EVOÉ MOMO!

Só o Carnaval permanente resolve

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A partir de hoje, ainda que desde muito antes, o Brasil é outro. As multidões que começam a lotar ruas e avenidas das principais e das pequenas cidades dão a impressão de sermos a mais feliz e mais rica das nações do planeta. Todo mundo festeja, todo mundo pula, todo mundo canta. Miséria, doença, desemprego, corrupção e desesperança entram em cone de sombra por uma semana.

Bom que seja assim, ao menos uma vez no ano. Em Brasília, escafederam-se políticos, parlamentares, ministros, juízes, funcionários públicos e até professores. Celebram todos o tempo de esquecer as agruras, dificuldades e maus augúrios. Organiza-se a sociedade para festejar o interregno do esquecimento.

Deputados e senadores na mira da Operação Lava Jato têm a certeza de que a Polícia Federal não baterá às suas portas. Sequer o presidente Michel Temer poderá supor protestos e reclamos de qualquer ordem. Vazios, os tribunais deixam de produzir sobressaltos, ensejando tranquilidade para corruptos e condenados. Os desempregados respiram com alívio pelos dias em que não precisam lamentar-se nem ficar procurando trabalho.

Por que reduzir esse hiato de felicidade apenas ao período carnavalesco? Ideal seria prolongar a festa pelo ano inteiro. Algum dia surgirá quem proponha ao governo decretar o Carnaval Permanente para todo o território nacional. Caso contrário, melhor o cidadão comum preparar-se, porque depois da Quarta-Feira de Cinzas, enfrentaremos o pior dos mundos.*

(*) Carlos Chagas – Tribuna na Internet

USAIN BOLT DA CORRUPÇÃO

Recorde mundial – Helicópteros estaduais foram 1,5 mil vezes à mansão de Cabral

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Os helicópteros do governo do Rio pousaram quase 1.500 vezes entre 2007 e 2014 no condomínio Portobello, em Mangaratiba, onde o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) tem casa de veraneio. Em 2011, ano com a maior frequência de voos para o refúgio, foram 241 aterrisagens no local, duas a cada três dias em média. Há casos de mobilização de mais de uma aeronave para levar passageiros para o local, com decolagens em sequência do heliponto do governo.

A lista de voos de helicópteros do Estado para a residência de veraneio do governador foi fornecida pela Subsecretaria Militar à Justiça estadual, em ação popular movida pelo procurador aposentado Cosmo Ferreira, que aponta suposto abuso no uso das aeronaves.

DEPOIMENTO – Cabral depôs nesta terça-feira (21) por videoconferência no caso. À juíza Luciana Lopes, da 8ª Vara de Fazenda Pública, o ex-governador afirmou que “pode” ter usado as aeronaves para fins particulares.

“No fim de semana posso ter me deslocado para compromissos particulares”, afirmou o peemedebista, que vestia uma camisa branca, calça azul, tênis, e aparentava estar mais magro.

O ex-governador afirmou que ele e seus familiares recebiam ameaças de criminosos, motivo pelo qual o uso das aeronaves era recomendado pelas autoridades de segurança. Versão semelhante já havia dado em julho de 2013, quando a revista “Veja” mostrou embarques de Cabral com familiares, funcionários e até o cachorro da família nos helicópteros do Estado.

“EVENTUALMENTE” – Cabral está preso em Bangu desde novembro sob acusação de cobrar propina em obras públicas em processo da Justiça Federal. Ele falou numa sala da penitenciária. Ele admitiu que, em alguns casos, seus filhos e a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo usaram sozinhos os helicópteros do Estado –informação também dada pelo piloto André Benvenuti de Moura Alcântara.

“Tinha vezes que ficava até muito tarde no Palácio [Guanabara, sede do governo], e eventualmente meus filhos e mulher iam antes e eu ia depois”, disse.

Até 2012, o ano com menor número de pousos em Mangaratiba foi em 2007 (192), com uma média de um a cada dois dias. No total, foram 1.481 pousos e decolagens na cidade durante a gestão Cabral.

