VALE TUDO

Entre a hipocrisia e o vale-tudo eleitoral, as campanhas antecipadas

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Ministro Fux autorizou os outdoors de Bolsonaro

O governador Geraldo Alckmin está em campanha. Ontem ele foi a Minas Gerais e fez discurso de candidato. “Eu me considero mais amadurecido que em 2006. Se vencer, serei um presidente melhor”, disse. O ex-presidente Lula está em campanha. Há duas semanas, ele foi a Minas Gerais e fez discurso de candidato. “Vou voltar para garantir a esse povo o direito de viver melhor”, afirmou.

Aos olhos da Justiça, o tucano e o petista não fizeram propaganda antecipada. A lei permite que eles falem sobre promessas e alianças, desde que não façam “pedido explícito de voto”.

ENDURECIMENTO – Agora o Tribunal Superior Eleitoral começa a discutir um endurecimento na regra. Na semana passada, a Corte multou o prefeito de Aracati (CE) num processo que se arrastava desde 2016. Antes do início oficial da campanha, ele disse a uma TV local: “A única coisa que eu peço ao povo é o seguinte: ter esta oportunidade de gerir”.

Os ministros concluíram que o político fez propaganda subliminar. Para pedir votos, não seria necessário dizer “vote em mim”. Pode ser, mas o raciocínio também serviria para punir Alckmin, Lula e outros pré-candidatos com mais influência que o prefeito cearense.

OUTDOORS LIBERADOS – No fim de janeiro, o ministro Luiz Fux liberou outdoors que exaltavam o presidenciável Jair Bolsonaro no interior da Bahia. As placas tinham até slogan de campanha (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”), mas Fux entendeu que não exibiam pedido de voto.

Fechar os olhos para a propaganda antecipada é um risco. Se a Justiça não fiscalizar o que fazem os pré-candidatos, o país ficará entregue ao vale-tudo eleitoral permanente. Assim, políticos com mais recursos poderão garantir sua eleição antes do início oficial da campanha.

Por outro lado, não faz sentido manter uma regra que só pune o prefeito de Aracati. Hoje a chamada pré-campanha é um festival de hipocrisia: todos agem como candidatos, mas ninguém diz que é.

LEMBRANDO ACM – De Antonio Carlos Magalhães, em 1999: “Se abrirem um inquérito sobre o porto de Santos, Temer ficará péssimo”.

O velho cacique baiano tinha muitos defeitos, mas enxergava longe.*

(*) Bernardo Mello Franco
O Globo

PAU DE SEBO

Em reunião tumultuada, Joao Doria derrota Alckmin na disputa pelas prévias

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Charge do Cazo (Charge Online)

Numa reunião marcada por troca de insultos, gritaria e até empurra-empurra, o prefeito João Doria conseguiu aprovar na noite desta segunda-feira uma data para a prévia do PSDB em São Paulo que melhor atende a seus interesses políticos. A vitória do tucano deu-se derrotando o grupo do governador Geraldo Alckmin. Por 70 votos a 34, o diretório estadual do partido marcou para 18 de março a realização da prévia que escolherá o candidato tucano a governador no estado. Se houver segundo turno, ele acontecerá no dia 25.

Apesar do resultado favorável a seus planos eleitorais, Doria não declarou-se pré-candidato na reunião partidária. Em cima de uma mesa e sob gritos de “É governador”, ele fez uma ginástica em seu discurso para não apresentar-se como tal.

HAVERÁ ACORDO? – Aliados dizem que ainda será tentado um acordo com o grupo de Alckmin antes de um anúncio para que ele apareça como o nome do presidenciável na sucessão estadual. Doria tem até o dia 13 para se inscrever nas prévias. Sem lançar sua pré-candidatura a presidente ou governador, o prefeito apelou, então, para o discurso da unidade.

“Não há vitoriosos nem vencidos. Esse resultado é a vontade da militância que é quem luta pelo PSDB a cada dia” — afirmou, enquanto seus aliados insultavam os demais pré-candidatos, que não ficaram para ouvir o prefeito, com gritos de “chupa”.

