DEFUNTO PUTREFATO

PT, 38, já tem idade para não saber muita coisa

Ainda moço, o PT já não tem carne, apenas osso. Ainda assim, encontrou ânimo para celebrar seu aniversário de 38 anos. Recomenda-se aos convidados que evitem a bebida servida na festa. Num partido que vai da mocidade à indignidade, sem um estágio qualquer para chamar de maturidade, a água já não vira vinho, vira direto vinagre.

O convite anuncia uma festa “com Gleisi e Lula”. Nem sinal de Dilma. É como se a legenda tivesse desligado da tomada a “guerreira do povo brasileiro”. Importa agora denunciar o “golpe da eleição sem Lula”. A pregação anti-impeachment também virou vinagre.

Em maio de 2014, ao discursar na convenção em que o PT aclamou Dilma como recandidata ao Planalto, Lula parecia farejar o que estava por vir. Comparou o PT que ele fundara em fevereiro de 1980 com o partido que ocupava a Presidência da República havia 12 anos:

“Nós criamos um partido político foi para ser diferente de tudo o que existia”, declarou o Lula de 2014. “Esse partido não nasceu para fazer tudo o que os outros fazem. Esse partido nasceu para provar que é possível fazer política de forma mais digna, fazer política com ‘P’ maiúsculo.”

A Lava Jato dava seus primeiros passos. Sem suspeitar que a operação alcançaria o seu calcanhar, Lula foi ao ponto:

“Nós precisamos recuperar o orgulho que foi a razão da existência desse partido em momentos muito difíceis, porque a gente às vezes não tinha panfleto para divulgar uma campanha. Hoje, parece que o dinheiro resolve tudo. Os candidatos a deputado não têm mais cabo eleitoral gratuito. É tudo uma máquina de fazer dinheiro, que está fazendo o partido ser um partido convencional.”

Enquanto Lula discursava, o dinheiro sujo da Odebrecht entrava na caixa registradora do comitê Dilma-Temer. De. resto, Lula se absteve de dizer no discurso de 2014 que ele próprio já havia se tornado “uma máquina de fazer dinheiro.” Moído pela força-tarefa de Curitiba, o companheiro Palocci cuidou de apresentar Lula a si mesmo numa carta que enviou ao PT, desfiliando-se da legenda:

“Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?”, indagou Palloci na carta que endereçou à direção do PT.

Ex-ministro de Lula e Dilma, Palloci ainda não estava preso em 2014. Mas já havia petistas atrás das grades: “Precisamos começar a nos preocupar, porque o problema não são apenas os companheiros que estão presos”, disse Lula na convenção pró-Dilma. “O problema é que a perseguição é contra o nosso partido. A perseguição é porque eles não admitem […] que a gente consiga provar que é possível fazer nesse país o que eles não fizeram durante tantas décadas.”

Hoje, Lula preocupa-se com sua própria prisão. Se o Supremo Tribunal Federal não o socorrer, o mandado de captura deve ser expedido por Sergio Moro até o final de março, quando o TRF-4 dará por encerrado o julgamento do caso do tríplex do Guarujá na segunda instância.

Na noite passada, durante um compromisso partidário em Belo Horizonte, Lula reiterou que não respeita o veredicto que o condenou a 12 anos e 1 mês de cadeia (veja abaixo). Antes, contentava-se em apertar o botão do “não sabia”. Agora, cercado por uma dúzia de processos, aciona a tecla da “perseguição política” também como autodefesa.

Velho aos 38, o PT deveria evitar na festa desta quinta-feira o tradicional “parabéns pra você”. No seu caso, qualquer “parabéns” soaria como ironia. O pior da velhice petista é o convívio com a amnésia. Dilma cuida dos netos em Porto Alegre, Palocci faz companhia a Vaccari na carceragem de Curitiba, Dirceu arrasta uma tornozeleira eletrônica em Brasília e Lula é um presidiário esperando para acontecer. Mas o PT não se lembra de nada do que fez no verão passado. Aos 38, o PT já tem idade para não saber muita coisa. Ao promover uma festa de aniversário, o PT sinaliza que optou por viver no mundo da Lua.*

(*) Blog do Josias de Souza

O ROTO FALANDO DO ESFARRAPADO

O corrupto condenado acha que Temer é igual a Lula

O colecionador de vigarices pirotécnicas teme que a intervenção federal no Rio seja “apenas pirotecnia”


Durante 13 anos, as duplas Lula-Sérgio Cabral e Dilma Rousseff-Luiz Fernando Pezão recorreram a sucessivas vigarices pirotécnicas para fazer de conta que o Rio de Janeiro, enfim, se transformara num porto seguro.