CARNAVAL ANIMADO – A lista da subsecretaria mostra voos em sequência num mesmo dia. No dia 1º de janeiro de 2011, por exemplo, o Estado usou quatro aeronaves que realizaram nove voos chegando ou partindo de Mangaratiba. No dia 7 de março do mesmo ano, Carnaval, três aeronaves foram usadas para seis voos.

Em 20 de fevereiro de 2007, dois helicópteros do Estado decolaram juntos em plena madrugada, às 2h15, tendo como destino Mangaratiba.

A lista enviada pela subsecretaria não possui nome dos passageiros. Mas referem-se a pedidos de liberação de helicópteros feitos pela governadoria tendo como destino ou origem Mangaratiba.

DEPOIS DA “VEJA” – A frequência de voos se reduz drasticamente a partir de agosto de 2013, após a reportagem da “Veja”, quando Cabral decide regulamentar o uso das aeronaves oficiais. De agosto de 2013 a março de 2014, quando Cabral renunciou, foram 59 pousos ou decolagens no local – média de uma a cada quatro dias.

“Não havia regulamentação sobre uso de helicóptero. Fui o primeiro governador a estabelecer um ordenamento”, afirmou o ex-governador.

A juíza determinou uma perícia para determinar o custo dos voos, além de identificar o possível abuso.*

(*) Italo Nogueira – Folha de São Paulo

O MESTRE DOS MESTRES

Lúcio Funaro, doleiro da Lava Jato, conseguiu dar golpe até em Eduardo Cunha

 

Não era apenas a empreiteira Odebrecht – cujos executivos tiveram um acordo de delação premiada homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – que costumava identificar políticos por apelidos. O gosto por dar alcunhas também era compartilhado pelo empresário Alexandre Margotto, que firmou um acordo de delação com o Ministério Público Federal (MPF). O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), por exemplo, era o “Vesgo”. Seu ex-sócio, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro, era o “Maluco”. E Fábio Cleto, ex-vice-presidente da Caixa, era frequentemente chamado de “Rapaizim”. Além disso, tanto Margotto como Cleto costumavam reclamar que Funaro não era bom pagador, atrasando os repasses prometidos.

O acordo de delação premiada de Margotto – em que ele expõe irregularidades no Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS), administrado pela Caixa – foi homologado na semana passada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília. Segundo os termos do acordo, ele se comprometeu a falar de irregularidades envolvendo Cunha, preso atualmente em Curitiba; o ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima; o ex-ministro do Turismo Henrique Alves; e os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS e do frigorífico Friboi.

FUNARO, O SÓCIO – Lúcio Funaro – que era o operador de Cunha e está preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília – também é exposto na delação de Margotto. Os dois eram sócios e, pelas mensagens entregues por Margotto ao MPF, alternavam momentos de amor e ódio. Ora trocavam palavras amistosas, ora se xingavam, principalmente quando Margotto reclamava que estava sem dinheiro.

Na manhã de 5 de agosto de 2014, Margotto escreveu para Funaro que não tinha mais limite no banco e que iria pedir dinheiro emprestado para a mãe. “Não paguei a Cida, a empregada. A escola. Plano de saúde. Consegui sacar 150 reais, que é gasolina. Gasolina e almoçar”, escreveu Margotto.

Em 13 de setembro, novas reclamações: “Neste momento dependo de você. Se você falha, eu me fodo. Ajudei meu pai que tá com câncer. A mulher dele que tá. Tem escola. O básico. Então quando você fala que vai fazer algo, tô contando com aquilo. Se você falha, é efeito dominó. Pedi emprestado, Cleto. Ele disse que vai ver, se você não me ajudar, ele vai dar jeito”.

MESTRES DOS MESTRES – Em 15 de agosto, Cleto escreveu para Margotto, falando de Funaro: “É o mestre dos mestres, que dá aula de não pagar ninguém, você já conhece”. Em geral, Funaro respondia agressivo às reclamações de Margotto, acrescentando que, enquanto um ou outro negócio não fosse fechado, não poderia adiantar dinheiro.

Em sua delação, homologada no ano passado, Fábio Cleto já tinha apontado um episódio em que Funaro tinha enganado o próprio Cunha. O ex-deputado foi acusado de receber propina de contratos do FI-FGTS. Segundo ele, o combinado era que Cunha ficasse com 80% da propina paga por empresas interessadas em obter financiamentos do fundo. Mas isso não ocorreu em um caso: na liberação de R$ 500 milhões para um projeto habitacional em Pernambuco, da empresa Cone.

