superiores não seriam demolidas, nem a cobertura. Haveria adaptações em todas as instalações, mas sem mexer nas infraestruturas.

Mas a Fifa começou a pressionar e dizer que não era o suficiente durante os anos de 2009 e 2010. Queria o estádio para a final e portanto exigia sua total modernização. Entre abril e maio de 2010, houve uma total modificação no projeto para a arena.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, feita pelo dono deste blog ao final de 2010, o então responsável do Estado pela obra, Icaro Moreno Junior, informou que tudo foi imposto pela Fifa, modelo arquitetônico, derrubada de partes das arquibancadas superiores, inclinação dos assentos por conta de placas publicitárias, uma nova cobertura de teflon.

O então governador Sergio Cabral deu a ordem para ”atender a todas as exigências da Fifa”, gastando o mínimo possível. Mas, na verdade, não havia restrição orçamentária.

Resultado: o preço subiu para R$ 705,6 milhões na licitação vencida pelo consórcio composto pela Odebrecht, Delta e Andrade Gutierrez. A entrada da Delta foi imposta pelo ex-governador, por ter seu aliado Fernando Cavendish, e a Andrade Gutierrez pediu uma participação no naco e foi atendida. É o que está descrito nas delações dos executivos da empreiteira na denúncia do Ministério Público Federal contra Cabral.

Iniciada a obra, o projeto continuou a ser modificado. Afinal, como relator o TCU (Tribunal de Contas da União) em 2011, o orçamento era ”mera peça de ficção”. Houve 16 aditivos no contrato para rever quantidades e preços, para prorrogar prazos, para incluir isenções tributárias (nunca obtidas).

Em 2011, no 3o aditivo, a obra subiu R$ 79,3 milhões, saltando para R$ 785 milhões. Em 2012, os sextos e oitavos aditivos fizeram mais dois acréscimos que elevaram a conta a R$ 859 milhões. A justificativa era similar: alteração de ”planilha de quantidades e preços”. Por fim, em 2013, o orçamento subiu mais R$ 190,6 milhões, atingindo o patamar final de R$ 1,142 bilhão. Houve ainda reajustes anuais contratuais, que não foram considerados nesta conta por serem pela inflação.

Todos os números constam do relatório do TCE.  O mesmo relatório informa que foram feitos diversos pagamentos indevidos e itens com custo acima do que deveria. Assim, o TCE mandou congelar R$ 198 milhões em pagamentos para as empreiteiras, em decisão de 2016. Teoricamente, esse é o valor cobrado indevidamente.

Neste momento, Sergio Cabral já não era mais governador, mas durante sua gestão tinha recebido 5% do total da obra, segundo informações de executivos da Andrade Gutierrez. Isso daria R$ 57 milhões, feita uma conta bruta.

No texto final de seu relatório, o TCE informa que ”a megalomania estatal amparada por gastos equivocados fizeram com que o Estado brasileiro se curvasse diante das exigências da FIFA, para, sem qualquer objetivo republicano, refazer e construir verdadeiros “elefantes brancos”, que não propiciaram qualquer legado ao povo brasileiro. São inúmeros os exemplos pelo Brasil afora.

O objetivo, como se vê, não era, apenas, a realização de um evento futebolístico, mas propiciar o farto desperdício de dinheiro público, o que, certamente, contribuiu em muito para as dificuldades que hoje atravessam os Estados que sediaram estes eventos desportivos.”

O Estado do Rio está falido, Cabral, na cadeia, o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter e seu braço direito Jérôme Valcke, afastados por corrupção, e o Maracanã, sem futuro definido.*

(*) Rodrigo Mattos – UOL

GEDDEL, O “INCORRUPTÍVEL”

Acusação contra Geddel é grave e joga crise no colo de Temer

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É grave a acusação de Marcelo Calero contra o ministro Geddel Vieira Lima (Secretaria de Governo) publicada na edição deste sábado (19) da Folha.

Diante das declarações do ministro da Cultura, que anunciou na sexta (18) sua saída do cargo, o presidente Michel Temer tem duas alternativas: ignorá-las e aceitar as justificativas de Geddel, ou demitir uma figura do núcleo duro de sua gestão.

A demissão de Calero deixou de ser uma mera divergência interna, como tentou transparecer o Planalto na sexta. Os motivos de sua saída são muito mais sérios do que se imaginava.

As duas medidas desgastam o governo. Segurar Geddel, acusado por Calero de pressioná-lo para favorecer interesses pessoais, joga para dentro do Planalto uma crise inesperada.

