QUADRILHA SEM CHEFE? – SÓ NO PT

‘Lula é mentor do esquema criminoso’, diz Moro

Acusado pela defesa de Lula e pelo Partido dos Trabalhadores de utilizar a Justiça para perseguir o ex-presidente petista, Sergio Moro elevou o tom de sua resposta: “As provas indicam que Lula é o mentor desse esquema criminoso que vitimou a Petrobras. E nós não tratamos apenas de um tríplex. Nós falamos de um rombo estimado de R$ 6 bilhões. O tríplex é a ponta do iceberg. A opção do Ministério Público foi apresentar a acusação com base nesse incremento patrimonial específico, que foi fruto da corrupção.”

As novas declarações de Moro foram feitas em entrevista veiculada na edição mais recente da revista IstoÉ. Ele respondia a uma pergunta sobre o recurso ajuizado pela defesa de Lula no Supremo depois que trocou a Lava Jato pelo posto de ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro. Na peça, ao advogados pedem que Lula seja libertado e que os processos que correm contra ele em Curitiba sejam anulados.

Moro reiterou que a sentença que proferiu no caso do tríplex é de “meados de 2017.” Declarou que “a decisão é extensamente fundamentada.” Repetiu que sua deliberação “foi mantida pela Corte de apelação (o TRF-4, sediado em Porto Alegre). A partir do momento em que a Corte de apelação mantém a decisão, a decisão passa a ser dela. Não é mais nem minha.”

O ex-juiz repetiu, de resto, que enxerga as críticas do petismo e da defesa como “um álibi de Lula, baseado numa fantasia de perseguição política.” Enumerou outras condenações de sua lavra: “Vamos analisar a Operação Lava Jato. Nós temos agentes políticos que foram do Partido Progressista condenados, temos agentes do PMDB e de figuras poderosas da República, como foi o caso do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, considerado adversário figadal do PT. E, claro, condenamos também agentes do Partido dos Trabalhadores.”

Moro acrescentou: “O esquema de corrupção na Petrobras envolvia a divisão de dinheiro entre executivos da estatal e agentes políticos que controlavam a empresa. É natural que o esquema criminoso dessa espécie, quando descoberto, com políticos envolvidos, impliquem majoritariamente aqueles partidos que estavam no poder e controlavam a empresa e não legendas que se encontravam na oposição.”

Além do caso do tríplex, que rendeu a Lula 12 anos e um mês de cadeia, há na 13ª Vara Federal de Curitiba outros dois processos envolvendo o ex-presidente petista: o do sitio de Atibaia e o do terreno que a Odebrecht teria adquirido para o Instituto Lula. Instado a comentá-los, Moro preferiu se abster:

“Essa é uma questão da Justiça, a cargo da doutora Gabriela Hardt, que me substitui na 13ª Vara Federal e não seria apropriado comentar. Ela é uma magistrada muito séria e muito competente. No entanto, está em suas mãos diversos casos criminais em relação à Lava Jato, que demandam atenção dela. Então não sei se ela vai ter tempo hábil para julgar esse caso ainda este ano.”

Nesta sexta-feira, Moro formalizou seu pedido de exoneração do cargo de juiz. Algo que pretedia fazer apenas no final do ano. Com essa decisão, deflagra-se o processo de substituição definitiva do magistrado na Vara da Lava Jato. Estão aptos a concorrer à vaga mais de 200 juízes.*

(*) Blog do Josias de Souza

CHEGA DE LOMBO E CHIBATA

Bolsonaro não pode desviar a política externa da rota da sensatez

Se colocar as próprias opiniões acima dos interesses nacionais, o novo ministro repetirá a fórmula que fez do Itamaraty um indecoroso instrumento do PT

Uma das mudanças mais louváveis decorrentes do despejo de Dilma Rousseff foi o enterro da política externa na canalhice. Essa obscenidade forjada com base na ideologia jurássica do PT envergonhou o Brasil durante 13 anos.

