BRAZIL COM Z…

Amigos do pai, inimigos do filho

Getúlio Vargas flertou com os nazistas e se juntou aos Aliados, festejou a tomada de Paris por Hitler e cedeu bases militares aos americanos. Dizem que certa vez recebeu um político que se queixou de um adversário, e Getúlio lhe disse que tinha razão. Pouco depois, veio o adversário, e falou mal do primeiro. Getúlio lhe deu razão. Alzira, filha e secretária, reclamou: “Pai, um falou contra o outro e o sr. deu razão aos dois!” Getúlio: “Você tem razão”.

É possível administrar assim – mas Getúlio, uma figura histórica que não aprecio, era um mago da política, o que Bolsonaro ainda não mostrou ser. E o incessante tiroteio entre aliados pode atrapalhar sua gestão. Seu filho 02, Carlos, brigou com Bebianno, com Mourão (chegou a insinuar que pessoas próximas ao presidente queriam sua morte), e pôs no YouTube do pai um vídeo em que o escritor Olavo de Carvalho insultava militares com palavras chulas. Bolsonaro mandou retirar o vídeo de seu canal, Carlos o compartilhou. Bolsonaro fez leve advertência a Carvalho, dizendo que ele é um patriota, mas suas palavras “não contribuem” para ajudar o Governo. Nada falou, porém, sobre o uso de seu YouTube pelo filho 02. Os militares pediam algo bem leve, não conseguiram: algo como “o filho tem direito à opinião, que nem sempre reflete a do pai”. Bolsonaro se diz convencido de que a militância virtual do filho 02 foi essencial para elegê-lo, ponto final.

Mas, com tanto tiro, como chegar unidos à votação da Previdência?
Prato cheio

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Para quem gosta da fofocalhada política, as divergências entre militares e Olavo de Carvalho, este com apoio de Carlos 02, são um ótimo divertimento.  Carvalho disse que desde Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, os militares se limitam à voz empostada e a cabelos pintados. O vice Mourão sugeriu que Carvalho volte a redigir horóscopos, no que, afirma, o escritor é competente. Carvalho já sugeriu que Bolsonaro nomeie para o Ministério seus três filhos políticos. Carlos considera Carvalho o único responsável pela série de vitórias conservadoras em eleições latino-americanas.  E Carvalho responsabiliza os militares por entregar o país aos comunistas.

Este colunista tentou, sem êxito, imaginar um diálogo entre o ex-presidente Médici e seu ministro comunista Delfim Netto (sim, Delfim aparece nas listas de comunistas dos mais radicais), a respeito da entrega do país a comunistas de carteirinha como Tancredo Neves, José Sarney e outros líderes vermelhos.
A palavra de Tarso

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A sorte do Governo é que a oposição também não consegue se unir e fica amarrada à palavra de ordem “Lula livre”. Até podem atingir esse objetivo, mas esquecendo o de se opor ao Governo. Quando a oposição se manifesta, é de maneira estranha. Vejamos Tarso Genro, petistíssimo, ministro de Lula em três pastas diferentes, ex-governador, professor universitário: disse que o ex-presidente peruano Alan García, ao suicidar-se no momento em que era preso sob suspeita de corrupção, “deu exemplo de dignidade”.

Motivo: “Recusou a submissão às execuções sumárias pelos juízes treinados pela CIA para fulminar o Estado de Direito na América Latina.”

E Lula?

Estaria Tarso achando que Lula, ao manter-se vivo, não teve dignidade?
Ao trabalho

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De acordo com dirigentes de várias facções de caminhoneiros, está afastada a hipótese de greve da categoria. Óbvio: se conseguiram tudo o que quiseram sem precisar da greve, por que a fariam? Mas o problema virá: como as autoridades fiscalizarão o preço mínimo do frete, se o assunto é tratado entre contratador e contratado, sem testemunhas? E, se a alta do petróleo se mantiver, como se evitará, sem dilmismo, que o diesel suba?

