“SE GRITAR PEGA LADRÃO”…

Amigos de Temer são seus maiores adversários

Movido à base de verdades próprias, Michel Temer acredita que a recessão acabou e que seu governo é vítima de um complô de gente impatriota que não quer ver o Brasil de volta aos trilhos. Decidiu se defender atacando. Transformou o Planalto num bunker e, cercado de generais investigados, passou a fabricar crises a partir do nada. A última grande ideia do alto comando governamental foi escalar o doutor Torquato Jardim para assumir o controle da Polícia Federal. Neste sábado, agentes da PF, já sob nova direção, prenderam em Brasília Rodrigo Rocha Loures, símbolo da fase de autocombustão do governo Temer.

Sob influência dos seus malfeitores de estimação, Temer foi convencido de que a transferência de Torquato do Ministério da Transparência para a pasta da Justiça era uma grande ideia. Imaginando-se invulnerável, o presidente humilhou Osmar Serraglio. Desalojou-o da Justiça sem aviso prévio. Estava certo de que o deputado licenciado aceitaria sem titubeios o rebaixamento para a pasta da Transparência. Serraglio limpou as gavetas, escreveu uma carta com ataques aos “estrategistas trôpegos” do Planalto e reassumiu seu mandato de deputado. Deixou o suplente Rocha Loures ao relento. E levou os glúteos de Temer à vitrine.

A essa altura, a infantaria da Procuradoria já havia preparado o bote. A idéia de que seria possível manter solto, sem o escudo das imunidades parlamentares, um sujeito que fora filmado recebendo uma mala com propina de R$ 500 mil só passa pela cabeça dos malucos de palácio —uma gente desconectada da realidade, que tem dificuldade para perceber o que se passa na vida real.

Quando enviou para o Supremo Tribunal Federal a renovação do pedido de prisão do homem da mala, o procurador-geral da República Rodrigo Janot já sabia qual seria a decisão do ministro Edson Fachin. Ao negar o primeiro pedido, o relator da Lava Jato reconhecera que havia razões objetivas para encarcerar Rocha Loures. Mas alegara que um deputado não poderia ser preso senão em flagrante delito. Ao empurrar o ex-assessor para fora da Câmara, Michel Temer fez o favor de remover o único obstáculo que impedia o seu envio para o xilindró: o mandato parlamentar.

Alçado ao trono nas pegadas da deposição de Dilma Rousseff, uma presidente que também se considerava vítima de conspiração, Temer já deveria ter notado que vive um momento inédito da história brasileira. Nesse instante especial, não convém a um governante conversar com empresário corrupto, na calada da noite, no porão do palácio residencial. Na fase atual, a corrupção tornou-se um ofício perigoso. O medo da cadeia transforma corruptores em colaboradores da Justiça. E a colaboração fortalece a investigação.

Impossível saber quais serão os próximos passos de Temer na sua guerra contra a lógica e o bom senso. Mas a simples revelação de que o bunker imaginou que um Torquato teria o condão de transformar pântano em jardim não deixa dúvidas: os grandes amigos do presidente são seus principais adversários.*

(*) Blog do Josias de Souza

E A CRISE CHEGOU LÁ…

Crise chega a restaurantes tradicionais da cidade do Rio

Estabelecimentos enfrentam prejuízos e são obrigados a encerrar atividades

 Osteria dell'Angolo, em Ipanema, está à venda. Sócio diz que violência tem afastado clientes Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
Osteria dell’Angolo, em Ipanema, está à venda. Sócio diz que violência tem afastado clientes- Guito Moreto / Agência O Globo

RIO – Do bife do Lamas ao biscoito Globo com mate na praia, passando pelas trufas negras do Fasano al Mare, a gastronomia carioca é de dar água na boca. A diversidade é outra marca: há restaurantes para todos os bolsos, e a boa comida pode ser servida num quiosque à beira-mar. Mas um fenômeno está esvaziando o prato de cariocas: a combinação da crise econômica com o aumento da violência na cidade. O Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes estima que a queda no movimento nos estabelecimentos chega a 40%.

Mesmo sem números exatos, o revés à mesa fica cada vez mais evidente, todos os dias, com casas tradicionais, algumas com quase 50 anos de existência, fechando as portas. As que resistem buscam ingredientes fora do cardápio básico para sobreviver, inclusive apelando para serviço delivery. A última má notícia veio da Antica Osteria Dell’Angolo, reduto de artistas e intelectuais em Ipanema, que está à venda.

O anúncio de que o casarão de dois andares será vendido foi feito pela jornalista Luciana Fróes, em seu blog “Anotações Gastronômicas”, e ainda está sendo digerido pelos fãs da comida italiana. Um clássico tão inegável, a despeito dos preços salgados dos pratos, que Chico Buarque tem uma mesa cativa no restaurante.