Nesse período, o Itamaraty revogou os interesses nacionais para celebrar parcerias infames com a ditadura cubana, a Venezuela chavista e seus satélites bolivarianos, com o Irã dos aiatolás atômicos e outros assassinos de estimação espalhados pelo mundo. Qualquer governante psicopata que hostilizasse os Estados Unidos, virava amigo do Brasil de Lula e Dilma.

É preciso que o governo do presidente Jair Bolsonaro não percorra, com a mão invertida, essa trilha desmatada a golpes de foice e martelo pelos governos petistas. Para tanto, os interesses do país deverão prevalecer sobre opiniões externadas nas redes sociais pelo diplomata Ernesto Araújo, o chanceler que Bolsonaro escolheu.

Nada contra os místicos, desde que não orientem pelos critérios do misticismo seu desempenho nos cargos públicos que ocupam. O futuro chefe do Itamaraty não pode, por exemplo, enxergar em Jair Bolsonaro um novo guia genial dos povos. Ele é o presidente eleito com uma extraordinária votação — e isso basta. Nem pode acreditar que Deus resolverá os problemas do Brasil – muito menos o que chama de “Deus de Trump”.

A política externa do governo Temer requer alguns ajustes, mas precisa manter as diretrizes que devolveram o Itamaraty ao caminho da sensatez. Simples assim.*

(*) Blog do Augusto Nunes

PERDERAM O BONDE DA HISTÓRIA

A reinvenção da esquerda

O PT desgastou-se demais

A esquerda quer se reinventar (o termo é o que tem sido usado por ela própria). O primeiro passo é descolar-se de Lula e do PT, providência já em curso, sob a batuta de Ciro Gomes, do PDT.

Frustrado em seu sonho de encabeçar, nas eleições de outubro passado, uma chapa única das esquerdas, tendo o PT como vice, Ciro não se cansa de acusar Lula de “traição” – e burrice.

O acordo chegou a ser selado verbalmente, na cadeia, mas, na hora H, Lula, temendo o protagonismo de Ciro, optou por Haddad.

Muita gente na esquerda (até no PCdoB), chocada com a vitória acachapante de Bolsonaro – e com a perspectiva de longo jejum de poder -, subscreve a análise de Ciro, que, para além da mágoa, age pragmaticamente. Tanto assim que já baixou o facho de sua retórica.

O raciocínio é simples: o PT desgastou-se demais, associou-se de modo irreversível a corrupção e incompetência e não tem mais condições de cobrar do governo (qualquer governo) o que quer que seja. Pior: perdeu seus quadros principais.

Seu líder, Lula, está preso, ao lado de outros protagonistas do partido – e outros mais, como José Dirceu, devem lhes fazer companhia em breve. A Lava Jato, fortalecida com a presença de Sérgio Moro no Ministério da Justiça, deve expor mazelas ainda ocultas dos 13 anos em que o partido reinou sobre o país.

Resumindo: o desgaste da sigla tende apenas a aumentar. O PT que hoje sobrevive é uma caricatura do original. O partido que, na sua origem, reunia a elite do sindicalismo e intelectuais da USP, Unicamp e PUC, hoje se vê reduzido a um baixo clero iletrado, que busca compensar suas limitações com pantomimas e insultos.

De Sérgio Buarque de Hollanda, Florestan Fernandes, Hélio Bicudo, Paul Singer, entre outros, o partido desembocou em Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias, Maria do Rosário e Dilma Roussef.

A decomposição qualitativa deu-se no curso do exercício do poder, em que o partido pôs em prática tudo o que condenara, com veemência, em mais de duas décadas de oposição: aliança com as oligarquias mais atrasadas e corrupção, muita corrupção.

O país que recebeu dos tucanos estava bem melhor que o que entregou a Temer, que, apesar de todos os pesares, conseguiu reduzir danos e o repassará a Bolsonaro em melhores condições que as em que o recebeu. A reinvenção parte deste princípio: é preciso mudar a fisionomia da esquerda, torná-la propositiva e idônea – tarefa gigantesca, para dizer o mínimo.