Quatro nomes se apresentaram para a vaga de candidato a governador de São Paulo pelo PSDB. O senador José Aníbal, o secretário estadual Floriano Pesaro, o cientista político Luiz Felipe D’Avila e o prefeito de Praia Grande, Roberto Mourão. Floriano foi o único a acompanhar as palavras do tucano e ironizou no final: “Depois de tudo que aconteceu aqui, é estranho que ele não tenha ainda se declarado pré-candidato”.

ARTICULAÇÃO – Na reunião do diretório, surpreendeu a articulação feita por aliados de Alckmin, que votaram pela proposta derrotada. Ela previa um primeiro turno da prévia em 25 de março e um segundo turno no dia 2 de abril. O titular da Casa Civil do governo estadual, Samuel Moreira, negou que houvesse uma articulação do governador para medir força com Doria no partido, mas não foi essa a leitura de outras lideranças que presenciaram o encontro.

Ficou claro na reunião o motivo pelo qual um jantar que estava previsto para acontecer na semana passada entre Doria e o grupo de Alckmin – e estava sendo considerado um passo rumo a um entendimento entre as duas alas – foi cancelado em cima da hora pelos aliados do governador.

Alckmin não participou da reunião porque está em viagem ao exterior. O clima foi tenso durante toda a reunião. Exaltados, os grupos a favor e contra a proposta do interesse de Doria se xingaram, se empurraram e houve até ameaça de evacuação do auditório se o enfrentamento continuasse.*

(*) Silvia Amorim
O Globo

MEROS TRAFICANTES DE PROTEÍNA

Nova operação desmoraliza mais um grande exportador de carnes, a BRF

Em nota, a PF informou que agentes cumprem 91 ordens judiciais nos Estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e de São Paulo: 11 mandados de prisão temporária, 27 mandados de condução coercitiva e 53 mandados de busca e apreensão. Cerca de 270 policiais federais e 21 auditores fiscais federais agropecuários participam da ação coordenada entre a Polícia Federal e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

FRAUDES NAS ANÁLISES – A Trapaça aponta que cinco laboratórios credenciados junto a Agricultura e setores de análises do grupo empresarial fraudavam resultados de exames em amostras de seu processo industrial, informando ao Serviço de Inspeção Federal dados fictícios em laudos e planilhas técnicos.

As investigações indicam que a prática das fraudes contava com a anuência de executivos do grupo empresarial, bem como de seu corpo técnico, além de profissionais responsáveis pelo controle de qualidade dos produtos da própria empresa.

Também foram constatadas manobras extrajudiciais, operadas pelos executivos do grupo para acobertar a prática desses ilícitos ao longo das investigações.

MUITOS CRIMES – O nome dado à fase da operação é uma alusão ao sistema de fraudes operadas por um grupo empresarial do ramo alimentício e por laboratórios de análises de alimentos a ele vinculados.

Os investigados poderão responder, dentre outros, pelos crimes de falsidade documental, estelionato qualificado e formação de quadrilha ou bando, além de crimes contra a saúde pública.

Os mandados judiciais cumpridos nesta manhã foram expedidos pelo Juízo Titular da 1ª Vara Federal de Ponta Grossa/PR. Quanto aos investigados com prisão cautelar decretada, tão logo sejam localizados, eles serão trazidos à sede da Polícia Federal em Curitiba onde permanecerão à disposição das autoridades responsáveis pela investigação.*

(*) O Tempo

MUITA CALMA NESTE MOMENTO…

Os militares e a política


Na ultima década do Império, os militares foram arrastados à cena política. Por mero oportunismo, os liberais, que estavam na oposição, para pressionar os conservadores, açularam as reivindicações militares até alcançar uma área de tensão com a Monarquia. No Segundo Reinado (1840-1889), 2/3 dos ministros da Guerra (Exército) e da Armada (Marinha) foram civis. Diversamente das repúblicas platinas, no Brasil não havia espaço para o caudilhismo militar. Quem desejasse participar da política, o fazia por meio dos partidos políticos e não da corporação. Tanto que Caxias e Osório tiveram papel relevante no Segundo Reinado, especialmente o primeiro.