 

A festa dos vazamentos

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O mérito é do repórter Pablo Fernandez, da BandNews FM: apurou um enorme esquema de venda de dados pessoais pela Internet. O caro leitor não deve sentir-se discriminado: há dados de autoridades, como por exemplo o presidente Jair Bolsonaro e o ministro Sérgio Moro. Quais as fontes de informação? Inúmeras: os dados vazam do INSS, de entidades diversas, do serviço público federal. Surgem telefones, celulares ou fixos, CPF, RG, endereços, informações bancárias, salário, ligações de parentesco. Já faz muitos anos, no centro de São Paulo, que há venda (livre, sem qualquer constrangimento) de CDs com listas de nomes e informações. Mas eram listas não muito acuradas. Hoje são listas de maior precisão.
Destino

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Quando recebemos um estranho bilhete de cobrança, partindo de nosso próprio endereço de e-mail, essas listas podem ser a fonte. Aqueles call-centers chatíssimos, talvez esteja aí sua alimentação. E não é caro: nos oito sistemas identificados pela BandNews, R$ 75 mensais compram muita coisa. É ilegal.
E daria cadeia, se houvesse investigação policial.*

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet

VAI MOFAR NO XILINDRÓ

TRF-4 pode interceptar Lula a caminho do céu

Ao injetar no drama criminal de Lula a perspectiva de migrar da cela de 15 m² para o regime semiaberto, antessala da prisão domiciliar, o STJ colocou o preso numa espécie de trilha para o céu. Mas criminalistas companheiros acreditam que Lula será devorado por um tribunal-antropófago, o TRF da 4ª Região, a caminho do inferno.

Acredita-se que o TRF-4 jogará água no chope que o STJ acaba de servir a Lula confirmando rapidamente a sentença de 12 anos e 11 meses que a juíza Gabriela Hardt lhe impôs em fevereiro. Nessa hipótese, a nova pena seria somada à do tríplex, que o STJ acaba de reduzir para 8 anos e dez meses. O castigo de Lula subiria para 21 anos e 9 meses.

Se já estiver no semiaberto ou arrastando uma tornozeleira em casa, Lula terá de voltar para o regime fechado. Mesmo descontando-se o tempo de prisão que já cumpriu, o ex-presidente petista só atingiria a marca de um sexto da pena no alvorecer de 2022.

Até lá, apenas o Supremo poderia salvá-lo, revertendo a jurisprudência que permite a prisão de condenados em segunda instância. Para desassossego de Lula, o TRF-4 não tem o hábito de segurar o relógio. No caso do tríplex, demorou seis meses e 12 dias para confirmar a sentença proferida pelo então juiz Sergio Moro.

Mantido o mesmo ritmo, não seria negligenciável a hipótese de que a sentença emitida pela doutora Gabriela em fevereiro seja ratificada na segunda instância até setembro, mês em que Lula terá direito de reivindicar a progressão de regime. Talvez por isso, a defesa do presidiário ainda não protocolou recurso sobre o sítio de Atibaia no TRF-4.

Para Lula, a fronteira entre o céu e o inferno passou a ser demarcada pela capacidade dos seus advogados de atrasar o relógio dos desembargadores do TRF-4, enquanto tentam a sorte no STF. Há outras seis ações penais voando. Mas encontram-se em estágio menos avançado.*

(*) Blog do Josias de Souza

 

VANGUARDA DO ATRASO

Cármen Lúcia barra liminar que permitia ‘cura gay’

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A ministra Cármen Lúcia, do STF, concedeu, nesta quarta-feira, 24, uma liminar cassando a decisão que permitia a prática de reversão sexual, também conhecida como “cura gay “. A decisão da ministra foi tomada no dia 9 de abril e publicada no Diário de Justiça nesta quarta-feira, 24, informou o Blog do Fausto. Cármen Lúcia defende que é papel do STF julgar esse tipo de alteração. Por isso, a decisão do juiz federal Waldemar Claudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal no Distrito Federal, que permitiu o tratamento no fim do ano passado, não seria válida.

Com isso, volta a valer o entendimento do Conselho Federal de Psicologia, que proíbe psicólogos a oferecerem serviços que proponham o tratamento da homossexualidade.*

(*) Coluna Estadão

SÓCIO DA PIZZARIA BRASIL

Marco Aurélio diz ter ‘dúvidas’ sobre condenação de Lula

O ministro Marco Aurélio Mello, do STF, disse ter “dúvidas” sobre a condenação do ex-presidente Lula no caso do triplex do Guarujá. Para ele, não está claro se houve apenas crime de corrupção ou este e mais o de lavagem de dinheiro. “Eu tenho dúvidas, não estou me manifestando porque eu nem vou julgar o caso, dúvidas quanto aos dois tipos, a corrupção e a lavagem. Teria havido um procedimento do presidente visando dar ao que ele ‘recebeu’ via corrupção a aparência de algo legítimo? A lavagem pressupõe (isso)”, comentou.

