GIGOLÔS DA MISÉRIA

Tragédia sem responsáveis

A julgar pelo comportamento das autoridades e dos movimentos de sem-teto, responsabilidade não é de ninguém


Desmoronou um prédio em São Paulo, consumido rapidamente por um incêndio. Morreu pelo menos uma pessoa. O prédio era da União. As pessoas denunciam que pagavam aluguel para viver numa invasão. Diante de uma tragédia dessas proporções, de quem são as responsabilidades? A julgar pelo comportamento das autoridades e dos movimentos de sem-teto, de ninguém.

O governador Márcio França diz que era “mais ou menos esperado” que aquilo ocorresse. Se era assim, o que o governo do Estado fez a respeito?

Michel Temer fez uma aparição-relâmpago no local, a tempo de ser vaiado e admitir que o imóvel era da União, e mais nada.

O ex-prefeito João Doria Jr. diz que o PCC dava as cartas ali, como a justificar por que o poder público não podia fazer nada.

O prefeito Bruno Covas primeiro disse que a Prefeitura fez o que pôde. Depois, chamou uma entrevista coletiva para anunciar outras providências.

Guilherme Boulos, o presidenciável que entrou na política justamente comandando exércitos de invasores como os que ficaram desabrigados nesta terça, desembarcou da Palestina direto para Curitiba, sem nem passar no local do desabamento para prestar in loco a solidariedade que manifestou nas redes sociais. Diz ele que a invasão não “pertencia” ao MTST. Sim, ele usou este verbo.

Os governos e os movimentos de sem-teto são corresponsáveis pela tragédia. Jogar com a necessidade de moradia para fins políticos é tão crime quanto se eximir da responsabilidade de retirar as pessoas de uma invasão a um prédio sem condições de ser habitado.*

(*) Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

O SONHO ACABOU

Pergunta que não quer calar

Se Lula é tudo o que seus devotos dizem que ele é, inclusive Dilma, por que ela, em 2014, bateu o pé e não deixou que Lula fosse outra vez candidato a presidente? Ele queria ser, era só o que queria. O PT queria que ele fosse candidato. As elites, que ele tanto espanca agora, sócias preferenciais de Lula no poder, também queriam.

A Lula faltou coragem para dizer a Dilma: “Sai daí que eu vou voltar”. Estava com o discurso da volta pronto no bolso, mas também guardado na memória. De tão contrariado, pouco participou da campanha à reeleição de Dilma no primeiro turno daquele ano. Participou no segundo para evitar que ela fosse derrotada por Aécio.

Esperou 2018 chegar. A prisão chegou antes. O sonho acabou.*

(*) Blog do Noblat

A QUEM O PT ENGANA?

Eldorado

Foi descoberto um novo paraíso estatal. Fica em Teresina: a empresa pública de água e esgotos do Piauí, Agespisa, está pagando até R$ 13,4 mil por mês às telefonistas. O salário inicial na função é de R$ 5 mil. O ganho é 17 vezes maior que a renda média per capita no estado, de R$ 750, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua). Há duas semanas, a empresa entrou na lista das estatais estaduais com contratos de obras sob investigação por suspeita de pagamento de propina da empreiteira Odebrecht.*

(*) LYDIA MEDEIROS – O GLOBO

A PROPÓSITO

O atual governador do “riquíssimo” Piauí é Wellington Dias, do PT. (av)

PIADISTA JURAMENTADA

Na Argentina, Dilma diz que Lula pode ser envenenado na cadeia da PF

Ao criticar a decisão de uma juíza de Curitiba que impediu a visita à prisão do argentino Adolfo Pérez Esquivel, premiado com o Nobel da Paz em 1980 e que estava presente no evento junto com a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, e outros líderes políticos e sindicalistas argentinos, Dilma Rousseff afirmou que teme pela vida de Lula.

PODEM MATÁ-LO – “Tenho medo pela vida de Lula. Tenho medo pela comida, pela água que ele toma; porque se foram capazes de impedir a visita de um prêmio Nobel da Paz, a visita de um médico…”, disse Dilma.

