ALMA PENADA

Temer pato manco

Temer, O pato manco (Foto: Antonio Lucena)

(*) Arte: Antônio Lucena

Não está em jogo se Michel Temer é culpado por crime de corrupção.  Nem se existe prova de que de fato o cometeu.

Na sessão da Câmara dos Deputados marcada para esta quarta-feira estará em jogo apenas se o Supremo Tribunal Federal (STF) deve examinar a denúncia contra ele.

Se pudesse fazê-lo, talvez concluísse por seu arquivamento. Se a aceitasse, Temer seria processado, absolvido ou condenado.

A maioria dos deputados está disposta a impedir que a Justiça livre Temer da suspeita de que prevaricou. A proceder assim, ele carregará para sempre a condição de ter sido o primeiro presidente da República do Brasil denunciado por crime de corrupção passiva.

Tal condição deveria ser desconfortável para qualquer pessoa que presasse sua própria biografia. Até mesmo para um político como Temer.

Diria que principalmente para um político como Temer, respeitado como jurista, autor de livros adotados nas Faculdades de Direito e que jamais fora acusado em um tribunal por falcatruas.

O que ele receia? Que o STF acolha a denúncia? Temer sabe que o simples acolhimento estaria longe de significar que ele possa ser culpado. Se não sabe, pergunte a um Renan Calheiros, por exemplo.

Desconfia da falta de independência dos ministros da mais alta Corte de Justiça do país, vários deles seus amigos? Considera que eles se renderiam a pressões políticas para condená-lo? Que o julgariam de olho nos resultados das pesquisas de opinião?

Ou o poder cegou Temer a ponto de ele desprezar severos danos à sua imagem desde que possa continuar a exercê-lo a qualquer custo? Bem, a não ser…

A não ser que tenha medo do que pudesse ser descoberto nas investigações que se seguiriam à aceitação da denúncia pelo STF. O que o ex-deputado Rocha Loures, o homem da mala, diria caso lhe cobrassem explicações?

O que diria se perdesse a tornozeleira eletrônica surrupiada a um dos muitos condenados em Goiás à espera de uma para cumprir pena em casa?

Loures é grato ao governo por estar em prisão domiciliar, e não de volta à Penitenciária da Papuda, em Brasília. Sua gratidão, no entanto, tem limite.

A mais recente edição da revista ÉPOCA trouxe documentos da delação do Grupo JBS que alimentam a fogueira onde ardem Temer, Lula, Dilma e dezenas de outros políticos. Há mais delações a caminho. E novas denúncias.

Temer e seus acólitos correm contra o tempo para que não passe desta semana o sepultamento na Câmara da primeira denúncia do procurador Rodrigo Janot.

Anotem: se isso ocorrer, parte da culpa deverá ser debitada na conta da oposição ao governo. Sem a presença em plenário de um mínimo de 342 deputados de um total de 513, não haverá votação. Ficará para outra oportunidade.

O governo carece de 342 deputados propensos a negar o pedido de licença para que o STF analise a denúncia. Se a oposição comparecer à sessão mesmo que para votar pela aprovação do pedido, o governo só precisará de 172 votos para derrotá-lo.

Por ora, a oposição está dividida. Um pedaço dela quer ajudar a dar quórum e, assim, salvar Temer. Outro pedaço não quer.

Como o voto terá que ser anunciado ao microfone, saberemos como cada deputado votou. É isso que ainda inibe parte do PT, do PC do B e de dissidentes do PSB de admitir que prefere a vitória de Temer.

Um Temer pato manco seria o melhor para o país. Ou seja: para a oposição nas urnas de 2018. O “Fora, Temer” deu lugar ao “Fica, Temer”.

(*) Blog do Ricardo Noblat

 

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