A ÚLTIMA CHANCE

 TRF4 esboçará a cara do Brasil em 2018

Caberá ao Tribunal determinar se a Lava Jato conseguirá mudar o país ou se esbarrará na tradição nacional de que alguns são mais iguais perante a Lei

O julgamento em segunda instância de Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em 24 de janeiro, dará contornos iniciais, mas talvez definitivos, à cara que o Brasil terá em 2018: se irá se tornar, finalmente, um país em que a Lei é para todos, ou se vivas almas muito vivas seguirão escapando por mais um tempo da cadeia sob os aplausos dos seguidores da seita e de espertalhões em geral. Enquanto exércitos de Sem-Noção se mobilizam para fazer barulho a favor do mestre em Porto Alegre, os brasileiros sem alma presa seguem esperançosos.

Condenado em primeira instância, Lula recebeu em julho, do juiz Sergio Moro, a sentença de 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex. Caberá ao TRF4 determinar se a Lava Jato conseguirá mesmo mudar o país ou se esbarrará na tradição nacional de que alguns são mais iguais perante a Lei.

Lula é réu também em processos envolvendo o sítio de Atibaia, o terreno do Instituto Lula, obstrução de Justiça no caso Petrolão, empréstimo do BNDES e Operação Zelotes, fora outros em que foi denunciado, mas ainda não se tornou réu – nomeação para o ministério, Quadrilhão do PT, palestras suspeitas e MP do setor automotivo. Mesmo que escape desta vez, uma folha corrida dessas garante a pole position na fila de embarque do camburão. É apenas uma questão de tempo, mas a decisão do dia 24 terá o condão de determinar se começaremos o ano com os brasileiros decentes de alma lavada ou com a farra dos caras deslavadas.*

(*) Eliziário Goulart, no blog do Augusto Nunes

NUVENS NEGRAS

À espera de 2018

Esqueça o calendário gregoriano. Na vida real, não é ele que marca o fim ou início de um ano ou mesmo de um século – são os fatos, os teimosos fatos marcantes ou extraordinários que se encarregam disso.

 

Foi a eclosão da 1ª. Guerra Mundial em 28 de julho de 1914 que deu início ao Século XX. Ele acabou quando a União Soviética deixou de existir em 26 de dezembro de 1991.

O século XXI só começou para valer em 11 de setembro de 2001 com os ataques terroristas aos Estados Unidos que custaram a vida de 2.996 pessoas. O ano de 2001 estendeu-se por mais uma dezena de meses.

Se nada de relevante acontecer até lá, 2018 para os brasileiros começará de fato apenas no próximo dia 24 quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidir a sorte do ex-presidente Lula da Silva.

Se absolvido, ele será candidato à sucessão de Temer na condição de favorito. Se o tribunal, por unanimidade, condená-lo, Lula ficará impedido. Se a condenação não for unânime, ainda restará alguma esperança a ele.

Temer seguirá fingindo que governa até 31 de dezembro. Mas 2018 por estas bandas chegará ao fim em 28 de outubro com a eleição em segundo turno do futuro presidente.

2019, portanto, está logo ali. 2018 sequer começou.*

(*)  Blog do Ricardo Noblat

IRRESPONSABILIDADE LULOPETISTA

BNDES concentrou recursos em Angola e Venezuela


BRASÍLIA – De 2002 a 2016, o BNDES aprovou cerca de US$ 14 bilhões em financiamentos para obras de construtoras brasileiras no exterior, notadamente em Angola, Venezuela, Argentina e República Dominicana.

O suporte financeiro –necessário para empreender em países onde o risco é elevado e a escassez de crédito, severa– foi determinante para a expansão das empreiteiras lá fora.

Em 2012, a exportação de serviços bateu US$ 38 bilhões –só em engenharia, o país faturou US$ 8,9 bi.

A influência política cresceu com o avanço econômico. O país passou a se vender como potência, e os governantes (Lula e Dilma) adquiriram popularidade além das fronteiras.

O que deu errado? Excessivamente dependentes do preço das matérias-primas e acumulando erros de política econômica, alguns países quebraram antes de pagar o que devem, como Venezuela e Moçambique. Angola quer garantias de que as obras serão terminadas. Sobrou para o Tesouro Nacional o prejuízo pelo calote já consumado de Moçambique (R$ 1,5 bilhão). Outros estão na fila.