Por ironia do destino, os liberais foram derrubados do poder, em 1889, e com eles a Monarquia, justamente por um golpe militar. Desde então, os militares passaram a ter papel destacado no primeiro plano da cena política brasileira. Os dois primeiros presidentes da República foram militares e na Constituinte de 1890-1891, 1/3 dos parlamentares eram militares. Em 1910, Hermes da Fonseca foi eleito diretamente chefe do Executivo federal. E durante toda a Primeira República (1889-1930) os militares participaram ativamente de diversas rebeliões, principalmente nos anos 1920.

Com a Revolução de 30, ocuparam posições de relevo no governo federal e nos estados. O panorama não mudou com a redemocratização de 1945. Basta recordar que os dois candidatos de fato à eleição de 45 eram militares: o marechal Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. Até 1964 não abandonaram a política partidária participando ativamente das eleições. Com o regime militar ocuparam por cinco vezes a chefia do Estado, os principais ministérios, os bancos, empresas e autarquias federais, alguns governos estaduais, tendo, porém, uma tímida presença no Parlamento.

Foi a redemocratização de 1985 que recolocou os militares na sua função precípua: a da defesa nacional e da manutenção da lei e da ordem. Foi bom para o Brasil, para a jovem democracia e, mais ainda, para as Forças Armadas. Recolocá-las, oportunisticamente, no jogo político é um grave equívoco e que poderá açular velhos fantasmas. O caso do Ministério da Defesa é exemplar.

É uma pasta civil, fundamentalmente. Se até hoje teve poucos titulares competentes, isso não justifica a nomeação de um general.*

(*) Marco Antônio Villa – Época

FINALMENTE…

STJ deve negar habeas corpus preventivo a Lula amanhã

Sem se identificar, um ministro do STJ disse a O Globo que a Quinta Turma deve negar, no julgamento de amanhã, o “habeas corpus preventivo” que Lula pediu.

O ministro prevê que seja mantido o mesmo entendimento de um julgamento feito em março do ano passado, no qual o STJ considerou —por unanimidade— que é possível prender alguém após condenação em segunda instância.

“Caso o tribunal confirme a expectativa, isso não significa que Lula será preso logo. A decisão de expedir ordem de prisão será tomada somente depois que o TRF-4 concluir o julgamento de um recurso apresentado pela defesa contra a condenação”, escreve o jornal carioca.

“E, no momento em que finalmente houver a prisão, nada impede a apresentação de novo pedido de liberdade ao STJ”, acrescenta.*

(*) O Antagonista

 A PROPÓSITO

MPF pede prisão de Lula depois que TRF-4 julgar recurso

O MPF pediu a prisão de Lula assim que forem julgados os embargos de declaração à sentença do TRF-4 que o condenou a 12 anos e um mês de prisão.

Em parecer encaminhado hoje ao TRF-4, o procurador Maurício Gerum, da Procuradoria Regional da República da 4ª Região, lembrou que no embargo de declaração não se discute a decisão dos desembargadores —apenas sua clareza.

Para Gerum, assim que o recurso for analisado, a decisão de prisão deve ser encaminhada a Sergio Moro “para o imediato início do cumprimento das penas”.*

(*) O Antagonista

SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR…

Cenário eleitoral

O quadro eleitoral fica mais presente, ainda que não tenha nitidez. A semana terá lançamento de pré-candidaturas e julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no STJ. Isso depois de uma semana em que Lula deu a entrevista acenando para Michel Temer e o presidente passou a ser investigado em mais um processo, por pedido de sua escolhida Raquel Dodge e decisão do ministro Edson Fachin.

Há vários motivos pelos quais esta será uma eleição diferente das outras. Uma delas é o financiamento. A doação legal das empresas foi proibida, a ilegal está sendo constrangida fortemente. Hoje, as empresas sabem que o CEO vai pra cadeia, que dono e herdeiro de empresa podem passar uma longa temporada na prisão. Estão todos avisados. E isso, no mínimo, terá o poder de dissuadir muita gente que em outros tempos não hesitaria em encher malas de dinheiro e enviá-las para candidatos. Caso nada disso constranja o dinheiro sujo, quem fizer uma campanha cara ficará exposto.