Não basta insultar os adversários, como o próprio Ciro tem o hábito de fazer. José Dirceu, esta semana, constatou que não será curta a passagem de Bolsonaro (e do que genericamente chama de direita) pelo poder. Reconheceu que o novo presidente tem base social e meios para pôr em cena os dois compromissos centrais de sua campanha: combate à corrupção e ao crime.

É cedo para saber a eficácia da estratégia da esquerda. O próprio Ciro, sem mandato, pode vir a ser ultrapassado por outras lideranças. O certo é que o primeiro passo – o descolamento de Lula e PT – indica que já está em curso um processo de autocrítica, indispensável à sobrevivência de quem sai politicamente nocauteado.*

(*) Ruy Fabiano , no blog do Noblat

ETERNO PAVÃO

Inquietações de FHC: Tucanos baleados, Lula preso, Bolsonaro no poder

O estado de espírito de FHC flutua

Anda inquieto, fala pelos cotovelos e se movimenta muito, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo com peso nas costas (87 anos da idade e outros tantos da biografia política e intelectual a preservar), o FHC destes dias, de quase fim de 2018, parece um maratonista da São Silvestre. Voa, caminha e conversa sem parar: no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Europa.

Em São Paulo, sua taba original de fundador e cacique honorário do PSDB, além de acadêmico pensador da política, ele revela em entrevistas nas rádios, TVs, blogs e jornais, um dos motivos principais de seu desconforto: o baque demolidor sofrido por seu partido nas recentes eleições. Depois de contar todos os atingidos e constatar a legião de tucanos feridos gravemente. A começar por Geraldo Alckmin, abatido ainda no primeiro turno das presidenciais.

João Dória, eleito governador de São Paulo – ajudado pelo vendaval bolsonarista – poderia até representar, em parte, um triunfo de honra em meio ao desastre quase geral do partido de FHC. Mas Dória já se sabe: político e gestor de refinada formação européia, liberal até o tutano e anti petista ferrenho, de tucano quase não tem nada. Principalmente depois da áspera campanha que o fez mandatário paulista – contra a vontade de muitos do seu partido, a começar por Alckmin.

Em Buenos Aires, entrevistado pelo diário Clarim, o ex-presidente revela outro motivo de sua inquietação: o futuro turvo que parece rondar seu ex-colega presidente e velho amigo, Luís Inácio Lula da Silva. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, preso na sede da PF, em Curitiba, passou por novo (e pesado) interrogatório sobre o sítio de Atibaia, esta semana, em processo da Lava Jato (sob comando da juíza Gabriela Hardt, severa substituta do juiz Sérgio Moro.

“Não gosto de ver Lula preso. É ruim para ele e para o País. Não fico feliz em ver um ex- presidente preso, mas respeito a lei”, disse ao Clarim. Ainda assim, os dias que aguardam Lula não parecem animadores.

Mesmo filho de ex-general, FHC mostra-se ainda mais inquieto e desconfortável com a vitória do capitão da reserva do Exército, Jair Bolsonaro, eleito presidente da República. Fato que representa – entre outras mudanças impensáveis, até pouco tempo – uma brusca e radical ruptura do “jogo de compadres” (expressão do falecido Leonel Brizola), de décadas de trocas de comando no poder, do PSDB x PT e seus aliados.

No diário El Pais, da Espanha, em entrevista exclusiva, esta semana, o ex-presidente acusa a pancada em algumas respostas aos jornalistas Carla Jimenez e Xosé Hermida, na conversa sobre “o tsunami político que tomou o Brasil, destruiu lideranças tradicionais e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se inclui entre elas”.

