PRA TAPAR O SOL COM PENERIA

Decifrando a Copa do Mundo sob a batuta de Vladimir Putin

Sobram elementos para a rotulagem, mas ela oculta a dificuldade ocidental de entender o que a figura de Putin significa. Há um sonho estrangeiro, desde o tempo dos Románov, de ver o país integrado à Europa. Foi assim com czares europeizados, com Gorbatchov, com Ieltsin.

Geopolítica fala alto. Como o historiador grego Tucídides via em Atenas uma potência marítima, aberta e iluminada, assim se vê a Europa. Já a Rússia lembra Esparta, continental, fechada e dura.

Se isso soa bobagem em 2018, examine o sucesso de Putin desde 1999. Identificou a agressividade ocidental e a reverteu em seu favor, elegeu inimigos sem escrúpulos.

O fez às custas de liberdades individuais e da criação de um fóssil vivo que é a política local. Nesse ponto, contudo, a Rússia é quase uma Suécia se comparada à adulada China.

A popularidade do presidente não se explica por exclusiva manipulação. Ele aproveitou o ciclo anterior de preços altos do petróleo, sobreviveu à baixa e deve aproveitar a alta à frente. A vida sob Putin melhorou, ainda que o sistema paraestatal da economia pareça condenado sem reformas.

Ele aprendeu a lição de Stolipin, inclusive na brutalidade — não se trata de aprovação, mas é tolice acreditar que a CIA não mate tanto quanto o FSB russo.

E a Copa? Putin lidera um país poderoso na aparência, mas pressionado por fora e por dentro. Poderá emular outro brilhante político czarista, Grigori Potemkin. Em 1787, ele fez uma jornada à Crimeia com sua amante, a czarina Catarina a Grande, e segundo a lenda no caminho mandou montar fachadas de vilas para mostrar o progresso do país à soberana.

O torneio tem tudo para provar-se uma “vila Potemkin”, como a ilusão ficou conhecida. Se não funcionar, e para isso basta um ato terrorista ou uma confusão na Síria, Putin terá de correr atrás do resultado.*

(*) Igor Gielow
Folha de São Paulo

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