As Unidades de Polícia Pacificadora (as miraculosas UPPs), o teleférico do Morro do Alemão, o deslocamento de tropas do Exército para favelas promovidas a “comunidades” — qualquer invencionice eleitoreira era apresentada pelo  bando como prova de que o Rio era tão tranquilo quanto um vilarejo nos Alpes suíços. Deu no que deu.

Como a farsa não pode parar, Lula jurou nesta quarta-feira que tem medo de que a intervenção federal no Rio seja apenas pirotecnia. Se fosse punido com um dia de cadeia sempre que erguesse um monumento ao cinismo, o ex-presidente não escaparia da prisão perpétua.*

(*) Blog do Augusto Nunes

MINHAS GAROTAS…

TRF-4 determina sequestro de imóveis da filha e da enteada de Antônio Palocci

O pedido foi feito pelo MPF no processo em que foi determinado arresto e sequestro de bens de Palocci e da consultoria dele, a Projeto Consultoria Empresarial e Financeira. Os procuradores haviam pedido bloqueio de R$ 812 milhões. O juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, deferiu o sequestro de R$ 150 milhões, mas após as buscas nas instituições financeiras foi possível bloquear apenas R$ 61,7 milhões.

IMÓVEIS TRANSFERIDOS – Os procuradores pediram então a inclusão dos imóveis que tinham sido transferidos à filha e à enteada dele, em São Paulo. Moro indeferiu o pedido, mas o TRF-4 decidiu sequestrar os bens. O relator, desembargador João Pedro Gebran Neto, afirmou que pelo menos dois imóveis foram comprados com recursos ilícitos.

“Num deles, Palocci teria transferido o valor da compra para a conta da filha dois dias antes da aquisição. No segundo caso, a transferência bancária foi feita diretamente de Palocci para o vendedor do imóvel à enteada”, informou o TRF-4. Com a decisão de segunda instância, o sequestro deverá ser determinado por Moro.

BLOQUEIO – Palocci foi condenado a 12 anos e dois meses de prisão pelo juiz Sergio Moro, no processo que envolveu pagamentos feitos ao marqueteiro do PT, João Santana, no exterior. Dos R$ 61,7 milhões bloqueados de seu patrimônio, R$ 31 milhões estavam em aplicações financeiras (letras financeiras e recebíveis imobiliários). Os demais valores haviam sido bloqueados antes nas contas correntes de Palocci (R$ 814 mil) e na conta pessoa jurídica da Projeto (R$ 30 milhões).

Palocci foi preso na 35ª Fase da Lava-Jato, acusado de administrar a conta de propina do Grupo Odebrecht para o PT. O valor alcançaria R$ 128 milhões. Os valores foram descritos numa planilha com o codinome “italiano”. O ex-ministro inicialmente negou ser o “italiano”, mas depois confessou, na expectativa de assinar acordo de delação premiada, o que não se concretizou.*

(*) Cleide Carvalho
O Globo

E QUANTO TERIA O CHEFE DELE?

Paulo Preto, que operava o esquema tucano, tinha R$ 113 milhões na Suíça

Paulo Preto é investigado em inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sob suspeita de ser operador do senador José Serra (PSDB-SP) em desvios de recursos do Rodoanel, obra viária que circunda a capital paulista. Ele comandou a Dersa, responsável pela obra, em governos tucanos, e também é investigado em São Paulo. O montante descoberto na Suíça consta de uma decisão de outubro passado da juíza Maria Isabel do Prado, da 5ª Vara da Justiça Federal em São Paulo, que foi anexada ao inquérito no STF pela defesa de Paulo Preto nesta semana.

CONTAS BANCÁRIAS – Segundo essa decisão, que era sigilosa, o Ministério Público da Suíça compartilhou espontaneamente com procuradores de São Paulo informações sobre a existência de quatro contas no banco suíço Bordier & Cie em nome da offshore panamenha Groupe Nantes S/A, “cujo beneficiário é o investigado Paulo Vieira de Souza”. Segundo essas informações, “em junho de 2016 as quatro contas bancárias atingiam o saldo conjunto de cerca de 35 milhões de francos suíços, equivalente a R$ 113 milhões, convertidos na cotação atual”.

