FALA SÉRIO!

Moro nega ida à Suíça a alvo da Lava Jato ‘acometido de saudade’

Mariano Marcondes Ferraz, acusado de pagar propina a ex-diretor da Petrobrás, alegou ao juiz que queria ver os filhos; magistrado decidiu que ‘interesse privado não pode prevalecer frente ao interesse público de fiel aplicação da lei penal brasileira’

No dia 23 de junho, o executivo pediu para viajar a Genebra, na Suíça, entre os dias 3 e 14 de julho. “Ocorre que o requerente mantém três filhos e sua genitora residindo na Europa e desde sua prisão não manteve mais contato físico com seus familiares, estando acometido de natural saudade e anseio de rever seus entes queridos”, afirmou o empresário, por meio de sua defesa.

Ao negar a viagem, Moro anotou que Mariano morava no exterior quando foi preso.

“A prisão preventiva do acusado foi decretada tendo como fundamento o claro risco à aplicação penal, eis que, à época, Mariano Marcondes Ferraz era residente e domiciliado no exterior, com família no exterior, recursos financeiros e propriedades vultosas no exterior”, observou o magistrado.

“Permanece, atualmente, com família no exterior, recursos financeiros e propriedades vultosas no exterior, o que equivale a dizer que, uma vez liberado o passaporte, o risco à aplicação da lei penal ressurgiria.”

Para Moro, a fiança de R$ 3 milhões ‘não é suficiente, no entendimento deste Juízo, para, sozinho, afastar esse risco, tanto que impostas as medidas de fiança e de proibição de viagem ao exterior de forma cumulativa’. Segundo o juiz da Lava Jato, Mariano Marcondes Ferraz tem dupla nacionalidade, brasileira e italiana, ‘o que incrementa igualmente o risco de que, uma vez no exterior, não retorne ao Brasil, sendo imprevisível, nesse caso, eventual extradição, caso se refugie na Itália’.

“Observo, ainda, que Mariano Marcondes Ferraz responde a ação penal, atualmente em fase de análise da resposta à acusação apresentada, afigurando-se bastante impróprio que o acusado dirija-se ao exterior durante a sua tramitação e próxima instrução”, afirmou. “Em que pese a elevada idade da genitora do acusado, informada verbalmente a este Juízo pelos seus defensores, o que talvez inviabilizasse a vinda dela ao Brasil, conforme sugerido pelo Ministério Público Federal, o fato é que o interesse privado de Mariano Marcondes Ferrraz não pode prevalecer frente ao interesse público de fiel aplicação da lei penal brasileira.”*

(*) Julia Affonso e Ricardo Brandt – Estadão

DEFENSOR DO MAL

Procurador da Lava-Jato acusa Gilmar Mendes de tentar promover impunidade
Carlos Fernando Lima afirmou ainda que ministro quer anular provas de crime

SÃO PAULO. O procurador Carlos Fernando Lima, um dos porta-vozes da força-tarefa da Lava-Jato, acusou nesta quinta-feira, em postagem nas redes sociais, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de tentar anular as provas de crime de corrupção produzidas pela operação para promover impunidade. Ao final do julgamento pelo STF da extensão dos poderes de integrantes de tribunais superiores na hora de rever as cláusulas de um acordo de delação premiada, em uma nova postagem, o procurador afirmou que “prevaleceu o bom senso”.

Lima disse que a decisão favorável se deu “apesar do voto contrário de Gilmar Mendes e Marco Aurélio (Mello)”. “Os dois morreram abraçadinhos”, escreveu o procurador.

Mas cedo, Lima havia afirmado que “ao querer discutir a legalidade do acordo no momento da sentença (e aqui também em todos os recursos), o que Gilmar Mendes pretende é introduzir a possibilidade de se anular o acordo, mesmo que o Ministério Público o entenda cumprido”.