Quem pode se dar o luxo está correndo para, ao menos, desfrutar de um jantar de despedida. Localizada na esquina das ruas Paul Redfern e Prudente de Moraes, a Osteria foi fundada em 1995 e carrega histórias memoráveis. Foi lá que, dois dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais de 2002, Luiz Inácio Lula da Silva bebeu um Romanée-Conti 1997, um dos vinhos mais caros do mundo, levado pelo publicitário Duda Mendonça. Em 2014, o restaurante anexou uma pizzaria vizinha, dobrando de tamanho. Desde então, a Osteria, que tinha filas na porta, vem ficando mais vazia.

Um dos sócios da casa, o milanês Luciano Pessina reconhece que o movimento caiu muito nos últimos meses, mas, segundo ele, problemas particulares precipitaram a decisão de vender o imóvel.

‘As pessoas perderam o poder de compra. O movimento caiu, enquanto os custos aumentaram. Depois, vimos que não tinha mais jeito’

— A venda do imóvel não é consequência só da crise. Estamos aguentando. É uma situação de instabilidade. Ninguém sabe o que vai acontecer. Os clientes ficam com medo de sair de casa. Aumentou a violência. Chega 23h, e as ruas ficam vazias. Está difícil — diz Pessina.

Outras boas mesas estão à míngua. Aberto em novembro de 2010 e premiado três vezes pelo Guia Michelin na categoria Bib Gourmand (por ser um lugar onde se come bem a bom preço), o espanhol Entretapas, em Botafogo, sai de cena no próximo sábado. Os sócios Jean Santos e Antonio Alcaraz não quiseram comentar o assunto, mas, numa postagem no Facebook, escreveram que “a marca Entretapas continua com o objetivo de retomar novas atividades em um futuro próximo”. Perto dali, no Humaitá, a loja Mutações e o Café do Largo, um bistrô orgânico que fica no fundo do estabelecimento, fecham as portas hoje.

VIOLÊNCIA PESA NA CONTA

Dono da rede Gula Gula e presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, Pedro de Lamare explica que a crise, que reduziu a clientela em até 40%, tem uma forte contribuição dos indicadores de criminalidade. O aumento dos roubos de carga, inclusive de gêneros alimentícios que abastecem restaurantes, também está na raiz do problema.

— Estamos com muito medo da forma como a segurança está andando. Podemos assistir a uma grande tragédia no Rio. A falta de segurança também afeta o abastecimento diretamente. O preço do filé mignon subiu 20% em função dos roubos de carga. As seguradoras não estão cobrindo as viagens noturnas porque esse tipo de crime tomou grande dimensão. De janeiro de 2016 até agora, subiu o ICMS para quem estava no regime especial, aumentando os custos. A conta não fecha. Além disso, o estado também não paga seu funcionalismo, que são nossos clientes, como todo mundo — comentou.

Durou pouco também a experiência do Ró, no Jardim Botânico, o primeiro restaurante do Rio especializado em raw food (comida crua, em inglês). Sócio da empreitada, que durou seis meses, de junho a dezembro do ano passado, o crítico de vinhos Alexandre Lalas reconhece que pode ter subestimado a crise e superestimado o mercado.

— Quando acabou a Olimpíada, parece que o Rio acabou. Fora a crise, temos uma legislação trabalhista e fiscal muito complicada. Isso sufoca o empregador e o empregado. Só quem ganha é o governo — disse.

Na esteira da crise, só nos seis primeiros meses deste ano, foram fechados a unidade de Botafogo da churrascaria Estrela do Sul, como noticiou o colunista Ancelmo Gois na última quinta-feira, a livraria-restaurante Al-Farabi, no Centro, o Atrium, no Paço Imperial, a hamburgueria americana PJ Clarke’s, no BarraShopping, o italiano Benedictine, no Village Mall, e o Petisco da Vila, em Vila Isabel. O empresário Renato Caumo, um dos sócios da churrascaria Estrela do Sul, desabou em lágrimas ao falar sobre o fechamento da casa, inaugurada em 1972 no Mourisco, em Botafogo, e transferida 23 anos depois para espaço próximo ao shopping Casa & Gourmet:

— Imagina dedicar uma vida inteira a uma atividade, sempre procurando fazer o melhor, com muito carinho, com três gerações envolvidas. Tudo o que tenho na vida consegui graças a essa atividade, e agora preciso me desfazer (do restaurante), acabar com uma história dessa. Não é fácil não.