PROPINA REDUZIDA – Cleto contou que, normalmente, ficava com 4% da propina, Funaro com 12% e Margotto com outros 4%. Mas, no financiamento do projeto habitacional, Funaro combinou com os dois para não falarem nada a Cunha. Assim, os três dividiriam igualmente a propina, que totalizaria R$ 14 milhões.

Funaro, porém, não cumpriu o acordo e Cleto recebeu apenas R$ 75 mil. Não restou alternativa a não ser aceitar calado. Segundo o termo de depoimento prestado em abril do ano passado, Cleto disse que “não cobrou de Funaro o valor restante da propina devida, pois sabia que seria infrutífera a cobrança”.

Os delatores que vêm expondo irregularidades nas relações entre empresários e agentes públicos vêm demonstrando gosto pelos apelidos. Na Lava-Jato, a lista da Odebrecht expõe dezenas de políticos e suas alcunhas, como Angorá, Primo, Índio, Botafogo, Santo, Todo Feio e Boca Mole.*

(*) André de Souza – O Globo

QUEM TEM… TEM MEDO

Relator da Lava Jato recusa fornecer a Lula e Aécio conteúdo de delações

O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, negou fornecer ao senador Aécio Neves (PSDB-MG) e ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) informações que eles solicitaram, relativas às delações premiadas.

Lula havia solicitado acesso ao termo de colaboração e a eventuais anexos negociados entre o MPF (Ministério Público Federal) e o ex-deputado Pedro Corrêa (PP-PE). O acordo, entretanto, ainda não foi homologado pelo STF, portanto não tem validade legal.

“Ainda que já houvesse chancela homologatória do Supremo Tribunal Federal, o conteúdo dos depoimentos colhidos no âmbito da denominada colaboração premiada está resguardado pelo sigilo previsto no art. 7º da Lei 12.850/2013”, disse Fachin.

O relator da Lava Jato acrescentou que, “enquanto não instaurado formalmente o inquérito, o acordo de colaboração e os correspondentes depoimentos estão sujeitos à tramitação sigilosa”.

Mas que, com a instauração de eventual inquérito, “assegurado também será ao defensor legalmente constituído amplo acesso aos elementos de prova que digam respeito ao exercício do direito de defesa”, conforme a Súmula Vinculante 14 do STF.
O pedido de Aécio Neves era para obter “acesso aos acordos de Benedicto Júnior, Sergio Neves e qualquer outro que tenha mencionado o nome do Senador Aécio Neves da Cunha”. Benedicto Júnior é ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura e Sergio Neves é ex-diretor da Odebrecht em Minas.

A petição de Aécio Neves relata que “no dia 30 de janeiro de 2017, o site BuzzFeed publicou matéria informando que a Procuradoria-Geral da República iria requerer a instauração de novo inquérito em desfavor do Requerente, visando apurar irregularidades na construção da Cidade Administrativa”.

A defesa do senador continua dizendo que, “segundo a notícia, Benedicto Júnior teria especificado, dentre outros, inclusive porcentagens de repasses” e que, de acordo com a reportagem, Sergio Neves havia corroborado e complementado informações.

Fachin afirma que “o pedido não deve ser atendido”. “No caso, além de mantida em sigilo a investigação até o momento, o que revela a existência de providências apuratórias em curso e determina a restrição de publicidade, constato que eventual menção em termo de colaboração não confere ao peticionário, automaticamente, a condição de investigado”, disse Fachin.

O ministro resgatou um precedente dele próprio, como relator da Lava Jato, no início de fevereiro, quando foi negado, na Segunda Turma, por unanimidade, um recurso ao deputado Federal Luiz Sérgio (PT-RJ), que queria acesso à delação premiada de Zwi Skornicki, antes de haver instauração formal de procedimento investigatório contra o parlamentar.

