CANALHA JURAMENTADO

Si hay gobierno, soy a favor

Se tem alguém que entende de se adaptar ao mercado de trabalho, é o senador Renan Calheiros (MDB-AL). No Senado desde 1995, ele foi ministro de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), apostou em José Serra (PSDB) nas eleições de 2002, apoiou a adesão de seu partido ao governo depois da vitória de Lula (PT), defendeu o impeachment de Dilma Rousseff (PT) quando viu que o barco iria mesmo afundar, aderiu a Michel Temer (MDB), deixou o ex-presidente para cortejar novamente o PT a fim de não perder o apreço do eleitorado alagoano e ainda – ufa! – teve tempo para reatar com Temer depois da campanha. Agora – adivinhe só – se alinha a Bolsonaro e procura dar à luz uma versão de si mesmo que consiga se passar por conservadora nos costumes e liberal na economia.

Calheiros, aliás, é o pivô de uma nova divergência entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello e Dias Toffoli, presidente da corte. Não teve choro para Marco Aurélio, que, depois de ordenar que a votação para a presidência do Senado fosse feita de forma aberta, havia dito que um veto de Toffoli à sua decisão “só ocasionaria descrédito para a instituição”. O presidente do STF cassou nesta quarta (9) a liminar do colega e garantiu que a votação seja secreta. Mais cedo no mesmo dia, Toffoli já tinha rejeitado um pedido semelhante relativo à Câmara dos Deputados feito pelo deputado eleito Kim Kataguiri (DEM-SP).

Embora a justificativa para o voto aberto pareça razoável – impedir que saiam ilesos diante do seu eleitorado os senadores que votarem no camaleônico e multidenunciado Calheiros –, fato é que o tipo de votação depende de regimento interno da Casa. Foi o que explicou Toffoli na resposta ao pedido de Kataguiri: “Conquanto se possa abordar a necessidade de transparência da atuação do parlamentar frente a seus eleitores, de outro lado não se pode descurar da necessária independência de atuação do Poder Legislativo face aos demais Poderes, em especial pela relação de complementariedade dos trabalhos”.*

(*) Gazeta do Povo – Porto Alegre – RS