Uma crise inconveniente para Temer pelo fato de Geddel ser estratégico como articulador político nas negociações com o Senado para aprovar a PEC do teto de gastos públicos, carro-chefe do governo para tirar a economia do buraco em 2017.

A segunda possibilidade para o presidente é controlar a turbulência imediatamente, tirar Geddel, mas ao mesmo tempo admitir que um dos seus principais assessores de confiança atuou para se beneficiar pessoalmente. É crise do mesmo jeito.

Na entrevista a Natuza Nery e Paulo Gama, Calero fornece detalhes da pressão que teria sofrido por parte de Geddel.

Segundo ele, o ministro o procurou por cinco vezes para que intercedesse na aprovação do projeto imobiliário La Vue Ladeira de Barra, em Salvador, sob avaliação do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão subordinado ao Ministério da Cultura.

De acordo com Calero, o ministro afirmou ser proprietário de um apartamento no complexo. “E aí, como é que eu fico nessa história?”, teria dito Geddel.

Calero afirma que Geddel agiu de maneira “truculenta e assertiva”, tendo feito uma ameaça ao colega de Esplanada: “Se for o caso eu falo até com o presidente da República”.

O ministro da Cultura foi o quinto a deixar o governo desde que Temer assumiu a presidência, em maio.

Antes deles, saíram Romero Jucá (Planejamento), Fabiano Silveira (Transparência), Henrique Alves (Turismo) e Fábio Osório (Advocacia-Geral da União).

Geddel será o sexto? A decisão está nas mãos de Temer ou do próprio Geddel.*
(*) LEANDRO COLON
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

O SEGUNDO LULA

Esquema de Cabral teria levado à sonegação de R$ 450 milhões, diz auditora

A Receita Federal vai atuar com a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Federal (MPF) nas investigações dos crimes de corrupção do governo de Sérgio Cabral (PMDB), no Rio de Janeiro. Segundo a auditora fiscal Denise Esteve Fernandez, cerca de R$ 450 milhões deixaram de ser pagos em tributos por conta do esquema de propina durante o governo Cabral. Denise participou na manhã desta quinta-feira (17) de coletiva de imprensa para tratar da prisão do ex-governador na sede da Polícia Federal no Rio. Ela destacou que a Receita Federal vai cruzar dados contábeis para averiguar se serviços declarados pela equipe de Cabral e empreiteiras foram realmente prestados ou se, na verdade, foram utilizados no esquema de lavagem de dinheiro.

Denise enfatizou que a participação de auditores da Receita na operação é fundamental para combater a sonegação. E explicou que, em esquemas de corrupção, é comum contratos serem “contabilizados como custo operacional e deixarem de pagar impostos”.

TRAIÇÃO ELEITORAL – O juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal do Rio, afirmou em decisão que mandou prender o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) que se as suspeitas sobre o peemedebista forem confirmadas, “estaremos diante de um gravíssimo episódio de traição eleitoral”. Sérgio Cabral foi preso na operação Calicute, nova fase da Lava Jato, sob duas ordens de prisão. A outra é do juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato no Paraná.

A investigação da força-tarefa do Ministério Público Federal apura pagamento de vantagens indevidas a Sérgio Cabral, em decorrência do contrato celebrado entre a Andrade Gutierrez e a Petrobras, sobre as obras de terraplanagem no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

A força-tarefa da Lava Jato, no Rio, investiga corrupção na contratação de diversas obras conduzidas no governo do peemedebista, entre elas, a reforma do Maracanã para receber a Copa do Mundo de futebol de 2014, o PAC Favelas e o Arco Metropolitano, financiadas ou custeadas com recursos federais.

ESQUEMA DE FRAUDE – Segundo a Procuradoria da República, “desde que Sérgio Cabral assumiu o governo estadual foi encetado um esquema de fraude em licitação e cartel envolvendo as grandes obras públicas de construção civil, além de pagamentos de propinas regulares por empreiteiras, entre elas a Andrade Gutierrez”.

Na decisão que mandou prender Sérgio Cabral, o juiz Marcelo Bretas classificou Sérgio Cabral como político de grande expressão nacional. “No topo da cadeia de comando da estrutura criminosa sob investigação, conclui o Ministério Público Federal, estaria o ex-governador do Estado do Rio de Janeiro Sérgio de Oliveira Cabral Santos Filho, ora investigado”, afirmou o magistrado.

São investigados os crimes de pertencimento à organização criminosa, corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, entre outros. Também participam das diligências dezenove procuradores do Ministério Público Federal e cinco auditores fiscais da Receita Federal.*

(*) Deu em O Tempo – Agência Estado