“Conteúdo dos depoimentos prestados em regime de colaboração premiada está sujeito a regime de sigilo, que, a teor da Lei 12.850/2013, regra geral, perdura até o recebimento da denúncia e, de modo especial, deve ser observado em momento anterior à instauração formal de procedimento investigatório”, disse Fachin na ocasião.*

(*) Estadão – UOL

TIROTEIO NA ZONA

Jucá e Moreira lavam a roupa suja a céu aberto

O senador Romero Jucá e o ministro Moreira Franco, dois dos principais operadores políticos de Michel Temer, decidiram lavar a roupa suja do PMDB em público. Numa entrevista, Moreira insinuou que o ativismo anti-Lava Jato de Jucá não traduz as opiniões do governo. E Jucá divulgou uma nota oficial para informar que Moreira também não é a pessoa mais indicada para falar sobre a estratégia do PMDB na votação da reforma da Previdência.

Moreira falou ao jornal Valor. Perguntaram-lhe: “O líder do governo no Congresso e também presidente do PMDB, Romero Jucá, fala em ‘estancar a sangria’ e comparou a Lava Jato à Inquisição. Afinal, ele fala pelo governo?” O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência respondeu em timbre enfático:

“Não, não fala. Ele disse que não falava pelo governo. Quando soubemos, nós ficamos surpresos porque não havia sido feita consulta. Nem eu estou dedando ninguém porque ele próprio disse que não falava em nome do governo. E disse mais hoje, que o mandato é dele, os eleitores são dele e ele, portanto, toma a iniciativa.”

Na mesma conversa em que tomou distância de Jucá, Moreira informou que o PMDB não adotará o mecanismo do fechamento de questão na votação da reforma da Previdência. “Não é da nossa cultura”, disse o ministro, referindo-se à ferramenta que permite ao partido punir congressistas que votarem contra a reforma. “Nós não vamos nos transformar num partido leninista.”

Jucá apressou-se em desmentir o correligionário: “Ao contrário, o partido tem discutido com a bancada federal da Câmara dos Deputados a possibilidade de fechamento de questão” na votação da reforma previdenciária. Realçou que o partido já recorreu ao fechamento de questão “na votação da PEC que limita os gastos públicos.”

Irônico, Jucá anotou que “Moreira Franco, um quadro excepcional do PMDB e do governo, ao se manifestar apenas emite uma posição pessoal, que será levada em conta no debate.” E insinuou que o ministro fala fora de hora: “A estratégia de votação da reforma da Previdência, que é de vital importância para o país, será discutida no momento adequado dentro do PMDB e com os partidos aliados.”

Investigado no Supremo Tribubal Federal, Jucá absteve-se de mencionar no seu texto os comentários de Moreira, delatado por executivo da Odebrecht, sobre suas posições em relação à Lava Jato. Nos últimos dias, o senador fez uma analogia entre o foro privilegiado e a “suruba”. E comparou o trabalho da imprensa ao nazismo, ao fascismo, à Inquisição e à Revolução Francesa.

Moreira deu a entender algumas opiniões do líder do governo são incômodas: “Não é fácil. Não é fácil um líder falar uma coisa, ter a reação que teve, ser líder do governo e dizer que não era líder do governo quando falou aquilo. Não é fácil. Me desculpa, mas não é fácil. É difícil.”*

(*)  Blog do Josias de Souza

SENADOR PROSTITUTO

A falta de compostura de Jucá

Há duas constantes na carreira do senador: serviu a todos os governos, desde que se lançou na vida pública nacional, e jamais deixou de frequentar as listas de investigados e processados       


