SE ELEITO, ELE QUER MANDAR NA JUSTIÇA

Fala, fala mais, Bolsonaro!

Jair Bolsonaro (PSL) e Ciro Gomes (PDT) travam uma guerra particular para ver qual dos dois será o primeiro candidato à sucessão do presidente Michel Temer a morrer pela boca. Ou a morrer na praia, se preferirem.Ciro tem a experiência de quem já disputou duas eleições presidenciais – e nas duas foi vítima de sua incontinência verbal. Na primeira chamou um eleitor baiano de burro. Na segunda, disse que o papel de sua mulher na campanha era o de dormir com ele.

No caso de Bolsonaro, a incontinência é menos verbal e mais de ideias insensatas que ele não se cansa de defender e que podem lhe custar uma quantidade enorme de votos. Não de votos que já conquistou, mas de outros que talvez conquistasse.

O candidato homofóbico, truculento com as mulheres e refratário a opiniões que contrariem as suas, avançou ontem o sinal mais uma vez e revelou como pretende lidar com o Supremo Tribunal Federal caso se eleja: aumentando de onze para 21 o número de ministros.

Assim, segundo ele, “poderia colocar lá dez ministros isentos”. Por isentos, entenda-se: ministros afinados com o que ele pensa e dispostos a seguir sua orientação. Foi a arma usada pela ditadura militar de 1964 para controlar o tribunal.

Se Bolsonaro não tivesse a mínima chance de se eleger, não seria o caso de gastar espaço com ele. O Congresso tem excrescências de maior relevo do que Bolsonaro. Mas ele é o líder das pesquisas de intenção de voto. E isso deveria preocupar quem preza a democracia.

De toda maneira, é bom que ele continue expondo sua receita para curar os males do país, por mais absurda, exótica e vazia que ela seja. Quem sabe assim ele não despenca mais rapidamente de onde está.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

TEM GATO NA TUBA

Porsche, iate, mansão…o patrimônio oculto de Romário

Saiba como O GLOBO descobriu bens de luxo ocultados pelo senador e pré-candidato ao governo do Rio

Romário é fotografado deixando boate no Rio ao lado do carro registrado em nome da irmã – Cristiana Silva

RIO – Desde a aposentadoria do hoje senador Romário (Podemos-RJ) dos gramados, em 2008, um aspecto surpreendente de sua trajetória começou a ser noticiado: dívidas contraídas ao longo de sua bem-sucedida carreira. No ano seguinte à sua despedida do futebol, por exemplo, uma cobertura no edifício Golden Green, na orla da Barra da Tijuca, foi leiloada por R$ 8 milhões para que o valor fosse revertido a um vizinho, prejudicado pelo vazamento de uma obra feita no apartamento de Romário. Aquele débito era apenas a ponta de um iceberg.

Um levantamento feito este ano na Procuradoria da Fazenda Nacional apontou dívidas de R$ 36,7 milhões do ex-jogador com a União, pessoas físicas e jurídicas. Três perguntas surgiram naturalmente a partir desta constatação: qual a origem deste passivo? Por que um ex-atleta de sucesso e salários altíssimos não quitava estes pagamentos? Como ele driblou as autoridades durante tanto tempo? A história que vamos contar a seguir nasce desses questionamentos.

Vista aérea da casa do senador Romário na Barra: reforma irregular – Renee Rocha

Aqui a história se divide em duas pontas que chegam à mesma personagem: Zoraidi de Souza Faria, irmã do senador. Uma fonte deu a dica: “Procurem a casa na Barra da Tijuca que o Romário comprou da Adriana”. Era uma referência à advogada Adriana Sorrentino, ex-mulher do ex-jogador Edmundo. Uma pesquisa em cartório mostrou que a casa, avaliada em R$ 6,4 milhões, ainda estava no nome dela. Por telefone, Adriana confirmou que vendera o imóvel a Romário. Um vizinho disse ainda que o senador já fizera festas ali. Uma obra sem autorização estava em andamento, o que gerou um processo administrativo dentro da prefeitura. Ao consultar os documentos deste procedimento, uma nova evidência: as cotas de IPTU da casa estavam sendo pagas por Zoraidi.