Lima iniciou a postagem dizendo que “o combate à impunidade tem muito a perder hoje”. “Gilmar Mendes quer com seu discurso alcançar um meio para anular as provas de crimes de corrupção produzidas pela Lava-Jato. Nesse aspecto, o ministro (Luís Roberto) Barroso está certo em alertar onde Gilmar Mendes pretende chegar”.

Ainda nas palavras postadas pelo procurador, o ministro do STF tenta se valer da “teoria do fruto da árvore”. “Ao anular o acordo, Gilmar Mendes pretende anular tudo que foi produzido por esse acordo, o que significa a anulação de todas as provas produzidas. Ou seja, se o acordo é nulo, nulas são as provas, usando, como sempre, a teoria do fruto da árvore envenenada. Se a árvore está envenenada, o fruto também está.”

Lima diz que se a tese de Gilmar prevalecer “abriria a possibilidade de serem anuladas ou reformadas todas as condenações de todas as operações em que foram as provas obtidas através ou em decorrência de um acordo de colaboração premiada, inclusive — e aqui especialmente — as condenações de Sérgio Moro na Operação Lava-Jato.”

O ministro do STF, segundo o procurador, se vale da indignação da população com os benefícios concedidos aos sócios da JBS. “Gilmar Mendes, espertamente, usa a indignação da população com os benefícios alcançados pelos irmãos Batista — afinal, ninguém gosta de impunidade — para alcançar mais impunidade. Só que agora de todos os poderosos envolvidos e revelados pelas investigações. Alcança-se assim o sonho de salvarem-se todos os políticos, de Lula a Temer.”

De acordo com Lima, “o objetivo é retomar o velho caminho da impunidade através de truques formais, como sempre aconteceu em operações anteriores à Lava-Jato”.

Na avaliação do procurador, permitir a anulação total da delação ao final do processo “ofende os princípios da boa-fé, da confiança e da segurança jurídica”. “Isso é, permite que o Estado aja como um chicaneiro”.

Por fim, Lima afirmou: “Espero que a maioria dos ministros do STF caminhe para confirmar o entendimento tão bem expresso pelo Ministro Celso de Melo, e não permita que seja aberta a possibilidade de anularem as provas produzidas pela Lava-Jato”.

(*) O GLOBO

A TENDÊNCIA? – É PIORAR!

Culpado inútil

Temer se concentra na sua defesa, num processo que ocupará a Câmara. Como vão tratar da reforma da Previdência?


Não é uma questão de achar que a crise política atrasa a economia. Pode-se ver isso em diversos sinais. Por exemplo, os índices de confiança da Fundação Getulio Vargas, divulgados nesta semana, mostram consumidores, empresários e investidores mais pessimistas. E, sobretudo, com menos esperança na recuperação.

Esses índices, construídos a partir de entrevistas, pedem que as pessoas avaliem a situação atual e as expectativas para seis meses. Desde que o país foi deixando a recessão para trás, notava-se um padrão: entrevistados diziam que o momento não estava nada bom, mas que as coisas certamente estariam melhores daqui a pouco. Agora, continuam achando que a situação atual não é boa, mas desconfiam de que não vai melhorar nos próximos meses.

Ora, há muitos dados positivos na economia real: a inflação no chão, juros desabando, setor agrícola gerando safras recordes, exportações em alta, superávit comercial subindo e entrando dólares de investidores estrangeiros. Além disso, as empresas voltaram a criar vagas formais. A equipe econômica é de primeira, e estatais importantes, como a Petrobras, voltaram à boa gestão.

Por que, então, cai a confiança dos agentes econômicos, categoria que inclui desde presidentes de empresas a consumidores comprando ou não no shopping?

Porque o noticiário político-policial é desanimador e piorou desde que se revelou a delação de Joesley Batista e seu pessoal da JBS. Não houve pânico no mercado financeiro, mas os principais indicadores pioraram: a Bolsa, que rodava a 68 mil pontos, com expectativa de alta, está agora na casa dos 62 mil. O dólar flutuava em torno dos R$ 3,10, agora um pouco acima dos RT$ 3,30.