Embora a estratégia de financiar as exportações de serviços seja positiva, ainda não ficou claro por que o BNDES concentrou esforços em alguns países. Segundo pesquisa de Fernanda Lira Goes, do Ipea, dos 11 que receberam empreiteiras brasileiras, Angola e Venezuela responderam por mais da metade do crédito do BNDES liberado às construtoras.

A excessiva concentração não perturbou a análise técnica do banco? É certo que o BNDES segue comando do governo. Mas não houve avaliação crítica interna? Ainda não veio à tona nenhum relatório de alerta feito à época. Nem do banco nem de representantes dos ministérios da Fazenda, Planejamento, Indústria e Itamaraty no Cofig (Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações).

É hora de entender como tudo aconteceu, para criar freios e contrapesos e tornar essas escolhas mais claras no futuro. Trazer à luz os pareceres técnicos é um começo.*

(*) MARIANA CARNEIRO – FOLHA DE SÃO PAULO

“A COISA AQUI TÁ PRETA”

O alerta que vem de Natal

SÃO PAULO – A tragédia ora estancada pelas tropas federais no Rio Grande do Norte é um prenúncio sobre desafio central a ser enfrentado neste ano eleitoral decisivo de 2018.

É de se especular se o sangue dos quase cem cadáveres produzidos durante a greve da polícia local alertou as autoridades sobre o óbvio: o colapso do sistema federativo de 1988.

A partir dali, o Brasil visou dividir o poder central com Estados e municípios, só que isso não foi seguido por um enxugamento da União –como atesta o deficit multibilionário que o país gira em seu Orçamento.

Uma olhada nas contas estaduais mostra que o Rio de Janeiro é apenas um laboratório extremo à espera de replicações. O que levou ao surto de, é preciso deixar claro, irresponsabilidade dos policiais potiguares não foi só vontade de pular ondinha no Réveillon: o Estado está quebrado.

É assim por toda a Federação, sendo preciso lidar com problemas que começam nas Previdências e se espraiam pela estrutura tributária.

Há bizarrices de gestão. A segurança não precisa de um ministério, ela carece de estruturas nacionalizadas que integrem polícias, forças federais e órgãos de inteligência.

O crime não respeita fronteiras, quanto mais estaduais. Enquanto cada governador for um senhor feudal, esse novo pacto não será possível.

Isso não significa repetir o padrão pós-1988 de inchaço de instâncias. O combate é na ponta, com polícias bem equipadas e pagas. À União caberia a coordenação das tarefas.

Uma agenda ampla, que inclua pacote reformista claro e exequível, deveria estar na agenda de todo candidato sério a presidente. Em linguagem de gente, algo que é até fácil nos casos da segurança e da saúde, setor no qual a recente delegação de gasto de verbas às autoridades locais é uma medida na direção correta.

Claro que é pedir demais racionalidade no ambiente e com os protagonistas que temos. Mas a tarefa, que é coisa para talvez décadas, precisa ser iniciada em algum momento. *

(*) Igor Gielow – Folha de São Paulo

NÃO VAI SER FÁCIL…

De olho na política

Se os juízes do TRF-4 votarem de forma unânime confirmando a condenação do ex-presidente Lula, os recursos que os advogados do ex-presidente apresentarem não terão efeito suspensivo da pena. Sendo assim, ele estará, muito provavelmente, fora da disputa. Na ligação intensa entre economia e política, o próximo dia 24 está marcado em vermelho no calendário.

A economia sempre tem efeito sobre as eleições. Este ano será o oposto. A disputa eleitoral deve produzir momentos de muita volatilidade cambial e provocar adiamento das decisões de investimento. A política também tornará o ano fiscal muito ruim. No fim de janeiro, o governo divulgará que as contas públicas de 2017 fecharam com alguma folga em relação à meta, mas aumentaram os temores sobre 2018.

Uma das primeiras más notícias nas contas públicas deve ser o anúncio de um contingenciamento de R$ 20 bilhões. E isso porque na política nada andou. O Congresso não aprovou as medidas de ajuste que permitiriam o Orçamento como ele foi pensado. Uma delas, a que adia o reajuste dos funcionários, foi barrada pelo ministro Ricardo Lewandowsky e isso eleva em R$ 5 bilhões as despesas. A receita com a taxação dos fundos exclusivos foi perdida porque a MP não foi aprovada.

