BOÇOLNÁRIOS

As palavras são implacáveis

No quintal dos Bolsonaros & Cia Ltda

“As ações são a primeira das tragédias humanas, sendo as palavras a segunda. As palavras talvez sejam as piores. Elas são implacáveis…” (Oscar Wilde)

O brilhante escritor irlandês sabia bem do que falava. Perseguido e condenado acerbamente por suas ações, legou para o futuro as palavras que o deixariam figurar entre os maiores autores de seu tempo.

Sabia pensar e sabia escrever. E sabia quais palavras usar e quando. Exatamente o contrário do que acontece em nosso país nos dias de hoje.

No quintal dos Bolsonaros & Cia Ltda, as palavras são usadas sem nenhuma correspondência com seu significado.

Vejam o que tuitou o ministro da Educação a respeito da prisão do sargento da FAB que transportava 39kg de cocaína no avião presidencial: “Tranquilizo os “guerreiros” do PT e de seus acepipes o responsável pelos 39 kg de cocaína: NADA tem a ver com o Governo Bolsonaro. Ele irá para a cadeia e ninguém de nosso lado defenderá o criminoso. Vocês continuam com a exclusividade de serem amigos de traficantes como as FARC”.

O crime cometido pelo sargento entrará para as calendas da História muito antes da aceitação, pela sociedade brasileira, da nomeação bolsonarista de um ministro para a pasta da Educação que não sabe o que quer dizer ‘acepipes’ e que usa seu cargo para julgar e condenar a seu bel prazer quem lhe dá na telha (fraquinha).

Ele ignora o peso das palavras.

Assim como o general Augusto Heleno que etiqueta como “falta de sorte” a maleta do sargento ter sido examinada no aeroporto em Sevilha. Falta de sorte? Ou falta de fiscalização eficiente no aeroporto militar de Brasília?

Da mesma forma que o capitão Bolsonaro assegura que o sargento e seus 39kgs de cocaína só foram apreendidos porque viajavam com ele, autoridade máxima do país! E não parou por aí. Disse que o militar se deu mal porque com ele vai ser assim: “creu, sifu, se deu mal”. Se não fosse o azar do rapaz a aduana sevilhana não o pegaria? Foi isso que ele quis dizer?

Jair Bolsonaro é o típico dono de quintal que arma a churrasqueira e senta com os companheiros para o papinho dominical sem compromisso com a realidade. Ali o objetivo é relaxar e se divertir. Ao saber que Angela Merkel se disse preocupada com as ações de seu governo, declarando que via “com grande preocupação, a questão da atuação do novo presidente brasileiro”, disse: “Os alemães têm a aprender muito conosco. O presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores que vieram para serem advertidos por outros países. Não, a situação aqui é de respeito para com o Brasil. Não aceitaremos tratamento como no passado de alguns casos de chefes de estado que estiveram aqui”.

Tantas seriam as boas respostas que o capitão poderia dar se conhecesse a história da Alemanha, se lesse pelo menos um livro por ano, se estudasse um pouco mais. Mas não. Ficou nessa resposta que não dignifica o Brasil, só nos desmerece.

Se ao menos isso ficasse só entre nós… Quem dera…

Mas a Internet está aí para isso mesmo e o mundo inteiro conheceu o que disse Angela Merkel e o que respondeu o capitão. Assim como conheceu a ‘falta de sorte’ do militar que viajava no avião presidencial.

Viver na era digital, como disse Fernando Gabeira, é muito perigoso.*

 

(*) Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa é professora e tradutora, no blog do Noblat

HOJE TEM MARMELADA?

Bolsonaro cuida do “circo”e deixa o “pão”com os profissionais
O projeto Bolsonaro, até aqui, caminha bem

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Jair Bolsonaro está em campanha. Esquecendo a promessa eleitoral de acabar com a reeleição, o presidente está empenhado em falar a seu eleitorado mais fiel, hoje em torno de 30%, segundo pesquisas, e chegar à disputa de 2022 com essa base. Pode ser esse desejo que explique a assinatura de decretos em série sobre o porte e a posse de armas — sete no total — atropelando o debate na sociedade e no Congresso. Trata-se de um tema caro ao eleitor bolsonarista e uma de suas principais promessas na eleição de 2018.

