UM POVO QUE PASSA FOME

Mudança monetária na Venezuela tem pouca chance de dar certo


Não adianta só cortar zeros da moeda para resolver o problema da hiperinflação. A Venezuela lançou o “bolívar soberano”, com cinco zeros a menos. Aprendemos muito com os planos econômicos no Brasil. Vários deram errado e um obteve sucesso. O que os separa é a mudança mais profunda na economia. O plano da Venezuela não conseguirá isso.

A tendência, em casos como esses, é a nova moeda aposentar a antiga. Mas ela sozinha não é capaz de consertar os defeitos que levam à hiperinflação. O governo de Nicolas Maduro anunciou um novo aumento de 3.500% no salário mínimo, elevação de impostos e do preço dos combustíveis. Não deve ser suficiente. O país gasta demais e gasta mal. O déficit fiscal está próximo de 20% do PIB. O BC não tem autonomia, o governo atua com demagogia e continua a imprimir moeda sem resolver o problema. A previsão do FMI é que a inflação chegue a 1.000.000% neste ano.

A reforma muda os valores monetários, mas não chega a ser um plano eficiente contra o processo inflacionário. O salário mínimo na Venezuela passará a ser de 1.800 bolívares soberanos, o que equivale ao preço de um frango no mercado.

No Brasil, a estabilidade veio com o real. Mas ela só aconteceu porque houve mudanças no regime fiscal e econômico. Antes disso, em 1993, o país havia cortado três zeros. Entrava em circulação o cruzeiro real. Nada mais foi feito para romper a inflação, que no dia seguinte manteve seu ritmo de 50% ao mês.

A própria Venezuela, há 10 anos, já havia cortado três zeros da moeda. Era o “bolívar forte”, que agora está morrendo. Não adianta aplicar os cortes se as outras reformas não são feitas.

O novo bolívar terá como lastro uma criptomoeda venezuelana, que por sua vez é lastreada na produção de petróleo do país. Mas a exploração está em queda por lá. Falta dinheiro para investir. Hoje a Venezuela produz 1,4 milhão de barris por dia, bem menos que os 3,2 milhões de 10 anos atrás.

Sem resolver os problemas econômicos e fiscais, a previsão muito razoável é que a nova moeda venezuelana continuará a reproduzir a inflação.*

(*) Míriam leitão – O Globo