A análise de cada um dos indicadores mostra melhora, mas a economia não está isolada. Ela faz parte de um contexto de extrema incerteza política. A primeira dúvida é quem estará concorrendo para presidente, o que só ficará claro ao longo dos primeiros meses. A segunda é como o Congresso vai se comportar diante da rigorosa agenda fiscal do país, que tem medidas impopulares e a reforma da Previdência para ser votada em fevereiro.

As projeções dos economistas são de que o ano terá o crescimento em torno de 3%. O governo ainda está com a projeção de 2,5%. Isso é melhor do que os últimos quatro anos em que houve estagnação, dois anos recessivos e um ligeiro crescimento. Mesmo assim é menos do que o país precisa para consertar a devastação que houve no mercado de trabalho. O desemprego deve cair na média do ano, ainda que tenha sempre a oscilação natural de um começo com alta da taxa e uma queda nos últimos meses. A inflação ficará baixa, mas subindo um pouco em relação ao ano de IPCA bem reduzido que foi 2017. A safra será boa, mas não tão abundante. Os juros devem continuar baixos, e um período prolongado de Selic reduzida ajudará a economia.

O que marcará o ano não será um ou outro indicador, mas sim o quadro político de uma forma geral. E a ligação será imediata. Por exemplo: o governo está contando com a privatização da Eletrobras. Se ela não acontecer serão R$ 12 bilhões a menos de receita e o governo terá que fazer outro corte nos gastos. A tensão interna, entre quem quer gastar mais por ser ano eleitoral e os que tentam controlar o caixa de um país em crise fiscal, vai aumentar ainda mais.

O que afetará mais diretamente a economia será o quadro da disputa eleitoral. Nos momentos em que estiverem na frente candidatos com discursos populistas e radicalizados, os ativos em bolsa e o dólar vão oscilar fortemente. A alta do câmbio sempre tem efeito na economia real porque contamina a inflação. A boa notícia é que o Banco Central está preparado, com reservas e baixa exposição ao dólar, para atuar no mercado, revertendo momentos de tensão e de alta exagerada.

Todas as eleições são incertas, mas essa será mais incerta que as outras. Por isso tem sido tão frequentemente comparada à de 1989. Mas até aquele ano inaugural das eleições diretas, pós-ditadura militar, não reflete inteiramente o grau de incerteza de 2018. Desta vez a dúvida será ainda maior. Se o ex-presidente Lula estiver concorrendo, a eleição será naturalmente polarizada desde o início. Num quadro de polarização, pode haver demanda por uma pessoa de centro, longe dos polos. O beneficiário dessa ida do eleitor em busca do centro não está definido. Se o ex-presidente Lula não estiver na disputa, os votos lulistas não serão transmitidos todos para a pessoa que ele apoiar. Devem se dispersar, formando o quadro fragmentado parecido com o de 1989. A economia passará este ano de olho na política, porque ela é que vai definir o cenário atual e futuro.*

(*) Miriam Leitão – O Globo

 

SONHADOR ABUSADO

Raquel Dodge fortalece a Lava Jato e vai implodir o plano para reeleger Temer

Um ano e quatro meses depois, as últimas movimentações no xadrez dos três Poderes demonstram que a Lava Jato está conseguindo superar as manobras palacianas e vai continuar dando as cartas na política durante o ano eleitoral de 2018, através da atuação vigorosa da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e do apoio da Polícia Federal, agora dirigida por Fernando Segóvia.

SEM NOVIDADE – Para a “Tribuna da Internet”, não há novidade. Desde a nomeação da substituta do procurador Rodrigo Janot, informamos aqui no blog que o presidente Michel Temer estava totalmente enganado ao julgar que Raquel Dodge ajudaria na Operação Abafa. Explicamos que as divergências dela com Janot eram apenas em relação à política interna da Procuradoria, não haveria recuo no combate à corrupção.

Da mesma forma, a posse do delegado Fernando Segóvia na Polícia Federal não teria qualquer resultado negativo para a Lava Jato, que são consideradas ponto de honra pela corporação, não há como boicotar as investigações.