Segundo ele, tudo foi tentado: até mesmo venda de patrimônio e empréstimos bancários. Mas não houve jeito. A crise bateu forte no grupo, com 45 anos de fundação e que agora mantém com dificuldades as unidades no Maracanã, no Norte Shopping e no Recreio.

— As pessoas perderam o poder de compra. O movimento caiu, enquanto os custos aumentaram. Vendemos patrimônio e tudo. Depois, vimos que não tinha mais jeito. A crise econômica, a violência, juros extorsivos, tudo somado… — afirmou Caumo, acrescentando que as outras três filiais também “respiram com ajuda de aparelhos”. — Não sei quanto vamos aguentar.

DELIVERY PARA RESISTIR À CRISE

Criadora do bolinho de feijoada, um dos petiscos mais famosos da cidade, a chef Kátia Barbosa, do Aconchego Carioca, cuja primeira unidade foi aberta na Praça da Bandeira, vem refazendo as contas e apostado em promoções para superar a crise. Já demitiu oito funcionários no restaurante da Praça da Bandeira e quatro no do Leblon. Ela também negocia a redução do preço do aluguel das duas filiais. Há dois meses, começou a trabalhar com o serviço de delivery e diz que a “nova receita” tem dado certo.

— O Aconchego tem 15 anos, e nunca passamos por uma crise. Então, estamos tendo que rebolar. Nessa situação, aprende-se a valorizar pequenos hábitos, pequenos cuidados com os clientes, por exemplo. Quando eu sair dessa crise, vou ser uma administradora melhor. Tudo tem um lado positivo — disse a chef.*

(*)  GUILHERME RAMALHO – O GLOBO

 

AFINAL, QUANDO SERÁ PRESO?

MPF pede prisão de Lula e multa de R$ 87 milhões no caso do tríplex

No pedido, o Ministério Público Federal também quer o pagamento de R$ 87 milhões em multas

BRASIL – O Ministério Público Federal pediu a condenação e prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Os procuradores também pedem que seja devolvido aos cofres públicos R$ 87,6 milhões, referentes a contratos da OAS com a Petrobras. De acordo com o MPF, o tríplex está em nome da OAS mas seria, de fato, do ex-presidente, como contrapartida por contratos que a OAS fechou com a Petrobras no governo do petista. Lula nega as acusações.

No documento de alegações finais entregue ao juiz Sergio Moro, os procuradores pedem a condenação com base em provas indiciárias. Afirmam que o Supremo Tribunal Federal tem externado que a prova por indícios é apta a lastrear a condenação, mesmo quando baseada em presunções.

Para eles, a dificuldade de produzir provas de que o apartamento pertence à família de Lula é fruto da profissionalização dos crimes de lavagem de dinheiro.

“O ponto aqui é que disso tudo flui que os crimes perpetrados pelos investigados são de difícil prova. Isso não é apenas um “fruto do acaso”, mas sim da profissionalização de sua prática e de cuidados deliberadamente empregados pelos réus”, dizem os procuradores.

Para o MPF, o fato de o apartamento ter se mantido em nome da OAS foi a forma encontrada para que a propriedade fosse ocultada de terceiros.

Os procuradores afirmam que Lula foi o responsável pelo esquema de corrupção na Petrobras, pois no lugar de “buscar apoio político por intermédio do alinhamento ideológico ” para governar o país, comandou a formação de um esquema criminoso de desvio de recursos públicos destinados a comprar apoio parlamentar de outros políticos e partidos, que enriqueceu envolvidos e financiou as “caras campanhas eleitorais” do PT.

O MPF afirma ainda que as modernas técnicas de investigação e de coleta de provas admite probabilidades, evidências e “inferência para uma melhor explicação”. E lembram que no apartamento de Lula foram apreendidos documentos referentes ao tríplex 164-A, alguns com adulteração.

“Assim, o que se deve esperar no processo penal é que a prova gere uma convicção para além de uma dúvida que é razoável, e não uma convicção para além de uma dúvida meramente possível. É possível que as cinco testemunhas que afirmam não se conhecer, e não conhecer suspeito ou vítima, mintam por diferentes razões que o suspeito matou a vítima, mas isso é improvável”, afirmaram no documento.

Os procuradores dizem ainda que, ao depor ao juiz Sergio Moro, Lula admitiu dar a palavra final na nomeação dos diretores da Petrobras e que o modus operandi de manter o triplex registrado em nome da OAS Empreendimentos “serviu para ocultar a origem e dissimular a verdadeira propriedade do apartamento perante terceiros, uma vez que a unidade pertencia materialmente” a Lula e sua mulher, Marisa Letícia, já falecida, facilitando o repasse de valores ilícitos.

