O PICARETA DEU UM BALÃO NOS TUCANOS

Datena deu outra volta nos políticos e valorizou seu passe na TV

O presidenciável Geraldo Alckmin estava viajando, mas jogou confetes à distância. “O Datena é um grande comunicador. Tem credibilidade e pode ter uma votação gigantesca”, derramou-se.

PRIMEIRO RECUO – Os políticos tinham motivos para desconfiar. Em 2016, o apresentador ensaiou disputar a prefeitura pelo PP. Depois anunciou o recuo em seu programa de rádio, com ataques à sigla que o acolhera. “Não posso permanecer em um partido que tomou mais de R$ 300 milhões da Petrobras”, afirmou.

O teatro se repetiu nesta segunda-feira, também ao vivo. “A explicação é muito simples: desisti. É a coisa mais difícil que acontece na vida de um ser humano”, disse, como se estivesse num divã cercado de câmeras e refletores.

GRANDES CHANCES – As pesquisas indicavam que ele tinha grandes chances de se eleger. Na disputa por duas vagas, o apresentador só aparecia atrás do ex-senador Eduardo Suplicy. Seus trunfos eram o cansaço com a política tradicional e o medo da violência, que ele explora todas as tardes na TV.

Datena despontou como locutor esportivo, mas ganhou fama no comando de programas sensacionalistas. É conhecido por exaltar a polícia e defender a truculência no combate ao crime. “Enquanto a gente continuar tratando bandido com carinho, com amor, eles vão continuar matando”, esbraveja, em vídeo popular na internet.

GOLPE DE MESTRE – O apresentador também costuma fazer discursos inflamados contra a corrupção. Curiosamente, aliou-se a um grupo que governa São Paulo há duas décadas, sob suspeita de patrocinar desvios em grandes obras viárias.

Para quem entende de marketing, Datena aplicou um golpe de mestre. Os políticos tentaram usá-lo, mas acabaram usados. Ele valorizou o passe e deu tom patriótico ao novo recuo. “Ainda não me sinto preparado para ajudar o meu povo, a nação brasileira”, discursou, na volta ao estúdio.*

(*) Bernardo Mello Franco
O Globo