LOGO NO INÍCIO – Raquel Dodge tomou posse em 18 de setembro e duas semanas depois, no dia 2 de outubro, foi logo mostrando serviço, ao pedir autorização do Supremo para ouvir o presidente da República no inquérito que investiga se houve corrupção na edição de um decreto do setor de portos.

O inquérito fora aberto em setembro, a pedido de Janot, e o relator é o ministro Luís Roberto Barroso, que não deixou por menos, ao autorizar o inquérito. “A ninguém deve ser indiferente o ônus pessoal e político de uma autoridade pública, notadamente o Presidente da República, figurar como investigado em procedimento dessa natureza”, afirmou Barroso, ao abrir investigação contra o presidente pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro por conta do decreto que beneficiou a empresa Rodrimar, que atua no porto de Santos.

Este novo inquérito contra Temer está em andamento e deve provocar a terceira denúncia de Temer no Supremo, em pleno ano eleitoral.

TRABALHO ESCRAVO – Duas semanas depois, em 18 de outubro, Raquel Dodge levou o Planalto novamente à loucura, ao recusar apoio à portaria do então ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, classificada por ela como “um retrocesso à garantia constitucional de proteção à dignidade da pessoa humana”.

Os três mosqueteiros Temer, Padilha e Moreira (que eram quatro quando Geddel ainda participava) ficaram possessos, porém não passaram recibo. Foi redigida uma nova portaria, o ministro Ronaldo Nogueira pediu demissão, vida que segue, diria nosso amigo João Saldanha.

Mas no final ano, o Planalto sofreu mais uma pancada desmoralizadora de Raquel Dodge, ao pedir liminar contra o decreto do indulto de libertava mais da metade dos réus da Lava Jato já condenados em segunda instância.

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P.S. 1
 – Raquel Dodge já mostrou a que veio. Encurralou Temer nas cordas, é um cruzado atrás do outro. Vai bater até ele cair, não se sabe em que assalto. Em tradução simultânea, pode-se dizer que Raquel Dodge vai destruir o plano para reeleição de Temer, que está inundando a grande mídia com propaganda institucional. Tem anúncio até do Ministério da Defesa, embora se diga que não tem dinheiro nem para o almoço dos recrutas.

P.S. 2 – Havia quem pensasse que o novo diretor da Polícia Federal, Fernando Segóvia, ia enfraquecer a Lava Jato. Mas a resposta dele foi duplicar a equipe da PF que conduz no Supremo as investigações contra políticos com mandato, e um deles se chama Michel Temer. (C.N.)*

(*) Carlos Newton – Tribuna na Internet

E FOI ASSIM…

“Tem que manter isso, viu?” e outras belas frases que marcaram o ano político

“Tem que manter isso, viu?” — Michel Temer, presidente, dando instruções sobre um ex-deputado em silêncio na cadeia.

“Todo mês” — Joesley Batista, dono da JBS, mostrando que entendeu bem o que tinha que manter.

“Investigação malfeita” — Gilmar Mendes, ministro do STF, criticando as denúncias da Procuradoria contra seu amigo na Presidência.

“Eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão” — Luís Roberto Barroso, ministro do STF, rebatendo a crítica do colega.

“Tem que ser um que a gente mata ele antes dele fazer delação” — Aécio Neves, senador, descrevendo o tipo ideal para carregar sua mala.

“Se acabar o foro, é para todo mundo. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada” — Romero Jucá, senador, sobre a maior preocupação do ano no Congresso.

“Tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher” — Jair Bolsonaro, deputado, lembrando que o que está ruim sempre pode piorar.

“Eu sei que tô lascado, todo dia tem um processo” — Lula, ex-presidente, admitindo que está… lascado.

“Eu não matei Odete Roitman” — Sérgio Cabral, ex-governador, descobrindo um crime que não cometeu.

“Nós não vai ser preso, nós sabemos que nós não vai” — Joesley Batista, empresário, mostrando que não tinha talento para prever o futuro.