Em janeiro, os papéis reunidos pela reportagem já ocupavam uma caixa inteira de papelão na Redação. A apuração tinha avançado, e era o momento de estabelecer um prazo para que a história fosse publicada. Todo o material foi checado, dúvidas foram sanadas, e uma nova pesquisa em cartórios trouxe outras informações relevantes. Romário tinha uma procuração que permitia a ele movimentar uma conta em nome de Zoraidi no Banco do Brasil – justamente a conta de onde saíram os recursos para pagar o IPTU da casa comprada na Barra. Uma simples busca no Google Maps resolveu o resto do enigma: a agência ficava no Congresso Nacional, em Brasília, onde Romário bate ponto desde 2011, enquanto Zoraidi vive em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

Lancha do senador Romário na Marina da Glória – Foto de leitor

A primeira reportagem foi publicada em 25 de fevereiro. Uma foto aérea, feita com drone, da casa da Barra rendeu a imagem publicada com destaque na primeira página daquela edição de domingo do GLOBO. Os desdobramentos foram naturais. Uma outra fonte procurou os repórteres com informações sobre uma lancha na Marina da Glória – e fotos em redes sociais indicavam que o senador poderia ser de fato dono de um barco. A Capitania dos Portos informou que a lancha estava em nome, mais uma vez, de Zoraidi. Com a ajuda de uma nova fonte, conseguimos fotos da embarcação.

Tamanha movimentação financeira da irmã de Romário chamou a atenção das autoridades. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foi alertado sobre a suspeita de ocultação de patrimônio, o que gerou uma reportagem publicada em 13 de maio. Um mês depois, O GLOBO voltou ao caso, desta vez para detalhar um relatório do Coaf. A análise encontrou indícios de lavagem de dinheiro de Romário, já que a conta em nome de Zoraidi no Banco do Brasil é usada apenas por ele, para bancar suas próprias despesas. Outros documentos obtidos pelo jornal revelaram que o patrimônio da irmã do senador cresceu 1.800% em dois anos, um aumento incompatível com os rendimentos dela. Em 2014, os bens de Zoraidi somavam R$ 650 mil. Agora, são mais de R$ 12 milhões. Vale lembrar: nos últimos anos, a irmã de Romário já se apresentou como ‘estudante’, ‘do lar’ e ‘vendedora’ em diferentes certidões. Seus rendimentos nos últimos três anos jamais passaram de R$ 4 mil por mês.

Em todas as ocasiões em que publicou reportagens a respeito desse caso, O GLOBO procurou o senador Romário para que ele se manifestasse. Em fevereiro, ele afirmou que a reportagem estava confundindo a empresa Romario Sports Marketing, da qual é sócio, com a pessoa física Romário de Souza Faria. O senador negou ser dono da casa no condomínio da Barra e, sobre o uso do carro em nome da irmã, afirmou que o veículo havia sido “emprestado” por ela. Apesar de procurado, Romário não se manifestou sobre as reportagens seguintes.

O GLOBO sustenta as informações publicadas e continua apurando detalhes sobre o patrimônio do senador.*

(*) Publicado originalmente na newsletter ASSINANTE SABE MAIS, com conteúdos exclusivos para assinantes do GLOBO”.**

(**) MARCO GRILLO E THIAGO PRADO – O GLOBO

 

A TERRA TREME

Palocci vai abrir computadores da sua empresa com arquivos das negociatas

O compartilhamento desses dados é a principal condição para que o ex-ministro deixe a prisão e progrida para o regime domiciliar com tornozeleira, segundo o acordo de delação assinado por ele com a Polícia Federal, em abril, e homologado no fim de junho pelo juiz João Pedro Gebran Neto, o relator da Lava-Jato na Tribunal Federal Regional da 4ª Região (TRF-4).

SEM COMPUTADOR – Quando a PF fez buscas no escritório da Projeto, em São Paulo, em setembro de 2016, os investigadores encontraram apenas teclados, mouses e monitores, mas não acharam nenhum gabinete de computador. Questionado sobre o fato, o principal assessor de Palocci na época, Branislav Kontic, que também chegou a ficar preso em Curitiba, disse que as máquinas haviam sido substituídas por laptops novos.

Os investigadores ficaram engasgados com a resposta, como mostrou o relatório sobre a operação assinado pelo delegado Rodrigo Luis Sanfurgo de Carvalho, que esteve no local coordenando as buscas. “Entretanto, causa espécie a suposta substituição dos computadores ‘velhos’ por notebooks sem a retirada dos monitores das bancadas, assim como teclados, mouse e fios, fato que mereceria esclarecimentos”, escreveu.

