PAÍS À DERIVA

A hora da Política

Não existe maneira de, numa democracia, haver progresso sem diálogo entre as forças políticas

O Brasil vive duas contradições ao mesmo tempo, ambas associadas com a política. Por um lado, poucas atividades, na sua origem, congregam tantos sentimentos altruístas como os que levam o indivíduo a ingressar na política e se dedicar às causas coletivas, geralmente na juventude e inspirado em valores como a preocupação com a coletividade, a solidariedade com os excluídos e a luta contra a injustiça. E, apesar disso, em que pese a nobreza inicial de propósito com a qual muitos se aventuraram nesse caminho, poucas atividades também terão se prestado tanto ao descrédito no Brasil — no mundo também, mas aqui numa escala assombrosa — como a política, vista por muitas pessoas — provavelmente, a maioria da população — como um meio de enriquecimento rápido por vias escusas por parte de uma casta de poderosos. Essa contradição entre a nobreza dos ideais iniciais e a corrupção mostrada dia após dia na mídia como parte do cenário brasileiro é a primeira.

A segunda contradição associada à política é que, ao mesmo tempo em que o sentimento que ela inspira à maioria dos eleitores no Brasil é de repulsa — e não é preciso se aprofundar muito nas causas, que são óbvias —, não há saída para o país fora da Política. Peço ao leitor que repare na letra maiúscula que empreguei, tanto no texto como no título. Não estou falando na política do jeito como nos acostumamos a conhecê-la, e sim na Política como espaço de diálogo entre grupamentos diferenciados que se respeitam e convivem civilizadamente, dentro de certas regras aceitas por todos e que sabem demarcar o espaço do bem comum.

O Brasil é uma sociedade complexa. Temos no país 27 estados, mais de 5.500 municípios, aproximadamente 30 partidos e, last but not least, uma economia com um PIB da ordem de US$ 2 trilhões e uma população de mais de 200 milhões de pessoas. Uma das coisas que eu dizia a meus alunos quando dava aulas de Finanças Públicas na Faculdade de Economia é que eles deveriam, em algum momento da vida, passar por duas experiências: serem membros do conselho de um prédio e passar um tempo trabalhando em Brasília. Eu passei por ambas. Na administração de um edifício, a pessoa aprende como, ao lidar com o que um amigo define como “bicho-homem”, é difícil conciliar interesses, mesmo num grupamento humano que deveria ter todas as características de homogeneidade que a princípio induziriam a imaginar certa facilidade de obter consensos. Não obstante isso, na minha experiência no tema, até cenas de pugilato acabei presenciando. E, em Brasília, o cidadão percebe, como diria Nelson Rodrigues, “a vida como ela é” e como se dá a ação dos lobbies no mundo real, certamente bem diferente do que os economistas consideramos quando escrevemos que o governo “deveria fazer isso ou aquilo”, como se tal coisa dependesse apenas do voluntarismo do presidente da República.

Neste imenso espaço territorial, convivem todo tipo de credos, empresários, trabalhadores, entidades patronais, sindicatos, fortíssimos grupos de pressão encastelados na administração pública, a Igreja como instituição, uma profusão de grupos defensores do meio ambiente, diversas correntes de opinião, uma mídia cada vez mais atuante etc. Quem julgar que poderá conduzir essa espécie de “Arca de Noé” da diversidade que é o Brasil na base, pura e simplesmente, do grito, está redondamente enganado. Não haverá saídas para o país, no atual contexto, baseadas em soluções autoritárias ou messiânicas.

Todos aqueles que aqui vivemos aspiramos ao progresso, no tempo que resta para aqueles que, como eu, já atravessamos o “Cabo da Boa Esperança” da vida e, principalmente, para as gerações dos nossos filhos e netos. Não há como, numa democracia, haver progresso sem diálogo entre as forças políticas. Para o bem do país, precisamos que as próximas eleições tragam três novidades. Primeiro, uma renovação da classe dirigente, com o surgimento de lideranças que estejam isentas dos vícios daquelas que estão sendo “varridas” pelos efeitos da Lava-Jato. Segundo, um debate efetivo de propostas, e não o marketing vazio das últimas campanhas eleitorais. E, terceiro, capacidade de diálogo entre as principais forças que resultarem do pleito eleitoral. Há uma enorme massa de cidadãos, não representados, que clama por isso.*

(*)  Fabio Giambiagi é economista –  O Globo