“Não sei como Deus me colocou aqui” — Michel Temer, presidente, confundindo Deus com um ex-deputado em silêncio na cadeia.*

(*) Bernardo Mello Franco – Folha de São Paulo

E “VAMO” QUE “VAMO”

No ano passado eu morri…

O ano novo chega com cara de velho com cicatrizes, rugas e marcas de 201

O ano passado terminou sob –  ou, como prefere o novo diretor da Polícia Federal (PF), Fernando “por qué no te callas” Segóvia, sobre – a égide da luta surda entre os poderosos mandatários de plantão e os impotentes cidadãos em nome dos quais aqueles exercem o poder máximo num possível Estado de Direito. Esta luta sem quartel pelo comando do “cartel de Abrantes”, paródia da expressão popular dos tempos em que patentes militares eram sinais de respeito, prestígio e, sobretudo, poder, é tão encarniçada que o máximo que se pode desejar em cartões bem intencionados de boas-festas resume-se num verso genial do repentista paraibano Zé Limeira, dito “o poeta do absurdo”: “No ano passado eu morri, mas neste ano eu não morro”. Se tudo der certo para a cidadania, o que é muito difícil, ele será uma grande Páscoa. Mas, se entre a votação da reforma da Previdência e a posse do presidente eleito pelo povo os desaforados aforados continuarem com a faca e o queijo em mãos, será uma quaresma sem carnaval para compensar.

O marco zero (como ponto de partida e nota de desempenho) da realidade áspera que está sendo imposta à Nação foram as duas votações na Câmara que dispensaram o presidente da República de ser investigado por participação – e possível mando – no “quadrilhão do MDB”, a pedido do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Mantido no cargo pela metade mais um dos companheiros de antanho na Câmara mais do que nunca “baixa”, o constitucionalista de Tietê Michel Temer conseguiu até dobrar de popularidade das profundezas dos 3% para ainda inaceitáveis, mas bem melhores, 6%. Impopularidade à parte, Sua Excelência começa o ano útil de 2018 em 19 de fevereiro, quando sua mitigada reforma da Previdência será submetida a votação mais difícil na Câmara, de vez que não é mais necessária apenas a aprovação de um terço de seus antigamente nobres pares e hoje ignaros “parças”, mas três quintos dos plenários do Congresso para aprovar seu (e nosso) primeiro grande objetivo no ano.

Para conseguir o intento, e com isso evitar transferir o abacaxi azedo e podre para o sucessor eleito, o vice de Dilma guindado ao poder pelas peraltices contábeis dela enfrenta a má vontade generalizada de uma população cuja desconfiança se transforma em votos num Congresso desmoralizado, mas com poder para decidir se o País continuará à míngua para pagar os privilégios dos articuladíssimos marajás dos Três Poderes, assegurados por cabos eleitorais, assessores e, em muitos casos, donos das impressões digitais do dinheiro vivo que contam propinas em contas no exterior, caixas de joias e até em apartamentos (ou aparelhos, como nos tempos de Dilma guerrilheira) vazios de gente e povoados por cédulas.

No ano em que alguns de nós morreram de verdade, mas muitos morremos apenas um pouco, os donos do poder da República fizeram o possível para manter o cetro e conter o martelo impiedoso de alguns juízes que resolveram romper o ciclo no qual só eram presos pobres, pretos e prostitutas. Com proxenetas e contadores fazendo delações premiadas, o ano das mortes aos pedaços terminou com a volta à casa de dois símbolos da propinocracia reinante. Para sua mansão em São Paulo regressou o pai severo e empreiteiro-mor do País, Marcelo Odebrecht, cumprindo pena de tornozeleira no calcanhar de Aquiles. O mandachuva das obras superfaturadas pode dizer como um malandro qualquer ao subir o morro de onde saiu: “Já paguei minha dívida com a sociedade”.

O seio da família na Zona Sul carioca é o destino do ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, libertado graças à boa vontade que os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm com militantes de sua fé ideológica e com clientes abonados de colegas que frequentam a promiscuidade de convescotes do poder no Planalto Central do País. O egresso do inferno presidiário de volta ao lar, doce lar cruzou os portões da Papuda com dinheiro no banco e, no bolso, a carteirinha do Partido dos Trabalhadores, que para o STF o distingue de meros mortais. Ela garantiu a Dilma o direito de sonhar ser merendeira de escola. E ele foi o elo vivo entre a militância e os fundos do bicentenário banco público número um de Pindorama, dito do Brasil. Pizzolato passeou pelo Código Penal com desenvoltura: corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução da justiça, falsidade ideológica e fuga para o exterior. Condenado a 12 anos e 7 meses de prisão, ficou dois foragido na Itália, esperou um pela extradição e ma

is dois e meio na Papuda. Um quarto de pena cumprido com bom comportamento na caderneta de detento bastou para mobilizar a benemerência do ministro Barroso, que lhe concedeu liberdade provisória.