O presidente sempre mostrou gosto em tratar da chamada agenda de costumes, deixando os temas mais duros aos auxiliares — como o “Posto Ipiranga” Paulo Guedes. Ao assumir a vontade de seguir no poder, parece confirmar essa tendência. Cuida do “circo” e deixa o “pão”, que anda em falta, aos profissionais.

O projeto Bolsonaro, até aqui, caminha bem. Conseguiu do Congresso, por unanimidade, um crédito de R$ 248,9 bilhões que permitirá fechar as contas do ano sem pedaladas e chegar a 2020 com relativo conforto. A reforma da Previdência ganhou vida própria no Congresso. Não renderá o R$ 1 trilhão pedido por Paulo Guedes, mas será suficiente para abrir um horizonte de decisões de investimento privado a partir do primeiro trimestre do próximo ano. E ainda poderá contar com receitas extras de privatizações e leilões do pré-sal.

Se tudo correr dessa forma, Bolsonaro chega às eleições municipais de 2020, o primeiro passo para 2022, como cabo eleitoral importante. O problema dos planos, porém, são os imprevistos — e os planos dos outros. Correndo na mesma raia, Bolsonaro já tem como principal adversário o governador paulista João Doria. E não deve descartar a concorrência futura do ex-juiz Sérgio Moro, mesmo que hoje ele esteja acuado pelos diálogos vazados pelo site “The Intercept” e dependa do presidente para ter algum espaço de poder. Já a oposição ainda não tem plano. Apega-se ao grito de guerra “Lula livre”, sem um discurso para substituir a narrativa antipetista.

E há o cenário externo, que sempre pode atrapalhar. O risco de uma crise do petróleo devido aos conflitos entre Estados Unidos e Irã tem potencial para causar um terremoto na economia mundial. Sem falar nos efeitos econômicos das rusgas entre Donald Trump e a China. Faltam três anos e meio para as eleições presidenciais, e em política nada é linear. Mas Bolsonaro, até aqui, parece contar com um ingrediente fundamental na política — sorte.*

(*) Lydia Medeiros, no blog do Ricardo Noblat

 

PILANTRA JURAMENTADO

JUSTIÇA CONSEGUE INTIMAR GAROTINHO PARA COLOCAR TORNOZELEIRA ELETRÔNICA

Sete dias depois de decisão da 2ª Vara Criminal de Campos, ex-governador do Rio recebeu mandado ontem e tem até a próxima quinta-feira para usar o equipamento


O ex-governador Anthony Garotinho foi intimado ontem pela Justiça do Rio de Janeiro a colocar tornozeleira eletrônica. A notícia tinha sido divulgada na sexta-feira, mas a família Garotinho vinha dizendo que não tinha o que fazer enquanto não fosse citada judicialmente. O ex-governador está recorrendo da decisão.

A 2ª Vara Criminal de Campos dos Goytacazes determinou que Garotinho tem agora até a próxima quinta-feira para se apresentar na Divisão de Monitoramento Eletrônico do Sistema Penitenciário, no centro da cidade.

A decisão é referente ao processo onde ele e a ex-mulher, Rosinha Garotinho, se tornaram réus por supostos desvios na Prefeitura de Campos em um desdobramento da operação Chequinho.

Quem tem conversado com Garotinho ultimamente, nota ele cada vez mais preocupado em arrumar as próprias finanças. O ex-governador está terminando um livro sobre a política do Rio e segue como locutor de uma rádio carioca.

Seus filhos provavelmente serão candidatos ao Executivo no ano que vem. Clarissa para a prefeitura do Rio e Vladimir para a de Campos dos Goytacazes.*

(*) Thiago Prado – O Globo

MAIS UMA BOLA NAS COSTAS

Representação contra procuradores é arquivada por inexistência de “ilícitos funcionais”

O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) arquivou, nesta quinta-feira, representação recebida no órgão para instaurar sindicância para investigar os procuradores da Força-Tarefa da Lava-Jato sobre as conversas vazadas e divulgadas pelo site de notícias “The Intercept Brasil”.

A decisão de arquivamento foi do Corregedor Nacional do Ministério Público, Orlando Rochadel Moreira. Segundo ele, a veracidade dos elementos de prova não pode ser comprovadas, além de não ser possível verificar adulterações.