Além de Lula, o MP, nas alegações finais, voltou a pedir a condenação Paulo Okamotto (lavagem de dinheiro), José Adelmário Pinheiro (corrupção ativa e lavagem de dinheiro), Agenor Franklin Magalhães Medeiros (corrupção ativa), Paulo Gordilho (lavagem de dinheiro), Fábio Yonamine (lavagem de dinheiro) e Roberto Moreira Ferreira (lavagem de dinheiro).

LULA NEGA ACUSAÇÕES

Em nota, a defesa de Lula alega, mais uma vez, sua inocência. “O ex-presidente não é e jamais foi proprietário do triplex, que pertence a OAS e foi por ela usado para garantir diversas operações financeiras”, escreveram os advogados Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Martins.

“As alegações finais do MPF mostram que os procuradores insistem em teses inconstitucionais e ilegais e incompatíveis com a realidade para levar adiante o conteúdo do PowerPoint e a obsessão de perseguir Lula e prejudicar sua história e sua atuação política”, afirmaram, em referência aos slides apresentados pelo procurador Deltan Dallagnol em setembro de 2016.

“Nos próximos dias demonstremos ainda que o MPF e seus delatores informais ocultaram fatos relevantes em relação ao tríplex que confirmam a inocência de Lula – atuando de forma desleal e incompatível com o Estado de Direito e com as regras internacionais que orientam a atuação de promotores em ações penais”, finalizaram.

Em nota, o advogado Fernando Augusto Fernandes, que defende Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, ressalta que o processo demonstrou não existir qualquer ilegalidade em relação ao armazenamento do acervo do ex-presidente Lula, por isso, acredita na absolvição de seu cliente.*

(*) CLEIDE CARVALHO – O GLOBO

A VELHA E BOA PAPUDA

Rocha Loures será transferido para o presídio da Papuda
Ex-deputado foi detido neste sábado em casa, em Brasília


BRASÍLIA – Ex-assessor do presidente Michel Temer, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures está detido numa cela da Superintendência da Polícia Federal. Ele foi preso no início da manhã deste sábado e, na segunda-feira, será transferido para a ala federal do Complexo Penitenciário da Papuda. Loures estava em casa com a mulher grávida de 8 meses, quando foi detido.

A ordem de prisão foi expedida pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, relator da Lava-Jato, a pedido do procurador-geral Rodrigo Janot. Loures é acusado de receber propina da JBS em nome de Temer. O ex-deputado e o presidente respondem juntos a inquérito por corrupção no STF.

Na decisão, Fachin considerou “gravíssima” a conduta do ex-assessor de Temer e explicou que só não havia determinado a prisão antes por conta do mandato parlamentar exercido por Rocha Loures. Segundo o ministro, a prisão é “imprescindível” para interromper o cometimento de crimes.

“Não se trata de aferir a gravidade delitiva para fins de retribuição penal, já que as medidas cautelares não podem figurar como instrumento de punição antecipada. Contudo, em determinados casos, as peculiaridades do delito podem evidenciar maior reprovabilidade e, nessa medida, tais peculiaridades podem robustecer o receio de reiteração delituosa e, por consequência, o risco à ordem pública”, disse Fachin, que completou:

“Sob essa ótica, lamento averbar, mas é gravíssima a conduta narrada, considerando-se os valores em pauta e o poder de influência das autoridades envolvidas”.

Segundo Fachin, os fatos sugerem “reiteração delitiva que teria se iniciado de longa data, por parte dos executivos do grupo J&F e o então deputado federal Rodrigo Santos Rocha Loures”.

“Mesmo no conteúdo dos últimos fatos que vêm sendo descortinados, dando conta de inúmeras apurações em curso para coibir práticas reiteradas e disseminadas de associação entre grupos econômicos e autoridades públicas, onde aqueles corrompem estas em prejuízo dos interesses mais caros da República, ainda assim, o agente aqui envolvido teria encontrado lassidão em seus freios inibitórios e prosseguiu aprofundando métodos nefastos de autofinanciamento em troca de algo que não lhe pertence, que é o patrimônio público”.

Fachin argumentou que – por ser assessor de estrita confiança de Temer – não caberiam alternativas à prisão preventiva de Rodrigo Rocha Loures. Ele ainda argumenta que nem mesmo o fato de o político ter deixado o cargo no Palácio do Planalto o impede de exercer influência.

“Tratando-se o representado de político com influência no cenário nacional, até pouco tempo deputado federal e assessor do presidente Michel Temer, além de pessoa de sua mais estrita confiança, como declarado em áudio captado, revelam-se insuficientes para a neutralização de suas ações, medidas diversas da prisão”, disse o ministro, que completou:

“A circunstância de o representado não exercer mais cargo público algum não altera essa conclusão, uma vez que o poder não tem necessariamente relação com os vínculos jurídicos formais, tratando-se, antes, de relação fática”.