Do mensalão agora só resta preso Marcos Valério, chamado de operador por Roberto Jefferson, o delator, que, também indultado, nesta virada de ano negocia com o presidente da República a mudança do titular do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), criado por Getúlio, perdido por Brizola e refundado por Carlos Lupi, no Ministério do Trabalho. Outro condenado naquelas eras, Valdemar Costa Neto, Boy, também desfruta sua liberdade negociando ministérios com Temer à sombra do Jaburu. Pizzolato, o petista libertado, agora quer gozar benefícios de um indulto, que a Nação chama de insulto e duas damas, Raquel Dodge e Cármen Lúcia, consideraram inconstitucional por tornar o crime compensação das agruras que o peso do poder impõe aos martirizados políticos nacionais.

O indulto, que alguns desaforados impenitentes apelidaram de insulto, trocando uma consoante e mofando da generosidade do chefe do Executivo, aliás, deu o que falar no Natal, em que o presidente disputou o título de Papai Noel do século, afastando competidores menos votados.

O pórtico do ano dito novo foi atravessado por uma semana de lambanças patrocinadas pela comemorada habilidade genial do constitucionalista de Tietê. A primeira foi nomear para a Secretaria de Governo, leia-se negociação com o Congresso, a começar pela emenda constitucional da reforma da Previdência, um político apropriado para estes tempos de “sou grande, sou bruto, sai da frente, senão atropelo”. Se o deputado de primeira legislatura Carlos Marun tivesse um brasão, este seria o dístico adequado. Em seu estilo de valentão do Cerrado, disse aos nove governadores do Nordeste que quem quiser financiamento de banco público tem de forçar a bancada do Estado a aprovar a reforma da Previdência. Sinceridade ou sincericídio? Franqueza ou estupidez?

Como se vê, o novo estafeta do presidente no reino das cumbucas não é propriamente uma figura hamletiana. Ele não tem dúvidas nem meias palavras. Com Marun, ou dá ou desce. A fama de Temer não era esta até ganhar as fatídicas votações em que sepultou a carreira de arqueiro de flechas de bambu de Janot. Mas estes são outros tempos. Agora, com o poder que emana de representantes que o povo elegeu e por eles tem sido desprezado, Temer ousou e não esperava ser desafiado.

O chefe do governo teve de engolir o insulto que disparou antes do aniversário do galileu porque não contou com a astúcia de duas damas, depois de ler uma carta de sete governadores que se sentiram agredidos pelo pitbull que mantém amarrado à porta de seu gabinete. E talvez perceba que gorou seu projeto de perdoar as multas dos criminosos de colarinho branco em nome da miséria dos pobres que cumprem penas a que não foram condenados ou que já foram cumpridas, no dizer de seu ministro da Justiça, Torquato, que está mais pra capoeira do que pra Jardim.

Circula nas redes sociais post (perdão pelo anglicismo inevitável) do portal O Antagonista atribuindo ao chefe dos Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha, a autoria secreta do passo em falso. O moço foi, como se sabe, indicado para o prestigiado posto pelo presidiário Eduardo Cunha, com endereço certo e sabido numa certa cela em Curitiba, e goza de prestígio junto ao chefão geral. Mas isso não basta para incriminá-lo à falta de provas, claro. De toda maneira, contudo, sua simples presença num gabinete no Planalto é uma espécie de impressão digital do Caranguejo da Odebrecht, a quem também, não se pode esquecer, Marun sempre serviu com denodo de congregado mariano. Amém.

É, amigos, mesmo para quem tenha morrido em 2017, não vai ser fácil sobreviver em 2018 à sombra de tantas cicatrizes, rugas e marcas do ano passado. Haja pimenteira!*

(*) José Nêumanne – Estadão

QUEM AVISA…

Atenção: O ano de 2018 não será feliz nem novo

Esqueça o brinde do Réveillon. O ano de 2018 não será feliz nem novo. A corrupção generalizou-se de tal modo que sumiu até a confiança. Você fará um favor a si mesmo se agir para reduzir os danos. Não há muitas opções. Ou você é otimista ou é inteligente. O desespero até que é uma boa. O que o país não aguenta mais é essa euforia que costuma inundar a alma do brasileiro entre a virada do ano e o Carnaval. No momento, a esperança é a última que mata.

