EMBAIXADA PARA O DUDU

Nova política: de pai para filho

Agitava as mãos e gritava: – É palhaçada! Hipocrisia!

Era contra qualquer tipo de proibição ao empreguismo de parentes no governo, Legislativo e Judiciário. Já havia inscrito mãe, filho e mulher na folha salarial de seu gabinete de deputado federal pelo Rio.

– Eu não estou preocupado porque meu filho não é um imbecil e minha mulher não é uma jumenta…

Seguiu com uma provocação ao plenário: – E as amantes? Vão ficar de fora da proposta? Todo mundo sabe que tá cheio de amante do Executivo aqui.

Com oito parentes pendurados na folha do Legislativo, Cavalcanti inspirava humoristas como Millôr Fernandes: “Mateus, primeiro, segundo e terceiro, os teus”. Nepote, por bastardia, do Barão de Pau Barbado, escravocrata sanguinário, Agamenon Mendes Pedreira, do GLOBO, lembrava: “O nepotismo começou cedo, quando Deus nomeou Seu filho para a Santíssima Trindade.”

Cavalcanti, como Bolsonaro, não estava nem aí: – Essa história de nepotismo é coisa para fracassados e derrotados que não souberam criar seus filhos.

No vácuo do Legislativo, o Supremo estabeleceu regras básicas antinepotismo (Súmula 13), mas deixou brechas. Em seguida, Lula proibiu por decreto (nº 7.203).

Ontem, na Câmara, Bolsonaro reafirmou sua predileção pelo nepotismo: – Por vezes, temos que tomar decisões que não agradam a todos, como a possibilidade de indicar para a Embaixada dos Estados Unidos um filho meu… Se está sendo tão criticado, é sinal de que é a pessoa adequada…

No plenário, o deputado Eduardo agradeceu. Lembrou que já devia ao pai o mandato: – Sou seu filho, indissociavelmente.

Deve ser isso que chamam de “nova política”. *

(*) José Casado – O Globo