Os dois partidos que têm o maior volume de dinheiro do fundo partidário e do fundo eleitoral são o MDB, com R$ 304,9 milhões, e o PT, com R$ 300,9 milhões, segundo estimativa feita pelo cientista político Jairo Nicolau. Desses, o MDB ainda não disse com que candidato vai. O PT aferra-se à candidatura de Lula, que muito provavelmente será declarado inelegível. Dois candidatos que têm pontuado bem em todas as pesquisas, Jair Bolsonaro e Marina Silva, terão apenas R$ 14,8 milhões (PSL) e R$ 14,6 milhões (Rede), 23º e 24º lugares na distribuição de recursos públicos. O Podemos receberá R$ 41 milhões. Os grandes partidos ficam com a parte do leão. Ao todo serão 35 partidos recebendo o valor de R$ 2,362 bilhões do dinheiro do contribuinte. Pela estranha legislação brasileira de recursos públicos para as eleições, até os muito nanicos ou que acabaram de se formar terão direito a um bom bocado. Os três últimos serão PCO, PMB e Novo, cada um com em torno de R$ 2 milhões. A lei concentra os recursos nas oligarquias partidárias, e distribui um cala-boca para partidos sem qualquer viabilidade eleitoral.

O MDB não tem candidato a presidente desde 1994, quando Orestes Quércia ficou com 4,4% dos votos, atrás de Enéas. Desta vez, o partido tem um poder inédito: o da máquina da Presidência. Além do maior volume de recursos públicos, num tempo de vacas magras de financiamento. Resistirá ao apelo de ter um candidato mesmo que seja Temer e sua terrestre popularidade?

A entrevista de Lula à Monica Bergamo esclareceu muitos pontos. Ele criou a versão fantasiosa de conspiração americana contra a Petrobras porque essa ginástica nos fatos talvez sirva para os palanques. Com um mínimo de honestidade não dá para explicar o ataque do PT e seus aliados aos cofres da Petrobras sobre o qual há evidências acima de qualquer dúvida. Melhor dizer que tudo é culpa da cobiça americana atrás das reservas do pré-sal. O outro delírio também tem um propósito. Quando ele diz que Temer resistiu ao que ele definiu como tentativa de golpe da Globo está evidentemente querendo construir uma ponte para o futuro com seu velho aliado nas últimas campanhas, o partido do Temer.

Na campanha de Jair Bolsonaro, o economista Paulo Guedes deu entrevistas longas para explicar seu pensamento. Continua sem solução o mistério de como as ideias liberais de Guedes serão colocadas na mente intervencionista do candidato. Já nas ideias políticas, parece haver mais harmonia. À “Folha de S. Paulo”, Guedes declarou: “O Ustra disse que não torturou ninguém. Quem está falando a verdade, quem não está?” Mais de quarenta pessoas que passaram pelo Doi-Codi, entre 1970 e 1974, então sob o comando de Ustra, não podem sequer dar suas versões, porque não saíram vivas.

A eleição cuja campanha oficialmente não começou é um tabuleiro em que as pedras se movem a cada dia, mas ainda está muito longe de se saber como será o jogo para valer.*

(*) Miriam Leitão – O Globo

TÁ DANADO…

Voluntarismo confronta tradição

Os três pré-candidatos mais bem colocados atualmente nas pesquisas eleitorais, partindo-se do princípio de que o ex-presidente Lula está fora da disputa, não têm estruturas partidárias fortes. Jair Bolsonaro, a caminho do PSC, Marina Silva da Rede e Ciro Gomes do PDT superam até o momento potenciais candidatos dos dois partidos que dominam a política nacional nos últimos 25 anos, PT e PSDB.

O governador de São Paulo Geraldo Alckmin perde para Bolsonaro em seu próprio Estado, nicho tucano que vem sendo desmontado pelo voluntarismo do candidato da extrema-direita. Nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, onde os tucanos costumavam reinar, também Bolsonaro aparece bem votado, e um dissidente do PSDB abre caminho em outro pequeno partido, o Podemos.

