JÁ DIZIA, VOVÓ: – DEUS NOS LIVRE!

Mourão no Sul, Wagner no Nordeste: bastidores em chamas

Mourão desandou em considerações rasteiras e ofensivas à índios e negros

Dois casos, desta semana, logo nos primeiros movimentos da campanha presidencial, demonstram o alcance e a atualidade dos ensinamentos do autor do “Dicionário de Jornalismo” entre outros escritos do legado de Bahia – jornalista e professor nascido em Feira de Santana, quando ainda distrito de Cachoeira, reduto libertário das lutas de resistência da cultura negra local e nacional.

Destaco primeiro o caso, ocorrido em Salvador, da participação de Jaques Wagner, ex-governador, postulante a senador pelo PT, no encontro de empresários com o candidato ao governo estadual (Rui Costa), promovido pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) e outras entidades representativas do Comércio e do Agronegócio, no Hotel Mercury. Ao falar sobre o seu partido e o quadro da sucessão presidencial, o “galego” disse como quem não quer nada:

“Acho (Haddad) um ótimo nome. Acho que é um candidato preparado (…) O fato de ele não ter sido reeleito em 2016 (perdeu a prefeitura de São Paulo para o tucano João Dória), não tem importância, porque a gente (O PT) vivia uma situação muito ruim, no olho do furacão, naquele momento”. Mais não digo, a não ser o que imagino teria comentado um irônico francês, hospedado por acaso no hotel, durante o encontro: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”.

O outro caso é a conversa que se pretendia “sigilosa”, na cidade gaúcha, onde o general Mourão meteu-se, desgraçadamente, a gato mestre da história e da formação cultural da sociedade brasileira, e desandou em considerações rasteiras e ofensivas à índios e negros, citados como símbolo de duas mazelas nacionais, “a indolência” e a “malandragem”, responsáveis, segundo ele, pelo atraso do País. “Este é o nosso contexto cultural”, disse o oficial aos seus escolhidos ouvintes, a pretexto de explicar as “condições do subdesenvolvimento no Brasil e na América Latina”.

Bolsonaro bancou um Pilatos dos novos tempos. Lavou as mãos e fez o sempre: livrou a cara do parceiro de chapa e culpou a imprensa, “pelo sensacionalismo” de divulgar um fato que, segundo sua avaliação, deveria ficar submerso nos bastidores. Mourão fez pior ainda, em sua tentativa precária de consertar o malfeito. “Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem. Nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano”. Com a palavra, o poeta abolicionista Castro Alves: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós. Senhor Deus! Se é loucura…se é verdade/ Tanto horror perante os céus”.

 

Vitor Hugo Soares