O Brasil já foi, como se sabe, o país do futuro. Este é o título de um livro que Stefan Zweig, autor austríaco mundialmente conhecido, publicou em 1941: “Brasil, País do Futuro.” Nessa obra, Zweig anotou que o Brasil “quase não deveria ser qualificado de um país, mas antes de um continente, um mundo com espaço para para 300, 400 milhões de habitantes, e uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada.” As impressões de Zweig sobre o Brasil foram alvissareiras: “Percebi que havia lançado um olhar para o futuro do mundo.”

Decorridos 76 anos, Stefan Zweig não está mais entre nós. Suicidou-se. Suprema ironia: com os olhos voltados para o futuro, não suportou o presente. Vivo, talvez escrevesse outro livro: “Brasil, País do Faturo.” A opulência sob o solo já não está tão intacta. Prospecta-se até o óleo armazenado em alto mar, sob a camada do pré-sal. Mas o proveito é para poucos. Por ora, a riqueza chegou apenas aos bolsos daqueles que conseguiram plantar bananeira dentro de cofres como os da Petrobras.

O Brasil pós-Zweig ainda é um país por fazer. O que falta é gente verdadeiramente disposta a assumir a empreitada. Há quatro anos, em 2013, teve-se a impressão de que o brasileiro assumiria finalmente a incumbência de construir o futuro. Naquele ano, antes que os black blocs estragassem a festa, as pessoas pareciam ter descoberto na ocupação do asfalto um protagonismo impulsionado por reivindicações de menos roubalheira, mais seriedade por parte dos governantes e serviços públicos decentes. Sobreveio Dilma Rousseff, reeleita nas pegadas de uma campanha marcada pelo signo da mentira.

Aquecido pela Lava Jato, o asfalto ferveu até o impeachment. Súbito, os brasileiros que foram ao meio fio ou bateram panelas se deram conta de que Dilma, além de ser uma das piores presidentes que o Brasil já teve, deixara duas heranças macabras: os efeitos de sua administração empregocida e o Michel Temer, um substituto constitucional cercado de dois tipos de aliados: os culpados e os cúmplices. O tucano Aécio Neves, que emergira das urnas de 2014 como uma alternativa oposicionista, chafurdou junto com Temer na lama da Odebrecht e da JBS. Seguiu-se o desalento. O asfalto voltou para casa. Instalou-se a inércia.

A população do ”continente” brasileiro ainda não roçou os 400 milhões de habitantes vaticinados por Zweig. Mas já somos 208 milhões, dos quais mais de 146 milhões dispõem de título eleitoral. Diante da tempestade de lodo, a providência mais óbvia a ser adotada por esse eleitorado seria abrir o guarda-chuva. Mas a inconsciência insinuada nas pesquisas eleitorais indica que o voto pode se tornar um apetrecho inútil como um guarda-chuva sem o pano que o recobre. A insensatez e todo tipo de intempéries têm livre acesso.

O número um das sondagens eleitorais é uma figura arquimanjada: Luiz Inácio Lula da Silva. Um detalhe dramatiza o papel do personagem no enredo trágico de 2018: em 24 de janeiro, sairá o veredicto da segunda instância sobre a condenação que Sergio Moro grudou na biografia do ex-mito petista. Confirmada a sentença de nove anos e meio de cadeia, Lula se tornará inelegível. E o Brasil ficará na constrangedora situação de ter o líder nas pesquisas fazendo campanha para um cargo que a lei o impede de reocupar.

O número dois na preferência do eleitorado é Jair Bolsonaro. Trata-se de uma pseudo-novidade. Ou, por outra, é uma novidade com cheiro de naftalina. Parlamentar de cinco mandatos, o ex-tenente é pós-graduado nas mumunhas da política. Como jamais teve acesso à chave do cofre, jacta-se de não frequentar os inquéritos por corrupção. Mas foi filiado, entre 2005 e 2016, ao Partido Progressistas, que está no topo do ranking de envolvidos na Lava Jato. E responde como réu a duas ações no Supremo Tribunal Federal por apologia ao crime e injúria.