O senador Álvaro Dias vem crescendo no sul e crava sua liderança no seu estado natal, Paraná, berço da Operação Lava Jato. Ciro Gomes domina o eleitorado nordestino na ausência de Lula, e não dá margem a que um candidato petista substitua o ex-presidente na preferência do eleitorado.

Já Marina Silva, com seu minúsculo partido que terá cerca de 1% do tempo de propaganda gratuita de rádio e televisão, e a menor verba partidária de quantos disputarão a eleição, mantém-se na memória afetiva da população e aparece sempre disputando uma vaga no segundo turno, mesmo quando Lula está na parada. Afinal, já teve 20 milhões de votos em duas eleições presidenciais seguidas, o que não é de se desprezar.

Mesmo diante de todas essas evidências de que a política tradicional está sendo atropelada pela indignação das ruas, políticos tradicionais como o próprio Lula, ou até mesmo o vereador e ex-prefeito do Rio Cesar Maia, acham que a disputa final se dará mais uma vez entre petistas e tucanos, e por isso Cesar Maia desestimula publicamente a tentativa de seu filho, o deputado federal e presidente da Câmara Rodrigo Maia de abrir caminho próprio para disputar a presidência da República pelo DEM.

Maia filho será lançado esta semana, e vê uma avenida aberta para candidatos novos diante da ausência de Lula e a falta de alternativas apresentadas ao eleitorado até o momento. Rodrigo Maia não acredita na competitividade do PSDB, e muito menos de Geraldo Alckmin.

O governador tucano, no entanto, se movimenta à moda antiga, o chamam de candidato analógico em tempos digitais, fechando acordo com outros partidos da política tradicional como o PTB e PSD, da base do governo Temer. As negociações com outras legendas, como PPS e PV, estão avançadas. O objetivo é ter cerca de 25% do tempo de TV em cada bloco diário de 12 minutos, na certeza de que esse será o diferencial numa eleição em que estão em jogo cargos que dependem de acordos partidários amplos para garantir o número de votos necessários.

O único candidato fora das grandes estruturas partidárias que raciocina com elementos da velha política ainda é Ciro Gomes, que, embora descrente devido às divergências que vem tendo com a estratégia de Lula e do PT, ainda vislumbra em uma aliança improvável mesmo antes do segundo turno.

O que está em disputa são duas visões distintas da política partidária neste momento por que o país passa: as grandes estruturas partidárias lutam por manter seu espaço tradicional, enquanto as lideranças carismáticas, seja por que motivo for, jogam nas redes sociais para fomentar dissidências, que desestruturariam os acordos estabelecidos historicamente. Ciro ainda acredita que a esquerda acabará vendo nele a salvação do projeto de poder. Lula, a única liderança carismática que tem uma estrutura partidária forte, mesmo que abalada pelos escândalos, não consegue transplantar para um poste essa dupla qualificação.

É o que Rodrigo Maia quer fazer com o DEM, um tradicional parceiro do PSDB que tenta alçar vôo próprio na certeza de que o sinal será invertido: os tucanos, constatando a inviabilidade eleitoral de Alckmin, o cristianizariam em seu favor. É o que o PPS tentou fazer com Luciano Huck, comendo por dentro as bases tucanas.

O governador de São Paulo, por sua vez, trabalha seu estilo zen, acusado de anódino pelos adversários, na certeza de que ao final ele será o aglutinador das forças do centro nacional, incluindo aí o MDB do presidente Temer. Assim como Lula acha que, ao final, será o candidato do PT que lançará, e não Ciro Gomes, o destinatário dos votos da esquerda.*

(*) Merval Pereira – O Globo

É UM ESCÂNDALO

Penduricalhos da elite dos servidores têm isenção de Imposto de Renda

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Quase um terço da renda da elite do funcionalismo público, formada pelos membros do Judiciário, Ministério Público e Tribunais de Contas, está isento de Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), segundo levantamento feito pelo Broadcast (serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado) com dados divulgados pela Receita Federal. Em 2016, cada juiz, procurador, ministro ou conselheiro de Tribunal de Contas do País recebeu em média R$ 630 mil, sendo cerca de R$ 180 mil livres de qualquer tributação.