SEM ELEMENTOS – “Diante das informações dos Membros reclamados de que não reconhecem os diálogos utilizados e de que eles foram, possivelmente, adulterados, bem como de que o acesso ao conteúdo das mensagens se operou por meio de uma invasão aos dispositivos informáticos, a análise disciplinar recai exclusivamente sobre o material veiculado na imprensa. (…) Desde logo, calha deixar claro: ignorando-se a forma da sua obtenção, inexiste, sequer, certeza da existência das supostas mensagens veiculadas pelo sítio The Intercept”, escreveu o corregedor na decisão.

O corregedor também entende que não há elementos que justifiquem a abertura de reclamação disciplinar contra os procuradores, “considerando a ausência de qualquer elemento que indique materialidade de ilícito disciplinar imputado”.

“Ainda que as mensagens em tela fossem verdadeiras e houvessem sido captadas de forma lícita, não se verificaria nenhum ilícito funcional”.

AS MENSAGENS – O The Intercept Brasil publicou mensagens atribuídas a Dallagnol e a Sergio Moro , que indicariam que os dois combinaram atuações na Operação Lava-Jato. A reportagem cita ainda mensagens que poderiam sugerir dúvidas dos procuradores sobre as provas para pedir a condenação de Lula no caso do tríplex do Guarujá, poucos dias antes da apresentação da denúncia.

As conversas tornadas públicas sugerem também que os procuradores teriam discutido uma maneira de barrar a entrevista do ex-presidente autorizada por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), antes do primeiro turno da eleição.

Moro e Dallagnol negam irregularidades e denunciam invasão ilegal de suas comunicações.*

(*) O Globo

SÓ TIRO NO PÉ

Novos decretos de armas (redigidos pelo major-jurista) são inconstitucionais, diz MPF

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Charge do Jindelt (Arquivo Google)

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), órgão que integra o Ministério Público Federal (MPF), afirmou em nota técnica divulgada nesta quinta-feira que os três decretos sobre posse e porte de armas editados nessa semana pelo presidente Jair Bolsonaro não solucionam todas as ilegalidades previstas nas outras medidas, do mesmo tema, que foram revogadas.

O texto diz que há tantas ilegalidades que não é possível separar os trechos regulares dos irregulares. É a terceira nota técnica do órgão apontando inconstitucionalidades em decretos de Bolsonaro sobre o tema.

TUDO ILEGAL -“As ilegalidades se acumulam em praticamente todos os espaços regulados pelos decretos (posse, compra, registro, tiro esportivo, munições etc), de tal modo que resultaria impossível do ponto de vista da sistematicidade jurídica afastar apenas dispositivos específicos do ato regulamentar”, diz o texto, assinado pela procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat; pelo procurador federal dos Direitos do Cidadão adjunto, Marlon Alberto Weichert; e pelo coordenador da 7ª Câmara de Coordenação e Revisão, Domingos Sávio Dresch da Silveira.

Os procuradores dizem que trata-se de “mais um capítulo da tentativa do Poder Executivo de subverter o sentido” do Estatuto do Desarmamento e sugerem o “afastamento do ordenamento jurídico”, por ação do Legislativo ou do Judiciário, tanto dos novos decretos quanto dos antigos.

Eles afirmam que “a situação aproxima-se de um caos normativo e de uma grande insegurança jurídica”, ressaltando que o governo chegou a editar e revogar um decreto no mesmo dia.

COMPRA DE FUZIS – Um dos pontos questionados é o fato de que os decretos mantém a possibilidade de compras de fuzis. Os procuradores alertam que essa medida tem “potencial para expandir acentuadamente o poderio de organizações criminosas, sobretudo na hipótese de furto ou roubo dessas armas e sua posterior destinação para a criminalidade”

Outro ponto criticado pela nota técnica é a extensão da posse para toda a propriedade rural — ponto que também consta em um projeto aprovado na quarta-feira pelo Senado. “O preceito legal é claro ao definir que o registro autoriza a posse exclusivamente no interior da residência, domicílio ou dependências, ou seja, na área construída”, diz o texto.

PRIVILÉGIOS – A Procuradoria ainda afirma que os colecionadores, atiradores e caçadores, (conhecidos como CACs) recebem “tratamento privilegiado”, ao ter direito da comprar armas e munições “em volumes bastante irrazoáveis”.

