O DIABO ÀS VEZES EXAGERA

Bolsonaro candidato desqualifica o país e seus eleitores

Se não perdeu votos, deixou de ganhar

Bolsonaro disse que nenhum pai gostaria de ver seu filho brincando com uma boneca (homofóbico). Disse que se as mulheres examinassem melhor suas partes íntimas haveria menos bebês prematuros (misógino). Sobre o líder negro sul-africano Nelson Mandela, disse que ele não é isso tudo o falam por aí (racista).

A levar-se em conta o perfil da maioria dos que se dizem eleitores de Bolsonaro, o mais provável é que ele não tenha perdido votos entre eles. Não porque todos sejam homofóbicos, misóginos e racistas, mas porque costumam perdoar e até achar graça do que classificam docilmente de exageros de Bolsonaro.

Sem crescer nas pesquisas desde janeiro último, é possível que Bolsonaro tenha perdido com a entrevista uma boa oportunidade de aumentar sua legião de seguidores fiéis e entusiasmados. Foi raso, primário, confuso e contraditório nas respostas que ofereceu a uma bancada de jornalistas disposta a fazer-lhe perguntas incômodas.

Disse que apresentou mais de 500 projetos nos seus 28 anos como deputado. Depois falou que foram cerca de 200. Corrigido pelo autor da pergunta, admitiu que haviam sido apenas 176, e que nenhum deles virou lei. Por que não virou? Porque eram projetos dele, respondeu, sugerindo que foi discriminado por seus pares.

Como imagina, caso se eleja presidente, convencer uma Câmara que o discrimina a aprovar o que ele lhe propuser? A pergunta não foi feita. Perguntaram-lhe por que nunca criticou banqueiros, apesar de defender a baixa dos juros. A resposta foi mais ou menos assim:  “Banqueiro é quem quer, e pede dinheiro quem quiser pedir.”

Muito bem: mas como diminuir a carga de impostos se falta ao governo dinheiro para investir e até mesmo pagar suas contas? “A Inglaterra reduziu”, retrucou Bolsonaro, que outra vez confessou não entender nada de economia. Pelo que disse ou deixou de dizer ao longo da entrevista, não entende de quase nada.

Saúde? “Vou pegar de frente a questão da corrupção”, disparou. Não, não. A Saúde… Afinal, mortalidade infantil voltou a crescer e reapareceram doenças que haviam sumido. Bem, a mortalidade infantil “tem muito a ver com os prematuros. É muito mais fácil um prematuro morrer…”, ele disse.

Segurança Pública? Bolsonaro considera que fracassou a intervenção militar no Rio. Mas se o Congresso livrar os militares de eventuais punições, os problemas de segurança pública poderiam ser resolvidos. Em outras palavras: se os militares puderem matar impunemente, Bolsonaro presidente poderá valer-se deles.

“Quem ainda não se indignou com o Congresso?” – foi a resposta de Bolsonaro ao ser lembrado que no passado já defendeu o fechamento do Congresso e o fuzilamento de mais umas 30 mil pessoas. Não negou que tenha sugerido uma vez o fuzilamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Educação? Bolsonaro prometeu investir no ensino fundamental para diminuir o percentual dos que se beneficiam da política de cotas. Afirmou que não se sente em dívida com a escravidão. E que não foram os portugueses que pisaram na África atrás de escravos, mas os negros que se escravizaram. (Zero em História!)

Quanto à abertura dos arquivos militares que guardam a memória da ditadura de 64, se depender dele não haverá. Até porque não houve ditadura, disse Bolsonaro. E se houve “casos de tortura”, deveu-se à luta contra o comunismo. Muitos se disseram torturados só para exigir indenizações mais tarde, argumentou.

A entrevista chegou ao fim com a pergunta sobre o livro de cabeceira de Bolsonaro.

– Verdade Sufocada.

– O autor?

– Hahahaha. É uma história real do Brasil. Você tem que ler os dois lados.

– Qual é o autor?

– Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O coronel Ustra, que já morreu, foi acusado de torturar e de mandar matar presos políticos durante a ditadura de 64. Ao votar a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro fez questão de citar o nome do coronel. Dilma foi prisioneira dele. *

(*) Blog do Ricardo Noblat