GLAMOUR GRATUITO

Sobre fuzis e Madonna
Não faz sentido a glamorização da violência. Nem as promessas de guerra do secretário de Segurança

De comoção em comoção, a cada enterro ou performance, embotamos nosso raciocínio e a capacidade de refletir e agir. Culpo em grande parte nossas autoridades, que dão declarações de guerra e jogam para a plateia igualzinho a Madonna, com roupas camufladas. Como se nenhum de nós tivesse memória. Como se todos fôssemos “like a virgin”.

Não somos virgens. O Rio de Janeiro revive pesadelos de décadas atrás. Voltamos às “balas perdidas”, às execuções na rua, aos arrastões aleatórios. Tínhamos avançado muito no tabuleiro da segurança pública, com a inteligência e firmeza do gaúcho José Mariano Beltrame, que ficou quase uma década como xerife do estado: de 2007 a 2016. Deu todos os alertas para o caos atual. A ausência do Estado no programa das UPPs. A inoperância da Justiça, com seu prende e solta. O derrame de armas de grosso calibre pelas fronteiras.

Antes de Beltrame, o Rio conviveu com uma rotatividade indecente e irresponsável na Secretaria. A Segurança era uma confraria de amigos, não havia metas nem meritocracia. De 1995 para cá, em 22 anos, excetuando a era Beltrame, o Rio teve 11 secretários em 12 anos. Atenção: média de quase um secretário por ano. Tivemos Anthony Garotinho comandando a Segurança de 2003 a 2004. (!&#*)

Socorro, Madonna. Em vez de posar com marra e fuzis no Morro da Providência, como se guerra fosse entretenimento e as mortes diárias fossem ficção, faça alguma coisa de útil. Mande grana para as favelas, organize show beneficente em prol da paz e da justiça social no Rio. Também somos pop e rock and roll. Não temos vocação para toda essa crueldade. Depois de Madonna, foi a vez de uma top model, Michelle Alves, de jeans rasgadinho no joelho, visitar a Providência, horas após intenso tiroteio.

Não faz sentido essa glamorização da miséria e da violência. Sempre achei ridículos esses tours na Rocinha, com jipes de safári e gringos vestidos de cáqui como se estivessem nas reservas de animais da África do Sul. Os moradores também acham os turistas meio bocós, querendo socializar, sem cerimônia, olhando os moradores como se fossem girafas. Yeah. E nada de dinheiro das agências de turismo revertendo para as favelas.

Com a volta da ostentação de armas e a falência das UPPs, o ponto alto, que na África são os leões, passou a ser a visão de traficante com fuzil. O frisson do turismo de experiência radical, muitas vezes irregular, acabou na morte de uma turista espanhola na Rocinha com um tiro no pescoço. Ela estava num carro com vidros escuros. No início do dia, dois PMs tinham levado tiros em confronto com traficantes.

A versão dos policiais é que o carro não parou numa blitz. Como se isso pudesse ser desculpa ou justificativa. Existe uma lei de 2014, a Lei 13.060, que proíbe atirar em carro que fura bloqueio. A versão do motorista da agência de turismo é outra: não havia blitz alguma e ele escutou três disparos contra o carro, por isso acelerou.

O que acontecerá com o PM que matou a espanhola? Será acusado de “má conduta”. Talvez seja transferido da rua para função administrativa. Pode ser um prêmio e não uma punição, a julgar pelas execuções de policiais: 112 já foram mortos neste ano no estado. O mais recente foi um comandante da PM no Méier, morto ao reagir a um arrastão numa rua do bairro. O carro dele foi atingido por pelo menos 18 tiros.

Dá para entender a indignação do atual secretário de Segurança do Rio, Roberto Sá. Ele disse que o assassinato do comandante do 3o batalhão no Méier é um “atentado à democracia”. O policial Luiz Gustavo Teixeira, de 48 anos, representava o Estado e estava ali na rua “por vocação em defesa da sociedade”: “Não vamos descansar até colocar as mãos nesses criminosos”.

Entendo. Concordo. Mas não vejo a mesma indignação em Roberto Sá quando inocentes são mortos ou feridos por PMs. Também acho um atentado à democracia o que aconteceu com uma menina de 12 anos na Rocinha. Ela foi atingida na barriga por uma bala perdida quando saía de uma igreja evangélica. Só ouvimos de Sá promessas fantasiosas: “Vamos virar o jogo”. Virar o jogo, Sá?

Em junho, a Polícia Civil apreendeu 60 fuzis de guerra no aeroporto internacional do Rio, numa carga de aquecedores de piscina, vinda de Miami. Mas agora nós vamos “virar o jogo”, porque foi sancionada a lei tornando crime hediondo o porte ilegal de fuzis. Saudade dos tempos em que havia uma estratégia, premiavam-se os PMs que menos matavam, e assim muito menos PMs morriam também.

Havia tudo, menos vontade política e vergonha na cara dos governantes. A UPP, dizia Beltrame, era uma anestesia num paciente que necessitava de uma grande cirurgia. A anestesia foi dada, o efeito passou e a cirurgia social e cidadã não foi feita. Deu no que deu. Septicemia generalizada.*

(*) Ruth de Aquino – Época

E NADA MUDA…

A vala comum da violência

A chance de um jovem de 15 a 29 anos, do Brás, ser assassinado revelou-se quase 17 vezes maior do que o morador de bairros com farto acesso a serviços públicos

Corpo (Foto: Arquivo Google)

Em 1960 o autor negro James Baldwin publicou uma “Carta do Harlem”, ensaio sobre o caldeirão de animosidade que opunha a força policial à juventude negra no bairro em que morava.

“Um dia qualquer”, escreveu Baldwin, “para surpresa geral, alguém joga um fósforo no barril de pólvora e tudo vai pelos ares. Antes das cinzas se apagarem ou do sangue congelar, editoriais, discursos e entidades de direitos civis falarão alto, exigindo explicação para o que ocorreu. O que houve é que negros querem ser tratados como gente”.

Da Rocinha à Baixada Fluminense, de Campo Grande a Niterói, da Maré à Cidade de Deus, do Alemão a Rio das Pedras, toda a população do Rio invisível a políticas públicas também quer ser tratada como gente — com direito a esgoto e transporte decente, por exemplo, a tratamento de água, escolas e hospitais funcionando, a entrega de correspondência. A menos fuzilarias na porta de casa. A menos mortes

O faroeste a céu aberto instalado na cidade pelo crime organizado e seus cúmplices de colarinho branco vem ampliando a vala comum de mortos. Esta semana as vítimas fatais foram uma turista espanhola, um coronel da ativa, um PM de folga e, quase obrigatoriamente, mais um adolescente de comunidade.

Aandaluz María Esperanza Jiménez retornava de um giro pela Rocinha, considerada a mais exótica das favelas pelos turistas, quando o tiro de fuzil disparado contra o carro em que viajava perfurou-lhe o pescoço. O autor do disparo, tenente da PM, suspeitara do veículo preto com película escura nos vidros e abriu fogo, contrariando o manual da corporação.

O coronel Luiz Gustavo Teixeira, comandante do Batalhão da PM no Méier, também estava dentro de um carro quando quatro bandidos cercaram seu Gol e dispararam 18 vezes. A execução de autoridade policial de tão alta patente, numa movimentada rua do bairro de classe média coalhado de favelas, foi incomum até mesmo para um Rio à deriva.

Já a morte do cabo Djalma Veríssimo Pequeno, que estava de folga e acabou assassinado três horas depois do coronel num shopping da Zona Norte, ao tentar impedir o assalto a uma joalheria, causou impacto por fazer subir o número de PMs mortos no estado.

Cento e doze policiais mortos só em 2017. Quando Nova York teve dois policiais assassinados em 2014, ano de escalada na violência policial contra negros, e a corporação fez uma manifestação contra o prefeito, o “New York Times” publicou um editorial de fim de mundo.

“O NYPD está atravessando tempos terríveis, e a morte desses agentes só ressalta os perigos que a corporação enfrenta todos os dias. Às vezes é ingrato ser policial. O agente se sente sitiado, manipulado por supervisores e políticos, obrigado a seguir regras que podem ser erradas. É responsabilizado por seus erros e exposto à frequente hostilidade das pessoas a quem jurou servir…. A polícia está no direito de esperar, até de insistir, em ser respeitada pelo público. Mas respeito é mercadoria limitada. Não pode ser desperdiçado. Precisa ser periodicamente renovado”.

Para o jornalão, o assassinato de dois agentes da lei em um ano era grave. No Rio, até sexta feira, foram mortos 112.

Difícil é contabilizar os civis. Fernando Ambrósio de Moraes pelo menos teve sua breve existência registrada. Adolescente de 15 anos, morreu baleado no quintal de sua casa em Japeri, Baixada Fluminense, durante um confronto entre bandidos e policiais do Bope. A mãe que o deixara em casa jogando videogame e fora a um mercado próximo, encontrou o filho já morto no chão.

Se aplicarmos ao Rio o Mapa da Desigualdade 2017 feito pela Rede Nossa São Paulo, publicado esta semana por Julia Barbon na “Folha de S.Paulo”, Fernando tinha tudo para morrer cedo — sua faixa etária, classe social e local de moradia o condenavam

Um dos índices que mais influenciam a idade média ao morrer dos paulistanos é a região em que moram. A chance de um jovem de 15 a 29 anos, do Brás, ser assassinado revelou-se quase 17 vezes maior do que o morador de bairros com farto acesso a serviços públicos. O levantamento que mediu a desigualdade nos 96 distritos paulistanos concluiu que os moradores do Jardim Paulista, área nobre da cidade, morrem em média com 79,4 anos de idade — 24 a mais (o equivalente a uma geração inteira) do que a população do castigado Jardim Ângela.

No Rio ainda não existe levantamento semelhante, calçado em 38 indicadores que abrangem cultura, educação, saúde e violência. Mas o que existe é suficiente para afirmar que uma geração inteira de jovens cariocas pobres, não brancos e moradores de regiões críticas, está marcada para ser maioria na vala comum da violência.

Resta torcer para o Rio não virar uma Acapulco, onde até os taxistas são obrigados a depositar um dízimo semanal aos traficantes equivalente a meia diária, se quiserem operar na cidade. “Não tenho certeza de que haveria um aumento da criminalidade em Acapulco se todo o Departamento de Polícia desaparecesse”, declarou ao “NYT” o mexicano Juan Salgado, especialista em reforma policial. Ele acredita que faria pouca diferença, visto que estão amedrontados, têm menos armamento do que a bandidagem e relutam em invadir bairros controlados pelas gangues.

A Acapulco onde Jack e Jackie Kennedy passaram a lua de mel e que vivia salpicada de estrelas de Hollywood não existe mais. A Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro ainda existe?*

(*) Dorrit Harazim, O Globo

 

PARABÉNS, BRASIL, DOIS EXEMPLOS DE POLÍTICOS MAGNÍFICOS!

Ibope indica segundo turno entre Lula e Bolsonaro em 2018

Primeira pesquisa do instituto sobre as próximas eleições presidenciais revela que Lula venceria o pleito em todos os cenários em que aparece

O ex-presidente Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro iriam para o segundo turno se as eleições presidenciais fossem hoje, segundo pesquisa do Ibope publicada na coluna do jornalista Lauro Jardim no jornal O Globo deste domingo.

 

A primeira pesquisa do instituto sobre as eleições de 2018 trouxe Lula com mínimo de 35% e máximo de 36% nas intenções de voto em todos os cenários, enquanto Bolsonaro teria 15% se disputasse contra Lula.

Marina Silva é a terceira colocada em qualquer cenário com Lula, com entre 8% e 11%. Sem Lula, o primeiro lugar na intenção de votos apresenta um empate entre Marina e Bolsonaro – cada um teria 15%.

Na pesquisa espontânea, que não apresenta nomes ao entrevistado, Lula apareceu com 26% das intenções de voto, seguido por Bolsonaro com 9% e Marina Silva com 2%.

Segundo o jornal, a pesquisa do Ibope foi feita entre 18 e 22 de outubro, com cerca de 2 mil pessoas em todos os estados do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

O apresentador de televisão Luciano Huck também teve o nome testado na pesquisa do Ibope, e variou de 5%, em eventual disputa com Lula, a 8%, em caso de Haddad ser o candidato petista.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, teve entre 0 e 1%, dependendo dos adversários.

(*) Redação da Veja com  Reuters

TODO MUNDO DE OLHO NA PRÓSTADRA DELE

Quem mandou?

O governo e o presidente vivem uma dessas situações de perder quando apostam no par e, de novo, quando no ímpar. Façam o que for: os adversários não perdoam

O presidente Michel Temer, no papel de presidente Michel Temer, e a elite intelectual brasileira, no papel de elite intelectual brasileira, não vão se entender jamais. Nada do que ele já tenha feito, está fazendo ou vai fazer será considerado certo, nunca, mesmo que acerte por acaso.

 

Quando ganha alguma votação no Congresso a conclusão unânime é que, agora sim, vão começar os seus problemas mais graves. Quando a inflação cai Temer está errado – primeiro porque não foi o seu governo que fez cair, e segundo porque, mesmo não tendo mérito algum na queda, é culpado pelo problemaço que a mesma queda está criando neste país.

Quando o Banco Central reduz a taxa de juro para 7,5% ao ano, como acaba de fazer, Temer está na verdade aumentando a taxa de juro – é esse, justamente, o desastre que o presidente provoca com a redução da inflação, tal como mencionado acima. Sim, porque um ano atrás, coroando as últimas conquistas da presidente Dilma Rousseff, a taxa era de 14,25% e a inflação de 10,5%, ou algo assim.

Ou seja, a diferença entre uma e outra era menor do que é hoje, e isso que dizer que os juros reais subiram – ao contrário de terem caído, como você poderia ingenuamente imaginar. Conclusão: na próxima vez que fizer um crediário, talvez seja melhor pedir que o vendedor examine direito a conta e lhe cobre os juros do tempo de Dilma, que no papel eram mais altos que os de Temer, mas na verdade muito mais baratos em termos reais.

Se não é a votação na Câmara, nem a inflação baixa, nem a redução nos juros, então é a decisão de leiloar o aeroporto de Congonhas para a iniciativa privada – e, logo em seguida, a decisão de não leiloar mais. Se o presidente vai para o hospital, torcem pelas bactérias. Se recebe alta ficam todos desapontados. Enfim: a vida não está fácil. Isto dito, ninguém precisa ter a menor pena de Temer.

Em primeiro lugar, porque é proibido socialmente. O novo Código Brasileiro de Correção Moral, baixado por cantores-filósofos, combatentes da ameaça conservadora e artistas da Rede Globo, considera infração gravíssima dizer a palavra “Temer” sem dizer, imediatamente antes, a palavra “Fora”. Além disso, se Temer está sendo tratado assim só tem a si próprio para culpar. Quem mandou se meter com Lula e com o PT? Quem mandou ser seu amigo íntimo, sócio, aliado, parceiro, prestador de pequenos e grandes serviços, sujeito de ”confiança” e sabe Deus quanta coisa mais, durante anos e anos a fio? Agora tem de pagar pelo que fez.

E, mais do que tudo – porque aceitou ser vice na chapa de Dilma Rousseff? Deus que perdoe, como se diz no interior, mas é impossível ser vice-presidente de Dilma e sair da relação sem avaria grossa. La Fontaine, se ainda estivesse aí para nos contar as suas fábulas, talvez lhe perguntasse, como a cigarra fez à formiga: “Cantou no verão? Pois que dance agora.”*

(*) J.R. Guzzo – Veja.com

VALE QUANTO PAGA

Base inicial do governo de Michel Temer já perdeu um terço do tamanho

Dessas dissidências, metade vem das bancadas de PSDB (32 a menos), que tem quatro ministérios, PMDB (8 a menos), PSD (9 a menos), que controla Fazenda e Comunicações, e DEM (8 a menos), do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ).

ESVAZIAMENTO – A outra metade da erosão é devida principalmente a duas legendas que já abandonaram o Planalto, o PSB (18 deputados a menos) e PPS (7 a menos) – embora este mantenha a Defesa.

Apesar de comandar a articulação política do governo, com Antonio Imbassahy, os tucanos vivem um dilema há meses sobre a permanência ou não ao lado do Planalto.

O grupo do governador Geraldo Alckmin (SP) prega o rompimento e encontra apoio no presidente interino da sigla, o senador Tasso Jereissati (CE). A manutenção do apoio é assegurada principalmente pelo grupo ainda sob influência de Aécio Neves (MG), que teve o mandato restabelecido pelo Senado com o decisivo apoio do Planalto.

APOIO LIMITADO – Pertencente à ala mais simpática ao rompimento, o líder da bancada na Câmara, Ricardo Tripoli (SP), afirma que o PSDB está atrelado a projetos e não a cargos.

“Continuaremos apoiando medidas importantes ao país”, afirma o tucano, para quem o Congresso deve aproveitar o momento para priorizar projetos de autoria de deputados e senadores, em detrimentos das medidas provisórias – principal instrumento do governo para legislar.*

(*) Ranier Bragon e Daniel Carvalho – Folha de São Paulo

O GOLPE ESTÁ ARMADO

Operação Abafa quer aprovar projetos para inviabilizar a atuação da Lava Jato

A movimentação mais recente ocorreu no último dia 26. Projeto que trata do abuso de autoridade, até então parado na Câmara e que já foi aprovado no Senado, será levado a uma comissão especial, criada pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na última quinta-feira.

CONDUÇÃO COERCITIVA – Pelo projeto, é crime “decretar a condução coercitiva de testemunha ou investigado, manifestamente descabida ou sem prévia intimação de comparecimento do juízo”. O expediente da condução coercitiva começou a ser usado com mais frequência na Lava Jato. Para investigadores, os depoimentos coercitivos são importantes, especialmente quando é necessário evitar que réus combinem versões.

“Há um clima no Parlamento, com apoio do Poder Executivo, de frear as investigações da Lava-Jato e, se possível, colocar em xeque os resultados por ela obtidos até agora. Este é o clima predominante. Depois da manutenção do mandato do senador Aécio Neves e da rejeição da denúncia contra Temer, esse movimento ganhou mais força” — disse Alessandro Molon (Rede-RJ).

PROIBIR DELAÇÕES – Os lances mais diretos da reação à Lava Jato partiram dos deputados Wadih Damous (PT-RJ) e Danilo Forte, sem partido, mas a caminho no DEM do Ceará. Damous apresentou um projeto que proíbe a delação de réus presos e a divulgação de depoimentos colhidos no âmbito de uma colaboração premiada.

“Somente será considerada para fins de homologação judicial a colaboração premiada se o acusado ou indiciado estiver respondendo em liberdade ao processo ou investigação instaurados em seu desfavor”. Ou seja, acordo de delação com réu preso não teria qualquer validade jurídica.

Na mesma linha, o presidente da comissão especial de reforma do Código de Processo Penal, Danilo Forte (Sem partido-CE), sugeriu a inclusão de uma proposta similar na reforma. Uma vez incluído no pacote sobre o CPP, o projeto teria mais chances de ser aprovado, porque as mudanças nas leis processuais, embora extremamente relevantes, não costumam despertar curiosidade, a não ser de especialistas e de pessoas diretamente afetadas por alguma regra em debate.

“ARGUMENTOS” – “A gente precisa regulamentar o instituto da delação. A delação precisa ser entendida como elemento de prova e não de defesa. Pessoas que estão em situação degradante na cadeia são capazes de criar situação fantasiosa para sair da prisão” — afirma Forte.

O relator da reforma, João Campos (PRB-GO), ouviu o pedido do colega do Ceará, mas disse ao GLOBO que não terá como acolher a sugestão. “Eu sou a favor da delação, inclusive de réus presos” — disse Campos.

Mas a comissão é um colegiado. Um deputado pode apresentar uma emenda ao relatório final e, com o apoio da maioria, se sobrepor ao texto do relator. As pressões contra o modelo atual de delação, muito utilizado na Lava-Jato, tiveram início no Senado, numa articulação dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR). Perderam força no momento de maior popularidade da Lava-Jato, mas voltaram a ganhar força com a rejeição da denúncia contra Temer e o esvaziamento dos protestos de rua contra a corrupção.

REAÇÃO ORQUESTRADA – “Estamos vivendo uma reação orquestrada” — afirma o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima.

As delações de réus presos têm sido fundamentais na Lava-Jato. Desde seu início, procuradores têm dito que mais da metade das delações partiu de réus soltos — estatísticas verdadeiras que não explicam o conjunto da obra. Os mais impactantes acordos de delação foram feitos com réus presos. Exemplos disso seriam as delações pioneiras de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef. O mesmo pode ser dito em relação a Marcelo Odebrecht, que liderou a delação de 77 altos dirigentes da Odebrecht e ainda permanece preso.

A reação não para por aí. Deputados também estão se articulando para aprovar regras restritivas às investigações sobre advogados a partir de um projeto do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). A proposta já foi aprovada pelo Senado sem maiores dificuldades e agora aguarda parecer do relator, Damous, na CCJ da Câmara. Pelo projeto, “violar direito ou prerrogativa do advogado” constitui crime e pode ser punido com até quatro anos de detenção.

INVIOLABILIDADE – O artigo 7º do Estatuto do Advogado diz que é direito do advogado “a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia”. O projeto prevê ainda que, em casos de condução coercitiva e prisão arbitrária, o juiz pode perder o cargo e ficar proibido de retornar ao serviço público por até três anos. O projeto abriria brechas para blindar advogados suspeitos da prática de crimes.

“Os parlamentares dando uma imunidade para os advogados que não existe nem para eles” — afirma o presidente da Ajufe, Roberto Veloso.*

(*) Jailton de Carvalho – O Globo

O MAIS CANALHA DOS CANALHAS

E a profecia de Joaquim Barbosa sobre Gilmar Mendes se concretizou…

Numa ríspida discussão, Barbosa disse que Gilmar estava desgastando a imagem do Judiciário, e desafiou o ministro a testar sua popularidade em público.

“Saia à rua, ministro Gilmar. Saia à rua! Faça o que eu faço. Vossa Excelência não está na rua não. Vossa Excelência está na mídia destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro.”

(*) Frederico Vasconcelos – Folha de São Paulo

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG DA TRIBUNA NA INTERNET
– No sábado, Gilmar Mendes estava em São Paulo e resolveu assistir ao jogo no Pacaembu, entre Santos e São Paulo, e foi vaiado pela torcida, assim que foi vistoO mais impressionante é que a previsão de Joaquim Barbosa tenha demorado tanto tempo para acontecer(C.N.)

NA MARCA DO PÊNALTI

No aniversário de Lula, o ‘parabéns’ é uma ironia

 Lula fez aniversário nesta sexta-feira. Deveria ter presenteado a si mesmo com o silêncio. Mas percorre Minas Gerais em caravana. Faz comícios diários. Seus lábios não desgrudam do microfone. Assim, sem medo de ser patético, declarou: ”Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo para envergonhar milhões e milhões de pessoas que a vida inteira confiaram em mim”.

Lula discursou num comício na cidade de Montes Claros. Apresentou-se à plateia como um símbolo, seu papel predileto: ”Estão tentando me destruir desde que nasci. Tentem destruir o Lula, vocês nunca vão conseguir, porque o Lula não é o Lula, é uma síntese daquilo que são milhões e milhões de mulheres e homens. Lula é uma idéia criada por vocês.”

O pajé do PT, de fato, pode se dar ao luxo de falar como símbolo. Deixou de ser qualquer um quando virou líder sindical em plena ditadura. Perdeu eleições como símbolo, chegou ao Planalto como símbolo, invocou a condição de símbolo para sobreviver ao mensalão e como símbolo imaginou-se invulnerável no petrolão. Agora, responde pelo que passou a simbolizar.

Suprema ironia: coube ao companheiro Antonio Palocci formular a pergunta que explica por que muitos brasileiros deixaram de respeitar os cabelos brancos do símbolo: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?”, indagou Palloci na carta que enviou ao PT para se desfiliar da legenda.

Lula tornou-se um símbolo completo. Fez-se sozinho na vida. E se desconstrói sem a ajuda de ninguém. O símbolo discursa como se fosse uma estátua de si mesmo. E age como um pardal que suja sua própria testa de bronze. Costuma-se dizer que Lula virou um político como todos os outros. Bobagem. Aconteceu algo pior. Lula tornou-se um símbolo completamente diferente de si mesmo.

Certas frases —“Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo…”— passam a impressão de que o autor será símbolo do cinismo até o fim. No aniversário do símbolo, um simples “parabéns” soa como ironia.*

(*) Blog do Josias de Souza

PAÍS À DERIVA

Com Temer hospitalizado, Eunício terá de assumir, enquanto Maia faz turismo

Para o presidente Temer e a equipe do Planalto, o final de semana é providencial, não há expediente no Planalto, o “vazamento” ou “plantação” de notícias pode ser ainda mais selecionado, até porque o foco das atenções agora está sediado em São Paulo, com os rotineiros boletins médicos, que quase sempre pouco revelam.

BATERIA DE EXAMES – Temer terá de fazer uma bateria de exames, que ninguém sabe se já foram iniciados na noite desta sexta-feira, pois Temer chegou de helicóptero ao Hospital Sírio-Libanês. O primeiro exame vai conferir a obstrução parcial na artéria coronariana, para avaliação da anestesia a ser aplicada na cistoscopia, que vai identificar a causa do sangramento que forma coágulos na bexiga, obstruindo a uretra.

Dificilmente terá condições de reassumir o mandato na segunda-feira, dia 30. Foi muito sacrifício manter as aparências na quinta e na sexta-feira, Temer gravou vídeos para mostrar que está se recuperando, mas ninguém pode estar bem quando necessita usar um dreno na uretra.

Na quinta-feira, chegou a receber uma comitiva do Rio de Janeiro, e na sexta-feira o Planalto informou que ele teria recebido dois políticos em audiência — o líder do governo na Câmara dos Deputados, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e o líder da bancada do PMDB, Baleia Rossi (SP). Mas não liberou as fotos das supostas reuniões. Ou sejam. foi armação…

CHEGA MORALES – Nesta segunda-feira, Temer recebe a visita do presidente Evo Morales. Trata-se de uma reunião importante, porque o político boliviano é ligado aos petistas e foi um dos presidentes sul-americanos que denunciaram um “golpe congressista e judicial” no Brasil e retirou seu embaixador, após a destituição de Dilma, num gesto de protesto. O Brasil fez o mesmo, mas não houve rompimento de relações diplomáticas.

A vinda do líder boliviano indica uma nova postura dos governos de linha bolivariana – os outros são Venezuela, Cuba, Nicarágua e Equador. Temer precisa estar no Planalto, para receber Morales. Em seguida, o presidente boliviano participará de um coquetel seguido de almoço com ministros e deputados no Palácio do Itamaraty. Temer estará presente? Ou será representado pelo senador Eunício Oliveira? O deputado Rodrigo Maia, como se sabe, iniciou hoje um tour turístico por quatro países, acompanhado de nove parlamentares, que maravilha viver, diria Vinicius de Moraes.*

(*) Carlos Newton – Tribuna na Internet