PRISÃO PREVENTIVA – O episódio embasou o pedido da PF para que a prisão de Palocci se transformasse de temporária, com vencimento em cinco dias, em preventiva, ou seja, sem data para ter terminar , o que foi deferido pelo juiz Sergio Moro.

Os dados dos computadores da Projeto ainda não foram entregues à PF porque estão passando por uma análise de peritos contratados por Palocci, que estão organizando o material de maior relevância para facilitar o trabalho dos investigadores de filtrar os conteúdos que envolvem crimes. A previsão é que a perícia termine nesta semana e que o material seja remetido à PF. Apesar dessa triagem, o conteúdo integral dos HDs da consultoria será compartilhado.

Fontes da PF afirmaram, porém, que a entrega dos dados não garante a imediata saída de Palocci. Para isso acontecer, é necessário que os investigadores avaliem se o material de fato ajudará no avanço de apurações ou contribuirá para a abertura de novas frentes.

EFETIVIDADE – Diferentemente das delações premiadas firmadas com o Ministério Público Federal (MPF), em que multas e prazo de pena são definidos na assinatura do acordo, nas negociações com a PF os benefícios do delator estão diretamente ligados à efetividade das informações e dados cedidos por ele.

No entanto, a entrega das informações não suspenderá o bloqueio dos R$ 30 milhões nas contas da Projeto desde 2016, quando o ex-ministro foi preso. A decisão do desbloqueio, uma das principais preocupações de Palocci, caberá principalmente ao juiz Sergio Moro.

Um relatório da Receita Federal mostrou que a consultoria recebeu R$ 81,3 milhões de 47 empresas que contrataram seus serviços nos nove anos de funcionamento do escritório. Segundo o mesmo documento, a Projeto rendeu, entre 2007 e 2015, pouco mais de R$ 12 milhões a Palocci, sendo R$ 336 mil em remuneração do trabalho e R$ 11,7 milhões em lucros e dividendos.

EM SIGILO – Os termos do acordo firmado com a PF e agora homologado pela Justiça Federal ainda estão sob sigilo. Conforme O Globo publicou em abril, grande parte das histórias abordadas por Palocci — que ainda poderão ser detalhadas no curso das investigações — reconstituiu o esquema de corrupção na Petrobras, as relações das empreiteiras com políticos do PT e a forma como os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff se envolveram nas tratativas que resultaram em um prejuízo de cerca de R$ 42 bilhões aos cofres da Petrobras, segundo estimativa levantada pela própria PF.

O ex-ministro teria narrado pelo menos uma conversa com Lula no Palácio do Planalto na qual teria tratado do esquema envolvendo a construção de sondas para exploração de petróleo. O objetivo da negociação, feita na presença de Dilma, seria levantar dinheiro para bancar a primeira eleição da ex-presidente, em em 2010.

Ao falar da relação de Lula com empreiteiras, o ex-ministro disse que parte do dinheiro entregue nas mãos dele e na sede do instituto que leva o nome do petista teria saído diretamente da “conta Amigo”, a reserva de propina atribuída ao petista no Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, a área da empresa que operacionalizava pagamentos ilícitos.*

(*) Bela Megale
O Globo

TIROTEIO NA ZONA

STF: suprema tavolagem federal


“O atual Supremo não parece muito afeito a questões jurídicas, por mais relevantes que elas sejam num Estado de Direito. O rigor técnico tem cada vez menos importância. O que importa é a perspicácia de antever os movimentos dos outros ministros e assegurar um jeito para que sua posição prevaleça. É assim que se pratica a tavolagem na Suprema Corte.” Esta frase não é de autoria de um político de oposição ou do patrocinador de algum pleito não atendido em decisão monocrática, plenário de turma ou dos 11 membros do Supremo Tribunal Federal (STF), mas faz parte do editorial intitulado Fuzuê, publicado no domingo 1.º de julho de 2018 em O Estado de S. Paulo. Para o leitor desacostumado de brasileirismos nestas eras de anglicismo cibernético, convém lembrar o significado desse título, de acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “substantivo masculino, brasileirismo informal; folia coletiva, ruidosa, animada por música, dança, alegria; carnaval, folia, funçanata, pândega.” Ou ainda, “por extensão inform
al, desavença, altercação agressiva envolvendo várias pessoas; briga, confusão, desordem, rolo”.