ADVOGADO VAI RECORRER

O advogado Cézar Bitencourt, que defende Loures, disse que vai recorrer da prisão. Para o advogado, não havia necessidade da prisão do ex-deputado.

– Ele está preso indevidamente. É desnecessária a prisão. Não tem nenhum fato que autorize a prisão. Ele não é mais deputado, não é mais assessor, não recebe mais mando do presidente. E estava em casa com a esposa, grávida de oito meses – disse Bitencourt.

O ex-deputado é investigado no Supremo Tribunal Federal no mesmo inquérito sobre o presidente Michel Temer, aberto após a delação da JBS. Em depoimento, o dono da JBS Joesley Batista afirmou que Rocha Loures foi indicado pelo presidente para tratar de assuntos de interesse da empresa.

Numa conversa gravada pelo dono da JBS no porão do Palácio do Jaburu, Temer indicou Loures para conversar sobre “tudo” de interesse do empresário. Logo depois Loures foi flagrado acertando cargos e decisões estratégicas do governo federal com Batista.

Num segundo momento, o ex-deputado foi filmado recebendo uma mala recheada com R$ 500 mil repassada à ele por Ricardo Saud, operador da propina da JBS. A mala de dinheiro fazia parte de uma propina de R$ 480 milhões a ser paga ao longo de 20 anos, conforme indica a investigação.

O Ministério Público Federal reapresentou o pedido de prisão de Rocha Loures na quinta-feira, depois que foi formalizada a posse do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) que saiu do Ministério da Justiça e retornou à Câmara. Com o posse de Serraglio, Loures perdeu a vaga por ser apenas suplente de deputado.

No pedido de prisão, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que Rocha é “verdadeiro longa manus do presidente Michel Temer”. A expressão em latim é usada para descrever aquele que atua como executor das ordens de outro.*

(*) JAILTON CARVALHO – O GLOBO

UM MINISTRO PRA CHAMAR DE SEU

Meu ministro de estimação

No STF, Barroso foi contundente: o foro privilegiado traz impunidade. O que Moraes pode alegar contra isso?

Como muita gente tem um “bandido de estimação” e fecha os olhos a seus crimes, repetindo o refrão “todo mundo sempre roubou” para justificar violações da ética e assaltos aos cofres públicos, eu tenho hoje meu ministro de estimação. E ele não faz parte do moribundo governo Temer.

Luís Roberto Barroso é ministro do Supremo Tribunal Federal desde junho de 2013. Sua atuação para acabar com a farra do foro privilegiado para bandidos comuns na política tem sido exemplar. Seu voto, como relator, na quinta-feira, dia 1º, foi acompanhado por três colegas – Rosa Weber, Marco Aurélio Mello e a presidente Cármen Lúcia, que não costuma se antecipar dessa maneira, mineira que é. Cármen quis passar um sinal: estou atenta e de olhos bem abertos.

Os três juízes que votaram com Barroso não se deixaram constranger pela manobra de Alexandre de Moraes, que adiou a decisão. Moraes, colocado no STF por Temer, pediu vistas e falou no plenário por uma hora e meia para justificar o injustificável. Não teve tempo para estudar o assunto, Vossa Excelência?

Barroso, ao contrário de Moraes, tem os dons da concisão e da contundência. “O sistema [atual do foro privilegiado] é ruim, funciona mal, traz desprestígio para o Supremo, traz impunidade. Eu penso que a impunidade em geral no Brasil é decorrente de um sistema punitivo ineficiente. Criamos um direito penal que produziu um país de ricos delinquentes. No Brasil, as pessoas são honestas se quiserem, porque, se não quiserem, não acontece nada.”

Barroso não eleva a voz, não faz caras e bocas, não mexe na capa preta ou declama como se estivesse num palco. Não é boquirroto. Não percebo a vaidade extrema que caracteriza alguns de nossos juízes. E vocês sabem a quem me refiro. Barroso sabe dar alfinetadas elegantes. Insinuou que se opõe à blindagem de Moreira Franco, nomeado ministro por Temer após a delação da Odebrecht. Com Medida Provisória para que o “Angorá” não seja interrogado pelo juiz Sergio Moro.

Barroso não deu nome ao boi: “Basta verificar que distribuem-se cargos com foro no Supremo para impedir o alcance da Justiça de primeiro grau”. Ou seria “aos bois”, no plural? O governo se esforça para garantir foro privilegiado ao homem da mala Rodrigo Rocha Loures, imortalizado na história por sua corridinha com R$ 500 mil da JBS, após encontro com o assessor de Joesley Batista. Encontro avalizado por Temer.