Segundo o Broadcast Político, o magistrado também reconheceu que um recurso do ex-presidente eventualmente chegará no Supremo, porém afirma que não participará do julgamento, já que não pertence à Segunda Turma da Corte, responsável por casos da Operação Lava Jato. O ex-presidente foi condenado no caso do triplex a 12 anos e 1 mês de prisão. Na terça-feira, 23, porém, o STJ reduziu sua pena para 8 anos e 10 meses.*

(*) Coluna Estadão

ALGUÉM COM SENSATEZ

‘Quando um não quer, dois não brigam’, diz Mourão sobre ataques de Carlos Bolsonaro

“CALMA” – “Eu sei de todas as angústias, as perguntas que vocês querem fazer, mas é o seguinte: calma, todo mundo emite sua opinião, tal e coisa, né? A minha mãe sempre dizia uma coisa: quando um não quer, dois não brigam, tá certo? Então é essa a minha linha de ação, vamos manter a calma” — declarou o vice-presidente a jornalistas na saída de seu gabinete no Palácio do Planalto, no início da noite desta terça-feira.

Ao ser indagado sobre se Bolsonaro não deveria repreender seu filho como fez na segunda-feira ao divulgar nota dizendo que declarações recentes do ideólogo de direita Olavo de Carvalho “não contribuem” para o governo, Mourão preferiu deixar a resposta a cargo do mandatário.

FILHO É FILHO — “O presidente é o presidente, né? Então ele tem a forma dele de pensar. Aguarda, né? Filho é filho, né? Minha filha estava aqui, pô  — disse.

Mourão, que participou pela manhã de uma reunião ministerial ao lado de Bolsonaro, disse não ter tido oportunidade de conversas sobre o assunto com o presidente, já que o encontro durou quase “a manhã inteira”.

Ainda na noite de terça-feira, o vice-presidente participou de um jantar na Embaixada da China, em Brasília, promovido pela Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban).*

(*) Gustavo Maia
O Globo

TAL PAI TAL FILHO…

Bolsonaro se recusa a enquadrar filho, e a crise com Mourão continua em aberto

A peça foi postada no canal do YouTube de Bolsonaro durante o fim de semana, só sendo retirada no fim de domingo. Carlos também a repostou em seu próprio canal. Os militares, especialmente os da ativa, viram nos fatos um recado à movimentação política fluida de Mourão, que a família de Bolsonaro vê como interessado em derrubar o presidente.

COM ACESSO – Segundo a Folha apurou com integrantes do governo, o presidente também manteve inalterado o acesso de Carlos às suas redes sociais. Bolsonaro costuma ter primazia sobre sua conta no Twitter, mas o Facebook e o YouTube são canais em que o filho reina quase sozinho.

Para oficiais generais que buscam apaziguar a mais explosiva crise interna do bolsonarismo no poder, a saída ideal seria o presidente declarar que o filho tem direito à sua opinião, mas que ela não reflete o que pensa o pai. Mas a nota lida pelo porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, apenas tratou de dizer que Olavo, elogiado como patriota, talvez atrapalhasse o governo com suas declarações.

Bolsonaro foi intransigente, lembrando o que já disse em público: que considera Carlos um dos principais responsáveis por sua eleição, ao comandar sua estratégia digital, e que o filho mereceria uma cadeira no ministério.

Mourão tem agido com cautela no episódio. Tratou de criticar Olavo, mas não Carlos, publicamente. No fim de semana, falou ao telefone sobre amenidades com o presidente e, na manhã desta terça-feira (dia 23), participou ao lado dele de reunião ministerial no Palácio do Planalto.

ALINHAR O DISCURSO – No encontro, ninguém tocou no episódio. Bolsonaro apenas pediu genericamente alinhamento de discurso entre as várias instâncias do governo, agindo mais como animador de torcida em um dia crucial para a área econômica, com a votação da admissibilidade da reforma da Previdência na Câmara.

O vice-presidente tem se movimentado como alguém em busca de protagonismo, liderando encontros com empresários, investidores e embaixadores. Foi aos EUA para um giro no qual participou do evento pelo qual foi criticado agora por Carlos, já comandou delegação negociando a crise venezuelana.