Em preito à clareza e culto ao idioma falado e escrito como mandam os cânones, talvez convenha acrescentar, para não deixar brechas à incompreensão ou à confusão própria dos fuzuês, termo usado no título de uma peça de teatro do poeta paraibano Marcos Tavares (Fuzuê de Finados), o verbete que esclarece o que seja tavolagem em outro dicionário. Vamos ao Aulete Digital, sem delongas: “substantivo feminino. 1. Vício do jogo; jogatina 2. Casa destinada aos jogos de azar; baiuca, cassino, garito, jebimba, tabulagem 3. Ant. Casa destinada aos jogos de tabuleiro”. Na tradicionalíssima página A3 desse diário, fundado em 1875 e desde então dedicado a causas como a abolição da escravatura, a proclamação da República, a revolução constitucionalista paulista de 1932 e a resistência às ditaduras do Estado Novo e militar de 1964, essa comparação das sessões do STF com o vício do jogo resulta de profunda reflexão sobre fatos recentes. E passa a merecer a atenção de todos.

O editorial acima citado comentou a suprema insolência apelativa descrita de Nota & Informações e, no verso dessa, foi reproduzida reportagem importante e chocante da autoria de Julia Affonso, do Blog do Fausto, espaço reservado ao melhor da reportagem investigativa na imprensa brasileira. O título da abertura da editoria de Política do Estado do domingo 1.º foi: Defesa de Lula entrou com 78 recursos do caso tríplex. Acima do texto propriamente dito, o espanto provocado pelo título é devidamente justificado na linha fina acima dele: Lava Jato. Levantamento mostra que questionamentos foram apresentados entre fevereiro de 2016 e a semana passada: advogados do petista fizeram ofensiva no STF.

Para não perdermos de vista os “pais dos burros”, assim mesmo como o vulgo define os dicionários, muito vendidos e pouco lidos – e esses tomos deveriam ficar sempre ao alcance de nossas mãos –, talvez urja esclarecer que no caso a palavra “ofensiva” pode abarcar pelo menos dois significados. O primeiro, usado conscientemente pelo redator, quer dizer ataque. A defesa de Lula atua como um avanço de tropas contra o território inimigo. O segundo, depreende o leitor mais atento, representa um sinônimo de insolência, ou seja, uma extensão da palavra ofensa em seu sentido mais comum. Os advogados do petista, que não se cansam em atacar o Poder Judiciário da planície ao topo da montanha, ofendem não apenas seus membros de primeira, segunda e terceira instâncias, como também exercem o desplante de exigir da última delas comportamento condizente não com os autos dos processos aos quais seu cliente responde, mas de acordo exclusivamente com a conveniência dele.

No domingo em que julho foi inaugurado, o editorial do Estado e o levantamento feito por Júlia Affonso justificaram com sobras muitas atitudes da defesa do ex-presidente. O relator da Lava Jato no STF, Edson Fachin, pediu à Procuradoria-Geral da República parecer sobre recurso dos defensores de Lula contra a condenação do cliente pelo juiz da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba, Sergio Moro, sentença confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, em Porto Alegre. Mas os causídicos não se satisfizeram com a decisão e exigiram que sua demanda fosse encaminhada diretamente à Segunda Turma do Supremo, também conhecida como “o jardim do Éden” pela generosidade com que de três a quatro (às vezes) dos cinco membros concedem habeas corpus a quem os pede. Fachin não ficou esperando sentado a decisão majoritária de seus “colegas” de turma e encaminhou o recurso ao plenário de 11. Antes do recesso de julho Alexandre de Moraes negou o pedido malcriado.

Por sinal, o membro da Academia Brasileira de Letras e professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas Joaquim Falcão, especialista em STF, fez uma magnífica descrição da distorção provocada pela guerra interna dos “supremos” que permitem tais malcriações. No artigo A Segunda Turma é o Supremo, publicado na quarta-feira 27 de junho no jornal O Globo, Falcão focou a situação com olhos de águia e desferiu: “A questão hoje não é a palavra final. É a palavra intermediária. É quem manda no ‘durante’. Até chegar ao final. E como o atual sistema é de recursos infindáveis, o final também é, às vezes, infindável. Não adianta o plenário dizer que cabe prisão a partir da condenação em segunda instância. Pois a Segunda Turma pode sempre interpretar diferentemente. Nos últimos tempos, os ministros Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli e Gilmar Mendes consolidaram uma maioria de três que têm tentado, e muitas vezes conseguido, controlar a Segunda Turma — composta de cinco ministros”. Ou seja, os representantes de Lula provocam porque os “colegas” de Fachin permitem. E o resto é balela.