“Sem qualquer justificativa específica, caçadores poderão manter até 30 armas (sendo 15 de uso permitido e 15 de uso restrito, o que inclui até armas não-portáteis). E, atiradores, até 60 armas (sendo 30 de uso permitido e 30 de uso restrito)”, diz a nota.*

(*) Daniel Gullino
O Globo

FOGO ALTO

A frigideira do governo nunca para de fritar

Durante os seis primeiros meses de governo, uma prática se tornou usual no Planalto. Se um auxiliar de Jair Bolsonaro começa a trombar com o presidente e, especialmente, com seu núcleo mais próximo, começa a ser torrado na frigideira do governo até não resistir e sair. Já passaram por ela ministros outrora poderosos como Gustavo Bebianno, o general Santos Cruz e Vélez Rodríguez. Ainda no cargo, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, é outro que já está na fase final de fritura.

O mais novo freguês da frigideira do governo é o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que começa a ter sua atuação criticada internamente, seja pelos problemas de articulação política, seja pela proximidade política com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Enquanto o Planalto adotar o método da fritura para lidar com o desempenho dos seus integrantes corre o risco de esturricar a própria imagem e passar longe dos resultados desejados.*

(*) Marcelo de Moraes

É LOUCO MAS NÃO RASGA DINHEIRO

No G-20, Bolsonaro adota discurso mais ‘light’ do que rascunho discutido por equipe
Presidente brasileiro trocou críticas à globalização por defesa do multilateralismo; menção à crise na Venezuela foi praticamente suprimida do discurso final

O tom adotado pelo presidente Jair Bolsonaro no discurso com líderes dos demais países que formam os Brics nesta sexta-feira, 28, na cúpula do G-20, no Japão, foi diferente do que o que chegou a ser ensaiado nos bastidores da delegação brasileira. Um dos rascunhos da fala do presidente brasileiro, ao qual o Estado teve acesso, continha crítica ao processo de globalização, defesa do nacionalismo e um pedido aos demais países para que apoiem a transição de governo na Venezuela. No evento, contudo, Bolsonaro optou por uma linha mais moderada. No lugar de referências à globalização, defendeu o sistema multilateral e a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC), em linha com o comunicado do grupo. As críticas foram direcionadas para o protecionismo no comércio.

Rússia, China e Índia terão reunião separada no G-20

No Japão, Bolsonaro adota discurso mais light

O discurso no evento dos Brics, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, foi o primeiro de Bolsonaro no Japão, onde participa do encontro do G-20. A ideia do presidente brasileiro é aproveitar a vitrine internacional da cúpula das 20 maiores economias do globo para modular a imagem que tem no exterior. Desde que assumiu a presidência, Bolsonaro se queixa de como foi retratado em veículos internacionais.

A prévia do discurso de Bolsonaro sugeria que o presidente abordasse que um dos desafios do momento é o de “dar face humana ao processo de globalização”. Um dos trechos que constavam no rascunho e foram retirados do discurso final afirmava: “Não queremos, porém, que a globalização destrua nossas identidades nacionais, mas que seja um fator a reforçá-las. Nossos povos têm em comum esse anseio e precisamos trabalhar para atendê-los”.

A defesa do nacionalismo, tradicionalmente bandeira do chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e do assessor de assuntos internacionais do Planalto, Filipe Martins, foi substituída pelo apoio enfático ao sistema multilateral de comércio.

Apoio ao multilateralismo comercial
“Em meu governo, o Brasil reafirmou seu apoio ao sistema multilateral de comércio, por ter certeza de que o dinamismo da economia mundial depende dele. Estamos plenamente dispostos a seguir colaborando para a reforma da OMC e para a construção de uma agenda negociadora equilibrada”, afirmou Bolsonaro no evento. Correntes protecionistas e práticas econômicas desleais foram citadas pelo presidente como fonte de tensões comerciais e risco para a estabilidade das regras internacionais de comércio.

Em tempos de guerra comercial entre China e Estados Unidos, e imposição de tarifas mútuas a produtos pelos dois lados, a crítica ao protecionismo respinga na política comercial de Donald Trump, aliado do brasileiro. Trump, por sinal, é conhecido por desprezar o sistema multilateral e fazer duras críticas à OMC.