“O Brasil está sendo mais duro com Lula do que foi na ditadura porque o temem”, acrescentou, dizendo que Lula representa “a arma que temos para lutar contra o enquadramento do Brasil em um neoliberalismo brutal”.

Para ela, o ex-presidente “é um preso político e vítima de um crime: este processo (judicial) é uma vergonha política que vai contra todos os direitos humanos”, disse.

CASO DA UNASUL – Dilma Rousseff descreveu a prisão de Lula como mais um episódio de um processo de avanço de ideias neoliberais, no qual também incluiu a recente decisão de seis países sul-americanos de suspender a Unasul. “Vemos como desastrosa essa decisão que interrompe um processo de integração na América Latina”, disse.

Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Paraguai e Peru suspenderam suas atividades no bloco até que se nomeie o sucessor de Samper, cujo mandato como secretário-geral concluiu em janeiro de 2017.

Com Dilma estiveram outros líderes latino-americanos, como o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper e o ex-prefeito da Cidade do México Cuauhtémoc Cárdenas.

Na Argentina, Dilma disse que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde o dia 7 de abril em Curitiba, depois de ser condenado a 12 anos por corrupção e lavagem de dinheiro, continua a ser o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) às eleições presidenciais.

Acrescentou que, por meio de uma carta enviada por seus advogados, Lula deu seu aval para que o PT considere outras opções à presidência, mas o partido já afirmou que não desistirá de sua candidatura. E disse que o ex-presidente é o favorito segundo as pesquisas, à frente do candidato de extrema direita, Jair Bolsonaro.*

(*) O Tempo
(Agência AFP)

POBRE BRASIL!

O silêncio sobre o SUS, uma obra de arte política que restou inacabada

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Charge do Amâncio, Arquivo Google

Faltam apenas 20 semanas para as eleições gerais. E os 146 milhões de eleitores continuam na absoluta escuridão, sem ideia de qual é o Brasil imaginado por candidatos e partidos. Têm-se 18 nomes listados nas últimas sondagens de intenção de voto para a Presidência da República, mas, até agora, nenhum deles sequer demonstrou preocupação em submeter ao eleitorado uma proposta alternativa para a crise do Sistema Único de Saúde (SUS), do qual dependem diretamente 150 milhões de pessoas.

Mantêm silêncio, da mesma forma, sobre suas ideias para acabar com a irracionalidade dominante nas relações entre os 50 milhões de brasileiros que não dependem do SUS, porque têm acesso a planos de saúde, e as mais de 800 empresas operadoras médico-hospitalares.

CRISE INSUSTENTÁVEL – Na crise da Saúde, não há rota de fuga disponível a candidatos e partidos. Eles sabem que a situação do sistema é insustentável e, por isso, precisam dizer logo aos eleitores como pretendem resgatá-lo ou liquidá-lo — nesse caso, explicando o que planejam pôr no lugar.

O SUS é uma obra de arte política. Nasceu há exatos 30 anos, em circunstâncias de rara unanimidade parlamentar, em torno da ideia de saúde gratuita para todos. Os resultados estão visíveis no acesso irrestrito à rede pública de hospitais, no aumento da expectativa de vida, na redução da mortalidade infantil, na prevenção (vacinações), nos transplantes de órgãos e no tratamento de infecções pelo HIV.

Suas deficiências são indicadas como principal problema nacional desde junho de 2013, quando centenas de milhares de pessoas saíram às ruas, em todo o país, em protesto contra a inépcia nos serviços públicos básicos. Detalhe relevante nessas pesquisas é a boa avaliação do SUS pela massa que dele depende, quando consegue atendimento.

SEM RECURSOS – Na origem da crise da Saúde está a apropriação privada de fatias do Orçamento público. União, estados e municípios investem R$ 230 bilhões por ano, o equivalente a 3,7% do Produto Interno Bruto, metade da média dos gastos registrados em sociedades ricas. Seria irracional propor tão somente um aumento de despesas numa etapa de virtual falência governamental.