O resultado dessa batalha absurda só será conhecido em agosto, pois na “tabulagem” do Supremo o sorteio do recurso de Lula versus Fachin caiu nas mãos de Alexandre de Moraes, que é da Primeira Turma, cujo desempenho na concessão de habeas corpus é normalmente oposto ao da Segunda. Isso ocorre graças à posição do próprio Moraes, de Luiz Fux e Luis Roberto Barroso, que conta com o apoio de Rosa Weber, que vota contra a própria convicção por apoiar a permanência da jurisprudência da autorização de prisão após condenação na segunda instância, após ter dado na votação da medida voto vencido. Nessa turma, Marco Aurélio Mello, que faz de tudo para desmoralizar os oponentes que o derrotaram na votação, mantém uma tradição antiga de se isolar naquilo que chama de suas convicções. Por isso, ao contrário da Segunda, a Primeira Turma do STF foi chamada de “câmara de gás” por Gilmar Mendes, cujo voto ajudou a formar a jurisprudência, mas agora a combate com inusitada ferocidade.

Na semana passada, o citado ministro Mello deu exemplo de como se comporta nessa guerra de chicanas autorizadas com citação constitucional: concedeu habeas corpus ao multicondenado do MDB Eduardo Cunha, que, contudo, foi mantido preso por conta de outros dois mandados de prisão. Ou seja, ele não quis soltar o “Caranguejo” da Odebrecht, mas desafiar a decisão da presidente Cármen Lúcia de não marcar, como ele pretende, a rediscussão da jurisprudência até setembro, quando ela entregará a presidência da Corte a Dias Toffoli. Este foi lembrado nas redes sociais por ter mantido preso um morador de rua acusado de furtar uma bermuda de R$ 10, da mesma forma que soltou o ex-chefe José Dirceu, acusado de roubar R$ 10 milhões na Lava Jato. Será possível, então, dizer que o “garantismo” do futuro presidente do STF não é medido em unidades, mas em milhões? E mais: a defesa de Lula, que pediu para a inelegibilidade dele pela ficha suja ser anulada no “jardim de Éden”, para o caso de votação no pleno, desistiu do pleito, o que não passou despercebido a Fachin. Que tal?Seja lá como for, certo é que, se a “suprema tavolagem federal” mantiver sua atitudes recentes, descritas no editorial do Estado e no artigo de Falcão, as bancas milionárias de advogados grã-finos continuarão suas ofensas ofensivas, tal como a descrita por Júlia Affonso no caso de Lula.

(*)  José Nêumanne Pinto é jornalista, poeta e escritor – Estadão

MAIS UMA CASO ESCABROSO DO TOFFOLI

Moro diz que tornozeleira em Dirceu seguiu autorização da própria 2ª Turma do Supremo

Em despacho nesta terça-feira, 3, juiz da Lava Jato revoga decisão que havia tomado no dia 29 de junho para monitoramento de petista condenado e diz que ‘lamenta’ que o restabelecimento das medidas cautelares, autorizadas previamente pelos ministros do Supremo, tenha sido interpretado como ‘claro descumprimento’

O juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, revogou nesta terça-feira, 3, sua decisão de 29 de junho por meio da qual havia mandado instalar tornozeleira no ex-ministro José Dirceu (Casa Civil/Governo Lula). A decisão acolhe determinação do ministro Dias Toffoli, da 2.ª Turma do Supremo, que, nesta segunda, 2, vetou o monitoramento eletrônico do petista, alegando que Moro havia descumprido decisão da Corte de conceder ‘liberdade plena’ a Dirceu, condenado na Lava Jato.

Em seu despacho, Moro foi irônico. “Lamenta-se que o restabelecimento das medidas cautelares autorizadas previamente pela própria 2.ª Turma do STF tenha sido interpretada como ‘claro descumprimento’ da decisão na Reclamação 30.245, quando ao contrário buscava-se cumpri-la.”

“De todo modo, ficam prejudicadas as medidas cautelares restabelecidas na decisão anterior, por decisão do Relator da Reclamação 30.245. Comunique-se a autoridade policial da decisão do Relator da Reclamação 30.245 para as providências necessárias.”