Uma das ações refere-se ao caso em que Bolsonaro declarou, da tribuna da Câmara, que não estupraria a colega Maria do Rosário (PT-RS) por falta de merecimento. Alegou que a deputada é muito feia. Tomado pelas declarações polêmicas, Bolsonaro seria um presidente temerário. Num eventual governo comandado por ele, policiais teriam licença para matar, terras indígenas seriam uma ficção jurídica, e brasileiros homos e trans mastigariam o pão que o Tinhoso amassou. Bolsonaro está de saída do PSC, Partido Social Cristão, uma legenda pouco social e nada cristã. Já entabulou negociações nada republicanas com Valdemar Costa Neto, dono do Partido da República. Flerta com o PSL, uma legenda nanica que se diz social e liberal.

Juntos, Lula e Bolsonaro amealham a preferência de algo como metade do eleitorado. Abaixo da dupla, acotovelam-se alternativas já preteridas pelo brasileiro em sucessões anteriores —Geraldo Alckmin (PSDB), alvo de inquérito que apura no STJ o recebimento de R$ 10 milhões da Odebrecht; Manuela D’Ávila (PCdoB), citada na delação da mesma construtora como beneficiária de R$ 360 mil no caixa dois; e dois ex-ministros de Lula que se mantiveram à margem da crise moral: Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).

Há, de resto, uma pretensão declarada dos apologistas do governo Temer de comparecer às urnas com um candidato “competitivo”. São duas as hipóteses mencionadas. Uma é impensável: a reeleição do próprio Temer, primeiro presidente da história a colecionar duas denúncias criminais por corrupção, obstrução à Justiça e organização criminosa. Outra é imponderável: a candidatura do ministro Henrique Meirelles (Fazenda), um personagem que tem o carisma de uma pedra de gelo.

O que alimenta as pretensões de Temer e Meirelles é a perspectiva de que o déficit moral do governo seja atenuado pela lenta recuperação da economia. Alega-se que o PIB pode ser vitaminado em até 3% neste ano da graça de 2018. Admita-se, para efeito de raciocínio, que seja verdade. Nessa hipótese, o número de desempregados chegará ao dia da eleição, 7 de outubro, rodando na casa dos 11 milhões de brasileiros. E alguém sempre poderá recordar que a prosperidade não apaga a indignidade. O período do milagre brasileiro, de 1968 a 1973, com taxas de crescimento de 10% ao ano, foi também a fase em que a tortura do regime militar experimentou o seu apogeu.

Contra esse pano de fundo tóxico, o eleitor brasileiro, com seu guarda-chuva sem pano, trocou as ruas pelas redes sociais. Ali, em meio a ataques anônimos e iracundos, o dono do voto exercita seu esporte predileto: colocar a culpa pelas mazelas do país nos políticos, nas elites, na imprensa… É como se todo o mal do Brasil fosse uma responsabilidade do alheio.

Retorne-se, por oportuno, ao início: esqueça o brinde do Réveillon. O ano de 2018 não será feliz nem novo enquanto nós, os 146 milhões de eleitores, não abandonarmos o lero-lero segundo o qual todos são culpados pela desgraça nacional, menos nós.

Em 1985, no alvorecer da redemocratização, não havia no Brasil telefone celular, TV a cabo, antena parabólica e cerveja em lata. Hoje, em plena Idade Mídia, marcada pela explosão da internet, o mínimo que um eleitor deveria fazer é colecionar dados que lhe permitam exercitar o direito de escolher seus representantes sem o ânimo de um cidadão  bêbado. Para que isso acontecesse, seria necessário perceber que todos os mandamentos da felicidade começam com “não”.

Não reduzir a democracia a um regime que oferece ampla liberdade para fazer tolices por contra própria; não transformar o voto num equívoco renovado de quatro em quatro anos; não acreditar em candidatos que prometem potes de mel sem mencionar os ferrões da abelha; não confundir certos postulantes com os postulantes certos; não votar, afinal, no herói que os pára-choques de caminhão chamarão de ladrão 15 dias depois da posse…*

(*) Blog do Josias de Souza