Em fevereiro do ano passado, tais valores, segundo as informações vindas da Suíça, foram transferidos para um banco em Nassau, nas Bahamas. A juíza disse ver fortes indícios da prática de crimes, “bem como o enriquecimento injustificado do investigado”, e decidiu na ocasião autorizar uma cooperação internacional com a Suíça, além da quebra do sigilo bancário de Paulo Preto, a fim de obter todas as informações sobre as movimentações bancárias.

TRANSFERÊNCIA PARA O STF -O processo na Justiça Federal em São Paulo trata de supostos desvios no pagamento de indenizações para pessoas que tiveram imóveis desapropriados para a construção do Rodoanel. A defesa de Paulo Preto anexou a decisão aos autos no STF porque quer que a investigação em São Paulo seja transferida para o Supremo, sob o argumento de que os fatos apurados têm ligação –referem-se a desvios nas obras do trecho sul do anel viário.

Com isso, os advogados também pedem que a cooperação internacional autorizada pela juíza de São Paulo seja suspensa. O inquérito no Supremo foi aberto em 2017 a partir da delação da Odebrecht, que disse ter pago propina no Rodoanel supostamente em benefício de Serra. O relator do caso no STF, ministro Gilmar Mendes, deverá decidir sobre os pedidos da defesa. *

(*) Reynaldo Turollo Jr. E Rubens Valente
Folha

CONTAS QUE NÃO FECHAM

Tarefa: cortar gastos e … elevar gastos

Desajuste das finanças do Rio somente será ultrapassado com reforma estrutural, começando pela da Previdência

Então ficamos assim: sai a reforma da Previdência, cujo objetivo é reduzir a despesa pública, e entra a intervenção federal no Rio, que, para funcionar, exige mais gastos com pessoal, equipamentos e logística.

E tem mais complicação: o gasto com as Forças Armadas é do governo federal, que está submetido a um teto de despesas. Ou seja, se for preciso aumentar o orçamento militar, inevitável, será preciso tirar dinheiro de algum outro item.

O gasto com policiais e equipamentos — viaturas, por exemplo — é do governo estadual do Rio. Ora, o estado já gasta com pessoal mais de 60% da receita líquida, acima, portanto, da regra que determina um teto de 49%. De novo, um governo que já gasta excessivamente com pessoal precisa contratar pessoal.

O exemplo desse desajuste é forte. A Polícia Civil fluminense tem orçamento para gastar neste ano um total de R$ 1,8 bilhão, sendo 92% para pessoal e encargos. Na Polícia Militar, a despesa autorizada é de R$ 5 bilhões, sendo 87% para pessoal e encargos.

Nessa rubrica pessoal, a maior parte vai para aposentadorias e pensões. Para ficar na PM, para cada coronel na ativa há cinco aposentados, a maioria na faixa dos 50 anos.

Por aí se vê: o desajuste das finanças do Rio somente será ultrapassado com uma reforma estrutural, começando pela da Previdência. Só que isso caiu por causa da intervenção federal, que, por óbvio, está limitada pela carência financeira.

Acrescentemos mais um ingrediente: a intervenção na segurança pública é, mais do que necessária, inevitável, dada a falência do governo estadual. Embora não seja lá essas coisas e também esteja no vermelho, o governo federal ainda dispõe de mais capacidade administrativa e financeira. Portanto, intervir foi uma decisão política correta e que atende aos interesses da população do Rio.

Isso mostra o tamanho e a complexidade do problema: o setor público, em todos os níveis, gasta demais — e não fornece os serviços adequados de segurança, saúde e educação, para ficar nas principais funções do Estado. Gasta demais com pessoal — e faltam funcionários em todas aquelas áreas.

A conclusão é inevitável: é preciso reduzir e aumentar o gasto público, tudo ao mesmo tempo. Demitir e contratar. Por isso, parece que todo mundo está convencido neste debate. Tem razão quem mostra a necessidade de uma severa redução de despesas. Também está cheio de razão quem nota que faltam policiais equipados (e médicos e professores etc.). Ocorre que quem fica em um só lado da história tem uma razão inútil.

Mas é possível cortar e aumentar despesa ao mesmo tempo? É necessário.

Como fazer? Um atalho é ganhar receitas. Mas não com o aumento de impostos, porque aqui está outra contradição. A carga tributária é elevada e não chega para o gasto.