Moro destacou que a própria 2.ª Turma do Supremo havia considerado adequadas as cautelares, inclusive a proibição de Dirceu sair do País. “Não se imaginava que a própria maioria da Colenda 2.ª Turma do STF que havia entendido antes, na pendência da apelação, apropriadas as medidas cautelares, entre elas a proibição de que o condenado deixasse o país, teria passado a entender que elas, após a confirmação na apelação da condenação a cerca de vinte e sete anos de reclusão, teriam se tornado desnecessárias.”

Ao fim de seu despacho, o magistrado observou. “Entretanto, este Juízo estava aparentemente equivocado pois recebida agora decisão de revogação das cautelares exarada pelo Relator da Reclamação 30.245 e esclarecendo que a suspensão da execução provisória não significou o retorno à situação anterior, mas, sim, a concessão de ‘liberdade plena’ ao condenado na pendência do recurso especial.”

O magistrado anotou que, pela decisão do dia 29 de junho, restabeleceu as medidas cautelares que vigoravam contra Dirceu antes do início da execução provisória da condenação.

“As medidas cautelares haviam sido impostas com base em autorização expressa anterior da própria 2.ª Turma do STF no HC 137.728 quando revogada a prisão preventiva de José Dirceu de Oliveira e Silva na pendência do julgamento da apelação na ação penal 5045241-84.2015.4.04.7000. Por outro lado, tal autorização foi dirigida pela própria 2.ª Turma do STF diretamente a este Juízo na ocasião, mesmo estando a ação penal em grau de recurso”, assinalou Moro.

O juiz observou que tendo sido concedido, na sessão de 26 de junho, habeas corpus de ofício na Reclamação 30.245 pelo voto da maioria da 2.ª Turma do Supremo para suspender a execução provisória, ‘a consequência natural seria o retorno da situação anterior’.

Moro destacou trecho do voto de Toffoli na Reclamação 30.245. “Em face de tudo quanto exposto, julgo improcedente a reclamação. Concedo, todavia, ordem de habeas corpus de ofício, para excepcionalmente, suspender a execução provisória da pena imposta ao reclamante, até que, nos moldes da compreensão que firmei no HC 152.752, o Superior Tribunal de Justiça decida seu recurso. É como voto.”

“Como consequência natural da decisão de suspensão da execução provisória da pena, entendeu este Juízo que retornava-se ao status quo ante, daí o restabelecimento das cautelares”, registrou Moro.*

(*) Renato Onofre e Fausto Macedo – Estadão

O EMPRESÁRIO “CULT” DO LULOPETISMO

Eike pega 30 anos de prisão e Cabral, 22

Juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Criminal Federal do Rio, impôs ainda ao empresário multa de R$ 53 milhões por corrupção ativa no processo da Operação Calicute


O juiz Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Criminal Federal do Rio, condenou o empresário Eike Batista a 30 anos de prisão por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Bretas impôs a Eike, ainda, multa de R$ 53 milhões.

Na mesma sentença, o magistrado condenou o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) a 22 anos e oito meses de reclusão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão divisas. A ex-primeira-dama Adriana Ancelmo foi sentenciada a 4 anos e seis meses de prisão no regime semiaberto.

Bretas também condenou o ex-vice-presidente do Flamengo Flávio Godinho a 22 anos de prisão.

A informação foi divulgada pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo, e confirmada pelo Estadão.

Eike chegou a ser preso na Operação Calicute em janeiro de 2017, sob acusação de pagar propinas de US$ 16,5 milhões a Cabral. Na denúncia, oferecida em fevereiro de 2017, o Ministério Público Federal assinalou, sobre Eike, ‘sua contemporânea disposição de ludibriar os órgãos estatais de investigação’.

“Uma prática que tem se mostrado comum ao mesmo, que é a de simular atos jurídicos formalmente perfeitos para dar foros de legalidade a operações que, em verdade, traduzem pagamento de propina e lavagem de dinheiro”, afirma a denúncia sobre Eike.

Sobre o ex-governador a acusação da Procuradoria diz que ele “tinha o poder de praticar atos de ofício para beneficiar o empresário em seus empreendimentos no Estado, sendo efetivamente paga por Eike Batista em janeiro de 2013 a propina solicitada em contraprestação à influência a ser exercida pelo então governador do Estado do Rio de Janeiro quanto aos interesses privados das empresas do grupo X”.

A reportagem está tentando contato com a defesa dos sentenciados por Bretas. O espaço está aberto para manifestações.*

(*) Estadão