Ao comparar a uma “suruba” recentes manifestações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a necessidade de rever o instituto do foro privilegiado, o notório Romero Jucá, líder do governo no Senado e presidente do PMDB, não se limitou a expor a falta de compostura que é uma lamentável característica de seu comportamento político. Pior que isso, o destemperado senador ajudou a piorar a já combalida imagem política do governo, reforçando os argumentos de quem acusa Michel Temer de estar empenhado em sabotar a Operação Lava Jato para blindar a si mesmo e aos políticos que o cercam das investigações sobre corrupção.
Jucá ocupou a tribuna do Senado por quase uma hora na segunda-feira passada para tentar explicar a proposta de emenda à Constituição (PEC) que apresentou, na semana passada, com o objetivo de estender aos presidentes do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e do STF as prerrogativas de que gozam o presidente e o vice-presidente da República, que não podem ser investigados, enquanto no cargo, por fatos anteriores ao exercício do mandato. A reação negativa dos senadores à proposta apresentada por Jucá forçou-o a retirar a PEC.
A iniciativa do senador foi considerada uma reação às declarações feitas na semana passada pelos ministros Luís Roberto Barroso e Edson Fachin favoráveis à revisão do instituto do foro privilegiado. Jucá considerou que essas declarações prejudicavam os políticos em geral. Por essa razão, o senador foi contundente além dos limites do decoro que sua condição de integrante do Congresso Nacional impõe, em entrevista concedida ao Broadcast Político, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado: “Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”.
Fino como sempre, o senador dirigiu feroz ataque a “parte da imprensa que não dá chance a ninguém de se defender: escolhe aleatoriamente e parte para o estraçalhamento, sem se preocupar com a verdade, sem se preocupar com a coerência, sem se preocupar com a família das pessoas, com a história de cada um”.
Ora, o “linchamento” de que o senador Romero Jucá se queixa deve-se exatamente ao fato de sua história como político governista – não importa qual seja o governo – ser sobejamente conhecida. E são impressionantes os escândalos em que Jucá se meteu ao longo de sua carreira política.
Recentemente, envolveu-se num imbróglio que resultou em seu afastamento do cargo de ministro do Planejamento do governo Temer, exatamente 11 dias depois de ter sido nomeado com toda a equipe ministerial escalada pelo então vice-presidente da República em exercício. Não foi a primeira passagem meteórica de Jucá pelo comando de um Ministério. Em 2005, no governo Lula, assumiu em março o Ministério da Previdência Social. Quatro meses depois foi forçado a abandonar o cargo, acusado de ter-se envolvido em irregularidades relacionadas a empréstimos bancários.
Em respeito ao princípio da presunção de inocência, é preciso reconhecer que Jucá até agora passou incólume por denúncias e investigações que pontuaram sua carreira política de mais de 30 anos. Há duas constantes na carreira do senador: serviu a todos os governos, desde que se lançou na vida pública nacional, e jamais deixou de frequentar as listas de investigados e processados. Não estranha, portanto, que ele queira afastar a incômoda espada da Justiça que teima em balançar sobre sua cabeça.
É preciso reconhecer, também, que o comportamento da imprensa de que Romero Jucá tanto se queixa é certamente um assunto que está longe de lhe ser estranho, já que é proprietário de duas emissoras de televisão em Boa Vista – uma filiada à Rede Record e outra à Rede Bandeirantes –, além de um jornal impresso e duas emissoras de rádio. Talvez isso explique por que Jucá toma sempre a cautela de atacar apenas “parte” da imprensa – aquela que não lhe é obediente.*

(*)  Editorial de O Estado de São Paulo

A GALHOFA É GERAL E IRRESTRITA

Sabatina de Moraes virou um teatro de bonecos

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A Comissão de Constituição e Justiça do Senado realiza nesta terça-feira a sabatina de Alexandre de Moraes. A presença de dez investigados da Lava Jato na composição do colegiado transforma a arguição do candidato de Michel Temer a ministro do Supremo Tribunal Federal numa espécie de teatro de bonecos —do tipo em que o boneco é manipulado por pessoas vestidas de preto dos pés à cabeça. A plateia sabe que os manipuladores estão em cena. Mas convencionou-se que todos devem fingir que eles são invisíveis, em nome do bom andamento do espetáculo.

O teatro do Senado é muito parecido com o original. A diferença é que, na apresentação genuína, a presença dos manipuladores de preto é enfatizada. Quem assiste sabe que a cumplicidade do fingimento é parte show. No palco presidido pelo investigado Edison Lobão, o impensável, os manipuladores querem que você acredite que eles não estão lá. Mais: eles desejam que você creia na independência do boneco. Pior: querem te convencer de que o boneco é, na verdade, um personagem providencial. O teatro de mentirinha é bem mais honesto e verdadeiro.*

(*) Blog do Josias de Souza

CAINDO PRA CIMA

Crime e castigo

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso ensinou enquanto sua outra persona, a de político, ainda governava o país: “Quando um ministro perde as condições políticas de permanecer no cargo, nem mesmo o presidente da República consegue mantê-lo”.