Esse nível de isenção, de aproximadamente 30%, é três vezes maior do que a média do funcionalismo e é explicado pelo recebimento de auxílio-moradia e de uma série de outros “penduricalhos”, como a ajuda de custo, criados pela própria cúpula desses Poderes para escapar do teto salarial e da tributação de IRPF. Se fossem tributadas, essas parcelas normalmente pagariam alíquota de 27,5%.

ALTA ELITE – Esses servidores representam menos de 1,0% dos 4,8 milhões de funcionários públicos no Brasil, mas recebem R$ 6,4 bilhões em rendimentos isentos – 10,7% do total de R$ 59,7 bilhões livres de tributação declarados pelo funcionalismo.

No Executivo, só uma carreira desfruta de nível de isenção mais alto: os diplomatas, que quando se transferem para o exterior recebem 75% dos seus salários livres de imposto, além de outras ajudas de custo também isentas. Esses benefícios são previstos em lei. Em 2016, cada diplomata brasileiro recebeu em média R$ 235 mil em valores isentos, equivalente a 53% da renda total média de R$ 442 mil.

R$ 844 BILHÕES – No total, as isenções de imposto de renda somaram R$ 844 bilhões em 2016. A maior parcela de rendimentos isentos corresponde a lucros e dividendos distribuídos a acionistas e sócios de empresas (R$ 350 bilhões), mas a lista completa de isenções inclui desde os rendimentos de caderneta de poupança e fundos imobiliários até o auxílio-moradia e outros complementos de salário disfarçados de ajuda de custo ou verba de representação

“O elevado nível de isenção tributária, tanto para a elite do funcionalismo quanto para os grandes empresários e corporações de profissionais liberais, é um dos principais obstáculos para se reduzir a desigualdade de renda do País”, afirma o economista Sérgio Gobetti, especialista em finanças públicas.

Segundo ele, seria necessário promover uma ampla revisão da legislação do imposto de renda e das isenções com o objetivo de tornar o sistema tributário mais justo e eficiente. Mas iniciativas nessa direção “enfrentam forte oposição dos setores privilegiados”.

AJUSTE FISCAL – O pagamento desses auxílios a juízes e procuradores entrou no radar diante da necessidade de reduzir gastos por conta do ajuste fiscal e da bandeira de “corte de privilégios”, que entrou em pauta. As investidas contra o benefício despertaram reação das categorias, que já fizeram mobilização em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF) e prometem greve no dia 15 deste mês.

O ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Bernard Appy, que hoje é diretor do Centro de Cidadania Fiscal, avalia que os dados da Receita Federal mostram distorções na cobrança de tributos. “Quanto maior a renda, maior é a parcela da renda total isenta. Os mais ricos pagam muito menos imposto de renda na pessoa física”, diz o executivo.

PRIVILÉGIO – “Claramente os dados mostram que uma parcela relevante de alta renda está sendo pouco tributada. Estão fazendo planejamento tributário via ‘pejotização’ e, nos casos dos funcionários públicos, com essas verbas indenizatórias”, acrescenta Appy.

Para ele, é preciso haver uma integração na tributação do lucro na pessoa jurídica e na pessoa física, principalmente num cenário de redução de alíquotas cobradas das empresas em outros países, o que pode detonar uma guerra fiscal.*

(*) Correio Braziliense, Agência Estado

A QUE PONTO CHEGAMOS, HEIN?

Maia se lança à Presidência e diz que ‘polarização PT X PSDB já se esgotou’

A candidatura presidencial do deputado Rodrigo Maia, penúltima novidade da sucessão de 2018, será formalizada nesta quinta-feira (8) em convenção nacional do DEM. Contrariando até a prudência paterna, o presidente da Câmara decidiu meter-se numa aposta. Cesar Maia, seu pai, preferia que o DEM fizesse uma aliança com o tucano Geraldo Alckmin e que o filho renovasse o mandato de deputado, pleiteando a recondução ao comando da Câmara em 2019.