Muita gente estranhou que esses dois indicadores tenham se comportado tão serenamente nos últimos dois dias, logo após conhecida a denúncia do procurador Rodrigo Janot contra o presidente Temer. Bolsa caiu na terça, subiu ontem. Dólar, dando o mesmo sinal, subiu e caiu.

Como se diz no mercado, a denúncia estava no preço. Tradução: o pessoal já sabia que Temer fora apanhado no esquema de corrupção. Estava na cara, não é mesmo?

O enredo básico é muito simples: o presidente Temer diz a Joesley, num encontro clandestino, que o contato entre eles deveria ser feito através de Rodrigo Rocha Loures. Depois, Joesley conversa com Rodrigo e negocia uma enorme propina em troca de uma mudança no contrato de uma de suas empresas com a Petrobras. Rodrigo fala com gente do governo administrando o pedido de Joesley. E recebe uma mala com 500 mil reais.

O que queriam mais? Um cheque assinado por Joesley e depositado na conta de Temer? A defesa de Temer dizer que não tem dinheiro entregue para ele é como a defesa de Lula pedir que apresentem a escritura do tríplex do Guarujá em nome do ex-presidente. A acusação é de patrimônio oculto e lavagem de dinheiro. Com escritura?

Do mesmo modo, por que Joesley entregaria uma montanha de dinheiro ao tal Rodrigo se este não fosse o representante de Temer no balcão de negócios?

Tirante um ou outro, acho que ninguém acredita de fato na defesa de Temer. Na prática, os que o defendem se dividem em dois grupos: o primeiro é formado pela turma que quer melar a Lava-Jato, para escapar dela; o segundo grupo acha ou achava que Temer poderia ser um “culpado útil”. Ok, está no esquema de corrupção, mas, caramba, se ele conseguisse aprovar as reformas, especialmente a da Previdência, estaria mais que suficiente.

Temer também sabia disso. Ou alguém acreditava mesmo que ele era um reformista de fé? As reformas eram um meio de ele salvar seu mandato.

E é por aqui que as coisas estão mudando. A cada dia que passa, Temer é mais culpado e menos útil, tal é a percepção que se forma nos meios econômicos.

Flagrado, o presidente se concentra na sua defesa, num processo que vai ocupar a Câmara dos Deputados. Como vão tratar da reforma da Previdência nesse turbilhão?

A trabalhista está quase aprovada e precisa de menos votos, só uma maioria simples.

Vai daí, forma-se o entendimento dos agentes econômicos e, talvez, da equipe de Meirelles: passar a reforma trabalhista é o suficiente por ora. Depois, administrar a coisa até as eleições. A previdenciária só traria ajuste a médio prazo mesmo, tal é o discurso de consolação.

Duas consequências. Na economia, não haverá investimentos, o consumidor se retrai e, logo, não há recuperação do crescimento. O cenário bom será não voltar à recessão.

Na política, Temer deixa de ser útil e por isso passa a ser descartável. Ou seja, sua eventual queda vai entrando no preço.

Haverá decepção e mais pessimismo econômico se a reforma trabalhista cair. Mas quem se importará com um culpado inútil?*

(*) Carlos Alberto Sardenberg é jornalista – O Globo

NOVA ENGAVETADORA DA PGR

Para estancar a sangria

O presidente Michel Temer tinha o direito de escolher quem bem quisesse para suceder Rodrigo Janot no cargo de Procurador Geral da República. Não estava sequer obrigado a escolher apenas entre os três nomes mais votados pelos procuradores.

 

Mas ao escolher a subprocuradora Raquel Dodge, o segundo nome de uma lista tríplice que lhe foi apresentada, indicou com clareza o que espera do próximo Procurador Geral da República. Raquel notabilizou-se por suas críticas ao comportamento independente de Janot.

