NÃO FALTA MAIS NADA

Marun ministro: a cara (e o cara) que faltava na era Temer

Não fora a exortação repetida do refrão “graças a Deus, graças a Deus”  – além do segundo adiamento da posse do deputado Carlos Marun, como ministro da Secretaria de Governo, transferida da quinta-feira, 14 para esta sexta, depois da alta do presidente Michel Temer de novo internamento, para tratar da saúde no Sírio Libanês – , se poderia dizer: a composição famosa de Benito de Paula, “Tudo está em seu lugar” assenta, com irônico ajuste, no ambiente palaciano reinante em Brasília, nestes dias finais de 2017.

Mal (ou bem?) comparando funciona, nesta quadra descompensada da vida brasileira, como uma espécie de “Samba do Crioulo Doido”, de Sérgio Porto, o genial Stanislaw Ponte Preta, na trilha musical dos loucos Anos 70. Principalmente, depois da submissão do mandatário da vez aos ditames dos intocáveis cardeais do PMDB, que resultou no banimento do discreto tucano ex-ministro baiano, Antonio Imbassahy, e a substituição do maneiro e hábil parlamentar federal, ex-prefeito de Salvador, pelo barulhento, provocador e em geral desafinado peemedebista, deputado de primeiro mandato na Câmara. Gaúcho de Porto Alegre eleito por Mato Grosso do Sul que, a partir de agora, passará a despachar em gabinete ao lado do maioral da República, no Palácio do Planalto.

 Enquanto isso não acontecia, Marun seguiu aprontando todas, esta semana. Na tentativa não só de ser agradável ao novo amo, mas ao mesmo tempo se esforçando para conservar a imagem de briguento inveterado, conquistada no tempo de fiel escudeiro de Eduardo Cunha, que então mandava na Câmara e hoje está atrás da grades em Curitiba. Comprando mais brigas através da vingativa CPMI da JBS na qual ele deu as ordens, até a aprovação, na bacia das almas, de melancólico e desqualificado relatório final, na quinta-feira da sua troca de endereço em Brasília.

Um relatório de “investigação parlamentar” à altura (ou à baixeza?) de seus propósitos subalternos: a malfadada intenção de retirar o foco da Lava Jato – tentando constranger os mais importantes investigadores da cúpula política do Brasil – e de passar a mão na cabeça de autoridades públicas de alto rango da República, a começar pelo presidente Temer e dois de seus ministros maiorais (Moreira Franco e Eliseu Padilha), retirando-os do centro das atenções da maior operação de combate a corruptos e corruptores já levada a efeito na história do País.

Originalmente, o relatório da lavra do substituto do tucano Imbassahy no ministério do mandatário do PMDB, pedia até o indiciamento do ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e de seu ex-chefe de gabinete, Eduardo Pelella.

Desidratado para conseguir aprovação, o documento passou por revisões e recuos sucessivos, mas ainda assim de alguma forma, coloca os procuradores contra o muro. Ou, pelo menos, tenta emparedar os investigadores. Afinal, o relatório final do antigo chefe de tropa de choque de Cunha, pede que o Conselho Superior do Ministério Público investigue Janot e Pelella.

Em resumo: o cantor e dançarino da defesa de Temer na Câmara quer encrenca e a procura com adversário dos mais indigestos, cultivador de bambuzais e certeiro atirador de flechas: o ex- Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, autor de duas devastadoras flechadas que atingiram de cheio o ocupante atual do Palácio Jaburu, a ponto de praticamente tê-lo feito empenhar o canavial da sogra para se salvar em dramáticas e desgastantes votações na Câmara, cujo impacto parece ter abalado até a saúde do mandatário.

Ou seja: precioso capital político e moral gasto em defesa pessoal, que agora faz imensa falta para a aprovação da periclitante Reforma da Previdência, que o governo do PMDB (e penduricalhos partidários atuais) assumiu como prioridade máxima, mas agora derrapa feio na falta de apoio e de votos, determinante do recuo amargo e humilhante que joga tudo para fevereiro, depois do Carnaval.

Do “Samba do Crioulo Doido” a “Tudo está no seu lugar”, o tempo passa, mas o Brasil parece seguir na mesma toada. E estamos de volta ao personagem principal deste artigo semanal.

Marun perdeu na primeira tentativa de virar parlamentar. Não conseguiu se eleger, através do PTB, para a assembleia legislativa de seu estado natal. Migrou então para o Mato Grosso Sul, onde conseguiu os votos suficientes na eleição passada, para desembarcar na Câmara Federal, em pleno império do deputado Eduardo Cunha (atualmente na cadeia em Curitiba, depois de cair nas malhas anti-corrupção da Lava Jato), onde se transformaria em uma das estrelas principais do parlamento do Brasil da era Temer.

O deputado, alçado ontem ao posto de ministro do soturno governo do habitante atual do Jaburu, preserva quase inalteradas, para efeitos retóricos e de composição do perfil pessoal, características que parecem cultivadas da figura magnificamente descrita nos versos de “O Gaúcho”, antológico poema do pernambucano Ascenso Ferreira.

“Riscando os cavalos!/ Tinindo as esporas!/ Través das coxilhas!/
Saí de meus pagos em louca arrancada!/ – Para quê?/ – Pra nada!”

Agora é com o tempo, senhor da razão. A conferir.