O presidente brasileiro defendeu ainda a busca de soluções para o impasse envolvendo o Órgão de Apelação e o sistema de solução de controvérsias da OMC, também na mesma linha da declaração conjunta do grupo. O governo Trump bloqueou a nomeação de juízes para a Organização, o que faz o órgão trabalhar com o número mínimo de juízes exigidos para funcionar – três das sete vagas. Em dezembro, o bloqueio poderá paralisar o tribunal por completo. O Broadcast/Estadão apurou na semana passada que, para evitar que isso aconteça, os membros da Organização têm buscado um “plano B”, mas que devido à necessidade de um consenso, tem ocorrido uma “bateção de cabeças”.

Venezuela ficou de fora
A menção à crise na Venezuela foi praticamente suprimida do discurso final. A ideia de uma das versões elaboradas pela equipe do presidente era pedir que países do bloco que “mantêm importantes relações com a Venezuela” pudessem “contribuir decisivamente para o fim dessa grave crise” e pedia explicitamente apoio para a transição de poder no país vizinho. A mensagem sobre a Venezuela seria um claro recado a chineses e, especialmente, russos. Os dois países deram sustentação ao regime chavista e fortaleceram o discurso de Nicolás Maduro de que ele não está sozinho perante o apoio da comunidade internacional. Anos de parceria com Rússia e China também possibilitaram que o regime chavista montasse um arsenal militar, com blindados usados na repressão de manifestantes.

No discurso final, no entanto, Bolsonaro retirou a fala prevista sobre a Venezuela. O presidente brasileiro se limitou a falar sobre o tema brevemente após discurso do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e sem pedir a transição de regime defendida pela diplomacia brasileira. “Temos alguns problemas, sim, e espero contar com a participação de todos para solucionarmos pacificamente a questão da nossa Venezuela”, disse Bolsonaro.

Em janeiro, China e Rússia mostraram oposição ao reconhecimento de Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela, iniciativa encabeçada pelos Estados Unidos e seguida por cerca de 50 países, incluindo o Brasil. A pressão sobre Rússia e China para que deixem de apoiar Maduro é uma das frentes adotadas pelo governo americano contra o regime chavista.

Bolsonaro foi o primeiro a discursar na reunião dos líderes dos Brics. Em novembro, o Brasil vai sediar uma cúpula do grupo pela terceira vez, em Brasília.*

(*) Beatriz Bulla e Célia Froufe, Enviadas especiais a Osaka – Estadão

VANGUARDA DO ATRASO

Seis meses à direita

A linha-mestra do comportamento político de Bolsonaro é flertar com a morte

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Neste primeiro período de governo, Jair Bolsonaro afirmou que a cadeira do presidente era sua kryptonita, o metal que enfraquece o super-homem nas histórias em quadrinho. Mais tarde, ele disse que estavam querendo transformá-lo na rainha da Inglaterra. Ambas as afirmações convergem para sua ansiedade sobre o poder escapando entre os dedos. E remetem às primeiras discussões após sua vitória eleitoral.

Naquele momento, a esperança era de que os contrapesos democráticos contivessem Bolsonaro. Da mesma forma que se esperava, guardadas as proporções, que isso acontecesse com Trump nos Estados Unidos.

Na verdade, Bolsonaro foi contido pelo menos sete vezes pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal (STF). É verdade que muitas de suas propostas foram lançadas para mostrar ao eleitorado que cumpria as promessas de campanha. Mas foram propostas que desprezaram as necessárias negociações. Parece que Bolsonaro não se importa em perder ou conseguir pelo menos alguma eficácia. Ele quer mostrar que suas ideias morrem no Congresso ou são rejeitadas pelo Supremo.

São coisas tão elementares que qualquer assessoria jurídica desaconselharia. Por exemplo: tentar com uma nova medida provisória passar a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. Isso havia sido negado e ele reeditou a medida, algo que não pode ser feito na mesma legislatura.

Na verdade, não o estão tornando uma rainha da Inglaterra. Uma combinação de incompetência e arrogância o conduz a sucessivas derrotas.