O estado de espírito de FHC flutua. Afirma e se contradiz (como é próprio dos tucanos) em vários trechos da longa conversa. “Torço pelo Brasil, eu espero que acertem… Mas o que vou fazer? O que é que vamos fazer como oposição? O PT foi contra tudo no meu governo, foi contra aumento de salário de professor… Talvez seja antiquado. Mas a esta altura da vida para mim pessoalmente tanto faz como tanto fez, vou manter minha visão”, diz ao encerrar a entrevista. Tem mais, mas para concluir, repito apenas o irônico francês: “Amaldiçoado seja aquele que pensar mal destas coisas”.*

(*) Vitor Hugo Soares , no blog do Noblat

ESCRAVIDÃO CUBANA

Para cobrir o buraco deixado pelo fim dos aportes do Mais Médicos, o turismo de Cuba precisaria crescer 10% – uma meta impossível enquanto houver sanções dos EUA, segundo especialistas.

Aluguel de médicos, escravidão ou exportação de serviços?
Os norte-americanos foram os primeiros a comentar o afastamento diplomático entre Brasil e Cuba.

Em novo gesto de simpatia, a Casa Branca parabenizou Bolsonaro nesta sexta-feira (16) “por tomar posição contra o regime cubano por violar os direitos humanos de seu povo, incluindo médicos alugados no exterior em condições desumanas”.

Se o americano descreve a oferta de serviços médicos como “aluguel”, o novo governo brasileiro vai além e fala em “escravidão”, argumentando que o governo cubano ficaria com 75% dos mais de 3 mil dólares pago a cada médico por mês.

“Isso é trabalho escravo. Não poderia compactuar”, disse Bolsonaro.

Analistas internacionais estimam que a fatia recolhida pelo governo cubano em serviços prestados por seus médicos em 67 países das Américas, da África, da Ásia e da Europa varie entre metade e três quartos dos salários, dependendo do país (parte dos serviços oferecidos por Cuba é gratuita – ou seja, os médicos recebem direto do governo cubano, enquanto o país apoiado não precisa pagar nada – como em casos de desastres naturais e humanitários).
Mas, no termo técnico assinado entre o Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), órgão ligado à ONU que atua como intermediário no envio de recursos do programa Mais Médicos, não existem números oficiais sobre o percentual do salário que é de fato repassado para os médicos cubanos no Brasil.

Segundo o acordo, os médicos são funcionários do governo da ilha, que por sua vez presta serviços remunerados ao Brasil.

Mesmo com os descontos, a fatia de salário recebida pelos profissionais no Brasil é muito superior aos rendimentos dos que trabalham nos arredores de Havana: a renda mensal de um médico em Cuba é estimada entre 25 e 40 dólares, ou o equivalente a R$ 94 e R$ 150.

Totalitarismo e Saúde Universal
Para a ONG americana Cuban Archive, o modelo de exportação de serviços médicos de Cuba “só é possível em um governo totalitário”.

“Com o Estado como único empregador, os profissionais de saúde estão proibidos de deixar o país sem permissão. Quando são enviados para uma missão estrangeira, eles devem deixar suas famílias para trás como reféns para seu retorno”, aponta a instituição, que faz oposição ao governo socialista.

Já Cristian Morales, representante em Havana da Opas, defende publicamente a proposta, argumentando que ela “permite a Cuba receber recursos internacionais importantes para garantir o funcionamento de seu próprio sistema de saúde universal”.

Entrevistado em 2016 por um conjunto de pesquisadores de universidades do Brasil, da Alemanha e da Espanha, um médico cubano ficou com o meio termo.

“Em Cuba tudo é de graça, a população não tem que pagar por estudos, esportes e nem mesmo por serviços saúde. Para conseguir tudo isso, o dinheiro precisa vir de algum lugar, então estamos comprometidos com o povo dessa maneira, para manter as coisas como estão no nosso país”, afirmou.

“Mas, falando claramente, nós podemos ter esse compromisso de ajudar o nosso povo, mas também não é justo receber 30% (do salário) pelo resto de nossas vidas […] Eu trabalhei no Haiti e ganhava 20% […] As pessoas também tem que entender que precisamos viver, nós também temos nossos sonhos.”