“Não nasci deputado. E não preciso morrer deputado”, deu de ombros o neopresidenciável, em conversa com o blog. “As pesquisas indicam que o PSDB é o partido mais rejeitado do Brasil. Não tenho nada contra o Geraldo Alckmin, mas isso contamina a candidatura dele. Além disso, a política brasileira atravessa uma mudança de ciclo. A polarização PT versus PSDB já se esgotou. Vivemos o início de um novo ciclo.”

Sob diferentes denominações, o DEM está no poder desde a chegada das cavarelas de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro. Após amargar um jejum de 13 anos nas administrações do PT, o partido está novamente no poder. Mas lhe falta o governo. E Rodrigo Maia avalia que, se não tentar a sorte na conturbada conjuntura de 2018, seu partido não encontrará nova chance tão cedo.

“A política vai se rearranjar. Pelos próximos oito ou 12 anos não teremos outra oportunidade igual”, declarou Rodrigo Maia. “Com um mínimo de competência, o próximo presidente poderá permanecer à frente do governo por oito anos. O Brasil tem muita possibilidade de dar certo. E o presidente, estando bem, terá condições de fazer o sucessor.”

A aposta de Rodrigo Maia deixou de ser solitária. Ele arrastou para o seu lado duas legendas do chamado centrão: PP e Solidariedade. Flerta com outros dois partidos: PRB e PR. Todas essas legendas são cobiçadas também por Alckmin, cuja margem de manobra estreitou-se. Um deputado do centrão resumiu a cena: “O Alckmin também quer o nosso apoio, mas ele não gosta de nós. O Rodrigo gosta.”

A candidatura de Rodrigo Maia vai trafegar na congestionada via do centro. “O principal ator desse campo é o Geraldo Alckmin”, reconhece o presidente da Câmara. “Não podemos menosprezar um governador de São Paulo. Mas a rejeição ao PSDB é alta. E o Geraldo não terá mais o governo de São Paulo, que será assumido pelo vice Márcio França. Isso reduz a influência da máquina.”

A última vez que o DEM sonhou com a Presidência da República foi na década de 1990. Nessa época, chamava-se PFL, Partido da Frente Liberal. Nascera de uma dissidência do PDS, que sucedera a Arena, legenda oficial da ditadura. Enquanto o tucanato envergonhava-se das reformas liberais, o PFL estendia um tapete vermelho no Congresso para as propostas de FHC. Coisas como reforma da Previdência, quebra do monopólio do petróleo e gás.

Nessa ocasião, suprema ironia, o projeto presidencial do ex-PFL se chamava Luís Eduardo Magalhães. Ele também presidia a Câmara quando a legenda elaborou um projeto de poder chamado “PFL 2000”. A ideia era fazer de Luís Eduardo, filho do cacique Antonio Carlos Magalhães, o sucessor de FHC. Dono de lábia refinada, Luís Eduardo percorreu o país para conquistar novos quadros. Atraiu, por exemplo, o então prefeito do Rio, Cesar Maia. Depois de alguma hesitação, o pai de Rodrigo Maia migrou do PMDB para o PFL.

A morte prematura de Luís Eduardo, que sofreu um infarto em abril de 1998, abortou uma candidatura presidencial que o próprio FHC não descartava apoiar. Na sucessão de 2002, o PFL chegou a lançar a candidatura presidencial de Roseana Sarney, hoje no PMDB. A pretensão da filha de Sarney virou pó depois que a Polícia Federal apreendeu R$ 1,3 milhão no escritório da empresa Lunus Participações, de propriedade do marido de Roseana, Jorge Murad.

A mesma convenção que aclamará a candidatura de Maia guindará à presidência do DEM o prefeito de Salvador, ACM Neto. Vem a ser sobrinho de Luís Eduardo Magalhães, herdeiro político do clã do seu avô ACM. Considerando-se que todo candidato é o seu valor multiplicado pela sua autoestima —ou dividido por sua autocrítica— Maia terá de provar a própria viabilidade eleitoral até maio ou junho. Sob pena de ser abandonado pelos aliados e desligado da tomada pelo pedaço do DEM que ainda prefere uma aliança com Alckmin. Hoje, as pesquisas atribuem a Maia 1% das intenções de voto.*

(*)  Blog do Josias de Souza