Brasília é hoje cenário de uma imensa maquinação para garantir a impunidade geral, ampla e irrestrita, suprapartidária. Pode-se até aprovar o fim do foro no Congresso, mas será cancelada a prisão de deputados e senadores em casos de flagrante por crime inafiançável. Esses casos dependerão de voto nos plenários da Câmara e do Senado. Tudo é planejado para manter privilégios. Esperneiam para não ser punidos. Buscam brechas. Manipulam prazos.

No sistema atual, o foro protege não o cargo, mas as pessoas que exercem o cargo. É uma clara distorção de um mecanismo que a sociedade abomina, por perpetuar a desigualdade de direitos perante a Justiça. E para uma casta que não tem castidade nenhuma… Na visão de Barroso, “o foro por prerrogativa de função aplica-se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionado às funções desempenhadas”. O que Alexandre de Moraes & cia. podem alegar contra isso?

Segundo Barroso, existem cerca de 500 processos criminais no Supremo, entre ações penais e inquéritos, a quase totalidade contra parlamentares. Ele informou que o STF leva um ano e meio para receber uma denúncia, enquanto um juiz de primeira instância recebe a denúncia, em média, em 48 horas. Essa diferença ocorre porque o procedimento nos tribunais superiores é muito mais complexo, explicou.

Barroso tem 59 anos e se especializou em Direito Constitucional, no tema da dignidade humana. Como advogado, defendeu as pesquisas de células-tronco embrionárias, a união entre homossexuais, o aborto de fetos anencefálicos. Defendeu a proibição do nepotismo no Poder Judiciário. No ano passado, na única decisão sua a que me oponho frontalmente, concedeu perdão a José Dirceu na pena de sete anos imposta pelo escândalo do mensalão.

Hoje, a escola de samba da impunidade tem como comissão de frente a ala que protege Temer, em enredo-exaltação chamado “acabou a recessão”. Se for substituído o diretor da Polícia Federal, Temer estará imitando o presidente americano Donald Trump, que demitiu o chefe do FBI em plena investigação. Ao dar posse ao novo ministro da Justiça, Temer disse que o país vive um “conflito institucional”. O conflito existe, mas não pelo “abuso de autoridade” de juízes e procuradores que tira o sono de Temer, Lula, Dilma, Aécio e outros. O conflito existe pelo abuso de poder dos políticos.*

(*) Ruth de Aquino – Época

O INVENTOR DAS GRANDES MARACUTAIS

Operação Carne Muito Fraca

Como até os pedalinhos de Atibaia sabem, Lula inventou os irmãos Batista no meio empresarial

O Brasil viu o PT criar o monstro JBS e ficou calado. O Brasil viu o monstro emboscar um presidente e depois voar livre para Nova York. Cadeia para o Brasil.

O que os companheiros Janot e Fachin consideraram suficiente para abrir investigação contra Michel Temer é um soluço diante daquilo que, durante dois anos, acharam insuficiente para abrir investigação contra Dilma Rousseff – a presidente do petrolão. A incrível rapidez dessa operação (que poderia se chamar Carne Muito Fraca) fez surgir nas redes sociais os codinomes de Rodrigo Enganot e Edson Facinho. Que gente má.

Antes dessa mão de areia jogada nos olhos da plateia, o espetáculo verdadeiro chegava ao coração do escândalo com as revelações de João Santana e Mônica Moura. Ali ficava claro – mais do que nunca – que o proverbial assalto exposto pela Lava Jato fora regido de dentro do palácio petista, sem intermediários.

O marqueteiro e sua esposa mostraram como o governo (repetindo: o governo, não o partido) agia para embaraçar as investigações da força-tarefa – inclusive tentando preveni-los da prisão e, consequentemente, evitar sua delação. Coisa de máfia. Acusado de atuar nesses vazamentos está o ex-ministro da Justiça – o mesmo que triangulava com o procurador-geral e o STF no longo período em que Dilma, a idônea, era tornada imune a investigações.

Como até os pedalinhos de Atibaia estão cansados de saber, Lula e sua revolução redentora inventaram os irmãos Batista como potência empresarial. Os subterrâneos do BNDES têm muito a revelar sobre essa história de sucesso, mas a Operação Carne Muito Fraca chegou bem na hora para embaçar a cena. O que se viu foi uma homologação tipo fast-food da espionagem de Joesley e da conclusão quase mediúnica sobre uma suposta autorização do presidente da República para a compra do silêncio de Eduardo Cunha.

Tudo muito grave. Ou o presidente tem de ser afastado e preso – e essa investigação não pode parar antes do fim – ou terá sido um erro de psicografia. Aí quem psicografou vai ter de pagar. Na mesma moeda.