Tal visibilidade fez interlocutores frequentes de Mourão, como o general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), recomendar mais discrição ao vice. Heleno assim repetiu seu papel de intermediário já exercido durante a campanha eleitoral, em especial após a facada de 6 de setembro em Juiz de Fora que tirou Bolsonaro das atividades públicas.

VELHA DÍVIDA – A resistência de Bolsonaro a enquadrar o filho é vista como um assunto delicado de família pelos militares. Muitos consideram que o presidente tem uma dívida com o filho que remonta à campanha eleitoral municipal do Rio em 2000.

Ali, ele lançou o então adolescente Carlos, de 17 anos, para barrar a ida de votos no sobrenome Bolsonaro para sua ex-mulher, Rogéria, que buscava a reeleição na Câmara local. Além disso, como o presidente sempre lembra, foi Carlos quem coordenou sua presença em redes sociais de forma efetiva nos anos que antecederam a campanha de 2018.*

(*) Igor Gielow
Folha de São Paulo

UM CRIMINOSO TRIPLAMENTE CONDENADO

STJ reduz pena no caso tríplex e Lula pode deixar a prisão


A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu reduzir a pena do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no processo do tríplex do Guarujá (SP). A sentença foi reformada para 8 anos, 10 meses e 20 dias pelo colegiado por unanimidade no julgamento desta terça-feira (23). Com isso, Lula pode deixar a prisão em breve, tendo direito ao regime semiaberto ou à prisão domiciliar.

O ex-presidente petista havia sido condenado, em janeiro do ano passado, a 12 anos e 1 mês de prisão pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), a segunda instância da Lava Jato. E, desde 7 de abril de 2018, está preso na Superintendência da Polícia Federal (PF) do Paraná, em Curitiba.

Todos os ministros votaram pela redução da pena no julgamento do STJ. São eles, Félix Fischer (relator do caso), Jorge Mussi, Reynaldo Soares da Fonseca (presidente do colegiado) e Marcelo Navarro Ribeiro Dantas.

A Quinta Turma é formada por cinco ministros, mas Joel Ilan Paciornik se declarou impedido, uma vez que seu advogado pessoal, René Ariel Dotti, é advogado da Petrobras, que figura como assistente da acusação no processo.

Todas as outras argumentações da defesa do ex-presidente foram rejeitadas, como enviar o processo à Justiça Eleitoral; contestar a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar o caso; pedir a reavaliação de provas; e outras causas de nulidade do processo.

Como foram os votos
Considerado linha dura e rigoroso pelos colegas, Fischer fez uma leitura resumida das mais de 170 páginas do voto. Ele não abraçou as principais teses defendidas pela defesa do ex-presidente – como a falta de provas e a competência da Justiça Eleitoral para cuidar do caso. O ministro, no entanto, redimensionou a pena imposta ao ex-presidente ao analisar os fatos elencados no caso.

“Quanto ao crime de corrupção passiva, não verifico ilegalidade na valoração negativa das quatro circunstanciais iniciais, consideradas pelo TRF-4, todavia reduzo o patamar estipulado e exaspero em 9 meses cada uma das vetoriais”, disse Fischer.

Segundo a votar, Jorge Mussi acompanhou o relator na redução da pena de Lula e rechaçou as principais teses levantadas pela defesa do ex-presidente, destacando não ser necessária a identificação de um “ato de ofício” de Lula nos desvios praticados na Petrobras para condená-lo por crime de corrupção.

“Não se pode agravar a pena do agente sob a tese de que para outros acusados foi fixada essa ou aquela reprimenda. O que importa é o que se está a julgar, essa fixação não pode ser influenciado em base de elementos externos, principalmente na situação dos outros envolvidos”, ressaltou o ministro.

O presidente do colegiado, Reynaldo Soares da Fonseca, deu o terceiro voto a favor da redução da pena do petista. “Não estou julgando histórias pessoais, pessoas que tiveram em diversas situações condutas sérias, estou julgando apenas se houve a prática imputada pelo Ministério Público”, disse.

Benefício da progressão de pena
Com a redução da pena para 8 anos e 10 meses, Lula poderá sair da carceragem da Polícia Federal em breve porque sua pena progredirá para o regime semi-aberto.