Logo, uma saída é uma onda de privatizações — com as quais o Estado pode fazer caixa, eliminar desperdícios, atrair investimentos e ganhar eficiência em serviços públicos. Até cadeias deveriam ser concedidas à iniciativa privada. A empresa privada administra, e o governo paga uma mensalidade, uma taxa de hospedagem por preso. Podem apostar: o governo gastaria menos assim do que ele mesmo administrando — e administrando tão mal como se verifica.

Privatizações e concessões têm essas múltiplas vantagens. Resultam em ganho de receita e diminuição de despesa. Mas tem que ser bem feita mesmo. Privatizar uma estrada ou um hospital ou um presídio e dizer que o concessionário não pode lucrar muito — isso é simplesmente ridículo.

O segundo ponto é cortar despesas que não afetam os setores da ponta. Atrasar a manutenção de viaturas ou de viadutos é economia suja. Mas é evidente que nas burocracias intermediárias tem gente sobrando e gente que trabalha pouco e produz nada — isso tanto nas estatais quanto na administração direta. E com os melhores salários. Há estatais e órgãos inúteis que só estão aí pela inércia.

O terceiro ponto é controlar a principal fonte de desequilíbrio financeiro estrutural. Ou seja, fazer a… reforma da Previdência.

Esse é o desafio político do momento: o surgimento de lideranças responsáveis e capazes de convencer o eleitor da necessidade daquelas múltiplas tarefas.

Desconfie dos que só apontam um lado da história. É enganação.*

(*) Carlos Alberto Sardenberg é jornalista – O Globo

 

CADÊ AS PROVAS, É?

Odebrecht entrega e-mails como prova de que prédio para o Instituto Lula saiu de propina

Empresário reuniu mensagens trocadas durante a negociação do imóvel, que não foi usado

SÃO PAULO – O empresário Marcelo Odebrecht, que cumpre prisão domiciliar, apresentou novos e-mails que mostram a negociação para a compra de um imóvel para o Instituto Lula com a participação do ex-ministro Antonio Palocci; do “advogado”, que seria o advogado do ex-presidente, Roberto Teixeira; e do pecuarista, que seria José Carlos Bumlai, amigo da família Lula. Os emais – com datas entre julho de 2010, último ano do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, a março de 2012, mostram conversas do empresário com executivos do grupo e a determinação para que o valor gasto na compra do prédio fosse debitado de uma conta do departamento de propina da empresa, comandado por Hilberto Silva.

Em uma das trocas de mensagem, em 9 de setembro de 2010, o diretor superintendente da Odebrecht Realizações Imobiliárias (OR), Paulo Ricardo Barqueiro de Melo, pergunta ao empresário de qual conta o custo referente ao projeto será debitado. Marcelo Odebrecht responde no mesmo dia “Eh uma conta que HS mantem e debita a 3 fontes distintas”. HS é Hilberto Silva, que aparece copiado no e-mail.

Os e-mails indicam que Marcelo Odebrecht negociava diretamente com Palocci o andamento da aquisição do prédio, na Rua Haberbeck Brandão. Barqueiro de Melo lhe informa que o imóvel estava ocupado por três famílias e que estava sendo contratada uma empresa para negociar a desocupação, o que geraria uma despesa adicional de R$ 200 mil. O empresário responde: “Ok vou avisando o italiano”.

As conversas incluem ainda comentários sobre o vazamento de informações sobre a compra do prédio, publicada em novembro de 2010 em uma reportagem publicada no site UOL e que cita a compra do prédio “próximo ao Parque Ibirapuera”, que já estaria “reservado para ser a sede do futuro instituto”.

Diz que a compra seria feita por um grupo de apoiadores e que faltava apenas o aval final do presidente e da primeira-dama Marisa Letícia. “Segundo a fonte, Lula e Marisa já visitaram o local. Em princípio, o presidente avaliou que o prédio seria “muito grande”. Já Marisa – que deverá dar a palavra final – gostou do espaço.”, diz o texto.

‘REPÓRTER XERETA’

O vazamento da informação, que é atribuído nas mensagens a Bumlai, gerou protesto do empresário: “Já avisei ao Italiano que estamos batendo na trave! Este pessoal não tem responsabilidade…Como algum repórter xereta pode acabar chegando na DAG acho importante preparamos a história/estratégia de comunicação (ou de não comunicação) deles (..)”, diz Marcelo, referindo-se à construtora baiana que adquiriu o prédio, para que a Odebrecht não ficasse exposta.

