SALVE-SE QUEM PUDER

A Copa chegou. E daí?

A influência da Copa na eleição é próxima de zero


É puro sentimento. Ao som de “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó, são mostrados torcedores aparentemente envergonhados, cheios de lembranças do 7 X 1, que hesitam em retirar suas camisas amarelas de prateleiras e armários, fazem aquela cara de dúvida, mas aos poucos vão tomando coragem e se vestindo de torcedores. Num final apoteótico, a torcida se reconcilia com o time e todo mundo festeja. Só aí, já tocados pela emoção, percebemos que estamos falando de sovaco, pois se trata do novo anúncio do Rexona. A Copa chegou!

E daÍ? Daí nada, nadinha mesmo. De quatro em quatro anos, nós, jornalistas, até então as voltas com a sempre coincidente campanha presidencial, fazemos aquela matéria sobre a influência de uma hipotética vitória – ou derrota – do time do Brasil no quadro político e na eleição.

Será que, se a seleção ganhar a Copa, um clima de bem-estar se espraiará pelo país, a ponto de beneficiar os candidatos ligados ao governo ou ao establishment?

Estamos cansados de saber que não, que a influência da Copa na eleição é próxima de zero. Fernando Henrique era presidente em 2002, quando o Brasil foi campeão e recebeu a seleção na rampa do Planalto. Não elegeu José Serra, que perdeu para Lula. Por sua vez, o humilhante 7 X 1 em casa, no rastro da urucubaca das megamanifestações de rua do ano anterior, não tirou a reeleição de Dilma em 2014.

Nessas ocasiões quadrienais, comportamentos se repetem. Uma parte da oposição, geralmente a mais radical, do time do quanto pior melhor, sempre anuncia que vai torcer contra o Brasil para não facilitar a vida do governo e dos candidatos governistas. Como se tivesse esse poder. Mas o assunto rende longas, patrióticas e impatrióticas discussões nas redes, amizades são rompidas e ofensas trocadas.

Não sei se o pessoal que torce contra sustenta o mau humor e o nariz torcido até o fim, principalmente se o Brasil vai vencendo jogos e etapas – ou se, trancado em casa, o sujeito não acaba vencendo as resistências e gritando “gol!”, quando ele finalmente acontece. E de cervejinha na mão…

Também se convencionou, na imprensa, vaticinar que a chegada da Copa paralisa completamente o Brasil, para o mal e para o bem, e propicia até uma trégua nas crises políticas. O não-governo Michel Temer, por exemplo, vinha contando dias, minutos e horas até esta quinta, de olho numa folguinha na pressão. Tudo indica que dificilmente conseguirá.

Fanático ou indiferente, o torcedor brasileiro sabe que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Com taça ou sem taça, a ressaca virá e a vida continua igual. Imaginar o contrário é subestimar sua inteligência.

(*) Helena Chagas, jornalista, no blog do Noblat