Mas a saída, certamente, começa pela higienização do poder político sobre os contratos. A degradação acelerada nos serviços é consequência do predomínio de interesses particulares, da regulação até a fila de pagamentos às empresas.

Os governos Lula, Dilma e Temer usaram a saúde coletiva como moeda no Congresso. Permitiram a expansão do loteamento partidário em áreas-chave do Ministério da Saúde, da Funasa e da agência setorial ANS. Os principais beneficiários (PT, PMDB e PP) estenderam sua influência aos estados e municípios.

PP NO COMANDO – É eloquente que um partido como o PP do senador Ciro Nogueira — recordista em investigados na Operação Lava-Jato (41% da atual bancada) —, comande o ministério e a ANS. Ou ainda, que o líder do governo, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), tenha recebido de presente a nomeação da mãe no comando da Funasa na Paraíba, 24 horas depois de ter sido denunciado ao Supremo por corrupção.

Sem propostas objetivas para resolver a crise na Saúde, candidatos e partidos se expõem às consequências de um “estelionato” eleitoral. O ronco das ruas de 2013 ecoa alto e claro, cinco anos depois.*

(*) José Casado
O Globo

FIM DA MOLEZA

Apenas 12% defendem manutenção do fim do foro privilegiado, diz o Ibope

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Charge do Oliveira (Humor Político)

Uma pesquisa feita pelo Ibope, por encomenda da Avaaz, uma comunidade mundial de mobilização online, apontou que 78% dos entrevistados defendem o fim do foro privilegiado. A pesquisa foi feita por telefone, entre os dias 23 e 25 de abril. A margem de erro máxima estimada é de três pontos percentuais para mais ou para menos sobre os resultados. O nível de confiança da pesquisa é de 95%.

A pesquisa, divulgada no dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) retoma a discussão que pode restringir o foro privilegiado, perguntou aos entrevistados: “Na sua opinião, o foro privilegiado deveria ou não deveria acabar?”. Do total de 1.000 entrevistados, 780 ou 78% disseram que o foro deve acabar. Outros 12% disseram que o foro não deve acabar e outros 10% não souberam responder.

NO SUPREMO – O STF retoma nesta quarta-feira (2) julgamento iniciado no ano passado que pode restringir o alcance do foro privilegiado. O foro por prerrogativa de função, o chamado “foro privilegiado”, é o direito que têm, entre outras autoridades, presidente, ministros, senadores e deputados federais de serem julgados somente pelo Supremo.

Já existe maioria de 8 votos entre os 11 ministros para retirar do STF ações e investigações sobre parlamentares por fatos ocorridos fora do mandato, que seriam então enviados para a primeira instância da Justiça.

IMPUNIDADE – Os entrevistados foram questionados se o foro privilegiado ajudaria ou não ajudaria a combater a impunidade? Do total de respostas, 77% disseram que o fim do foro ajudaria a combater a impunidade. Outros 14% declararam que não e 9% não souberam responder.

A pesquisa também perguntou: “Você acha que o fim do Foro Privilegiado ajudaria ou não ajudaria a combater a impunidade?”. Ajudaria a combater: 77. Não ajudaria a combater: 14. Não sabe: 9

O Ibope perguntou, ainda: “Se o Poder Judiciário aprovasse o fim do foro privilegiado, seu nível de confiança nele aumentaria, diminuiria ou se manteria igual?”. Para esta pergunta, 36% dos entrevistados declararam que aumentaria a confiança, 45% disseram que se manteria igual, 8% disseram que diminuiria e 11% disseram que não sabem.*

(*) Por G1, Brasília

OVER GAME

Fatos desmentem versões e mostram que Lula e Temer estão em baixa

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Charge do Iotti (Zero Hora)

Esse Primeiro de Maio explicitou duas situações: a impopularidade de Temer já o impede de sair às ruas; e o ex-presidente Lula, apesar de preso, não mobiliza a população. Quando se classificavam os membros da equipe palaciana de Temer, e ele próprio, de “profissionais da política”, a imagem que se tentava passar era de que havia um grupo de assessores altamente experientes e qualificados para assessorar um presidente que conhecia tudo do Congresso, tendo sido presidente da Câmara por três vezes.