O presidente Michel Temer sabe disso. Livrou-se a contragosto de Romero Jucá (PMDB-RR), ministro do Planejamento, flagrado conspirando contra a Lava Jato.

É verdade que Jucá manda no ministro que o sucedeu, manda no PMDB que preside e exerce a função de líder do governo no Congresso. Não é pouca coisa.

Mas faltou sorte a ele e a outros quatro ministros que passaram como um relâmpago pelo governo. Eles teriam permanecido se vigorassem à época as regras anunciadas por Temer para afastar ou demitir ministros atingidos por graves suspeitas.

Doravante será assim: se denunciado pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro é afastado do cargo provisoriamente até que tudo se esclareça. Não perderá o salário. Nem demais vantagens.

Caso o STF acolha a denúncia, o que o transformaria em réu, ele será demitido. Apenas por suspeita ou delação, nenhum ministro sairá do governo.

A Justiça nos seus escalões superiores é lenta e evita trombar com os que gozam de foro privilegiado. É o caso, entre outros, de ministros de Estado, governadores, senadores e deputados.

Em pouco mais de três anos de Lava Jato, a Procuradoria-Geral da República só ofereceu denúncia contra pouco mais de uma dezena de políticos. O STF não julgou nenhum até agora. A Lava Jato só anda rápido em Curitiba.

“O governo não quer blindar ninguém. E não vai blindar”, prometeu Temer. Na prática foi o que ele fez – ou tentou. Os atuais ministros continuarão empregados até o fim do governo em 2018. A não ser…

A não ser que Fernando Henrique tenha razão: na vida real, ministro cai quando perde as condições de manter-se em pé. O resto é conversa para distrair os bobos.

Enquanto esses se distraem, cresce o desespero em cada canto onde haja um político interessado em conhecer o conteúdo de delações sob segredo de Justiça.

O desespero destrava iniciativas intempestivas, aumenta a disposição da maioria para tentar qualquer manobra que possa lhe garantir a sobrevivência (ou melhor: a liberdade) e alimenta teorias conspiratórias que poderão se realizar ou não, a conferir mais adiante.

Intempestiva foi a iniciativa de Jucá de apresentar proposta de emenda à Constituição para dar aos presidentes da Câmara, do Senado e do STF a prerrogativa, hoje, exclusiva do presidente da República de não ser investigado por fatos anteriores ao mandato.

Jucá não combinou o jogo com ninguém. A proposta foi sepultada em menos de oito horas, tamanha a reação negativa que despertou.

O STF está pronto para dar posse a Alexandre de Moraes, o substituto do ministro Teori Zavascki, que assumirá, ali, o cargo de revisor da Lava Jato.

Em Alexandre, mas não somente nele, deposita-se a esperança dos políticos de escapar aos rigores da Justiça. Que ela saiba distinguir entre os que embolsaram dinheiro e os que receberam dinheiro para pagar despesas de campanha – é o que eles querem, e também o governo.

Em resposta a enquetes e pesquisas de opinião, a larga maioria dos brasileiros não vê diferença entre propina e caixa dois. São crimes que afrontam a democracia e que merecem ser igualmente castigados.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

ERA UMA VEZ…

Lobos e vovozinhas

Se analisamos os projetos — anistia, proibição de o TSE punir partidos com contas irregulares — tudo vai na mesma direção: legislar para se safar


Deve haver muitas formas de paranoia. Conheço pelo menos duas. A que usa os fatos, deformando-os para parecerem uma grande ameaça. E a que tem um tal dinamismo interno que chega a dispensar os próprios fatos. Não considero que nenhuma dessas formas está presente quando se afirma que a Operação Lava-Jato está ameaçada. Não é preciso estar muito longe de Brasília para perceber isso. Por acaso, estou, relativamente perto, no Brasil central. Mas de qualquer ponto do país, a sucessão de projetos de anistia e blindagem é impressionante.

Para mim, tudo ficou muito claro quando escolheram Lobão para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Não tenho mais idade para duvidar: seus braços são tão longos, vovozinha; seus olhos são tão grandes; sua boca é tão grande vovozinha. É o Lobão, ponto.

