BONNIE E CLYDE

A recatada Adriana Ancelmo

A empresária poderosa se transformou numa esposa submissa que acredita em tudo que o marido fala

Até ser presa, em dezembro do ano passado, Adriana Ancelmo costumava se apresentar como uma mulher independente, cheia de si, dona do próprio nariz. Sempre vestindo terninhos escuros — parte de um guarda-roupa dispendioso, mas cafona, como exigia seu estilo —, ela aparentava ser uma mulher de negócios, uma executiva bem-sucedida, uma profissional liberal de destaque. Formada em Direito, era integrante de um dos escritórios de advocacia mais caros do Rio de Janeiro. Adriana Ancelmo brilhava entre seus pares. Pelo que cobrava de honorários poderia ser considerada a melhor advogada do Brasil. Tinha entre seus clientes o Metrô do Rio. Enfim, uma mulher empoderada.

Quatro meses depois, a Adriana Ancelmo que foi interrogada, na última quinta-feira, em Curitiba, pelo juiz Sergio Moro, era outra pessoa. O terninho continuava caro e cafona, mas o resto… quanta diferença! A postura era humilde; o tom de voz, baixo, quase choroso. E a empresária poderosa se transformou numa esposa submissa que acredita em tudo que o marido fala.

O pior é que Adriana Ancelmo ganhou uma ingenuidade que não existia na advogada brilhante. No depoimento, quis deixar claro, por exemplo, que nunca ligou o enriquecimento do marido, o ex-governador Sérgio Cabral, à roubalheira de que agora é acusado, mesmo imaginando que seu salário se limitava a R$ 20 mil por mês.

“Mas os sinais exteriores de padrão de consumo te revelariam um padrão de vida superior a R$ 20 mil por mês”, argumentou o juiz, para ouvir de Adriana Ancelmo: “Mas o meu relacionamento com o Sérgio, ele é matrimonial. Ele não é econômico-financeiro que me levaria…”

“A senhora sabendo que o salário dele era por volta de R$ 20 mil não questionou a origem desses recursos?”, insistiu o juiz.

“Conversamos muito pouco sobre isso, ele dizia que eram recursos lícitos e eu acreditei. Era meu marido”, explicou a ingênua Adriana Ancelmo.

Vem cá, é essa a advogada talentosa? Ela vê em casa o marido comprar ternos de Ermenegildo Zegna, ganha vestidos de R$ 50 mil como presentes, usa carros blindados para os filhos… e acredita que a renda mensal de Sérgio Cabral se limitava a R$ 20 mil? Adriana Ancelmo transformou-se praticamente numa Marcela Temer: bela, recatada e do lar.

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Também é surpreendente o depoimento de Sérgio Cabral feito no mesmo dia. Foi a primeira vez que a gente teve conhecimento do que pode vir a ser a defesa do ex-governador. Sobras da campanha de caixa 2, uma expressão que parecia fora de uso desde a defesa de Collor, será o mote de Cabral. Ele admite o “erro”, não o crime. Ele estimula “o debate”, como se o caixa 2 ainda pudesse ter uma sobrevida. Ele não aceita a acusação de ter recebido “propina”. Para Cabral, tudo se resume a uma “prática nacional”, o uso de sobras de campanha de caixa 2.

É aí que mora o perigo. Como dissociar a propina do caixa 2? Como Cabral pode assegurar que o dinheiro do caixa 2 não era propina? Que interesse tem um político ou um empresário em receber ou fazer um pagamento em caixa 2? E, principalmente, que autoridade moral tem um político ao usar “sobras de campanha” para comprar ternos de Ermenegildo Zegna, blindar carros particulares ou mudar os armários da casa de praia em Mangaratiba? Se Cabral admite o “erro” de usar com gastos pessoais dinheiro doado a campanhas políticas, como ele acredita que pode convencer alguém de que isso não é propina?*

(*) Artux Xexéo

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