Em outra mensagem, Marcelo orienta seus executivos de que, para “ter certeza que esta falando em nome instituto”, teria de ser “o japonês ou o italiano”, referência a Palocci e ao presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

O ex-ministro Antonio Palocci confessou ser o “italiano” na planilha de propinas da Odebrecht para o PT. O Instituto Lula nunca utilizou o prédio. O ex-presidente Lula confirmou ter visitado o imóvel da Rua Haberbeck Brandão, mas disse que era inadequado e, portanto, nenhum negócio foi fechado.

A ação que envolve a compra do prédio e de uma cobertura vizinha à de Lula no ABC paulista, que o ex-presidente afirma ter sido alugada, faz parte da Lava-Jato e está em fase de diligência nos sistemas de contabilidade paralela da Odebrecht, já que são mencionados pelo Ministério Público Federal (MPF) como origem do dinheiro que teria, supostamente, beneficiado Lula.

Esta é a segunda ação contra Lula na Lava-Jato em Curitiba. A terceira inclui reformas feitas no sítio de Atibaia, que está em nome de terceiros mas teriam sido feitas, segundo os procuradores, como forma de vantagem indevida repassada ao ex-presidente pelas construtoras Odebrecht, OAS e Schahin.*

(*) CLEIDE CARVALHO – O GLOBO

 

CANALHA JURAMENTADO

Prefeito ímprobo

Duvido que consiga ele convencer os procuradores. Os cidadãos do Rio já não convence há muito tempo. O Tribunal de Contas do Município também quer explicações

O que ainda falta para o prefeito Marcelo Crivella ser afastado das suas funções? Se fosse pelas ausências constantes, ele deveria ter caído ainda no primeiro trimestre de seu governo. Por inépcia, inaptidão ou má gestão, seu mandato deveria ter sido interrompido antes da metade do ano passado. Se mentirinhas fossem suficientes, o prefeito teria perdido a condição de governar antes do fim de 2016. Agora, por mentiras grandes, oficiais e repetidas, Crivella deveria ser impedido imediatamente.

O carioca já estava se acostumando com aquela voz macia, pausada, aquele jeito de homem de bem, meio sonso, mas de bem, aquele sorrisinho de quem sabe mais do que você, mais para metido do que para simpático. Até com as mentirinhas de Crivella o carioca já estava se acostumando. Pareciam mais algumas das bobagens inócuas de um prefeito sem graça e sem iniciativa. Mas de repente, não! O carioca se deu conta de que o acúmulo destas mentiras é, na verdade, um absurdo, um abuso. Sobretudo quando as mentiras implicam prejuízos para a cidade e para o cidadão.

Primeiro, quando flagrado por Bruno Astuto embarcando em Cumbica para uma viagem para a Europa em pleno carnaval, disse que aproveitava “a folguinha” para conhecer tecnologias de drones e satélites que pudessem melhorar a segurança do Rio. Dá vontade de rir, não dá? Depois, já de volta, insistiu nesta mentira, e pregou outra, disse que a viagem não tinha caráter oficial. Oras, o prefeito viaja para o exterior, com outros dois funcionários públicos, para, segundo ele, trazer ideias para a segurança da cidade e o faz em caráter privado. Fala sério.

Ele que se explique ao Ministério Público do Rio, que abriu inquéritos para investigar esta e outras viagens suas ao exterior. Ao MP é que ele deve apresentar as notas das passagens que comprou para si e seus acompanhantes. E também as contas de hotéis, e os comprovantes de desembolsos que fez, na data correta, não valem reembolsos, para custear isso tudo. Duvido que consiga convencer os procuradores. Aos cidadãos do Rio ele já não convence há muito tempo. O Tribunal de Contas do Município também quer explicações.

Mesmo antes de tomar posse, o prefeito já dava sinais de como seria sua gestão. Entre a eleição e a posse, Crivella viajou para o exterior ignorando o rito da transição. Ele não fez a sua parte, nem nomeou uma equipe para se desincumbir da tarefa em seu nome. O então prefeito eleito de São Paulo, João Doria, visitou Paes antes de Crivella para conhecer experiências que deram certo.