Mas os erros de avaliação permanentes mostram, ao contrário, uma equipe altamente vulnerável e sem noção da realidade do país. Nesses últimos dias, o presidente da República cometeu erros infantis em busca da superação da impopularidade, que se mostra inarredável.

“ESPERANÇA” – Um presidente que convoca uma rede nacional de rádio e TV para celebrar o Dia do Trabalho e pede “esperança” aos desempregados não tem noção da tragédia que se espalha pelo país. Não importa se o grosso do desemprego se deve a erros anteriores à sua chegada ao poder.

Em primeiro lugar, porque ele era parte do governo petista deposto, que deixou um legado de desemprego e quebradeira fiscal no país sem paralelos na história recente.

Mesmo que as ações do governo Temer tenham conseguido baixar a inflação, reduzir os juros e aprovar algumas leis importantes para a recuperação do país, ela não veio e, onde houve, foi em ritmo mais lento do que supunha. A recuperação dos empregos está longe de se efetivar, as vagas abertas são precárias e de baixos salários. Pedir esperança aos trabalhadores nessas circunstâncias parece no mínimo um equívoco político.

BOLSA FAMÍLIA – O anúncio do aumento do Bolsa Família, que só acontecerá em julho, não traz esperança nem mesmo aos que vivem do sustento governamental, e anunciá-lo agora é outro equívoco de quem está ansioso para melhorar sua aceitação pública.

Mas comparecer ao local do desmoronamento de um prédio ocupado por movimentos populares em São Paulo devido a um incêndio parece o auge da falta de noção. Temer compareceu a um local minado politicamente, e teve que sair de lá às pressas.

Parece aquele personagem da piada que atravessa a rua para escorregar numa casca de banana. Será que não houve uma alma caridosa que o aconselhasse a ficar em casa, longe daquela situação de tragédia que envolvia movimentos populares francamente contrários ao seu governo?

LULA EM BAIXA – Quanto a Lula, a comoção nacional com sua prisão que temia o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello não se realizou nem mesmo no Primeiro de Maio, que foi mais tranquilo do que em Paris, por exemplo, onde houve saques e depredações, com mais de 200 pessoas presas.

Se, por um lado, a tranquilidade das manifestações demonstra um amadurecimento das lideranças sindicais, que, mesmo insufladas pelos irresponsáveis líderes petistas que sobraram fora da cadeia, não se deixaram levar pelo radicalismo, por outro mostra também que Lula já não mobiliza a população como sonhavam as lideranças políticas.

Teimam em confrontar a Justiça, na vã esperança de tentar tirar seu grande líder da cadeia e fortalecer uma campanha presidencial que não terá o retrato de Lula na urna eletrônica.

VIGÊNCIA DA LEI – As tentativas dos últimos dias, com recursos e mais recursos nos tribunais recursais e mesmo nos superiores, como o STJ e STF, estão uma a uma sendo ultrapassadas pela vigência da lei. Hoje é mais fácil uma reação popular contra uma eventual soltura do ex-presidente da cadeia, poucos dias depois de preso, do que o contrário.

O showmício preparado para Curitiba, onde Lula está preso, mostra bem o isolamento do PT neste momento: apenas Boulos e Manuela D’Ávila, os candidatos de esquerda, compareceram. E o ex-possível substituto de Lula na campanha presidencial, Jaques Wagner, insistiu na aliança com Ciro Gomes, mas falou em aproximação até mesmo com Joaquim Barbosa, o relator do mensalão que chamou o PT de organização criminosa.*

(*) Merval Pereira
O Globo