Ultimamente, tenho observado uma linha-mestra no comportamento político de Bolsonaro. Ele flerta com a morte, como faziam, à sua maneira, os governos de extrema direita do passado. Seus projetos caminham nesta direção: liberação das armas, flexibilização das regras do trânsito, legalização de potentes agrotóxicos que devem dizimar nossos insetos e abelhas, sem falar nas consequências disso para a saúde humana.

Já escrevi sobre isso tudo, de forma isolada. Mas o conjunto da obra revela uma tendência mórbida, ainda que mascarada de um desejo de crescimento econômico rápido e sem barreiras.

O simples fato de usar a imagem da kryptonita o coloca dentro da mitologia do super-homem, algo que era muito comum na direita no limiar da Segunda Guerra.

Vi com certa apreensão que os próprios manifestantes pró Sergio Moro escolheram a imagem do super-homem para defini-lo, isso precisamente no momento em que sua condição humana estava em jogo com as revelações do The Intercept.

Pode ser que essas conexões sejam de alguém que assimilou mal a história do século 20 e está vendo fantasmas em cada esquina. No entanto, o desdobramento do projeto de Bolsonaro é preocupante, exceto pelo fato de que as salvaguardas estão em pleno funcionamento. Até o momento, nenhuma medida ilegal foi engolida pelo Congresso e pelo STF.

Tudo indica que Bolsonaro não se preocupa tanto com as derrotas porque mira a reeleição, continua em campanha, revelando aos seus eleitores como suas ideias são trituradas pelo aparato constitucional.

Atropelar o Congresso e o Supremo não parece ser a saída. Soaria como um retorno a 64, algo que os militares rejeitam: estamos num mundo diferente, a guerra fria não é o quadro geral em que nos movemos.

Bolsonaro, entretanto, não é tão saudosista como parece ser em alguns momentos. Ele sabe que surgiu uma nova extrema direita no mundo, principalmente no rastro do problema migratório. Ele conhece, por exemplo, como seu colega húngaro tenta reduzir as limitações que a democracia lhe obriga.

Em certos momentos, chegou a revelar sua admiração por Hugo Chávez, embora saibamos que é uma admiração pelo método, não pelos objetivos.

Bolsonaro, penso eu, está fadado a ter muitas dificuldades com o Congresso. Atender a todos os pedidos é fatal; rejeitá-los significa o isolamento.

Seu propósito inicial de superar o toma lá dá cá, de contornar os vícios do presidencialismo de coalizão, é interessante. Todos os candidatos que se pretendem inovadores batem nessa tecla. No meu entender, é uma visão limitada de quem também sonhava em acabar com isso, mas há um caminho estreito cujo êxito não é assegurado. Este caminho está apoiado em duas variáveis: um projeto de governo claro e conhecimento das regiões do Brasil e de suas bancadas.

Ao tornar o Congresso um parceiro na realização do programa, é possível reduzir o medo do parlamentar de perder a eleição.

Conhecer o Brasil não é difícil para um militar, apesar de Bolsonaro ter deixado a farda e o rodízio pelo País há muito tempo. O mais importante é conhecer os problemas regionais, sobretudo aqueles dos quais os parlamentares não podem fugir.

É muito difícil para os candidatos que se dizem inovadores obter a cooperação do Parlamento apenas com ideias novas e a esperança de apoio popular. É preciso mais. Era evidente que a reforma da Previdência seria alterada nos pontos em que o foi.

Era evidente que o decreto das armas demandava negociação. Se eleitores de Bolsonaro apoiavam a tese, parte da opinião pública era contrária.

Apesar da qualidade da nossa imprensa, ainda não houve um estudo em profundidade sobre a bancada do PSL, a base parlamentar de Bolsonaro. Dizer que são inexperientes é pouco. Todo mundo o é ao começar. Tenho dúvida se são vocacionados. Se não forem, não vão aprender nunca.

Ao longo destes meses, vi desfilar a mitologia da direita, o flerte com a morte, a ilusão do super-homem. Ainda agora, sempre os vejo juntos movendo os dedos como se apontassem uma arma. Para onde, José?

Uma frente pela democracia é sempre falada em momentos históricos complicados como este. Mas cada vez mais me convenço de que o objetivo é mais amplo: a extrema direita nos coloca diante da necessidade de uma frente pela vida, em toda a sua diversidade.

(*) FERNANDO GABEIRA é JORNALISTA – ESTADÃO