‘Mobiliei toda a minha casa’
Se, no Brasil, a medicina é uma carreira de prestígio e seus profissionais podem ganhar salários bem mais altos que a média nacional, qual é o status social dos médicos em Cuba?

“Os médicos são profissionais altamente reconhecidos pela sociedade cubana”, responde o economista cubano Mauricio Parrondo. “Mas esse reconhecimento não está relacionado à sua renda por meio dos salários, que são insuficientes para cobrir necessidades essenciais, como acontece com os outros trabalhadores que recebem do Estado cubano. O alto prestígio tem a ver com a importância percebida pela população.”

O especialista diz que muitos dos profissionais que trabalham no exterior sob contratos estaduais acabam levando uma vida de “austeridade exagerada” para serem capazes de enviar recursos para familiares e melhorar o padrão de vida na ilha, “o que não seria possível com a renda de seus salários em Cuba”.

Em entrevista à BBC em 2013, ano de lançamento do programa, uma médica cubana ilustrou esta tese. “Não tinha absolutamente nada. Graças à missão, mobiliei toda minha casa.”

Paradoxo da saúde cubana
A importância da medicina na sociedade de Cuba retoma uma discussão conhecida como o “paradoxo da saúde cubana” e ilustrada frequentemente por um ditado popular da ilha: “Nós vivemos como pobres, mas morremos como ricos”.

É que, apesar do PIB modesto e do isolamento financeiro patrocinado pelos EUA, Cuba consegue manter uma expectativa de vida mais alta que a dos americanos (por volta de 80 anos), mesmo investindo menos de um décimo do que os americanos gastam com saúde. Segundo o Banco Mundial, Cuba investe 813 dólares por pessoa anualmente com serviços de saúde, enquanto os EUA gastam 9,4 mil dólares.

Mas a conta se inverte quando a avaliação leva em conta o percentual do PIB investido em saúde: Cuba investe 10,57% de sua riqueza no setor, valor muito superior ao dos americanos ou europeus como Alemanha e França.

Além do bem-estar da população, a prioridade no investimento também se justifica pela perspectiva diplomática da saúde como elemento de integração econômica e cultural entre Cuba e o resto do mundo, desde a Guerra Fria.

Ilustrada pela parceria que agora chega ao fim com o governo brasileiro, a “diplomacia médica” cubana garante a entrada de moedas fortes como o dólar, importantes para as reservas do país, além de poder de influência e legitimidade no exterior.

Nos últimos 55 anos, Cuba recebeu e treinou sem custos mais de 35 mil profissionais de saúde de 138 países. Segundo o ministério de Saúde Pública, a ilha realizou 600 mil missões de saúde pública em 164 países neste período, incluindo contribuições importantes na luta contra o vírus Ebola na Libéria, Serra Leoa e Guiné, contra a catarata na América Latina e no Caribe e contra a cólera no Haiti.

Em 1985, Cuba foi o primeiro país a desenvolver uma vacina efetiva contra a meningite B. Mais tarde, inovou novamente com uma vacina contra o câncer de pulmão.

Em 2015, se tornou a primeira nação do mundo a eliminar a transmissão materno-infantil de HIV e sífilis.

Hoje, 8.332 dos 16 mil médicos que atuam no Mais Médicos são cubanos. Enquanto o Brasil organiza uma força-tarefa para recrutar profissionais dispostos a substituí-los em regiões pobres e remotas do país e manter a qualidade do atendimento (aprovado por 95% dos pacientes, segundo pesquisa feita pela UFMG), Cuba se esforça para enfrentar mais um importante revés econômico em sua história recente – e encontrar outras fontes de renda para compensar o prejuízo do fim da lua de mel com o governo brasileiro.*