Os advogados Ulisses Dálcol, especialista em direito criminal, e Francisco Monteiro Rocha Júnior, que é doutor em Direito pela UFPR e coordenador geral dos cursos de pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal da Academia Brasileira de Direito Constitucional, explicam que o ex-presidente terá direito à progressão assim que cumprir um sexto da pena.

Rocha Júnior reforça que a regra aplicada é de um sexto, já que Lula não foi condenado por crime hediondo – nesse caso, é exigido o cumprimento de dois quintos da pena antes do direito à progressão.

Dálcol também observa que o cumprimento de um sexto da pena para progressão de regime é a regra geral, na lei de execução penal, mas quem determina a mudança é o juiz de execução penal. Isso permitiria que Lula saísse da cadeia em setembro.

Uma interpretação paralela, no entanto, pode ser mais favorável ao ex-presidente. Alguns juristas argumentam que pode ser aplicado o instituto da “detração penal”, previsto no parágrafo 2º do artigo 387 do Código Penal. Esse dispositivo estabelece que o tempo já cumprido de prisão pode ser descontado da pena inicial.

Confirmada a pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias e descontada dela o tempo em que Lula já ficou preso, a pena cairia para 7 anos, 10 meses e 4 dias. Com isso, o ex-presidente poderia passar desde já ao regime semiaberto.

Porém, a possibilidade de Lula deixar a cadeia depende de outro julgamento. Em fevereiro deste ano, o ex-presidente foi condenado a 12 anos e 11 meses de prisão também pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso que envolve o sítio de Atibaia.

Se for condenado em segunda instância também nesse caso, ele deve ser mantido na superintendência da PF em Curitiba.

O que a defesa pedia
A estratégia da defesa do ex-presidente Lula no STJ baseou-se em três pilares: tentar anular todo o processo, tentar reduzir o tempo de condenação e conseguir uma absolvição por prescrição ou transferência para prisão domiciliar, ou tentar enviar a ação para a Justiça eleitoral.

A defesa pedia a absolvição do ex-presidente ou a anulação do processo e, em caso de negativa, solicitava o redimensionamento da pena de Lula, com a sua fixação no mínimo legal, no que foi bem sucedida.

Além da redução da pena, a maioria da Quinta Turma votou por diminuir o valor da multa imposta a Lula pelo TRF-4, de 280 dias-multa (cerca de R$ 1 milhão) para 175 dias-multa (R$ 633,5 mil). O dia-multa é o valor de cinco salários mínimos em 2014 (R$ 3.620), época do último fato criminoso apontado na acusação. Nesse ponto, Fonseca discordou e votou por impor multa de 41 dias-multa.

Por fim, o valor da reparação pelos danos causados pelos crimes também foi reduzido pela maioria para R$ 2,4 milhões – montante que, segundo a acusação, foi dado pela OAS em benefício de Lula –, e não mais os R$ 16 milhões calculados como prejuízo da Petrobras. Os ministros destacaram que eventual progressão de pena depende do pagamento da indenização pelo condenado.

Relembre o histórico do caso
O ex-presidente Lula foi condenado em pelo então juiz da 13ª vara federal de Curitiba, Sergio Moro, a nove anos e meio de prisão em regime fechado por corrupção e lavagem de dinheiro em julho de 2017. Moro entendeu que o tríplex no Guarujá foi dado a Lula como pagamento de propina pela empreiteira OAS, que também reformou o imóvel, totalizando cerca de R$ 2,4 milhões em vantagens indevidas. No mesmo processo, porém, Moro absolveu Lula das acusações pelos mesmos crimes em relação ao armazenamento de bens do acervo presidencial.

Em janeiro de 2018, o TRF-4 confirmou, por unanimidade, a condenação e aumentou o total das penas para 12 anos e um mês. A condenação por 3 a 0 tirou a perspectiva de que a defesa do ex-presidente pudesse atrasar o processo: sem direito a apresentar embargos infringentes, cabíveis quando a decisão não é unânime na segunda instância, a defesa só pôde apresentar embargos declaratórios, recurso quando há dúvida, omissão, contradição ou obscuridade na decisão, mas sem possibilidade de mudança do resultado.