Existirá psicografia seletiva? Fica a dúvida. Porque as mesmas mentes que detectaram crime do presidente na conversa com o campeão do Lula parecem não ter notado os crimes do campeão. Na mesma conversa, ele diz ter subornado meio mundo. Mas aí deu um tchau para os supremos companheiros e foi pousar livre como um pássaro na Quinta Avenida. Será que é normal? Ou seria paranormal?

Deixem os irmãos Batista curtir sua fortuna tranquilos em Nova York. O mais indicado mesmo, neste momento, é o Brasil se entregar e negociar uma delação premiada. Conte tudo, Brasil. Confesse que você viu o monstro sendo criado pelo PT e engordando na sua cara. Admita que desde o mensalão você viu (ninguém te contou) Lula e seu Estado-Maior transformando grandes empresas nacionais em anexos do PT para comprar seus melhores sonhos totalitários. E, por favor, não venha agora fingir surpresa com o fato de a política nacional estar contaminada por esses tubarões. Dizem que quem não recebia PC Farias na era Collor caía em desgraça. PC era uma criança perto dos seus sucessores na era Lula.

O Brasil acordou invocado na semana passada, olhou-se no espelho e se descobriu virtuoso. Decidido terminantemente a ser a virgem do bordel. Tudo bem. O que acontecia antes disso era que um presidente antiquado, de um partido fisiológico, abrira as portas do Estado brasileiro para que as melhores cabeças pudessem saneá-lo, salvá-lo do desastre petista. Por que Temer fez isso? Não interessa. O que interessa é que o seu time de ouro iniciou um milagre e virou todos os indicadores na direção certa – a única que interessa à sua vida real, Brasil.

Mas você estava com saudade de ver heróis da resistência como Lindbergh Farias sabotando as reformas, não é verdade? Bem, então está dando tudo certo para você. O lobista de José Dirceu, condenado a 20 anos de prisão na Lava Jato, também já está solto. Siga apoiando o processo de depuração das instituições deflagrado pelos irmãos Batista. Quem sabe eles não se comovem e criam uma Bolsa Brasil? Aí talvez você possa até largar essa vida corrida e ir descansar para sempre no Guarujá.*

(*) Guilherme Fiúza – Época

PT = PARTIDO DOS TRAMBIQUEIROS

PT abocanhou R$ 616 milhões, quase metade das propinas do grupo JBS

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A JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, afirmou ter entregado R$ 1,4 bilhão em propinas nos 42 anexos de seu acordo de delação premiada, conforme informou “O Estado de S. Paulo”. Os valores nominais de 214 pagamentos constam dos depoimentos e planilhas apresentados pelos delatores envolvendo 28 partidos – não está claro, porém, o período que engloba os repasses. Em valores, o grupo concorre com a Odebrecht, cuja delação listou R$ 1,68 bilhão em repasses para 26 partidos.

Os repasses envolvendo a JBS podem ser maiores ainda se forem consideradas todas as doações eleitorais legais. O total relatado nos anexos é mais que o triplo do que Joesley Batista havia admitido ter pagado como propina – R$ 400 milhões – e mais do dobro do que afirmara Ricardo Saud, ex-diretor de Relações Institucionais da empresa (R$ 600 milhões).

PRÓ-GOVERNO – Os pagamentos a políticos, provados pelas planilhas, mostram que a JBS é mais governista do que a Odebrecht. No ranking da quantidade de verba que o grupo direcionou a políticos o PT lidera com R$ 616 milhões (43,5% do total) e R$ 453 milhões para o PMDB, partido de Michel Temer, que foi vice de Dilma Rousseff. A Odebrecht havia reservado 25,4% de seus repasses para os petistas e 14,7% ao PMDB.

No caso específico de Dilma e Lula, que comandaram o país antes de Temer, o empresário Joesley Batista disse que abasteceu duas contas para os ex-presidentes na Suíça. O saldo chegaria, só em 2014, a cerca de US$ 150 milhões (sendo US$ 80 milhões de Dilma e US$ 70 milhões de Lula), o que em valores atuais representariam R$ 487,5 milhões, ou seja, quase meio bilhão de reais.

A cifra pode ser ainda maior se for considerada a informação dada por Joesley Batista de que contas de Lula no exterior teriam recebido, em 2010, outros US$ 50 milhões (R$ 162,5 milhões, valores atuais) e de Dilma outros US$ 30 milhões (R$ 97,5 milhões). Somando os valores que teriam sido repassados a Dilma e Lula, juntos, em 2010 e 2014 chega-se à surpreendente cifra de R$ 747,5 milhões (em valores atuais). Só não está claro ainda se o cálculo de toda a propina paga ao PT inclui os valores das contas que os ex-presidentes teriam no exterior.