(*) Ricardo Senra, BBC

É VER PRA CRER

Se não mata, engorda

Corte ideológico do governo ajuda na reorganização da oposição

Um governo nítida e declaradamente de direita é uma novidade no Brasil do mais recente período democrático. Desde a retomada do poder civil, nenhum dos presidentes eleitos se apresentava com esse corte ideológico. Ao contrário, Fernando Henrique, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff são oriundos da esquerda. Fernando Col­lor, o que mais se aproximava de uma definição a ser entendida como de direita, não se apresentou assim à sociedade, que tampouco levou o debate para o campo ideológico.Os eleitos indiretamente pelo colégio eleitoral da transição, Tancredo Neves e José Sarney, in­dependentemente do histórico político, apresentavam-se no máximo como “de centro”. Essa questão, aliás, não tinha peso específico. Importante mesmo era que estávamos livres da ditadura; a expectativa era que o poder civil tocasse o país na estrita observância do estado de direito.

A introdução da dinâmica do “nós contra eles” vem alterar esse equilíbrio. Do acirramento das rivalidades viemos parar num governo de corte ideológico nítido, e a direita perdeu a vergonha de dizer seu nome, saiu do armário. Pode até assustar quem não estava acostumado, mas não é o fim do mundo, muito menos justifica certos temores cuja exacerbação militante denota simples falta de traquejo para lidar com a realidade. Isso na melhor hipótese. Na pior, recende a fantasias saudosistas de combate numa luta não vivida. Ainda bem que os menores de 40 não sabem o que foi aquilo.

Os maiores, que sabem, são irresponsáveis e inúteis ao pretender liderar no presente uma luta baseada em evocações do passado fazendo chamamentos à “resistência” e bobagens que tais. Melhor que resistir é organizar-se para ­atuar. Oposição? Nesse período nunca tivemos, a não ser o PT. Quando o partido vira situação, desarticula-se o contraditório. Os derrotados, escolhidos pelo eleitor para fazer oposição, não deram conta do recado. Fosse por temperamento, fosse por falta de treino ou intimidação decorrente da hegemonia de ação e pensamento patrocinada por Lula.

A eleição de Jair Bolsonaro, a derrocada do PSDB e a decisão de forças residentes na centro-­es­querda e na esquerda do cenário político de se livrarem do jugo petista abrem pela primeira vez espaço para que a oposição se reorganize em mol­des novos. Por serem novos, não há modelo a ser seguido. Aquele adotado no combate à ditadura obviamente está vencido. Será preciso recriar a fórmula, evidentemente adaptada aos tempos atuais. Aqui se incluem os partidos, claro, mas também seria de todo conveniente (para não dizer indispensável) que entidades daquilo que se convencionou chamar de sociedade civil, adormecidas e entorpecidas durante os governos do PT, começassem a se mexer para renascer. Não necessariamente restritas à dinâmica do “contra”, mas principalmente voltadas à retomada de um lugar relevante na interlocução pessoal.

A convivência com um governo de direita não mata e, se bem aproveitada para o bom exercício do antagonismo, quem sabe até engorda e faz crescer.*

(*) Dora Kramer – veja.com

E O POVO “Ó”…

Uma crise politica

A crise que pode afetar milhões de brasileiros com a saída imediata dos médicos cubanos deve ser atribuída, em primeiro lugar, ao governo de Cuba, que decidiu usar os carentes brasileiros para retaliar um governo de direita que venceu a eleição presidencial com críticas ao programa e a Cuba.

Ficou claro que o governo Bolsonaro iria exigir que os médicos cubanos fizessem o teste para revalidação do diploma, com o que Cuba não concorda. A exigência nem é uma decisão ideológica, mas as críticas ao que seria “trabalho escravo” dos médicos, sim, e com razão.

A forma de pagamento do trabalho, com o governo cubano ficando com a maior parte do salário, e a proibição de que as famílias dos médicos viajem junto, representam uma atitude de governo que não se coaduna com os hábitos e costumes de uma democracia, com uma ameaça implícita aos que deixaram suas famílias por lá.