Não teria sido o segundo nome mais votado se fosse contra a Lava Jato. Mas também não é tão a favor como Janot foi até agora, muito menos como Nicolau Dino, o primeiro nome da lista, seria. Se fosse, não teria o apoio de políticos como José Sarney e Renan Calheiros, por exemplo.

Em gravação feita no início do ano passado, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), atual líder do governo no Senado, comentou que era preciso derrubar a então presidente Dilma Rousseff e pôr Temer no seu lugar para “estancar a sangria” provocada pela Lava Jato entre os políticos.

Dilma acabou caindo, Temer a sucedeu, mas a sangria não foi estancada. Nem por isso os alvejados pela Lava Jato perderam a esperança de que seja de um momento para outro. Contam com o apoio de Temer, ele mesmo agora denunciado por corrupção.

De Raquel, esperam que se transforme numa nova engavetadora de processos como foi o Procurador Geral da República dos anos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Do ministro da Justiça, que ponha freios na Polícia Federal se possível trocando seu diretor.

De ministros do Supremo Tribunal Federal, que sejam mais duros com os procedimentos da Lava Jato. E que mudem de posição quanto à decisão tomada que permite o cumprimento imediato de pena para quem for condenado em segunda instância da Justiça.*

(*)  Blog do Ricardo Noblat

PREDAM O XERIFE E SOLTEM OS BANDIDOS!!!

Lula finge ter esquecido a maratona São Bernardo-Curitiba

O ex-presidente só aceita ser condenado se for flagrado fazendo a partir de agora o que tem feito sem parar nos últimos anos


“Provem uma corrupção minha e eu irei a pé para ser preso”, jactou-se o ex-presidente Lula há alguns meses, quando ainda se imaginava acima da lei. Se tivesse algum compromisso com o que diz, o deus da Seita da Estrela Vermelha já estaria treinando duramente para cumprir a promessa. Para quem mora em São Bernardo, Curitiba não é logo ali.

Em vez disso, Lula continua comendo, bebendo e empenhado apenas em ampliar seu vasto acervo de pérolas do besteirol. Nesta quarta-feira, por exemplo, recitou a seguinte declaração: “Se tiver uma decisão que não seja a minha absolvição, quero dizer que não vale a pena ser honesto neste país”. O recado para Sérgio Moro quer dizer o seguinte: até agora, Lula não cometeu sequer o menos venial dos pecados veniais.

Se tanta honradez não preservar a liberdade da alma viva mais pura do planeta, aí sim ele desistirá de ser honesto e fará o que seus inimigos vivem dizendo que fez. Vai sentir-se liberado, por exemplo, para arranjar um sítio em Atibaia e um triplex no Guarujá, vai cobrar R$ 400 mil por palestras que não valem um tostão, vai agenciar negociatas na África para ajudar amigos bilionários e um sobrinho necessitado, vai arrumar financiamentos para o filho que é o Ronaldinho da informática.

Em resumo, vai exercer oficialmente os ofícios de camelô de empreiteira e despachante de gatunos internacionais. Só então Lula vai admitir que é um caso de polícia a procura de uma vaga na cadeia.*

(*) Blog do Augusto Nunes

A CONFERIR

Indicada para ser “engavetadora”, Raquel  Dodge pode decepcionar o Planalto

A indicação da procuradora Raquel Dodge para a sucessão de Rodrigo Janot na chefia da Procuradoria-Geral da República naturalmente vem carregada de questionamentos. Dodge foi a segunda colocada na lista tríplice da categoria, ou seja, não seria a preferida número um dos colegas. É considerada adversária de Janot dentro da PGR e tem o nome vinculado nos bastidores a figuras próximas de Michel Temer, como o ministro Gilmar Mendes e o ex-presidente José Sarney.

Afinal, ela vai assumir o papel de engavetadora da Lava Jato e das investigações contra o presidente que a indicou para o cargo mais importante de sua carreira?

DESAFIO ÚNICO – É precipitado, para não dizer injusto, qualquer tipo de julgamento prévio sobre sua conduta no cargo de comandante do Ministério Público Federal.

Dodge terá pela frente um desafio único: expor-se a um país impactado pelas revelações de corrupção na alta cúpula da política, “melando” todo um trabalho feito nos últimos três anos, ou manter intacta sua biografia, cujo ápice foi a investigação do “Mensalão do DEM” em 2009, que desmantelou um esquema de roubalheira no governo de José Roberto Arruda no Distrito Federal.

É também um equívoco apostar que ela assumirá a chefia da PGR sem apoio da categoria. Dodge tem história e respeito dentro da Procuradoria.

ELEIÇÃO DIVIDIDA – Na eleição interna da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), obteve 587 votos, ante 621 de Nicolao Dino, uma diferença pequena e que mostra uma categoria dividida. Ela tem respaldo de boa parte dos colegas – até porque não está escrito em nenhum lugar que Temer deveria ter respeitado a ordem de escolha. Se assim fosse, nem lista tríplice haveria, mas um único nome seria levado ao Planalto.

Recentemente, Dodge disse à Folha ter “compromisso de integral e plena continuidade do trabalho contra a corrupção da Lava Jato, [operações] Greenfield, Zelotes e todos os demais processos em curso, sem recuar, nem titubear”.

Ela tem o direito e o dever de corrigir equívocos e abusos (que não são poucos) do Ministério Público Federal, mas será cobrada pela garantia que tem dado de assegurar o “compromisso” com a investigação contra a corrupção no país.*

(*) Leandro Colon – Folha de São Paulo

FOI PRO VINAGRE

A fortuna de Aécio Neves

O senador Aécio Neves não pode reclamar da sorte. Em março, ele foi gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista. Sua irmã foi presa por negociar a entrega do dinheiro. Seu primo foi preso por receber o pagamento. Ele continuou solto, graças à imunidade parlamentar.

Em 2014, o tucano prometeu combater a corrupção e recebeu 51 milhões de votos para presidente. Depois da divulgação dos áudios, ele pareceu condenado à morte política. Faltaria cumprir o rito fúnebre, com a perda do mandato e da liberdade.

Aécio sumiu do Senado, mas continuou a se mexer nos bastidores. Mesmo afastado do comando do PSDB, ele ajudou a articular a permanência do partido na base do governo Temer. Aos poucos, sua fidelidade começa a ser recompensada.

BOAS NOTÍCIAS – Na semana passada, o tucano colheu três boas notícias. O Supremo Tribunal Federal tirou sua irmã da cadeia. O ministro Gilmar Mendes foi sorteado para relatar um de seus inquéritos por suspeita de corrupção. Para fechar o pacote, o Conselho de Ética arquivou a representação que pedia a cassação de seu mandato.

“Indeferi por falta de provas”, declarou o presidente do conselho, João Alberto Souza. O peemedebista é conhecido por ajudar colegas em apuros e já salvou figuras como Jader Barbalho e Renan Calheiros.

Nesta semana, Aécio voltou a ganhar motivos para sorrir. Na terça, o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado para relatar outro inquérito sobre ele. No caso, o tucano é suspeito de receber propina na construção da sede do governo de Minas, que custou mais de R$ 2 bilhões.

SEM SUSPEIÇÃO – Até o início do ano, Moraes era filiado ao PSDB e recebia ordens do senador. Apesar disso, ministro não deu nenhum sinal de que vá se declarar suspeito para julgá-lo.