BNDES E FUNDOS – Os créditos dessas importâncias milionárias, segundo o delator, eram em grande parte decorrentes de propinas sobre empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Os saldos das contas vinculadas a Lula e Dilma eram formados pelos ajustes sucessivos de propina do esquema BNDES e do esquema gêmeo, que funcionava no âmbito dos fundos Petros e Funcef”, apontou o empresário em um dos anexos da delação.

Tanto nas delações dos irmãos Batista quanto nos relatos de Ricardo Saud o PSDB – até 2016 na oposição – aparece em terceiro lugar como beneficiário de propinas. Do dinheiro da JBS, os tucanos ficaram com R$ 90 milhões (6,3%), um pouco menos do que receberam da Odebrecht (8,9% do total).

PSD BENEFICIADO – Em quarto lugar na lista de repasses da JBS está o PSD, do atual ministro Gilberto Kassab, com 51,6 milhões (3,6 % do total). O PSD nasceu governista, durante a gestão de Dilma Rousseff, e se mantém assim com Temer.

Em uma anotação feita a mão pelo executivo Ricardo Saud consta uma lista de “partidos cooptados (parceiros) PT”. A primeira sigla a aparecer é a do PR, ao lado da qual foi anotado R$ 34 milhões. A relação segue com PSD (R$ 43 milhões), PP (R$ 45 milhões), PMDB (R$ 129,2 milhões), PCdoB (R$ 13 milhões), PDT (R$ 4 milhões), PV-SP (R$ 1 milhão), PRB (R$ 2 milhões) e termina com o PROS ( R$ 10,5 milhões).*

(*) O Tempo

E AGORA, MALACO?

Atenção, companheiro!

Perigo, atenção, cuidado, alerta (Foto: Arquivo Google)

Ricardo Noblat

Cuide-se, Lula! Você perdeu a exclusividade do discurso de que a Lava Jato foi concebida somente para condená-lo, e ao PT.

Aécio Neves passou a achar que a Lava Jato é contra ele. Michel Temer, idem. Renan Calheiros, Romero Jucá e um monte de gente.*

(*)  Blog do Ricardo Noblat

TROCARAM SEIS POR MEIA DÚZIA

Campeão nacional da bandalha

Joesley é um tipo de empresário brasileiro que acumula os defeitos do capitalismo e do socialismo, em causa própria

De perto ninguém é normal, cantou Caetano Veloso. Grampeado, então, nem se fale. Mas Joesley, Aécio, Temer, Zezé Perrella e Ricardo Saud superaram as expectativas mais pessimistas, pela linguagem que os nivela a chefões do tráfico.

A arrogância, a pobreza de vocabulário, os palavrões e intimidações, as ameaças e chantagens misturadas às noções de lealdade que remetem à omertà dos mafiosos, é essa gente, que fala essa língua, que manda no Brasil. Por enquanto.

Imaginem as ideias diabólicas, as propostas indecentes, as bravatas e conspirações entre eles, quando os gravadores estão desligados. É melhor não imaginar nada, a realidade já é suficientemente abjeta e revoltante.

Foram os políticos e funcionários que comeram na mão de Joesley que facilitaram seu acesso ao dinheiro “barato” do BNDES. Barato para ele, mas caro para o Tesouro Nacional, que pagava juros mais altos do que os que cobrava de Joesley.

Com a mamata ameaçada, ele queria tirar Maria Silvia do BNDES. Mas não estava sozinho, é o “Joesley de todos os Joesleys”, um tipo de empresário brasileiro que acumula os defeitos do capitalismo e do socialismo, em causa própria.

Caricatura grotesca de gângster sertanejo e maior matador de animais do mundo, Joesley simboliza o Brasil de hoje. Ao seu lado, até Marcelo Odebrecht fica menos arrogante, e papai Emílio vira um tiozão boa-praça como os chefões mafiosos sentimentais.

Do “fora Dilma” ao “fora Temer” ao “fora todos”, cresceram as legiões de políticos ameaçados pela Lava-Jato, dispostos a tudo para livrar a pele, até mesmo se unir a seus piores inimigos. São eles contra nós, numa guerra mortal que pode arrasar o Brasil, para que esses bandidos travestidos de políticos sobrevivam.

Quando você ouve Joesley exigindo de Temer mudanças no BNDES, no Cade, na Receita Federal e na CVM, nos termos e tons que usa, não precisa ouvir mais nada.

O irônico é que o erro fatal de subsidiar “campeões nacionais”, que vitimou a “direita nacionalista” do governo Geisel, foi repetido pela “esquerda desenvolvimentista” de Lula e Dilma. Só mudaram os nomes dos Joesleys.*

(*) Nelson Motta – O Globo