A mais nova tentativa é de Romero Jucá. Um projeto para blindar presidentes da Câmara e do Senado. Segundo ele, não podem responder por crimes anteriores à sua posse no cargo. Na verdade, estende para os dois a mesma prerrogativa do presidente da República.

Se analisamos o conteúdo de todos os projetos mencionados — anistia, proibição de o TSE punir partidos com contas irregulares — tudo vai na mesma direção: legislar para se safar.

Leio que a Lava-Jato em Curitiba ficou satisfeita com a escolha de Alexandre de Moraes para o STF. Inclusive acredita que ele vota pela prisão de acusados julgados em segunda instância: algo que realmente evita que as pessoas recorram em liberdade por anos a fio.

No entanto, um ministro do supremo não julga apenas a Lava-Jato. Ele continua no seu posto por anos. Lewandowski e Dias Toffoli julgaram o mensalão e seguem firmes tratando de muitos casos. Recentemente, Toffoli soltou o ex-ministro Paulo Bernardo numa decisão polêmica.

Temer parece ter sentido a reação em defesa da Lava-Jato. E anunciou esta semana as regras que deveria ter anunciado no primeiro dia de governo. A partir de agora ministros denunciados se afastam e, caso se tornem réus, deixam o governo.

Não acredito que essa permanente tentativa de blindagem dos políticos será atenuada. Nem vejo dinamismo no STF para julgar todos os casos com alguma rapidez. Isso não significa que muitos não possam ser condenados no futuro. Mas deixa para 2018 uma única ferramenta de transformação: o voto.

Apesar de a sociedade brasileira ter amadurecido, não creio que apenas o voto poderia fazer com que o Congresso passasse, de alguma forma, a considerar as aspirações do país de uma forma prioritária.Ele pode realizar reforma econômicas, evitar a quebradeira e ajudar o Brasil a reencontrar seu caminho. Mas não abre mão dos privilégios e do velho esquema de corrupção que o domina há tanto tempo.

Na juventude, costumava ironizar o lema de um partido brasileiro, chamado UDN: o preço da liberdade é a eterna vigilância. Vivíamos num tempo de Guerra Fria, mas ainda assim perguntava: se não não temos um segundo para relaxar, que tipo de liberdade é essa?

Hoje, não mais num contexto de luta ideológica como no passado, combatemos ladrões em todos os pontos do espectro político. Não é possível baixar a guarda. Diria até que uma ponta de paranoia é necessária, porque mesmo quando não parecem estar tramando algo, estão em plena atividade. As ligações telefônicas entre a cúpula do PMDB, reveladas por Sérgio Machado, eram uma clara tentativa de sabotar a Lava-Jato, algo que agora fazem abertamente.

Renan Calheiros encarna como ninguém essa tentativa. Ele é investigado em 12 processos, alguns antigos, e agora passa a ser investigado por obstrução à Lava-Jato, junto com a cúpula do PMDB. Quanto tempo levará para ser julgado nos casos investigados? Quanto tempo levará para ser julgado por obstruir as investigações?

Eles não param nunca. Quando não estão roubando, estão obstruindo a investigação, ou, em certas horas, fazendo as duas coisas simultaneamente. E o ritmo do STF é feito para que se movam em paz, seduzindo os que aspiram à reforma econômica, mobilizando os que descobriram direitos legais de acusados, depois que a elite começou a ser presa, enfim vão formar um grande caldeirão destinado a cozinhar a sopa da mesmice brasileira.

Não creio que seja paranoia observá-los constantemente e denunciá-los nas ruas. Diria até que não devemos nos preocupar tanto por estar batendo neles: eles sempre sabem porque estão apanhando.

Por mais ridícula e despreparada que pareça, a classe política brasileira é mestre universal na arte de sobreviver às denúncias. Eu mesmo me equivoquei. Sempre denunciei o Sérgio Cabral como se fosse um simples corrupto que comprava mansões e se divertia em viagens no exterior. Jamais imaginei que estava lidando com o maior ladrão da História do Brasil e que todas aquelas viagens eram também viagens de negócios para administrar sua fortuna.

A resistência no Brasil não pode ser acusada de paranoia. Diante dos adversários calejados ela às vezes se parece com a ingenuidade do Chapeuzinho Vermelho.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo