A ERA DA DELINQUÊNCIA

No coração das trevas

O Rio foi abalado por um governo que era, na verdade, uma organização criminosa. Todas as estruturas do poder foram de alguma forma contaminadas

O ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse que os comandantes da PM estão ligados ao crime e que o governo não controla sua polícia. Não ficou aí, nessa sinistra generalização. Disse que a esperança de mudar só viria mesmo após as eleições de 2018. Estamos em novembro de 2017. Quantos tiroteios, quantas balas perdidas, quantas mortes nos esperam até lá? Se o quadro é esse mesmo que o ministro pintou, o governo federal deveria fazer algo para transformá-lo.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, afirmou há algum tempo que havia relação entre políticos e o crime organizado. Eles precisam de voto, o crime organizado controla mais de 800 pontos apenas no Rio. Quem vai à Baixada, viaja a cidades como Campos e Macaé ou cruza a Baía de Guanabara, vai até Niterói, constata que o número de territórios ocupados é muito maior.

Jungmann propôs uma força-tarefa para desvendar os vínculos entre crime e política no Rio. Raquel Dodge concordou. Até aí, tudo bem.

Uma revelação bombástica antes mesmo da força-tarefa começar o seu trabalho é inadequada. Acaba complicando a vida das pessoas já amedrontadas no seu cotidiano. O ministro Jardim nem mata a cobra nem mostra o pau. É como se dissesse: “Xi, a segurança está na mão de bandidos mas isso pode mudar depois de 2018.”

Felizmente não é bem assim. Ouvi alguns amigos da PM e eles garantem que há bons e honestos comandantes.

O Rio foi abalado por um governo que era, na verdade, uma organização criminosa. Todas as estruturas do poder foram de alguma forma contaminadas. Certamente será necessário um paciente e árduo trabalho com ajuda federal para desfazer todas as teias, os nichos da corrupção.

Quando o Exército veio pela primeira vez nessa crise, defendi a ideia de que deveria estabelecer um contato maior com a sociedade, oferecer um trabalho comum. Com as formas de comunicação de hoje seria possível criar um sistema de defesa muito mais poderoso. A própria sociedade se mexe. O aplicativo OTT (Onde Tem Tiroteio) é um um dos exemplos disso.

Nas primeiras investidas, a operação fez inúmeros cercos, apreendeu poucas armas. Era uma indicação de que o trabalho de inteligência precisava melhorar. Da soma que o governo federal destinou, foram usados apenas 22% para enfrentar a crise de segurança pública no Rio. E os cercos são a tática mais cara com menores resultados.

No meio do áspero caminho, uma crise no relacionamento entre os governos. Parecia haver algo no ar entre o ministro Jungmann e as autoridades estaduais de segurança. Ao invés da possibilidade de uma cooperação em grande escala, incluindo as pessoas que vivem aqui, o que nos ofereceram foram crises de relação, desconfiança mútua.

É preciso formar um bloco bem intencionado entre as forças de segurança. E pedir a ajuda da sociedade. Não temos armas. Mas o conhecimento coletivo é um instrumento que potencializa o trabalho armado, em certas ocasiões, pode até dispensá-las.

De uma certa forma, a luta contra o terrorismo na Europa e nos Estados Unidos, os esforços emergenciais após uma catástrofe natural — todos esses grandes embates demandam um vínculo através da rede. Nas inundações do Texas foi impressionante acompanhar o mapa das pessoas ilhadas; bastava clicar no ponto que aparecia a mensagem: falta comida, dificuldade de respirar, rompeu a bolsa d’água. Um terrorista procurado na Europa pode ter seu retrato passado para todos os smartphones de uma extensa área onde opera.

O potencial de descobrir os caminhos para programas que reforcem a segurança no Rio não está em governos combalidos, mas na própria sociedade. Como acionar esse poder sem ter o mínimo de credibilidade? O que os que ainda sobrevivem nos governos poderiam pelo menos tentar. E tentar com uma visão clara do que distingue propaganda de resultado real.

O grande problema não é só que os bandidos furam facilmente os cercos. O difícil é furar os cercos mentais que às vezes dominam as cabeças no governo. Quase todas têm medo de falar com pessoas reais. Preferem fazê-lo através das grandes máquinas de propaganda que filtram as críticas ou enfatizam as pequenas vitórias.

Sem que os sobreviventes no governo peçam socorro e a sociedade lhes dê mão, não vai prosperar uma defesa real diante da crise de segurança. De outra forma, voltamos aquela história de esperar 2018. É muito tempo, sobretudo para os que perdem a vida em segundos nas ruas do Rio.

É tudo tão grave, certamente não é uma dessas dores estranhas que simplesmente passam se ficamos em repouso. Nossas chances dependem também da percepção do abismo: quanto mais rápida, melhor.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

PAÍS À DERIVA

Retomada da economia é muito lenta, mas o crescimento da dívida é galopante

O chefe da autoridade monetária destacou que, em setembro deste ano, no mesmo caso, sobravam R$ 296 após a compra dos alimentos. A diferença de R$ 112, disse Ilan, corresponde a uma alta de 57% após descontada a inflação do período. Se o preço da cesta básica fosse igual em todo o país, representaria adicional de pouco mais de R$ 5 bilhões no bolso dos 45 milhões de brasileiros que têm renda de um salário mínimo.

MASSA SALARIAL – Os dados foram apresentados sexta-feira, dia 3, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua), realizada pelo IBGE. Os números mostram que a massa de rendimento real habitual cresceu R$ 7 bilhões em setembro de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado e totalizou R$ 188,1 bilhões. O crescimento da massa salarial é fruto da queda do desemprego, mas também da queda da inflação.

Os avanços são incontestáveis, mas o país ainda está longe do ideal. O que fica claro quando analisado o custo dos financiamentos no Brasil. Mesmo com recuo de 6 pontos percentuais na taxa básica de juros entre setembro de 2016 e de 2017, que levou a Selic a 8,25% ao ano, as taxas cobradas em empréstimos continuram assustadoras. Dados apresentados por Ilan Goldfajn mostram que o repasse para os consumidores ainda está longe do ideal.

JUROS ALTÍSSIMOS – O crédito livre para as famílias tinha juros médios de 74% ao ano em setembro do ano passado e passou para 59,2%. Mesmo com a redução de 14,8 pontos percentuais, os brasileiros gastam mais do que o dobro que empresas com o custo dos financiamentos.

No mesmo período, as companhias foram favorecidas com uma queda de 6,5 pontos percentuais, o que levou a taxa média a 23,2% ao ano. E mesmo com juros exorbitantes, os consumidores voltaram a buscar crédito, o que levou o estoque de recursos de R$ 808,8 bilhões para R$ 827,9 bilhões. Porém, no caso das empresas, o estoque encolheu de R$ 747,1 bilhões para R$ 702 bilhões.

Questionado sobre as altas taxas cobradas pelos bancos nos empréstimos a empresas e famílias durante a audiência na Comissão Mista de Orçamento, Ilan Goldfajn respondeu que a redução dos juros vem a reboque dos cortes na Selic. Ele ressaltou, entretanto, que a estabilização das contas públicas também pode ajudar nesse processo. “Além disso, toda vez que há mais garantias no sistema financeiro, as taxas também caem”, apontou.

CRESCIMENTO TÍMIDO – O presidente do BC voltou a destacar a retomada do consumo, mas ressaltou que, por enquanto, a taxa de investimento ainda não subiu como o governo gostaria. “Para um crescimento sustentável, é preciso consumo, mas também investimentos. Temos um cenário internacional favorável, e fluxos seguem vindo para o Brasil”, afirmou.

Segundo ele, para 2018, a expectativa é de que a inflação fique em 4,3%, voltando “devagarzinho” para a meta. O centro da meta de inflação no próximo ano é de 4,5%, com margem de 1,5 ponto percentual (inflação entre 3% e 6%). “A inflação não teria essa queda se BC não tivesse atuado de maneira firme”, afirmou. Para o presidente do BC, a aprovação de ajustes e reformas, sobretudo a da Previdência, são importantes para o equilíbrio da economia e a redução das taxas de juros no mercado de crédito.*

(*) Antonio Temóteo – Correio Braziliense

EU ACREDITEI…

Piada do Ano: Cunha diz que Funaro lhe presenteou com dois carros “de surpresa”

“Eu achava que estava devendo a loja, e não ele. Ele pagou sem me avisar que pagou. Agora, não tem essa história de dez carros” — disse Cunha, acrescentando: “Isso eu estou devendo e o pagarei”.

NEGOU TUDO – Funaro é apontado como operador de políticos do PMDB em esquemas de corrupção. Cunha contou que fez algumas operações financeiras com ele, mas não reconheceu irregularidades. Segundo o ex-presidente da Câmara, a ligação de Funaro com PMDB é “zero”.

“Todo mundo que ele conheceu foi através de mim. Ninguém sabe quem é Lúcio Funaro. Operador coisa nenhuma. É uma história que está inventando para conseguir uma delação. Se ele conseguir citar um nome (do PMDB) que não seja por mim, eu mudo de nome”— afirmou Cunha.

Cunha também ironizou as planilhas feitas por Funaro: “Se me der um computador, vou fazer uma planilha melhor do que a dele. Vou fazer colorida, botar florzinha, vai ficar mais bonita e vai ter mais credibilidade. Posso colocar Joãozinho, Manezinho”.

FRAUDES NA CAIXA – Cunha presta depoimento na ação na qual é réu por suspeitas de irregularidades no Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS), administrado pela Caixa Econômica Federal (CEF). Além dele e de Funaro, são réus: o ex-ministro e ex-presidente da Câmara Henrique Alves, o ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto, e o empresário Alexandre Margotto. Cunha, Alves e Funaro estão presos. Cleto e Margotto, assim como Funaro, também firmaram acordos de delação.

O ex-presidente da Câmara negou ter indicado Cleto para o cargo. Afirmou que apenas mandou três currículos para o posto entre eles o de Cleto. Depois, contou, foi surpreendido quando saiu sua nomeação. Afirmou ainda que viria a conhecer Cleto somente depois disso. O ex-presidente da Câmara também disse ter apresentado Funaro a Alves e ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, mas negou ter tratado de propina com eles. Cunha também defendeu a legalidade e o valor da publicidade paga pela BR Vias – empresa da família Constantino, proprietária da companhia aérea Gol – em seu site, o “Jesus.com”.

Cunha e Funaro estão frente a frente na sala de audiências da 10ª Vara Federal de Brasília. Cunha ainda não terminou de depor. Além dos dois, também são réus: o ex-ministro e ex-presidente da Câmara Henrique Alves, o ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto, e o empresário Alexandre Margotto. Cunha, Alves e Funaro estão presos. Cleto e Margotto, assim como Funaro, também firmaram acordos de delação.*

(*) André de Souza – O Globo

NOVELA DE TEVÊ

PSDB tem de sair logo do governo, não pode marcar data para ‘fim de casamento’

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A pressão por uma reforma ministerial vai aumentar nessa semana, depois que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu que o PSDB deixe os quatro ministérios que ocupa em dezembro. Um líder da base aliada, de forma reservada, definiu da seguinte forma o tema ao Blog: “O PSDB tem de sair agora, não pode marcar data para o fim do casamento. Não é ele quem tem de definir isso, é o presidente Michel Temer”.

Segundo esse líder, não faz nenhum sentido um partido que já definiu que deixará a base aliada do governo Temer permanecer ocupando ministérios. O tema entrou  na pauta dessa segunda-feira (6) na reunião do presidente Temer com líderes de partidos governistas na Câmara. O encontro foi chamado para definir a agenda de votações, mas a reforma ministerial não pode deixar de ser discutida.

FALA FHC – No domingo (5), em artigo publicado em jornais, FHC defendeu que o PSDB deixe de ocupar ministérios no governo Temer, mas continue apoiando a votação de projetos da agenda econômica. Entre eles, a reforma da Previdência. Temer prefere não fazer uma reforma ministerial agora, só no ano que vem, mas a defesa do desembarque feita pelo ex-presidente dá munição aos aliados que pressionam por uma reconfiguração da Esplanada dos Ministérios.

PMDB e outros partidos da base aliada, como PP, PR e PSD, estão de olho principalmente no Ministério das Cidades, comandado hoje pelo tucano Bruno Araújo. A pasta é objeto desejo de políticos por destinar verbas para municípios, em projetos como o Minha Casa, Minha Vida, que podem ajudar na reeleição de deputados e senadores no ano que vem. O PSDB comanda ainda a Secretaria de Governo, o Ministério das Relações Exteriores e a Secretaria de Direitos Humanos.*

(*) Valdo Cruz  – G1 Brasília

BALCÃO DE NEGÓCIOS

Reunião de Temer com líderes dos partidos da base virou um fracasso anunciado

A irritação não se restringe a Lira. Mesmo os líderes de outros partidos do chamado “Centrão” que estarão presentes ao encontro, levarão más notícias ao governo. “Vou falar ao presidente que a reforma da Previdência do jeito que está não passa”, afirma o líder do PSD, Marcos Montes.

MAIS DESGASTE – O líder do PR, José Rocha, também diz que vai deixar claro a Temer que a bancada, depois de votar duas denúncias, não está disposta a sofrer mais um desgaste às vésperas de ano eleitoral. “A reforma da Previdência tem que ser discutida a partir de 2019. Não se vota uma medida dessa no fim de mandato”, alerta Rocha.

Nos bastidores, a avaliação de base e oposição é de que o governo já usou todo o capital político disponível e agora está diante de uma divisão entre os governistas, que já cobram uma reforma ministerial para diminuir o espaço dos infiéis. Como revelou o Blog, antes mesmo da votação da segunda denúncia no plenário, os líderes do Centrão decidiram deixar de despachar com o ministro tucano Antônio Imbassahy, e agora tratam de articulação diretamente com o chefe da Casa Civil, ministro Eliseu Padilha.

“Uns fazem de conta que são da base, outros fazem de conta que votam. Desse jeito, governo vai ter base que não vota”, ameaçou um líder do “Centrão”.*

(*) Blog do Gerson Camarotti – G1

O MALACO E OS GOLPISTAS

Corrente petista contesta negociações para aliança com PMDB

Para Democracia Socialista, o partido não pode se reaproximar de ‘golpistas’

O ex-presidente Lula ao lado do senador Renan Calheiros e do governador Renan Filho

SÃO PAULO – A corrente petista Democracia Socialista (DS) divulgou nota nesta segunda-feira com contestação às negociações que são sendo feitas pela cúpula do partido para firmar alianças com o PMDB nos estados para a eleição de 2018. O foco principal do grupo são as tratativas com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e com o seu filho, o governador de Alagoas, Renan Filho.

“Em Alagoas, assim como em outros estados, é preciso reconstruir o PT com independência de classe, ao lado dos movimentos sindicais e populares, com programa e alianças de esquerda. Para a DS, petista não vota em golpista, não apoia governos golpistas e não participa de governos golpistas”, afirma a nota. A Democracia Socialista, que tem como integrantes, entre outros, os ex-ministros Miguel Rossetto e Pepe Vargas, integra a Mensagem ao Partido, segunda força interna do PT.

O PT negocia alianças com o PMDB em pelo menos seis estados para o próximo ano: além de Alagoas, Ceará, Minas, Piauí, Paraná e Sergipe. Dirigentes petistas, como o presidente do diretório de São Paulo da legenda, Luiz Marinho, próximo do ex-presidente Lula, tem defendido uma revisão da proibição de alianças com políticos que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

No ano passado, Renan votou a favor do afastamento de Dilma no Senado. Na época, o PT rompeu com o governo de Renan Filho, mas agora definiu que voltará à participar da gestão estadual em Alagoas.

Outro político que defendeu o impeachment e deve receber o apoio do PT no ano que vem é o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE). Eunício planeja tentar um novo mandato de senador na mesma chapa que o governador do Ceará, o petista Camilo Santana.

Lula tem se movimentado para se reaproximar de políticos até recentemente classificava como “golpistas”. Ele argumenta que, caso seja eleito presidente, precisará contar com o apoio de diversos partidos para ter uma base sólida no Congresso Nacional.*

(*) SÉRGIO ROXO – O GLOBO