Sobre esta viagem do carnaval, procuradores do MP querem saber por que ele não solicitou à Câmara de Vereadores autorização para se ausentar. E se produziu, está produzindo ou vai produzir um relatório da viagem, como manda a lei. Para entender o que é uma viagem a trabalho, mas em caráter particular, talvez a explicação da Agência Espacial Europeia (ESA) faça sentido. A ESA disse a Graça Magalhães-Ruether que a visita de Crivella teve “caráter puramente privado” e que o prefeito tentou fazer “badalação” com a viagem.

Outro time do MP investiga Crivella por omissão e improbidade administrativa. Ele teria menosprezado o carnaval, a principal data do calendário de festas do Rio, além de cuidar mal da sua preparação. Ao não participar do evento, o prefeito teria depreciado o patrimônio imaterial da cidade. Isso significa, em outras palavras, perda econômica para o município por negligência de seu principal mandatário.

O Ministério Público apurou que o distanciamento do prefeito antes do carnaval resultou em uma relação precária ou nenhuma com outros órgãos da administração pública envolvidos com o evento. Os órgãos da segurança, por exemplo, a cargo do governo do estado, sequer foram chamados para participar dos preparativos da festa. Nos anos anteriores, eles tinham até mesmo poder de veto sobre locais e horários de desfiles de blocos. Obviamente, esse afastamento resultou na precarização da segurança. E explica a bagunça que se viu nos blocos.

Como se tudo isso não bastasse, aparece agora o caso da cirurgia da mãe do Crivella feita num hospital público municipal que tem filas de espera para todos os não parentes do prefeito.

Crivella foi eleito democraticamente. Ganhou de forma legal, nos dois turnos, a eleição de 2016. No segundo, como manda a Constituição, com mais da metade dos votos válidos. Se o Rio quiser livrar-se dele, terá de fazê-lo também pela via democrática. E são dez os casos em que ele pode ser considerado criminoso e sofrer um processo no Tribunal de Justiça depois de autorização da Câmara dos Vereadores. Um deles justamente por atentado à probidade administrativa.

(*) Ascânio Seleme é jornalista – O Globo

 

CANALHA PIADISTA

Vada a bordo, Crivella!

Depois de sobreviver ao prefeito sambista, o Rio ganhou um prefeito turista. Desde que tomou posse, Marcelo Crivella não perde uma chance de viajar. De preferência, para bem longe da cidade que o elegeu.

Em pouco mais de um ano, o bispo passou 36 dias em missões no exterior. Visitou nove países em três continentes, segundo o “RJ TV”. Num dos passeios, desviou a rota para fazer escala na África do Sul. Não teve agenda oficial, mas participou de um culto da Igreja Universal.

O levantamento não incluiu escapulidas particulares. Ao menos duas vezes, Crivella foi visto nos Estados Unidos. Em dezembro, cariocas o fotografaram fazendo compras em Orlando. Sorridente, ele parecia à vontade na terra do Pateta.

Das muitas viagens do prefeito, a atual é a mais infeliz. Ele abandonou a cidade praticamente às escondidas, na véspera de seu maior evento turístico. Pelas redes sociais, informou que aproveitaria a “folguinha” do carnaval para se mandar. Era preciso ter muita fé para acreditar que ninguém notaria sua ausência.

O bispo pode não gostar de samba, mas o prefeito tem a obrigação de estar presente na data mais importante da cidade. Com milhares de turistas nas ruas, o Rio fica mais exposto a crises nos transportes e na segurança pública. Ninguém esperaria ver o homem fantasiado de pierrô. Bastava estar por perto para dar as ordens em caso de emergência.

“Depois vão dizer que o Crivella não gosta de carnaval porque ele é crente. Não é isso, não”, disse o prefeito, na semana passada. Suas atitudes sugerem o contrário. Ao romper tradições seculares, como a entrega da chave ao Rei Momo, ele deixa clara a intenção de boicotar a festa pagã.

Na quarta-feira, o Rio já tinha passado por uma onda de violência quando Crivella gravou um novo vídeo em tom de piada, informando que na Suécia estava “frio pra chuchu”. À noite, a cidade seria castigada por um temporal que deixou quatro mortos e ao menos dois mil desabrigados. Mais uma vez, o prefeito não estava aqui.

Ao deixar a cidade submersa, o bispo lembra o comandante Schettino, aquele que abandonou seus passageiros durante um naufrágio. Falta o capitão da guarda costeira para chamar o prefeito à responsabilidade. “Vada a bordo, Crivella!”*

(*) BERNARDO MELLO FRANCO – O GLOBO