O PILOTO SUMIU

A dignidade do bumbum

Quem não se lembra daquelas bandas no Rock in Rio fingindo gritinhos contra a corrupção?

O novo clipe de Anitta provocou polêmica – da qual você talvez nem tenha ficado sabendo, porque as polêmicas são cada vez menos polêmicas. Lulu Santos chegou a dizer que o hit “Vai, malandra” (a vírgula é saudosismo nosso), com sua obsessiva referência estético-anatômica à sua Excelência, o bumbum, denota o regresso da MPB à fase anal. É difícil saber em que fase a MPB de fato está, mas, considerando sua transformação em anexo do MST, Lulu pode estar sendo otimista.

O fato é que, em termos de vulgaridade, Anitta foi modesta para os padrões atuais do showbiz (ou o que sobrou dele). Basta notar, por exemplo, seu colega Gabriel Predador – aquele que viveu 13 anos como rebelde a favor e saiu da clandestinidade para “matar o presidente” assim que os seus ladrões de estimação foram depostos. Pelo menos Anitta não está pedindo a ninguém para pensar com o bumbum.

Quem não se lembra daquelas bandas no Rock in Rio fingindo gritinhos contra a corrupção enquanto se esqueciam de Lula, Dilma, PT e todos os seus genéricos esfomeados por grana do contribuinte? Diante de artistas crepusculares fantasiados de esquerda para se salvar do esquecimento, um rebolado de biquíni na laje é quase chique. Tudo é relativo aos bons costumes do lugar.

Seguindo a teoria da relatividade malandra, o clipe de Anitta pode ser praticamente uma aula de etiqueta para Bono Vox, o papa dos indignados profissionais. Um sujeito que se presta a promover os líderes mais picaretas (e eventualmente sanguinários) de países pobres para surfar no populismo chavista está fazendo o quê? No mínimo, brincando com o bumbum alheio.

E, por falar em papa e picaretagem, o companheiro Francisco é outro pop star ousado nas paradas da demagogia terceiro-mundista. Qual o limite da decência para uma autoridade religiosa internacional em flagrante promiscuidade com regimes inimigos da liberdade e da paz? Até onde sua santidade pode baixar o rebolado ético para vender proselitismo de esquerda? Já para o confessionário com a irmã Anitta.

Dizem que o astro do U2 comparecerá ao julgamento de Lula. Que ninguém duvide dessa possibilidade. O único inconveniente político da missão será a ciumeira de Fernandinho Beira-Mar, Marcola, Rogério 157 e outros guerreiros do povo. Mas nada que uma agenda bem montada não possa resolver. Aí é só filmar direitinho a turnê, editar com imagens picantes de Atibaia, Guarujá e Rocinha, e soltar o “Proibidão do Bono”. Perdeu, malandra!

Como se vê, a polêmica em torno da funkeira carioca está um tanto exagerada. Em termos de compostura, o que a estrela do “show das poderosas” fica a dever a um Roger Waters? O que dizer de um personagem que sai lá da Inglaterra (ou nem sai) para retocar seu bronzeado progressista no país tropical, entrando na doce pirataria do gópi contra a presidenta delinquenta – enunciado pornô que não tem tradução para o inglês, nem para o português?

Levando em conta a escala evolutiva proposta por Lulu Santos, como classificar o ex-líder do Pink Floyd, dono de uma das obras mais potentes da história do rock, flagrado catando lixo ideológico na periferia do maior escândalo de corrupção já visto numa democracia? É duro você se comover por tantos anos com a epopeia de The wall – e de repente ver que o autor por trás do muro tem a dignidade de uma periguete na laje. Fase pré-sal?

Sem mais, segue o veredito: Anitta está absolvida por falta de demagogia. Aliás: absolvida, não. Condecorada. Se o problema é vulgaridade, mau gosto ou música ruim, é só você não consumir – chance que você não tem com os bardos da lenda, especializados em infestar todos os canais possíveis da sociedade com sua revolução a 1,99. Que a funkeira se encha de grana sem encher o saco dos pobres mortais. Viva a futilidade sincera.

Mas ainda é cedo para comemorar. A outra futilidade, aquela envernizada de vanguarda ideológica, está sempre por aí. É a verdadeira praga. Daqui a pouco arranjam uma tia decrépita para denunciar a “pouca-vergonha” da Anitta, e aí pulam todos na trincheira da malandra, com a faca entre os dentes, defendendo a arte da nudez, ou a nudez da arte, ou qualquer slogan de meio século atrás que retoque a maquiagem revolucionária.

Francamente, melhor brincar de bumbum.*

(*) GUILHERME FIUZA – ÉPOCA