O dicionário “Houaiss” registra dois significados para o verbete “fortuna”: “boa sorte, felicidade, ventura” e “soma vultosa de dinheiro”. Como se vê, Aécio pode se considerar duplamente afortunado.*

(*) Bernardo Mello Franco – Folha de São Paulo

NOVA LIDERANÇA NO STF

Barroso apoia Janot e diz haver ‘indícios de corrupção’ na relação Temer/Joesley

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que existem “indícios relevantes” da prática de corrupção entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer, alvo de uma denúncia por corrupção passiva feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. As declarações de Barroso foram exibidas na noite desta quarta-feira no programa do jornalista Roberto D’Avila na GloboNews. O ministro criticou ainda a postura de Temer, que desqualificou Janot em um pronunciamento feito a terça-feira. De acordo com o ministro, o direito à ampla defesa “não inclui ofender a honra do acusador”.

“Esse episódio (denúncia de Janot) tem uma face evidentemente negativa e uma face positiva. A face negativa é a existência de indícios relevantes de que as coisas se passaram de modo errado. E isso anos depois do julgamento do mensalão e de três anos de Operação Lava-Jato em curso”, disse Barroso.

APOIO A JANOT – “Aparentemente, assim se supõe, ainda continuam práticas de corrupção extremamente graves. A face positiva é que temos enfrentado isso e outros problemas dentro do quadro da mais absoluta legalidade institucional, do respeito ao direito de defesa” – acrescentou Barroso.

Em seguida, o ministro manifestou apoio a Janot, atacado por Temer como parte da estratégia de defesa política desenhada pelo Palácio do Planalto.

“O presidente, como qualquer investigado, tem direito a presunção de inocência e de apresentar a defesa e procurar demonstrar que não praticou aqueles atos ou que os atos não são ilícitos. Embora, pessoalmente, ache que a defesa técnica não inclui desqualificar a honra do acusador. No meio jurídico, todo mundo sabe quem é quem e ninguém acha que o procurador-geral da República se moveu por interesses pecuniários” – destacou.

DISCURSO REFORMISTA – Barroso ironizou ainda o discurso reformista implementado pelo governo Temer como uma alternativa à gestão de Dilma Rousseff. Para o ministro, a queda da então presidente foi executada com um artifício de regimes parlamentaristas, não presidencialistas, como é o caso do Brasil.

“Olhando pelo retrovisor, eu penso que se utilizou sobretudo um instrumento do parlamentarismo para destituição de um chefe de governo no modelo presidencial. Houve um abalo, mas prometia-se, em troca disso, as reformas. Aparentemente, nós ficamos só com o abalo” – analisou o ministro, completando. “Se é golpe ou não é golpe, cada um vai ter sua visão política. Mas a destituição de um presidente da República por perda de sustentação política e não por corrupção ou fatos graves é uma figura do parlamentarismo e não do presidencialismo”.

SEGUNDA INSTÂNCIA – O ministro criticou a possibilidade de o STF voltar atrás e rever a decisão que permite a prisão após a condenação em segunda instância, o que, para ele, seria um exemplo de prática de um “Estado de compadrio”.

Ele negou também a existência de um “Estado policial”, em função da atuação de investigadores e juízes da Lava-Jato, e afirmou que o direito penal se “democratizou”, alcançando também os estratos mais ricos da sociedade.

“O Estado que pune o empresário que ganha a licitação porque pagou propina não é um Estado policial. É um Estado de Justiça. O que estamos fazendo é um Estado Democrático de Direito lutando contra uma república de bananas que varria tudo para baixo de debate e chancelava um pavoroso pacto oligárquico que havia no Brasil entre agentes políticos, econômicos e a burocracia. É esse pacto oligárquico que o Judiciário está, de certa forma, tentando quebrar, até por que quem se anunciou politicamente como titular para quebrar esse pacto oligárquico se aliou a ele e o aprofundou” – afirmou.

REFORMA POLÍTICA – Barroso defendeu a necessidade de uma reforma política e afirmou que os defensores da volta do financiamento privado para campanhas “só pensam em dinheiro”.