Os embargos de declaração foram julgados no final de março pelo TRF-4, o que abriu a possibilidade de Lula ser preso, mas o ex-presidente estava protegido por um salvo-conduto do Supremo Tribunal Federal (STF), concedido liminarmente, que impedia sua prisão até que o tribunal decidisse sobre o pedido principal do habeas corpus em favor ex-presidente, em que a defesa pedia que a prisão só fosse decretada após o esgotamento de todos os recursos.

O plenário do STF rejeitou o habeas corpus no dia 4 de abril e, no dia seguinte, o então juiz Sergio Moro mandou cumprir a decisão do TRF-4 para que pena do ex-presidente começasse a ser cumprida.

Desde 7 de abril do ano passado, Lula está preso na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba. Com o encerramento do processo na segunda instância, a defesa do ex-presidente recorreu ao STJ por meio de um recurso especial e ao STF, por meio de recurso extraordinário.

Em novembro do ano passado, o ministro Félix Fischer, relator do recurso no STJ, já havia negado em decisão individual, o recurso do ex-presidente, uma vez que o tribunal não pode reavaliar provas e fatos, apenas questões de direito. A defesa recorreu da decisão por meio de um agravo instrumental, que foi julgado nesta terça-feira.*

(*) Brasília e Curitiba – Renan Barbosa e Fernanda Trisotto – Gazeta do Povo

PURO SURREALISMO

 FOGO NO PARQUINHO

Os caminhoneiros são os sovietes da reação. Steve Bannon prepara caminho para a eleição de Eduardo Bolsonaro. Eduardo Bolsonaro prepara caminho para a eleição de Steve Bannon. Carlos Bolsonaro ainda vai provar que a Terra é plana.

A confusão no governo é tamanha que qualquer uma dessas teorias (nem tão conspiratórias assim) tem fundamento e relação próxima com a verdade dos fatos. Se me jurassem eu acreditaria. Se me dissessem que a Dilma roubou a senha do Twitter do Bolsonaro, eu apostaria dinheiro nisso. Pois a verdade dos fatos é que a bagunça generalizada, com episódios do mais puro surrealismo, instalou-se no Planalto e lá começa a criar raízes.

Ninguém precisa se opor a um governo que se opõe a si mesmo. Os líderes da esquerda devem estar com medo de perder o emprego de oposição predatória e irresponsável. Repito: o governo se opõe a si mesmo e isso não é ironia nem exagero. É a descrição precisa do que tem acontecido dia após dia. Qualquer crítica aos críticos, qualquer agressão à imprensa, sinto dizer, peca por desonestidade. Quem montou os quadros do governo não foi a Miriam Leitão. Quem escolheu o vice-presidente não foi o Ricardo Noblat. Quem agride os militares não é a Madeleine Lacsko. Quem escolheu o Ricardo Velez Rodriguez, hoje tido como traidor, não fui eu.

Jair Bolsonaro rejeitou o modo tradicional de se montar ministérios e negociar influências, fez pose de independente e decidiu tudo a seu modo muito particular. Em tese, problema nenhum. Problema nenhum haveria se as escolhas fossem boas (algumas são) e se os melhores entre os escolhidos fossem protagonistas (poucos são).

Talvez o eleitor resmungue: “É cedo para criticar!” Não vejo da mesma forma, mas admitamos que sim, é cedo para criticar. Então avisem o muito ponderado Olavo de Carvalho, que tem criticado ministros e o vice-presidente com a fúria de profeta bíblico; expliquem direitinho aos filhinhas da Dona Armênia, pois eles criam, cultivam e repercutem intrigas palacianas como se estivéssemos em fim de feira – ou de governo; orientem o voluntarioso presidente, que interfere em política econômica e divulga ofensas ao vice que ele mesmo escolheu.

Tudo isso é muito mais sério do que parece. O fogo contra o governo tem origem no próprio governo, dilacerado entre miúdos poderes e mesquinhos personagens, todos disputando espaço e influência com uma falta de lealdade que envergonharia os chefões da máfia. Se há desgaste, se ministros já caíram, se funcionários já foram trocados, se a imprensa ganhou polêmicas e manchetes gratuitas para explorar – a culpa não é minha, não é sua, não é da Maria nem do José. É de quem foi eleito com mais de 50 milhões de votos para governar um país, porém se ocupa de crises familiares e intrigas filiais. Não torço contra o governo, nem faria diferença se torcesse. O governo torce contra si mesmo. Nisso é competente como poucos.*

(*) Gustavo Nogy, Gazeta do Povo