A saída poderia ter sido anunciada com antecedência, para não deixar desamparados os milhões de brasileiros atendidos pelos médicos nos rincões do país. A solução, porém, é mais fácil do que parece.

No lugar dos cerca de 8 mil médicos cubanos que deixarão o país, basta convocar imediatamente os cerca de 8 mil médicos que se candidataram na mais recente seleção para o programa, para apenas 983 vagas oferecidas aos brasileiros.

O programa, na verdade, pode ser feito integralmente por médicos brasileiros, pois o fato é que o país não tem falta de médicos, mas o problema é a má distribuição deles pelo território nacional. Mais da metade está no eixo MG, RJ, SP, PR, SC E RS.

Segundo o médico Marco Lages, do hospital Miguel Couto no Rio, temos mais que o dobro da recomendação da Organização Mundial de Saúde, em vez de um mínimo de 1 médico para cada mil habitantes, temos 2,18.

O problema começa por um dos princípios do SUS, transferir a responsabilidade da gestão da saúde para cada município ou estado. Um médico que aceita proposta de uma prefeitura para trabalhar em outra cidade, larga tudo para se transferir para essa região, não tem garantias e pode se dar mal quando muda o prefeito ou acaba a verba. Lages diz que essa situação é comum.

Com a chegada do Mais Médicos, diversos desses brasileiros foram demitidos para a contratação de cubanos. A fonte do pagamento passou a ser o Governo Federal, os estados e municípios ficam sem esse gasto. Além disso, o Governo Federal tinha o interesse político de usar o programa cubano, que é uma das maiores fontes de recursos de Cuba, a exportação de mão de obra médica.

O médico Marco Lages diz que a alocação de médicos brasileiros poderia ser organizada com um Plano de Carreira de Estado que Bolsonaro prometeu na campanha presidencial. A formação desse médico cubano que se transformou em um produto de exportação tão ou mais importante que a cana-de- açúcar e o tabaco, é criticada pelo Conselho Federal de Medicina, que os vê como técnicos preparados para emergências, mas não com a formação completa, e por isso o Revalida deveria ser um filtro.

O médico Francisco Cardoso, perito previdenciário em São Paulo, escreveu um artigo no portal do Conselho Federal de Medicina no início do programa Mais Médicos contando a origem desses médicos cubanos, profissionais formados em “saúde básica”, que trabalham em áreas remotas, rurais e periferias, com base em experiências bastante antigas feitas na Alemanha e na antiga União Soviética. São, segundo ele, práticos de saúde, ou paramédicos como são chamados hoje em dia, e exerciam cuidados básicos junto às populações dessas regiões.

Lages relembra que não somos o único país continental com problemas de acesso à saúde no interior. Canadá e Austrália passam por isso também. E como eles resolveram? Com médicos estrangeiros, mas com uma diferença: todos são avaliados em 2 ou 3 fases antes de assumir o emprego no Yukon ou no Outback, ambientes tão inóspitos quanto a caatinga ou a selva amazônica.

Seria até possível usar paramédicos ou técnicos médicos  para uma ação de emergência em áreas carentes nos rincões brasileiros. Seria possível também fazer trabalhos sociais em regiões inóspitas, dentro do espírito de pagar o financiamento do FIES estimulado pelo governo, como está em estudos. Já sabemos que no momento existem pelo menos 8 mil médicos brasileiros querendo trabalho.*

(*) Merval Pereira, O Globo

FESTANÇA EM BANGU 8

Dia de Cabral soprar as velinhas

Dia 17 de novembro é dia de um aniversário que Sérgio Cabral gostaria de esquecer. Há exatamente dois anos, o ex-governador do Rio era preso na Operação Calicute. De lá para cá, Cabral conseguiu somar incríveis 183 anos de prisão e ser alvo em 26 ações penais.

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A PROPÓSITO

 Prato do dia para o Sérgio Cabral, na penitenciária Bangu 8: tem arroz, macarrão e farinha. Um majar dos deuses!

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