“O Congresso Nacional assinaria sua carta de redenção e ajudaria a reparar seu descolamento da sociedade brasileira aprovando esta reforma política com pelo menos a cláusula de barreira, o fim das coligações em eleições proporcionais e acho que há uma demanda social imensa por voto distrital, que barateia, combinado com o sistema proporcional. O sistema alemão, com voto distrital misto” – opinou.*

(*) Marco Grillo

 

(mais…)

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O governo de Temer está esfarelando

Noves fora Janot e a Polícia Federal, o bunker dos tabajaras produziu três grandes vexames em apenas dez dias


Se Michel Temer tivesse renunciado em maio, ou quando Fernando Henrique Cardoso sugeriu-lhe esse caminho, não entraria para a História como o primeiro presidente acusado de corrupção pela Procuradoria-Geral da República.

Sua persistência tem um aspecto pessoal, a defesa da própria biografia. As consequências públicas dessa decisão têm sido a mobilização de uma tropa de choque e o esfarelamento do governo, colocando em risco o que resta do Poder Executivo.

Temer diz que é acossado por uma “infâmia” e que “nada nos destruirá”, mas está se destruindo com lambanças e empulhações. Nada a ver com o relatório da Polícia Federal e a denúncia do procurador Rodrigo Janot. Em apenas dez dias, a gestão tabajara produziu três ruínas.

A máquina do Itamaraty sabe que Brasília tornou-se uma escala maldita. A chanceler alemã Angela Merkel foi à Argentina e não parou no caminho, nem para reabastecer. Mesmo assim, Temer resolveu mostrar desembaraço internacional e viajou para a Rússia e Noruega. A perna norueguesa, indo a uma nação de militância ambientalista, foi coisa de amador.

O vexame de presenciar o corte de 50% da contribuição norueguesa para o Fundo Amazônia veio dos números de desmatamento. Bem outra coisa foi o carão da primeira-ministra Erna Solberg: “Estamos preocupados com o processo da Lava-Jato, esperamos uma limpeza e que sejam encontradas boas soluções”.

Limpeza, tudo bem, mas não ficou claro o que a senhora entende por “boas soluções”.

Pelo menos duas empresas norueguesas entraram na farra das sondas marítimas da Petrobras. Em 2012, a Odfjell assinou um contrato com a Sete Brasil pelo qual ela pagava academias de ginástica para os noruegueses e escolas para seus filhos. Esses pixulecos, estendidos a todos os sócios da Sete Brasil, custaram-lhe US$ 50 milhões em 2013.

Além disso, não era necessário ser um gênio para perceber que as sondas estavam com preços acima do mercado e que a Sete Brasil era uma fantasia de petistas e larápios.

Madame Solberg poderia ter ouvido da comitiva de Temer que uma parte da limpeza poderia ser feita no seu quintal.

O ministro Antonio Imbassahy, da Secretaria de Governo, respondeu como a humildade dos colonizados: “É o pensamento dela. Nós respeitamos”.

O que Imbassahy tinha a ver com a viagem, não se sabe. Com ele estava Paulo Bauer, líder do PSDB no Senado. Enquanto eles flanavam, o projeto de reforma trabalhista do governo foi rejeitado numa comissão da Casa.

A PF e Rodrigo Janot também não tiveram participação no lance do Gabinete de Segurança Institucional que identificou nominalmente o chefe do escritório da Central Intelligence Agency em Brasília. Muito menos com a explicação oferecida aos brasileiros.

Esses vexames foram produzidos por uma presidência que, ao longo desses mesmos dez dias, foi bem avaliada por apenas 7% dos entrevistados pelo Datafolha. De quebra, o governo americano proibiu a importação de carne fresca brasileira.

Coisas da vida, mas até a sorte tem faltado a Temer. A Força Aérea Brasileira interceptou um bimotor que carregava 500 quilos de cocaína, e o traficante tinha um plano de voo falso informando que decolara de uma das muitas fazendas da empresa de Blairo Maggi, o bilionário ministro da Agricultura. Ele pretende voar para Washington, onde discutirá o veto à carne.*

(*) Elio Gaspari é jornalista – O Globo